Conto, O Pas das quimeras, 1862

O Pas das quimeras

(Conto fantstico)

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em O Futuro, 1862.

Arrependera-se
Cato de haver ido algumas vezes por mar quando podia ir por terra. O virtuoso
romano tinha razo. Os carinhos de Anfitrite so um tanto raivosos, e muitas
vezes funestos. Os feitos martimos dobram de valia por esta circunstncia, e 
tambm por esta circunstncia que se esquivam de navegar as almas pacatas, ou,
para falar mais decentemente, os espritos prudentes e seguros.

Mas, para
justificar o provrbio que diz: debaixo dos ps se levantam os trabalhos  a
via terrestre no  absolutamente mais segura que a via martima, e a histria
dos caminhos de ferro, pequena embora, conta j no poucos e tristes episdios.

Absorto nestas e
noutras reflexes estava o meu amigo Tito, poeta aos vinte anos, sem dinheiro e
sem bigode, sentado  mesa carunchosa do trabalho, onde ardia silenciosamente
uma vela.

Devo proceder ao
retrato fsico e moral do meu amigo Tito.

Tito no  nem
alto nem baixo, o que equivale a dizer que  de estatura mediana, a qual
estatura  aquela que se pode chamar francamente elegante na minha opinio.
Possuindo um semblante anglico, uns olhos meigos e profundos, o nariz
descendente legtimo e direto do de Alcibades, a boca graciosa, a fronte larga
como o verdadeiro trono do pensamento, Tito pode servir de modelo  pintura e
de objeto amado aos coraes de quinze e mesmo de vinte anos.

Como as medalhas,
e como todas as coisas deste mundo de compensaes, Tito tem um reverso. Oh!
triste coisa que  o reverso das medalhas! Podendo ser, do colo para cima,
modelo  pintura, Tito  uma lastimosa pessoa no que toca ao resto. Ps
prodigiosamente tortos, pernas zambras, tais so os contras que a pessoa do meu
amigo oferece a quem se extasia diante dos magnficos prs da cara e da cabea.
Parece que a natureza se dividira para dar a Tito o que tinha de melhor e o que
tinha de pior, e p-lo na miservel e desconsoladora condio do pavo, que se
enfeita e contempla radioso, mas cujo orgulho se abate e desfalece quando olha
para as pernas e para os ps.

No moral Tito
apresenta o mesmo aspecto duplo do fsico. No tem vcios, mas tem fraquezas de
carter que quebram, um tanto ou quanto, as virtudes que o enobrecem.  bom e
tem a virtude evanglica da caridade; sabe, como o divino Mestre, partir o po
da subsistncia e dar de comer ao faminto, com verdadeiro jbilo de conscincia
e de corao. No consta, alm disso, que jamais fizesse mal ao mais
impertinente bicho, ou ao mais insolente homem, duas coisas idnticas, nos
curtos dias da sua vida. Pelo contrrio, conta-se que a sua piedade e bons
instintos o levaram uma vez a ficar quase esmagado, procurando salvar da morte
uma galga que dormia na rua, e sobre a qual ia quase passando um carro. A
galga, salva por Tito, afeioou-se-lhe tanto que nunca mais o deixou;  hora em
que o vemos absorto em pensamentos vagos est ela estendida sobre a mesa a
contempl-lo grave e sisuda.

S h que
censurar em Tito as fraquezas de carter, e deve-se crer que elas so filhas
mesmo das suas virtudes. Tito vendia outrora as produes da sua musa, no por
meio de uma permuta legtima de livro e moeda, mas por um meio desonroso e nada
digno de um filho de Apolo. As vendas que fazia eram absolutas, isto ,
trocando por dinheiro os seus versos, o poeta perdia o direito da paternidade
sobre essas produes. S tinha um fregus; era um sujeito rico, manaco pela
fama de poeta, e que, sabendo da facilidade com que Tito rimava, apresentou-se
um dia no modesto albergue do poeta e entabulou a negociao por estes termos:

 Meu caro, venho
propor-lhe um negcio da China...

 Pode falar,
respondeu Tito.

 Ouvi dizer que
voc fazia versos...  verdade?

Tito conteve-se a
custo diante da familiaridade do tratamento, e respondeu:

  verdade.

 Muito bem.
Proponho-lhe o seguinte: compro-lhe por bom preo todos os seus versos, no os
feitos, mas os que fizer de hoje em diante, com a condio de que os hei de dar
 estampa como obra da minha lavra. No ponho outras condies ao negcio:
advirto-lhe, porm, que prefiro as odes e as poesias de sentimento. Quer?

Quando o sujeito
acabou de falar, Tito levantou-se e com um gesto mandou-o sair. O sujeito
pressentiu que, se no sasse logo, as coisas poderiam acabar mal. Preferiu tomar
o caminho da porta, dizendo entre dentes: Hs de procurar-me, deixa estar!

O meu poeta
esqueceu no dia seguinte a aventura da vspera, mas os dias passaram-se e as
necessidades urgentes apresentaram-se  porta com o olhar suplicante e as mos
ameaadoras. Ele no tinha recursos; depois de uma noite atribulada, lembrou-se
do sujeito, e tratou de procur-lo; disse-lhe quem era, e que estava disposto a
aceitar o negcio; o sujeito, rindo-se com um riso diablico, fez o primeiro
adiantamento, sob a condio de que o poeta lhe levaria no dia seguinte uma ode
aos Polacos. Tito passou a noite a arregimentar palavras sem idia, tal era seu
estado, e no dia seguinte levou a obra ao fregus, que a achou boa e dignou-se
apertar-lhe a mo.

Tal  a face
moral de Tito. A virtude de ser pagador em dia levava-o a mercar com os dons de
Deus; e ainda assim vemos ns que ele resistiu, e s foi vencido quando se
achou com a corda ao pescoo.

A mesa  qual
Tito estava encostado era um traste velho e de lavor antigo; herdara-a de uma
tia que lhe havia morrido fazia dez anos. Um tinteiro de osso, uma pena de ave,
algum papel, eis os instrumentos de trabalho de Tito. Duas cadeiras e uma cama
completavam a sua moblia. J falei na vela e na galga.

 hora em que Tito se engolfava em reflexes e fantasias era noite alta. A chuva caa com violncia, e
os relmpagos que de instante a instante rompiam o cu deixavam ver o horizonte
pejado de nuvens negras e tmidas. Tito nada via, porque estava com a cabea
encostada nos braos, e estes sobre a mesa; e  provvel que no ouvisse,
porque se entretinha em refletir nos perigos que oferecem os diferentes modos
de viajar.

Mas qual o motivo
destes pensamentos em que se engolfava o poeta?  isso que eu vou explicar 
legitima curiosidade dos leitores. Tito, como todos os homens de vinte anos,
poetas e no poetas, sentia-se afetado da doena do amor. Uns olhos pretos, um
porte senhoril, uma viso, uma criatura celestial, qualquer coisa por este
teor, havia infludo por tal modo no corao de Tito, que o pusera, pode-se
dizer,  beira da sepultura. O amor em Tito comeou por uma febre; esteve trs
dias de cama, e foi curado (da febre e no do amor) por uma velha da
vizinhana, que conhecia o segredo das plantas virtuosas, e que ps o meu poeta
de p, com o que adquiriu mais um ttulo  reputao de feiticeira, que os seus
milagrosos curativos lhe haviam granjeado.

Passado o perodo
agudo da doena, ficou-lhe este resto de amor, que, apesar da calma e da
placidez, nada perde da sua intensidade. Tito estava ardentemente apaixonado, e
desde ento comeou a defraudar o fregus das odes, subtraindo-lhe algumas
estrofes inflamadas, que dedicava ao objeto dos seus ntimos pensamentos, tal
qual como aquele Sr. dOfayel, dos amores leais e pudicos, com quem se pareceu,
no na sensaboria dos versos, mas no infortnio amoroso.

O amor
contrariado, quando no leva a um desdm sublime da parte do corao, leva 
tragdia ou  asneira. Era nesta alternativa que se debatia o esprito do meu
poeta. Depois de haver gasto em vo o latim das musas, aventurou uma declarao
oral  dama dos seus pensamentos. Esta ouviu-o com dureza dalma, e quando ele
acabou de falar disse-lhe que era melhor voltar  vida real, e deixar musas e
amores, para cuidar do alinho da prpria pessoa. No presuma o leitor que a
dama de quem lhe falo tinha a vida to desenvolta como a lngua. Era, pelo
contrrio, um modelo da mais serfica pureza e do mais perfeito recato de
costumes; recebera a educao austera de seu pai, antigo capito de milcias,
homem de incrvel boa f, que, neste sculo desabusado, ainda acreditava em
duas coisas: nos programas polticos e nas cebolas do Egito.

Desenganado de
uma vez nas suas pretenses, Tito no teve fora de nimo para varrer da
memria a filha do militar; e a resposta crua e desapiedada da moa estava-lhe
no corao como um punhal frio e penetrante. Tentou arranc-lo, mas a
lembrana, viva sempre, como ara de Vesta, trazia-lhe as fatais palavras ao
meio das suas horas mais alegres ou menos tristes da sua vida, como aviso de
que a sua satisfao no podia durar e que a tristeza era o fundo real dos seus
dias. Era assim que os egpcios mandavam pr um sarcfago no meio de um festim,
como lembrana de que a vida  transitria, e que s na sepultura existe a
grande e eterna verdade.

Quando, depois de
voltar a si, Tito conseguiu encadear duas idias e tirar delas uma
conseqncia, dois projetos se lhe apresentaram, qual mais prprio a
granjear-lhe a vilta de pusilnime; um conclua pela tragdia, outro pela
asneira; triste alternativa dos coraes no compreendidos! O primeiro desses
projetos era simplesmente deixar este mundo; o outro, limitava-se a uma viagem,
que o poeta faria por mar ou por terra, a fim de deixar por algum tempo a
capital. J o poeta abandonava o primeiro por ach-lo sanguinolento e
definitivo; o segundo parecia-lhe melhor, mais consentneo com a sua dignidade
e sobretudo com os seus instintos de conservao. Mas qual o meio de mudar de
stio? Tomaria por terra? tomaria por mar? Qualquer destes dois meios tinha
seus inconvenientes. Estava o poeta nestas averiguaes, quando ouviu que
batiam  porta trs pancadinhas. Quem seria? Quem poderia ir procurar o poeta
quela hora? Lembrou-se que tinha umas encomendas do homem das odes e foi abrir
a porta disposto a ouvir resignado a muito plausvel sarabanda que ele lhe
vinha naturalmente pregar. Mas,  pasmo! mal o poeta abriu a porta, eis que uma
slfide, uma criatura celestial, vaporosa, fantstica, trajando vestes alvas,
nem bem de pano, nem bem de nvoas, uma coisa entre as duas espcies, ps
algeros, rosto sereno e insinuante, olhos negros e cintilantes, cachos loiros
do mais leve e delicado cabelo, a carem-lhe graciosos pelas espduas nuas,
divinas, como as tuas,  Afrodite! eis que uma criatura assim invade o aposento
do poeta e, estendendo a mo, ordena-lhe que feche a porta e tome assento 
mesa.

Tito estava
assombrado. Maquinalmente voltou ao seu lugar sem tirar os olhos da viso. Esta
sentou-se defronte dele e comeou a brincar com a galga que dava mostras de no
usado contentamento. Passaram-se nisto dez minutos; depois do que a peregrina
singular criatura cravando os seus olhos nos do poeta, perguntou-lhe com uma
doura de voz nunca ouvida:

 Em que pensas,
poeta? Pranteias algum amor mal parado? Sofres com a injustia dos homens?
Di-te a desgraa alheia, ou  a prpria que te sombreia a fronte?

Esta indagao
era feita de um modo to insinuante que Tito, sem inquirir o motivo da
curiosidade, respondeu imediatamente:

 Penso na
injustia de Deus.

  contraditria
a expresso; Deus  a justia.

 No . Se fosse
teria repartido irmmente a ternura pelos coraes e no consentiria que um
ardesse inutilmente pelo outro. O fenmeno da simpatia devia ser sempre
recproco, de maneira que a mulher no pudesse olhar com frieza para o homem,
quando o homem levantasse olhos de amor para ela.

 No s tu quem
fala, poeta.  o teu amor-prprio ferido pela m paga do teu afeto. Mas de que
te servem as musas? Entra no santurio da poesia, engolfa-te no seio da
inspirao, esquecers a a dor da chaga que o mundo te abriu.

 Coitado de mim,
respondeu o poeta, que tenho a poesia fria, e apagada a inspirao!

 De que precisas
tu para dar vida  poesia e  inspirao?

 Preciso do que
me falta... e falta-me tudo.

 Tudo? s
exagerado. Tens o selo com que Deus te distinguiu dos outros homens e isso te
basta. Cismavas em deixar esta terra?

  verdade.

 Bem; venho a
propsito. Queres ir comigo?

 Para onde?

 Que importa?
Queres vir?

 Quero. Assim me
distrairei. Partiremos amanh.  por mar, ou por terra?

 Nem amanh, nem
por mar, nem por terra; mas hoje, e pelo ar.

Tito levantou-se
e recuou. A viso levantou-se tambm.

 Tens medo?
perguntou ela.

 Medo, no,
mas...

 Vamos. Faremos
uma deliciosa viagem.

 Vamos.

No sei se Tito
esperava um balo para a viagem area a que o convidava a inesperada visita;
mas, o que  certo,  que os seus olhos se arregalaram prodigiosamente quando
viu abrirem-se das espduas da viso duas longas e brancas asas que ela comeou
a agitar e das quais caa uma poeira de ouro.

 Vamos, disse a
viso.

Tito repetiu
maquinalmente:

 Vamos!

E ela tomou-o nos
braos, subiu com ele at o teto, que se rasgou, e passaram ambos, viso e
poeta. A tempestade tinha, como por encanto, cessado; estava o cu limpo,
transparente, luminoso, verdadeiramente celeste, enfim. As estrelas fulgiam com
a sua melhor luz, e um luar branco e potico caa sobre os telhados das casas e
sobre as flores e a relva dos campos.

Os dois subiram.

Durou a ascenso
algum tempo. Tito no podia pensar; ia atordoado, e subia sem saber para onde,
nem a razo por qu. Sentia que o vento agitava os cabelos loiros da viso, e
que eles lhe batiam docemente na face, do que resultava uma exalao celeste
que embriagava e adormecia. O ar estava puro e fresco. Tito, que se havia
distrado algum tempo da ocupao das musas no estudo das leis fsicas, contava
que, naquele subir continuado, breve chegariam a sentir os efeitos da rarefao
da atmosfera. Engano dele! Subiam sempre, e muito, mas a atmosfera
conservava-se sempre a mesma, e quanto mais ele subia melhor respirava.

Isto passou
rpido pela mente do poeta. Como disse, ele no pensava; ia subindo sem olhar
para a terra. E para que olharia para a terra? A viso no podia conduzi-lo
seno ao cu.

Em breve comeou
Tito a ver os planetas fronte por fronte. Era j sobre a madrugada. Vnus, mais
plida e loira que de costume, ofuscava as estrelas com o seu claro e com a
sua beleza. Tito teve um olhar de admirao para a deusa da manh. Mas subia,
subiam sempre. Os planetas passavam  ilharga do poeta, como se fossem corcis
desenfreados. Afinal penetraram em uma regio inteiramente diversa das que
haviam atravessado naquela assombrosa viagem. Tito sentiu expandir-se-lhe a
alma na nova atmosfera. Seria aquilo o cu? O poeta no ousava perguntar, e
mudo esperava o termo da viagem.  proporo que penetravam nessa regio ia-se
a alma do poeta rompendo em jbilo; da a algum tempo entravam em um planeta; a
fada deps o poeta e comearam a fazer o trajeto a p.

Caminhando, os
objetos, at ento vistos atravs de um nevoeiro, tomavam aspecto de coisas reais.
Tito pde ver ento que se achava em uma nova terra, a todos os respeitos
estranha: o primeiro aspecto vencia ao que oferece a potica Istambul ou a
potica Npoles. Mais entravam, porm, mais os objetos tomavam o aspecto da
realidade. Assim chegaram  grande praa onde estavam construdos os reais
paos. A habitao rgia era, por assim dizer, uma reunio de todas as ordens
arquitetnicas, sem excluir a chinesa, sendo de notar que esta ltima fazia no
mediana despesa na estrutura do palcio.

Tito quis sair da
nsia em que estava por saber em que pas acabava de entrar, e aventurou uma
pergunta  sua companheira.

 Estamos no pas
das Quimeras, respondeu ela.

 No pas das
Quimeras?

 Das Quimeras.
Pas para onde viaja trs quartas partes do gnero humano, mas que no se acha
consignado nas tbuas da cincia.

Tito contentou-se
com a explicao. Mas refletiu sobre o caso. Por que motivo iria parar ali? A
que era levado? Estava nisto quando a fada o advertiu de que eram chegados 
porta do palcio. No vestbulo havia uns vinte ou trinta soldados que fumavam
em grosso cachimbo de escuma do mar, e que se embriagavam com outros tantos
padixs, na contemplao dos novelos de fumo azul e branco que lhes saam da
boca.  entrada dos dois houve continncia militar. Subiram pela grande
escadaria, e foram ter aos andares superiores.

 Vamos falar aos
soberanos, disse a companheira do poeta. Atravessaram muitas salas e galerias.
Todas as paredes, como no poema de Dinis, eram forradas de papel prateado e lantejoulas.

Afinal penetraram
na grande sala. O gnio das bagatelas, de que fala Elpino, estava sentado em um
trono de casquinha, tendo de ornamento dois paves, um de cada lado. O prprio
soberano tinha por coifa um pavo vivo, atado pelos ps a uma espcie de
solidu, maior que os dos nossos padres, o qual por sua vez ficava firme na cabea
por meio de duas largas fitas amarelas, que vinham atar-se debaixo dos reais
queixos. Coifa idntica adornava a cabea dos gnios da corte, que correspondem
aos viscondes deste mundo e que cercavam o trono do brilhante rei. Todos
aqueles paves, de minuto a minuto, armavam-se, apavoneavam-se, e davam os
guinchos do costume.

Quando Tito
entrou na grande sala pela mo da viso, houve um murmrio entre os fidalgos
quimricos. A viso declarou que ia apresentar um filho da terra. Seguiu-se a
cerimnia da apresentao, que era uma enfiada de cortesias, passagens e outras
coisas quimricas, sem excluir a formalidade do beija-mo. No se pense que
Tito foi o nico a beijar a mo ao gnio soberano; todos os presentes fizeram o
mesmo, porque, segundo Tito ouviu depois, no se d naquele pas o ato mais
insignificante sem que esta formalidade seja preenchida.

Depois da
cerimnia da apresentao perguntou o soberano ao poeta que tratamento tinha na
terra, para dar-se-lhe cicerone correspondente.

 Eu, disse Tito,
tenho, se tanto, uma triste Merc.

 S isso? Pois
h de ter o desprazer de ser acompanhado pelo cicerone comum. Ns temos c a
Senhoria, a Excelncia, a Grandeza, e outras mais; mas, quanto  Merc, essa,
tendo habitado algum tempo este pas, tornou-se to pouco til que julguei
melhor despedi-la.

A este tempo a
Senhoria e a Excelncia, duas criaturas empertigadas, que se haviam aproximado
do poeta, voltaram-lhe as costas, encolhendo os ombros e deitando-lhe um olhar
de travs com a maior expresso de desdm e pouco caso.

Tito quis
perguntar  sua companheira o motivo deste ato daquelas duas quimricas pessoas;
mas a viso puxou-lhe pelo brao, e fez-lhe ver com um gesto que estava
desatendendo ao Gnio das Bagatelas, cujos sobrolhos se contraram, como dizem
os poetas antigos que se contraam os de Jpiter Tonante.

Neste momento
entrou um bando de mooilas frescas, lpidas, bonitas e loiras... oh! mas de um
loiro que se no conhece entre ns, os filhos da terra! Entraram elas a correr,
com a agilidade de andorinhas que voam; e depois de apertarem galhofeiramente a
mo aos gnios da corte foram ao Gnio soberano, diante de quem fizeram umas
dez ou doze mesuras.

Quem eram aquelas
raparigas? O meu poeta estava de boca aberta. Indagou da sua guia, e soube.
Eram as Utopias e as Quimeras que iam da terra, onde haviam passado a noite na
companhia de alguns homens e mulheres de todas as idades e condies.

As Utopias e as
Quimeras foram festejadas pelo soberano, que se dignou sorrir-lhes e bater-lhes
na face. Elas alegres e risonhas receberam os carinhos reais como coisa que
lhes era devida; e depois de dez ou doze mesuras, repetio das anteriores,
foram-se da sala, no sem abraarem ou beliscarem o meu poeta, que olhava
espantado para elas sem saber por que se tornara objeto de tanta jovialidade. O
seu espanto crescia de ponto quando ouvia a cada uma delas esta expresso muito
usada nos bailes de mscaras: Eu te conheo!

Depois que saram
todas, o Gnio fez um sinal, e toda a ateno concentrou-se no soberano, a ver
o que ia sair-lhe dos lbios. A expectativa foi burlada, porque o gracioso
soberano apenas com um gesto indicou ao cicerone comum o msero hspede que
daqui tinha ido. Seguiu-se a cerimnia da sada, que durou longos minutos, em
virtude das mesuras, cortesias e beija-mo do estilo.

Os trs, o poeta,
a fada condutora e o cicerone, passaram  sala da rainha. A real senhora era
uma pessoa digna de ateno a todos os respeitos; era imponente e graciosa;
trajava vestido de gaze e roupa da mesma fazenda, borzeguins de cetim alvo,
pedras finas de todas as espcies e cores, nos braos, no pescoo e na cabea;
na cara trazia posturas finssimas, e com tal arte, que parecia haver sido
corada pelo pincel da natureza; dos cabelos recendiam ativos cosmticos e
delicados leos.

Tito no
disfarou a impresso que lhe causava um todo assim. Voltou-se para a companheira
de viagem e perguntou como se chamava aquela deusa.

 No a v?
respondeu a fada; no v as trezentas raparigas que trabalham em torno dela?
Pois ento?  a Moda, cercada de suas trezentas belas, caprichosas filhas.

A estas palavras
Tito lembrou-se do Hissope. No duvidava j de que estava no pas das
Quimeras; mas, raciocinou ele, para que Dinis falasse de algumas destas coisas,
 preciso que c tivesse vindo e voltasse, como est averiguado. Portanto, no
devo recear de c ficar morando eternamente. Descansado por este lado, passou a
atentar para os trabalhos das companheiras da rainha; eram umas novas modas que
se estavam arranjando, para vir a este mundo substituir as antigas.

Houve
apresentao com o cerimonial do estilo. Tito estremeceu quando pousou os
lbios na mo fina e macia da soberana; esta no reparou, porque tinha na mo
esquerda um psiqu, onde se mirava de momento em momento.

Impetraram os
trs licena para continuar a visita do palcio e seguiram pelas galerias e
salas do alcar. Cada sala era ocupada por um grupo de pessoas, homens ou
mulheres, algumas vezes mulheres e homens, que se ocupavam nos diferentes
misteres de que estavam incumbidos pela lei do pas, ou por ordem arbitrria do
soberano. Tito percorria essas diversas salas com o olhar espantado,
estranhando o que via, aquelas ocupaes, aqueles costumes, aqueles caracteres.
Em uma das salas um grupo de cem pessoas ocupava-se em adelgaar uma massa
branca, leve e balofa. Naturalmente este lugar  a ucharia, pensou Tito; esto
preparando alguma iguaria singular para o almoo do rei. Indagou do cicerone se
havia acertado. O cicerone respondeu:

 No, senhor;
estes homens esto ocupados em preparar massa cerebral para um certo nmero de
homens de todas as classes: estadistas, poetas, namorados, etc.; serve tambm a
mulheres. Esta massa  especialmente para aqueles que, no seu planeta, vivem
com verdadeiras disposies do nosso pas, aos quais fazemos presente deste
elemento constitutivo.

  massa
quimrica?

 Da melhor que
se h visto at hoje.

 Pode ver-se?

O cicerone
sorriu; chamou o chefe da sala, a quem pediu um pouco de massa. Este foi com
prontido ao depsito e tirou uma poro que entregou a Tito. Mal o poeta a tomou
das mos do chefe desfez-se a massa, como se fora composta de fumo. Tito ficou
confuso; mas o chefe, batendo-lhe no ombro:

 V descansado,
disse; ns temos  mo matria-prima;  da nossa prpria atmosfera que nos
servimos; e a nossa atmosfera no se esgota.

Este chefe tinha
uma cara insinuante, mas, como todos os quimricos, era sujeito a abstraes,
de modo que Tito no pde arrancar-lhe mais uma palavra, porque ele, ao dizer
as ltimas, comeou a olhar para o ar e a contemplar o vo de uma mosca.

Este caso atraiu
os companheiros que se chegaram a ele e mergulharam-se todos na contemplao do
alado inseto.

Os trs
continuaram caminho.

Mais adiante era
uma sala onde muitos quimricos,  roda de mesas, discutiam os diferentes modos
de inspirar aos diplomatas e diretores deste nosso mundo os pretextos para
encher o tempo e apavorar os espritos com futilidades e espantalhos. Esses
homens tinham ares de finos e espertos. Havia ordem do soberano para no se
entrar naquela sala em horas de trabalho; uma guarda estava  porta. A menor
distrao daquele congresso seria considerada uma calamidade pblica.

Andou o meu poeta
de sala em sala, de galeria em galeria, aqui, visitando um museu, ali, um
trabalho ou um jogo; teve tempo de ver tudo, de tudo examinar, com ateno e
pelo mido. Ao passar pela grande galeria que dava para a praa, viu que o
povo, reunido embaixo das janelas, cercava uma forca. Era uma execuo que ia
ter lugar. Crime de morte? perguntou Tito, que tinha a nossa legislao na cabea.
No, responderam-lhe, crime de lesa-cortesia. Era um quimrico que havia
cometido o crime de no fazer a tempo e com graa uma continncia; este crime 
considerado naquele pas como a maior audcia possvel e imaginvel. O povo
quimrico contemplou a execuo como se assistisse a um espetculo de
saltimbancos, entre aplausos e gritos de prazer.

Entretanto era a
hora do almoo real.  mesa do gnio soberano s se sentavam o rei, a rainha,
dois ministros, um mdico e a encantadora fada que havia levado o meu poeta
quelas alturas. A fada, antes de sentar-se  mesa, implorou do rei a merc de
admitir Tito ao almoo; a resposta foi afirmativa; Tito tomou assento. O almoo
foi o mais sucinto e rpido que  possvel imaginar. Durou alguns segundos,
depois do que todos se levantaram, e abriu-se mesa para o jogo das reais
pessoas; Tito foi assistir ao jogo; em roda da sala havia cadeiras, onde
estavam sentadas as Utopias e as Quimeras; s costas dessas cadeiras
empertigavam-se os fidalgos quimricos, com os seus paves e as suas vestiduras
de escarlate. Tito aproveitou a ocasio para saber como  que o conheciam
aquelas assanhadas raparigas. Encostou-se a uma cadeira e indagou da Utopia que
se achava nesse lugar. Esta impetrou licena, e depois das formalidades do
costume, retirou-se a uma das salas com o poeta, e a perguntou-lhe:

 Pois deveras
no sabes quem somos? No nos conheces?

 No as conheo,
isto , conheo-as agora, e isso d-me verdadeiro pesar, porque quisera t-las
conhecido h mais tempo.

 Oh! sempre
poeta!

  que deveras
so de uma gentileza sem rival. Mas onde  que me viram?

 Em tua prpria
casa.

 Oh!

 No te lembras?
 noite, cansado das lutas do dia, recolhes-te ao aposento, e a, abrindo velas
ao pensamento, deixas-te ir por um mar sereno e calmo. Nessa viagem
acompanham-te algumas raparigas... somos ns, as Utopias, ns, as Quimeras.

Tito compreendeu
afinal uma coisa que se lhe estava a dizer havia tanto tempo. Sorriu-se, e cravando
os seus belos e namorados olhos nos da Utopia, que tinha diante de si, disse:

 Ah! sois vs, 
verdade! Consoladora companhia que me distrai de todas as misrias e pesares. 
no seio de vs que eu enxugo as minhas lgrimas. Ainda bem! Conforta-me ver-vos
a todas de face e embaixo de forma palpvel.

 E queres saber,
tornou a Utopia, quem nos leva a todas para tua companhia? Olha, v.

O poeta voltou a
cabea e viu a peregrina viso, sua companheira de viagem.

 Ah!  ela!
disse o poeta.

  verdade.  a
loira Fantasia, a companheira desvelada dos que pensam e dos que sentem.

A Fantasia e a
Utopia entrelaaram-se as mos e olhavam para Tito. Este, como que enlevado,
olhava para ambas. Durou isto alguns segundos; o poeta quis fazer algumas perguntas,
mas quando ia falar reparou que as duas se haviam tornado mais delgadas e
vaporosas. Articulou alguma coisa; porm, vendo que elas iam ficando cada vez
mais transparentes, e distinguindo-lhes j pouco as feies, soltou estas
palavras:  Ento! que  isto? por que se desfazem assim?  Mais e mais as
sombras desapareciam, o poeta correu  sala do jogo; espetculo idntico o
esperava; era pavoroso; todas as figuras se desfaziam como se fossem feitas de
nvoa. Atnito e palpitante, Tito percorreu algumas galerias e afinal saiu 
praa; todos os objetos estavam sofrendo a mesma transformao. Dentro de pouco
Tito sentiu que lhe faltava apoio aos ps e viu que estava solto no espao.

Nesta situao
soltou um grito de dor. Fechou os olhos e deixou-se ir como se tivesse de
encontrar por termo de viagem a morte.

Era na verdade o
mais provvel. Passados alguns segundos, Tito abriu os olhos e viu que caa
perpendicularmente sobre um ponto negro que lhe parecia do tamanho de um ovo. O
corpo rasgava como raio o espao. O ponto negro cresceu, cresceu, e cresceu at
fazer-se do tamanho de uma esfera. A queda do poeta tinha alguma coisa de
diablica; ele soltava de vez em quando um gemido; o ar, batendo-lhe nos olhos,
obrigava-o a fech-los de instante a instante. Afinal, o ponto negro que havia
crescido, continuava a crescer, at aparecer ao poeta com o aspecto da terra. 
a terra! disse Tito consigo.

Creio que no
haver expresso humana para mostrar a alegria que sentiu aquela alma, perdida
no espao, quando reconheceu que se aproximava do planeta natal. Curta foi a
alegria. Tito pensou, e pensou bem, que naquela velocidade quando tocasse em
terra seria para nunca mais levantar. Teve um calafrio: viu a morte diante de
si, e encomendou a alma a Deus. Assim foi, foi, ou antes, veio, veio, at que 
milagre dos milagres!  caiu sobre uma praia, de p, firme como se no houvesse
dado aquele infernal salto.

A primeira
impresso, quando se viu em terra, foi de satisfao; depois tratou de ver em
que regio do planeta se achava; podia ter cado na Sibria ou na China;
verificou que se achava a dois passos de casa. Apressou-se o poeta a voltar aos
seus pacficos lares.

A vela estava
gasta; a galga, estendida sob a mesa, tinha os olhos fitos na porta. Tito
entrou e atirou-se sobre a cama, onde adormeceu, refletindo no que lhe acabava
de acontecer.

Desde ento Tito
possui um olhar de lince, e diz,  primeira vista, se um homem traz na cabea
miolos ou massa quimrica. Devo declarar que poucos encontra que no faam
proviso desta ltima espcie. Diz ele, e tenho razes para crer, que eu entro
no nmero das pouqussimas excees. Em que pese aos meus desafeioados, no
posso retirar a minha confiana de um homem que acaba de fazer to pasmosa viagem,
e que pde olhar de face o trono cintilante do rei das Bagatelas.
