Conto, O rei dos caiporas, 1870

O rei dos caiporas

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1870.

Os acontecimentos humanos so
regidos por um destino cego e caprichoso? H estrelas propcias e estrelas
funestas? Tem fundamento a crena popular de que certas criaturas so felizes
porque choraram no ventre materno, e outras desgraadas porque no choraram nem
riram?

Questo  esta que no me atrevo a
deslindar. A filosofia diz que os homens dependem de si; o vulgo aponta mil
casos em que todos os esforos de um homem vo esbarrar diante de uma fora
invisvel que o no deixa dar um passo adiante. A filosofia  uma boa senhora,
e o vulgo  um sujeito prtico; seria parcialidade inclinar-me a qualquer
deles. Atento-me a ambos.

O que vou contar alude a esta
questo de fatalidade e destino. O vulgo inventou uma palavra para indicar a
fatalidade de um homem; chama-lhe Caiporismo. Os dicionrios ainda no trazem o
termo, mas ele corre j pelas salas e ruas e adquiriu direito de cidade.

Joo das Mercs era o tipo do
homem caipora. O destino com todas as suas legies de auxiliares tinha tomado a
pessoa de Joo das Mercs por alvo de seus tiros. Joo das Mercs se casse de
costas tinha toda a certeza de quebrar o nariz.

Choveram-lhe desde o bero as
contrariedades. Entrou no mundo com o p esquerdo.  mister ler esta expresso
com a sua significao literal e real. A me de Joo das Mercs no resistiu
aos trabalhos cirrgicos e faleceu horas depois de vir  luz o filho.

Foi-se buscar  pressa uma ama.
Encontrou-se ao cabo de algumas horas uma preta que alimentou o pequeno durante
cinco dias, e morreu de erisipela em um joelho. A segunda ama era uma mulher
livre que tinha a mania de jogar na loteria, e que ao fim de um ms tirou a
sorte grande: saiu da casa para ir abrir uma loja de costuras. A terceira
entrou a amar o irmo mais velho do pequeno, com violncia tal, que o pai
julgou acertado mand-la embora. Veio quarta ama que era dorminhoca e deixava o
pequeno berrar toda a santa noite; a quinta ama era respondona; a sexta dividia
os afetos entre o menino e um permanente; a stima foi aturada at o fim do
tempo da amamentao, a despeito de uma voz de soprano que irritava os nervos
do dono da casa, cantando modinhas do Norte todo o santssimo dia.

Parece que esta variedade de leite
e de amas influiu poderosamente em Joo das Mercs. Logo nos primeiros anos
verificou-se nele uma tendncia pronunciada para o sono, influxo da quarta ama.
Aos cinco anos nada o alegrava mais que ver passar a tropa na rua, gosto que
lhe ficou naturalmente do leite que bebeu  namorada do permanente. Aos sete
anos cantava sofrivelmente, aos oito teve uma erisipela, aos doze furtou ao pai
cinco mil-ris para comprar um quarto de loteria; aos quinze comeou a namorar
uma prima e aos dezesseis foi posto fora de casa por seus atrevimentos.

Aqui temos ns Joo das Mercs na
rua, com dezesseis anos, sem vintm na algibeira, nem pouso certo. Felizmente a
prima que ele namorava ainda tinha me e pai, que eram muito amigos de Joo das
Mercs e haviam at brigado com o pai dele a propsito de umas palmatoadas que
este aplicara no filho. Joo encaminhou-se para l.

 Meu pai deitou-me fora de casa,
disse ele a D. Anglica; venho ver se me do pouso e mesa, porque no tenho
outro recurso.

 Fica Joo, respondeu a senhora
dona Anglica; fizeste bem em te lembrares que ainda tens uma tia; aqui no te
h de faltar nada, ao menos enquanto eu e o Gaspar vivermos.

Marianinha apareceu na sala e
soube das desgraas do jovem primo. Ao mesmo tempo teve notcia de que ele ia
morar l. Marianinha, que era o tipo da inocncia, bateu palmas e apertou a mo
do primo, com uma efuso tal que no escapou  perspiccia da senhora dona
Anglica.

D. Anglica tinha muitas razes
para patrocinar os amores da filha e do sobrinho. Bem sabia ela que Joo das
Mercs no tinha herana nem emprego; mas em compensao Marianinha tinha uma perna mais curta que a outra. Arranjado o rapaz, bem se lhe
podia dar a pequena e tudo ficava em casa.

Gaspar aprovou todas as decises
da mulher, com tanta maior benevolncia, quanto que, se as no aprovasse, seria
a mesma coisa. Durante vinte anos de casamento, no constava que Gaspar tivesse
jamais iniciado alguma coisa em casa, nem sequer desaprovado a mulher. D.
Anglica teve sempre o comando do exrcito domstico, e devo acrescentar com a
fidelidade de um romancista sincero que D. Anglica exercia esse comando com
uma severidade digna de um general.

A boa velha era caprichosa; o
marido era o tipo da obedincia. Um dia acordou D. Anglica com a idia de que
o esposo devia usar suas. Gaspar, que trazia a barba toda, desde que ela
achou que era a nica moda respeitvel, ia ao barbeiro e punha abaixo metade do
plo. Dois meses depois, Anglica adotava o sistema dos bigodes, por se ter
namorado de um retrato de Napoleo III. O marido voltava para casa com uma
faixa de soldado francs. Suspeitava-se que o corte das calas inexplicveis de
Gaspar era produo de D. Anglica.

Aqui temos, em duas palavras, a
nova famlia de Joo das Mercs. Sabendo com que amor o tratavam, o nosso Joo
imaginou que ia levar uma vida regalada. Infelizmente foi iluso que durou
pouco. D. Anglica disse um dia  mesa que era preciso arranjar algum emprego
para o sobrinho. Gaspar no se fez esperar. Foi dali a um cavalheiro com que
andara na escola e que ocupava ento o lugar de ministro da Guerra. Pediu-lhe
um emprego. Gaspar foi notvel durante toda a sua vida pelo aferro com que
sempre acompanhara o ministrio atual. Obteve o emprego.

Joo das Mercs obedeceu 
intimao da sua tia e foi ocupar o lugar no Arsenal de Guerra, tendo obtido
antes consentimento do pai.

Marianinha amava o primo, com toda
a fora de seus quinze anos. Era uma rapariga assaz bonita, assaz faceira,
dotada de um excelente corao. Joo das Mercs, que era estouvado e mal
educado, no deixava de ter igualmente um corao digno de apreo. Amavam-se
estas duas criaturas com o aferro de um primeiro amor. D. Anglica alimentava
esta chama que, segundo ela, devia ser legitimada na igreja.

Joo das Mercs tambm nutria
essas esperanas; e tratava de as comunicar  prima.

 Quando formos casados, dizia
ele, havemos de ser felizes.

 Casados?

 Sim.

 Quando h de ser?

 Um dia, quando eu tiver mais
idade.

 Ah! se fosse j!...

Gaspar ouviu um dia esta conversa,
e no se pde ter de furor.

 Casar! exclamou ele; pois vocs
j falam em casar? Onde  que se viu isto? Que diria tua me, quando souber que
j a minha filha fala em casamento? E tu, meu pirralho, que idias andas
metendo na cabea de tua prima? Ora esperem!

Marianinha tremia; Joo murmurava
uma resposta ao tio, quando este chegando-se  porta gritou para dentro:

 Oh! senhora dona Anglica!

 Que temos? gritou de dentro a
esposa de Gaspar.

 Queira vir ate c, respondeu o
marido com voz macia.

 No me faltava mais nada! venha
c voc.

Gaspar fez um gesto de ameaa aos
pequenos e foi ter com a mulher a que exps o que acabava de ouvir.

 E que tem voc com isso?
disse-lhe a mulher. Se os pequenos gostam um do outro, fazem muito bem; e eu
at estimo isso, porque j andava com idias de os unir. Voc veio atrapalhar
tudo; ora vai, vai tranqilizar os pequenos.

Gaspar engoliu dificilmente a
plula. Atravessou o corredor como se passasse pelas forcas caudinas; e voltou
 sala onde os namorados tremiam pelo desfecho da cena.

 O amor, meus filhos, disse ele,
 uma coisa santa, se vocs se amam com seriedade, sou o primeiro a aprovar
esse sentimento que nos eleva aos nossos prprios olhos; o que eu combato, e
que todos os bons pais devem combater,  o namoro sem fim, o passatempo indigno
de jovens bem formados. Quando eu e a respeitvel D. Anglica (aqui levantou
muito a voz) nos amamos foi...

 Deixe-se de estar contando essas
coisas aos pequenos, clamou de dentro a senhora dona Anglica.

 Foi seriamente, continuou Gaspar
em voz baixa.

Tudo favorecia os amores de Joo
das Mercs; mas ele no contava com o destino.

Andr das Mercs, pai do nosso
Joo, arrependeu-se um dia de ter posto o filho fora de casa, e foi ter com a
irm para obter a volta de Joo das Mercs. D. Anglica ops-se vivamente 
sada do sobrinho. Disse francamente ao irmo que o seu projeto era insensato;
que, j que tinha praticado um erro, devia agentar com todas as conseqncias
dele.

Andr era to esturrado como a
irm; respondeu-lhe rispidamente; ela insistiu; insistiu; e depois de uma longa
discusso em que ambos mostraram toda a solidez da respectiva lngua, saiu
Andr disposto a proceder violentamente.

Em caminho refletiu que no era
conveniente dar um escndalo, e que podia alcanar tudo por bons modos.

 Talvez ela hoje estivesse de mau
humor, pensou ele.

Encontrou o cunhado e exps-lhe a
questo.

 Meu amigo, disse-lhe Gaspar, eu
aprovo o procedimento de minha mulher, sem deixar de aprovar as suas louvveis
intenes...

 Louvveis, tem razo, acudiu
Andr; o que eu quero  receber meu filho em casa. Assiste-me o direito...

 No contesto.

 A mana est teimosa; mas se voc
intervier, pode ser que eu consiga alguma coisa...

 Acha ento que eu...

 Sem dvida, venha comigo.

 Vamos. Minha mulher atende muito
ao que eu digo. Com duas palavras minhas estou que arranjarei tudo. O caso 
que o senhor no estrague tudo com as suas insistncias... Deixe-me falar s.

 Estou por tudo; eu no desejo
brigar com ela.

 Est visto. O que se quer 
fazer-lhe ouvir a razo. Sabe o que so senhoras; caprichosas, intolerantes;
mas deixe-me, eu farei tudo... Espere-me aqui um bocadinho, que eu vou ali 
esquina comprar rap, que tenho a caixa vazia.

 Eu vou tambm.

 No; deixe-me ir s; o homem no
gosta de vender rap  vista de gente. So trs minutos.

Gaspar voltou  esquina e meteu-se
em um corredor. Andr, depois de passear perto de um quarto de hora, foi 
esquina e perguntou no armarinho pelo cunhado.

 Aqui s veio um preto comprar
uma vela de cera, respondeu o caixeiro.

Andr ficou furioso, mas
compreendeu tudo. Sabia que a irm dominava o marido, mas no calculava que
chegasse a tanto.

Resolveu, portanto, fazer as
coisas por si.

No dia seguinte apareceu em casa
de Anglica (no ouso dizer em casa de Gaspar) e de novo insistiu na entrega do
pequeno; a misso no teve nenhum efeito. Andr resolveu ir esperar  porta do
Arsenal de Guerra que o pequeno sasse e deitar-lhe a mo em cima.

Joo das Mercs no escapou ao
lao.

Nesse mesmo dia foi morar para
casa do pai com ordem de no sair nem para o emprego nem para casa da tia.

Imaginem o furor de D. Anglica e
a dor de Marianinha. Gaspar fez cem projetos de vingana, sem que a mulher lhe
aceitasse nenhum.

Separado da jovem namorada, Joo
das Mercs ficou entregue ao mais profundo desespero. Correram os meses sem que
se avistassem os dois. Ao cabo de um ano, Andr arranjou para o filho um
emprego, e foi a primeira vez que o msero pde pisar a rua. Seu primeiro
cuidado foi ir  casa da tia.

Achou-se na sala toda a famlia e
mais um rapaz de casaca e luvas brancas. Marianinha empalideceu um pouco, mas
logo lhe passou essa manifestao de remorso. Remorso digo, porque o sujeito de
luvas brancas e casaca, como o leitor h de ter percebido, vinha pedir a moa
em casamento.

D. Anglica acabava um discurso acerca
dos deveres do casamento e do amor das mes aos filhos, discurso que Gaspar
ouvia com aprovao de cabea, e o noivo com abrimentos de boca.

Joo das Mercs no resistiu 
dor. Saiu furioso acusando os cus e a terra das suas desgraas. Complicaram-se
estas com a morte do pai. Joo das Mercs ficou no mundo sozinho. Era preciso
trabalhar; o rapaz entrou a trabalhar como um mouro.

Houve entretanto no sei que
pretendente ao lugar dele; parece que o pretendente tinha jus ao lugar, porque
um dia de manh o chefe da repartio mandou chamar Joo das Mercs e deu-lhe a
triste notcia de que estava demitido.

Nessa triste posio esteve Joo
das Mercs uns quinze dias que foi quanto lhe durou o resto do ordenado. Ao fim
desse tempo no tinha que comer. O estmago  engenhoso e tem boa memria. Joo
lembrou-se que havia, em uma casa de pasto do seu conhecimento, um caixeiro a
quem emprestara dez mil-ris em ocasio em que se achava desempregado. Correu
para l.

O caixeiro conheceu o credor, e
acudiu a servi-lo. Joo das Mercs pediu alguma coisa para almoar, e fingindo
ler a lista declarou ao caixeiro que no tinha dinheiro naquela ocasio.

O caixeiro era bom rapaz e no
deixou de o servir. Foi pelo mesmo teor o jantar e a ceia. No dia seguinte no
havendo outra vela no horizonte culinrio, Joo das Mercs recorreu ainda ao
caixeiro, que no deixou de lhe fiar o comer; mas pensando que a penria de
Joo das Mercs era temporria, limitou-se a afianar ao dono da casa a
capacidade do fregus.

Ao fim de duas semanas, quando
Joo das Mercs se assentava para comer o seu dcimo-quinto almoo, o dono da
casa foi-lhe levar uma conta que fez empalidecer o pobre rapaz.

 Amanh lhe pago isto, respondeu
ele pondo a conta no bolso, e com tanta confiana que parecia estar  espera de
algum legado. Ignora-se como comeu ele no dia seguinte e nos outros. Um ms
depois achamo-lo empregado em copiar certides e outros papis em casa de um
tabelio. Era ativo no trabalho e srio no procedimento; infelizmente o
tabelio padecia de molstias que o enchiam de mau humor certas manhs,
mormente se comia na vspera carne cozida. Um dia em que o tabelio entrou no
cartrio afinadssimo, Joo das Mercs teve a desgraa de copiar mal um papel.
O tabelio revoltou-se contra o escrevente, e mandou fazer outra cpia, a qual,
no saindo capaz, levou o tabelio s nuvens. Por desgraa, Joo das Mercs
abalroou na mesa e entornou-lhe o tinteiro sobre uma procurao.

Foi demitido.

Tentou Joo das Mercs entrar no
comrcio, e alcanou ser admitido como scio de indstria em um armarinho. O
armarinho era afreguesado e Joo das Mercs julgou ter enfim dado o ltimo
golpe no caiporismo. Da a um ano reconheceu que andava iludido com a aparente
vitria.

O caiporismo  a hidra de Lerna.

O scio disse-lhe um dia de manh
que ia buscar um primo em Sapopemba e partiu acompanhado de uma pequena mala.

Joo das Mercs ficou em casa s.

Mas os dias correram sem que o
scio voltasse; at que Joo fosse surpreendido com uma letra de quinhentos mil-ris.
Recorreu  burra e no achou vintm. Deu parte  polcia; mas nem por isso
escapou da correio.

Foi
solto depois de um laborioso processo em que ficou provada a sua completa
inocncia. Os credores tomaram conta dos bens, e Joo das Mercs ficou no meio
da rua com as algibeiras vazias e nenhuma esperana de melhora.

No tinha as algibeiras vazias de
todo; depois de as revolver muito achou seis mil-ris.

 Que tempo me durar isto?
perguntou ele a si mesmo. Nem trs dias;  preciso comer e dormir. Acabado este
dinheiro estou como antes. Que farei?

Aqui teve uma dessas inspiraes
que salvam imprios.

 Gasto dez tostes em alguma
coisa, e com os cinco mil-ris de resto compro um quarto de loteria.

J sabemos que ele tinha esta
mania que lhe deixara uma das sete amas.

Assim fez.

Depois de comer tranqilamente um
almoo sucinto e modesto, encaminhou-se para a Rua da Quitanda e comprou o
bilhete.

 1441, disse ele, bom nmero;
tenho f.

Tinha uma esperana mas no tinha
jantar nem cama. Felizmente a roda corria no dia seguinte. Joo das Mercs
entrou a passear pelas ruas, disposto a sofrer filosoficamente a fome e o mais
na esperana dos vinte contos.

Casualmente encontrou o tio
Gaspar.

 Como ests? perguntou-lhe o tio.

 Bom.

 J te livraste do processo?

 J.

 To depressa?

 Acha que foi depressa?

 Sim, essas coisas costumam a ser
mais longas. Eu quis fazer alguma coisa por ti; mas tua tia, que  uma senhora
de muito bem pensar, disse:  Era bom ir socorrer o Joozinho; mas o crime 
to feio que no  bom a gente meter-se nisto; que pensas tu, Gaspar?  Que
hei de pensar, mulher? Penso que o rapaz  inocente e que foi atraioado; mas
as aparncias enganam... e nesse caso  minha vontade que no nos metamos
nisto.

 Faz bem.

 Onde ests agora?

 Aqui na rua.

 Mas qual  o teu emprego?

 Passear.

 Que dizes?

 A verdade.

Gaspar, que no era mau homem,
ficou penalizado com a situao do sobrinho. Quis fazer alguma coisa por ele;
mas no ousava.

 J comeste?

 Hoje comi; amanh no sei.

 Olha, disse Gaspar com um belo
movimento de generosidade, toma l; eu fui agora mesmo receber um dinheiro;
toma dez mil-ris.

Joo das Mercs aceitou os dez
mil-ris e abraou o tio.

 Bem! disse ele, a sorte comea a
ceder. J tenho com que dormir hoje e comer amanh.

Era no contar com o caiporismo e
D. Anglica. Esta senhora pediu ao marido contas do dinheiro que fora cobrar.
Gaspar contou-lhe francamente o estado em que achara Joo das Mercs e o
procedimento que tivera. D. Anglica irritou-se contra o marido e o sobrinho e
exigiu a imediata entrega do dinheiro. Por honra dela, devo dizer que a sua
inteno era simplesmente mortificar o marido. Mas este, acostumado a
obedecer-lhe, tomou  letra a ordem e saiu desesperado em busca de algum que
lhe emprestasse dez mil-ris.

Esse algum foi o sobrinho.

Joo das Mercs viu de longe o tio
e aproximou-se dele. Achou-o triste e taciturno, perguntou-lhe o que tinha.

 Nada, disse Gaspar.

 Alguma coisa tem meu tio; vamos,
diga o que .

Gaspar no disse palavra.

Ento lembrou-se Joo das Mercs
do domnio que a tia exercia no nimo do marido, e calculou que a tristeza de
Gaspar se prendesse ao generoso presente dos dez mil-ris.

 Qual! disse Gaspar, quando Joo
das Mercs lhe comunicou a suspeita; Anglica no era capaz de semelhante
coisa; estima-te e respeita-te. A verdadeira causa de minha tristeza  que esse
dinheiro no era meu, e eu dei-te os dez mil-ris por engano.

Joo das Mercs entregou o
dinheiro ao tio.

Gaspar sentiu-lhe borbulhar-lhe
uma lgrima nos olhos. Apertou a mo ao sobrinho e foi para casa. Entrava
triunfante com os dez mil-ris, quando D. Anglica, franzindo o sobrolho,
perguntou-lhe de onde os houvera. Gaspar confessou-lhe a verdade.

 Que! exclamou a esposa; pois tu
tiveste nimo de ir tirar estes pobres dez mil-ris ao rapaz que nem comer
tinha?

 Mas tu...

 Eu, o qu? Eu disse aquilo por
dizer. Vai, vai entregar este dinheiro ao pobre rapaz.

 Onde o encontrarei agora?

Gaspar saiu e no achou o
sobrinho. s ave-marias voltou para casa, mas receando que a mulher lhe
revistasse as algibeiras, coisa que nunca deixava de fazer todas as noites,
tratou de gastar os dez mil-ris como pde.

Joo das Mercs passou a noite na
rua; no dia seguinte almoou com um outro companheiro do cartrio; e  hora do
costume foi para a Misericrdia ver correr a roda.

 Tenho um pressentimento, disse
ele consigo, de que hoje veno o destino.

Chegou; dez minutos depois o n
1441 era aclamado como tendo obtido os vinte contos de ris.

Joo das Mercs desmaiou.

Deram-lhe os prontos socorros.
Tornou a si, apalpou as algibeiras; e achou o abenoado bilhete.

Graas a este recurso inesperado
foi  antiga casa de pasto, cuja dvida estava paga, e apresentou o bilhete.

 Tenho aqui a sorte grande; d-me
de jantar que eu depois de amanh lhe satisfao a conta do que for.

Foi prontamente obedecido. Jantou
como um prncipe. No fim pediu ao caixeiro conhecido, sempre sobre a base do
bilhete, alguns charutos que s tinham o defeito de no serem de Havana; no
mais no prestavam para nada.

Mas naquela situao tudo o que se
fuma  bom. Qualquer homem fumar alegremente couro de boi, se tiver a certeza
de que no dia seguinte lhe metem na algibeira vinte contos de ris.

Acabava ele de acender um charuto,
quando um sujeito que lhe ficara fronteiro, e tinha ouvido a conversa com o
dono da casa, lhe disse com familiaridade:

 Com que ento tirou a sorte
grande?

  verdade, respondeu Joo das
Mercs, com a indiscrio de um homem feliz aps tantas desgraas. Tirei a
sorte grande e ainda estou admirado disso.

 Por qu? disse o sujeito,
levantando-se com a xcara de caf na mo e indo assentar-se  mesa do rapaz.

 Porque fui sempre muito caipora.
Nunca comprei bilhete que me sasse sequer o mesmo dinheiro. Desta vez porm
acertei...

 Homem, eu tambm fui sempre
caipora. Joguei dois anos com o mesmo nmero e nunca tirei mais de 40$000. Um
dia porm, saiu o diabo detrs da porta e caiu-me a bicha em casa.

 Sim? Quando foi isso?

 Foi h seis meses.

 Um quarto ou bilhete inteiro?

 Meio bilhete. Recebi dez contos.

 Talvez no precisasse deles...

 Quase que lhe posso dizer isso.
Graas a Deus ainda que no viessem os dez contos, tinha com que passar.
Acontece-lhe o mesmo?

 Infelizmente no, disse Joo das
Mercs seduzido com a maneira e a confiana do interlocutor.

 Mais uma razo para que eu o
felicite.

O desconhecido apertou a mo a
Joo das Mercs e ofereceu-lhe um charuto.

 Estes charutos daqui no
prestam, tome este.

Joo das Mercs acendeu o charuto
depois de pr o seu fora, e reclinou-se sobre a mesa a conversar com o
desconhecido.

Ao fim de uma hora saram de brao
dado. O desconhecido disse chamar-se Viana; Joo das Mercs deu tambm o seu
nome. Saram como dois amigos velhos. Passearam todo o tempo; Viana levou a
benevolncia ao ponto de o convidar a tomar um sorvete no Carceller.

Perto da noite, disse Viana para
Joo das Mercs:

 Vou lev-lo at  sua casa.

Joo das Mercs fez uma careta.

 Isso agora h de ser mais
difcil, disse ele depois de alguns instantes.

 Por qu?

 Porque...

 Seja franco.

 Pois bem, meu caro, eu no tenho
casa!

 No tem casa?

Joo das Mercs contou fielmente
ao amigo a sua posio. Viana ouviu a narrao com visveis sinais de simpatia.

 Pois se isto o no incomoda nem
ofende, ofereo-lhe por hoje um hospcio. Amanh j no ser preciso porque
receber o dinheiro.

 Aceito.

Dirigiram-se para a Rua da
Misericrdia. Viana morava ali em um primeiro andar mobiliado com algum asseio.

 A casa no est arranjada, disse
ele, mas  porque eu mais me entendo com a desordem que com a ordem.

 Est excelente, disse Joo das
Mercs. Ah! meu caro senhor Viana, creio que sou agora verdadeiramente feliz.
No dia em que me entra o dinheiro pela porta, entra-me um amigo pelo corao.
Pela porta  metfora, acrescentou ele rindo.

Viana apertou-lhe a mo comovido.

 Tive um amigo da sua idade; era
a mesma alma franca e aberta aos sentimentos generosos; permita-me a iluso de
que o encontrei agora...

 Espero que no seja iluso,
exclamou Joo das Mercs.

Conversaram at alta noite.  uma
hora Joo das Mercs disse que estava com sono.

 Eu tambm, disse Viana. Vamos
dormir. Tenho sempre esta outra cama pronta para o que der e vier. Olhe, gosto
de acordar cedo.

 Homem, nestas alturas no se me
dera acordar mais tarde, respondeu Joo das Mercs que, como sabemos, adquirira
de uma das suas amas o modo de dormir demais.

  que eu tenho de sair cedo,
para levar um papel  estrada de ferro. s nove horas estarei de volta.

 A minha madrugada ser s nove
horas.

 Veja l se perdeu o bilhete.

 Nada, c est no bolso do
colete.

Dormiram.

No dia seguinte, seriam onze horas
quando Joo das Mercs abriu os olhos. Viana ainda no tinha voltado. O rapaz
costumava estar na cama acordado ainda um quarto de hora. Ao fim desse tempo
levantou-se, lavou-se e vestiu-se.

No tendo relgio no sabia que
horas eram. O sol estava encoberto. Joo das Mercs chegou  janela a ver se
via o dono da casa.

No viu ningum.

Pouco depois deram os sinos
meio-dia.

 Meio-dia, disse ele. Onde estar
este homem.

Comeou a sentir fome e a
arrepelar-se com a demora, quando instintivamente levou a mo ao bolso do
colete.

No achou o bilhete!...

 Roubado! exclamou ele com
desespero.

Chegou  janela, gritou, acudiu
gente  porta que o deram por maluco. Do segundo andar desceram algumas
pessoas, e depois de ouvirem as queixas do msero rapaz, foram chamar a
autoridade.

Quando o rapaz conseguiu achar-se
na rua eram j duas horas. Seu primeiro pensamento foi ir  casa de loteria.

Correu para l.

 desgraa! todos os quartos da
sorte grande estavam pagos. Deu os sinais de Viana e eram os mesmos de um
sujeito que l fora cobrar um quarto.

No se pode descrever o desespero
de Joo das Mercs. Faltava-lhe aquele golpe mais terrvel que todos, o de ter
a fortuna na mo e senti-la voar como um pssaro esquivo.

No hesitou; a idia de morrer
entrou-lhe na cabea como uma soluo s suas desgraas.

No fundo do bolso ainda achou um
carto de barca. Dirigiu-se  ponte e tomou passagem para S. Domingos.

No meio da viagem, aproveitou o
descuido das pessoas que se achavam perto dele e atirou-se ao mar.

Houve logo a bordo o rebulio que
um caso destes produz. A barca parou e a bordo se empregaram todos os esforos
para salvar o infeliz.

Joo das Mercs veio  tona dgua
quando lhe atiraram uma corda; ele repeliu-a com energia.

Seu pensamento era morrer.

No contava com o caiporismo.

Os esforos empregados em favor de
uma criatura que no queria nada da vida, foram coroados de sucesso, Joo das
Mercs foi salvo.

Passado esse triste acontecimento,
Joo das Mercs disps a lutar violentamente com a sorte; pareceu-lhe esta
sorrir. Alcanou o rapaz um emprego que lhe dera com que viver pobremente.

Alugou uma casinha na Cidade Nova,
e assim passou alguns meses.

Um dia reparou que havia defronte
uma velha que no deixava de sorrir quando ele entrava ou saa de casa. Joo
das Mercs cumprimentava-a cortesmente, mas
no julgava que o riso fosse com ele.

A casa da velha era a melhor casa
da rua, e a moradora passava por ser rica.

Quando Joo das Mercs descobriu
que o riso era com ele, comeou a prestar maior ateno  vizinha. Esta
redobrou de demonstraes e seria enfadonho contar aqui miudamente os
acontecimentos que se deram depois. Basta saber que Joo das Mercs entrou a
freqentar a casa da vizinha, e esta declarou-lhe francamente o amor que o moo
lhe havia inspirado.

No devendo esperar que a prpria
velha oferecesse aquilo que era um favor para ele, Joo das Mercs exclamou um
dia:

 E se ns nos casssemos?

 Essa  a minha inteno, disse
Margarida, se acha que eu o posso fazer feliz.

 Oh! mais que feliz!

A velha tinha duzentos contos.

Era mais que a sorte grande.

Marcou-se o dia do casamento,
correram os preges, Joo das Mercs mandou fazer a roupa nova e convidou
Gaspar para ser padrinho.

 Sem dvida, meu rapaz, respondeu
o tio, mas quem  a madrinha?

 Eu tinha-me lembrado de minha
tia...

 Conta com ela; vou agora mesmo
avis-la.

Margarida no cabia em si de
contente; dizia que apesar da idade que tinha, sentia em si mais amor do que
nunca tivera ao defunto marido.

Joo das Mercs disse a mesma
coisa. Amara muitas vezes, mas nunca com tanta fora.

 Sei o que , acrescentava ele, 
que eu amei sempre a umas deslambidas sem gravidade nem as graas que s se
podem ter em certa idade.

Margarida no tinha parente nenhum
com exceo de um primo remoto, que fez todos os esforos para impedir o
casamento, e que nada tendo alcanado, resolvera aceitar o convite para ser
padrinho, no podendo brigar com a parenta rica.

Raiou enfim a vspera do
casamento.

Por conselho da noiva, Joo das
Mercs tinha desistido do emprego, alis com repugnncia, porque no queria
parecer que ia viver s sopas da mulher. A coisa era isso mesmo, mas ele no
queria a aparncia da coisa.

Ternssimos foram os adeuses dos
noivos na vspera do casamento. Joo das Mercs j tinha fechado a porta, e
Margarida ainda acenava com o leno.

Alta noite foi Joo das Mercs
acordado por violentas pancadas na porta. Levantou-se sobressaltado e foi ver o
que era.

Era um escravo de Margarida.

Vinha dizer que a senhora estava
mal; e que o mandava chamar.

A primeira frase de dor do rapaz
foi toda egosta: Ah! meu caiporismo! exclamou ele enfiando as calas.

Margarida estava realmente s
portas da morte. Quis ver o noivo; este chegou; ela apertou-lhe a mo com
ternura.

Depois chamando o primo declarou
que desejava fazer o seu testamento, mas ainda no tinha acabado de falar que
expirou.

Joo das Mercs teve um ataque.

Quando voltou a si, o pobre rapaz
lembrou-se outra vez de morrer. Mas tantos sucessos lhe tinham embotado a
energia.

Nunca raiou dia de felicidade para
este infeliz. Tem sido sucessivamente agente de procurador, copista de
advogado, porteiro de teatro, vendedor de bilhetes de loteria, negociante de
charutos, sempre perseguido pela fatalidade.

Ele mesmo diz com resignao
evanglica:

 Sou o rei dos caiporas!
