Conto, O sainete, 1875

O sainete



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em A
poca, 1 dezembro de 1875.

Um dos problemas que mais
preocupavam a Rua do Ouvidor, entre as da Quitanda e Gonalves Dias, das duas
s quatro horas da tarde, era a profunda e sbita melancolia do Dr. Maciel. O
Dr. Maciel tinha apenas vinte e cinco anos, idade em que geralmente se
compreende melhor o Cntico dos Cnticos do que as Lamentaes de
Jeremias. Sua ndole mesma era mais propensa ao riso dos frvolos do que ao
pesadume dos filsofos. Pode-se afirmar que ele preferia um dueto da Gr-Duquesa
a um teorema geomtrico, e os domingos do Prado Fluminense aos domingos da
Escola da Glria. Donde vinha pois a melancolia que tanto preocupava a Rua do
Ouvidor?

Pode o leitor coar o nariz, 
procura da explicao; a leitora no precisa desse recurso para adivinhar que o
Dr. Maciel ama, que uma seta do deus alado o feriu mesmo no centro do
corao. O que a leitora no pode adivinhar, sem que eu lho diga,  que o jovem
mdico ama a viva Seixas, cuja maravilhosa beleza levava aps si os olhos dos
mais consumados pintalegretes. O Dr. Maciel gostava de a ver como todos os
outros; amou-a desde certa noite e certo baile, em que ela, andando a passeio
pelo seu brao, perguntou-lhe de repente com a mais deliciosa languidez do
mundo:

 Doutor, por que razo no quer
honrar a minha casa? Estou visvel todas as quintas-feiras para a turbamulta;
os sbados pertencem aos amigos. V l aos sbados.

Maciel prometeu que iria no
primeiro sbado, e foi. Pulava-lhe o corao ao subir as escadas. A viva
estava s.

 Venho cedo, disse ele, logo
depois dos primeiros cumprimentos.

 Vem tarde demais para a minha
natural ansiedade, respondeu ela sorrindo.

O que se passou na alma de Maciel
excede a todas as conjeturas. Num s minuto pde ele ver juntas todas as
maravilhas da terra e do cu,  todas concentradas naquela elegante e suntuosa
sala cuja dona, a Calipso daquele Telmaco, tinha cravados nele um par de
olhos, no negros, no azuis, no castanhos, mas dessa rara cor, que os homens
atribuem  mais duradoura felicidade do corao,  esperana. Eram verdes, de
um verde igual ao das folhas novas, e de uma expresso ora indolente, ora
vivaz,  arma de dois gumes,  que ela sabia manejar como poucas.

E no obstante aquele intrito, o
Dr. Maciel andava triste, abatido, desconsolado. A razo era que a viva,
depois de to amveis preliminares, no cuidou mais das condies em que seria
celebrado um tratado conjugal. No fim de cinco ou seis sbados, cujas horas
eram polidamente bocejadas a duo, a viva adoeceu semanalmente naquele
dia, e o jovem mdico teve de contentar-se com a turbamulta das quintas-feiras.

A quinta-feira em que nos achamos
 de Endoenas. No era dia prprio de recepo. Contudo, Maciel dirigiu-se a
Botafogo, a fim de pr em execuo um projeto, que ele ingenuamente supunha ser
fruto do mais profundo maquiavelismo, mas que eu, na minha fidelidade de
historiador, devo confessar que no passava de verdadeira infantilidade. Notara
ele os sentimentos religiosos da viva; imaginou que, indo fazer-lhe naquele
dia a declarao verbal do seu amor, por meio de invocaes pias, alcanaria
facilmente o prmio de seus trabalhos.

A viva achava-se no toucador.
Acabara de vestir-se; e de p, calando as luvas, em frente do espelho, sorria
para si mesma, como satisfeita da toilette. No ia passear, como se
poderia supor; ia visitar as igrejas. Queria alcanar por seduo a
misericrdia divina.

Era boa devota aquela senhora de
vinte e seis anos, que freqentava as festas religiosas, comia peixe durante toda
a quaresma, acreditava alguma coisa em Deus, pouco no diabo e nada no inferno.
No acreditando no inferno, no tinha onde meter o diabo; venceu a dificuldade,
agasalhando-o no corao. O demo assim alojado fora algum tempo o nosso
melanclico Maciel. A religio da viva era mais elegante que outra coisa.
Quando ela se confessava era sempre com algum padre moo; em compensao s se
tratava com mdico velho. Nunca escondeu do mdico o mais ntimo defluxo, nem
revelou ao padre o mais insignificante pecado.

 O Dr. Maciel? disse ela lendo o
carto que a criada lhe entregou. No o posso receber; vou sair. Espera, 
continuou depois de relancear os olhos para o espelho; manda-o entrar para
aqui.

A ordem foi cumprida; alguns
minutos depois fazia Maciel a sua entrada no toucador da viva.

 Recebo-o no santurio, disse ela
sorrindo logo que ele assomou  porta; prova de que o senhor pertence ao nmero
dos verdadeiros fiis.

 Oh! no  da minha fidelidade
que eu duvido; ...

 E recebo-o de p! Vou sair; vou
visitar as igrejas.

 Sei; conheo os seus sentimentos
de verdadeira religio,  disse Maciel com a voz a tremer-lhe;  vim at com
receio de no a encontrar. Mas vim; era preciso que viesse; neste dia,
sobretudo.

A viva recolheu a abazinha de um
sorriso que indiscretamente ia traindo o seu pensamento, e perguntou friamente
ao mdico que horas eram.

 Quase oito. Sua luva est
calada; falta s aboto-la.  o tempo necessrio para lhe dizer, neste dia to
solene, que eu sinto...

 Est abotoada. Quase oito, no?
No h tempo de sobra;  preciso ir a sete igrejas. Quer fazer o favor de
acompanhar-me at o carro?

Maciel tinha esprito em
quantidade suficiente para no perd-lo todo com a paixo. Calou-se; e
respondeu  viva com um gesto de assentimento. Saram do toucador e desceram,
ambos silenciosos. No trajeto planeou Maciel dizer-lhe uma s palavra, mas que
contivesse todo o seu corao. Era difcil; o lacaio, que abrira a portinhola
do coup, ali estava como um emissrio do seu mau destino.

 Quer que o leve at a cidade?
perguntou a viva.

 Obrigado, respondeu Maciel.

O lacaio fechou a portinhola e
correu a tomar o seu lugar; foi nesse rpido instante que o mdico, inclinando
o rosto, disse  viva:

 Eullia...

Os cavalos comearam a andar; o
resto da frase perdeu-se para a viva e para ns.

Eullia sorriu da familiaridade e
perdoou-lhe. Reclinou-se molemente nos coxins do veculo e comeou um monlogo
que s acabou  porta de S. Francisco de Paula.

Pobre rapaz! dizia ela consigo;
v-se que morre por mim. No desgostei dele a princpio... Mas tenho eu culpa
de que seja um maricas? Agora sobretudo, com aquele ar de moleza e abatimento,
... no  nada...  uma alma de cera. Parece que vinha disposto a ser mais
atrevido; mas a alma faltou-lhe com a voz, e ficou apenas com as boas
intenes. Eullia! No foi mau este comeo. Para um corao daqueles... Mas
qual! cest le genre ennuyeux!

Esta  a glosa mais resumida que
posso dar do monlogo da viva. O coup estacionou na Praa da Constituio;
Eullia, seguida do lacaio, encaminhou-se para a igreja de S. Francisco de
Paula. Ali, depositou a imagem de Maciel nas escadas, e atravessou o adro toda
entregue ao dever religioso e aos cuidados de seu magnfico vestido preto.

A visita foi curta; era preciso ir
a sete igrejas, fazendo a p todo o trajeto de uma para outra. A viva saiu sem
preocupar-se mais com o jovem mdico, e dirigindo-se para a igreja da Cruz.

Na Cruz achamos uma personagem
nova, ou antes duas, o Desembargador Arajo e sua sobrinha D. Fernanda
Valadares, viva de um deputado deste nome, que falecera um ano antes, no se
sabe se da hepatite que os mdicos lhe acharam, se de um discurso que proferiu
na discusso do oramento. As duas vivas eram amigas; seguiram juntas na visitao
das igrejas. Fernanda no tinha tantas acomodaes com o cu, como a viva
Seixas; mas a sua piedade estava sujeita, como todas as coisas, s vicissitudes
do corao. Em vista do que, logo que saram da ltima igreja, disse ela 
amiga que no dia seguinte iria v-la e pedir-lhe uma informao.

 Posso dar j, respondeu Eullia.
V embora, desembargador; eu levo Fernanda no meu carro.

No carro, disse Fernanda:

 Preciso de uma informao
importante. Sabes que estou um pouco apaixonada?

 Sim?

  verdade. Eu disse um pouco,
mas devia dizer muito. O Dr. Maciel...

 O Dr. Maciel? interrompeu
vivamente Eullia.

 Que pensas dele?

A viva Seixas levantou os ombros
e riu com um ar de tamanha piedade, que a amiga corou.

 No te parece bonito? perguntou
Fernanda.

 No  feio.

 O que mais me seduz nele  o seu
ar triste, um certo abatimento que me faz crer que padece. Sabes de alguma
coisa a seu respeito?

 Eu?

 Ele d-se muito contigo; tenho-o
visto l em tua casa. Sabes se haver alguma paixo...

 Pode ser.

 Oh! conta-me tudo!

Eullia no contou nada; disse que
nada sabia.

Concordou, entretanto, que o jovem
mdico, talvez andasse namorado, porque realmente no parecia gozar boa sade.
O amor, disse ela, era uma espcie de pletora, o casamento uma sangria
sacramental. Fernanda precisava sangrar-se do mesmo modo que Maciel.

 Sobretudo nada de remdios
caseiros, concluiu ela; nada de olhares e suspiros, que so paliativos
destinados menos a minorar que a entreter a doena. O melhor boticrio  o
padre.

Fernanda tirou a conversa deste
terreno farmacutico e cirrgico para subi-la s regies do eterno azul. Sua
voz era doce e comovida: o corao pulsava-lhe com fora; e Eullia, ao ouvir
os mritos que a amiga achava em Maciel, no pde reprimir esta observao:

 No h nada como ver as coisas
com amor. Quem suporia nunca o Maciel que me ests pintando? Na minha opinio
no passa de um bom rapaz; e ainda assim... Mas um bom rapaz  alguma coisa
neste mundo?

 Pode ser eu me engane, Eullia,
replicou a viva do deputado, mas creio que h ali uma alma nobre, elevada e
pura. Suponhamos que no. Que importa? O corao empresta as qualidades que
deseja.

A viva Seixas no teve tempo de
examinar a teoria de Fernanda. O carro chegara  Rua de Santo Amaro, onde esta
morava. Despediram-se; Eullia seguiu para Botafogo.

 Parece que ama deveras, pensou
Eullia logo que ficou s. Coitada! Um moleiro!

Eram nove horas da noite quando a
viva Seixas entrou em casa. Duas criadas  camareiras,  foram com ela para o
toucador, onde a bela viva se despiu; dali passou ao banho; enfiou depois um
roupo e dirigiu-se para o quarto de dormir. Levaram-lhe uma taa de chocolate,
que ela saboreou lentamente, tranqilamente, voluptuosamente; saboreou-a e saboreou-se
tambm a si prpria, contemplando, da poltrona em que estava, a sua bela imagem
no espelho fronteiro. Esgotada a taa, recebeu de uma criada o seu livro de
oraes, e foi dali a um oratrio, diante do qual com devoo se ajoelhou e
rezou. Voltando ao quarto, despiu-se, meteu-se no leito, e pede-me que lhe
cerre as cortinas; feito o que, murmurou alegremente:

 Ora o Maciel!

E dormiu.

A noite foi muito menos tranqila
para o nosso apaixonado Maciel, que, logo depois das palavras proferidas 
portinhola do carro, ficara furioso contra si mesmo. Tinha razo em parte; a
familiaridade do tratamento dado  viva precisava de mais detida explicao.
No era, porm, a razo que lhe fazia ver claro; nele exerciam maior ao os
nervos que o crebro.

Nem sempre depois de uma noite
procelosa, traz a manh serena claridade. A do dia seguinte foi ttrica.
Maciel gastou-a toda na loja do Bernardo, a fumar em ambos os sentidos,  o
natural e o figurado,  a olhar sem ver as damas que passavam, estranho  palavra
dos amigos, aos boatos polticos, s anedotas de ocasio.

 Fechei a porta para sempre!
dizia ele com amargura.

Pelas quatro horas da tarde,
apareceu-lhe um alvio, debaixo da forma de um colega seu, que lhe props ir
clinicar em Carangola, donde recebera cartas muito animadoras. Maciel aceitou
com ambas as mos o oferecimento. Carangola nunca entrara no itinerrio de suas
ambies;  at possvel que naquele momento ele no pudesse dizer a situao
exata da localidade. Mas aceitou Carangola, como aceitaria a coroa de
Inglaterra ou as prolas todas de Ceilo.

 H muito tempo, disse ele ao
colega, que eu sentia necessidade de ir viver em Carangola. Carangola exerceu sempre em mim uma atrao irresistvel. No podes imaginar como
eu, j na Academia, me sentia arrastado para Carangola. Quando partimos?

 No sei: dentro de trs semanas,
talvez.

Maciel achou que era muito, e
props o prazo mximo de oito dias. No foi aceito; no teve remdio seno
curvar-se s trs semanas provveis. Quando ficou s, respirou.

 Bem! disse ele, irei esquecer e
ser esquecido.

No sbado houve duas aleluias, uma
na Cristandade, outra em casa de Maciel, aonde chegou uma cartinha perfumada da
viva Seixas contendo estas simples palavras:  Creio que hoje no terei a
enxaqueca do costume; espero que venha tomar uma xcara de ch comigo. A
leitura desta carta produziu na alma do jovem mdico uma Glria in excelsis
Deo. Era o seu perdo; era talvez mais do que isso. Maciel releu meia dzia
de vezes aquelas poucas linhas; nem  fora de propsito crer que chegou a
beij-las.

Ora,  de saber que na vspera,
sexta-feira, s onze horas da manh, recebera Eullia uma carta de Fernanda, e
que s duas horas foi a prpria Fernanda  casa de Eullia. A carta e a pessoa tratavam
do mesmo assunto com a expanso natural em situaes daquelas. Tem-se visto
muita vez guardar um segredo do corao; mas  rarssimo que, uma vez revelado,
deixe de o ser at  sociedade. Fernanda escreveu e disse tudo o que sentia;
sua linguagem, apaixonada e viva, era uma torrente de afeto, to volumosa que
chegou talvez a alagar,  a molhar pelo menos  o corao de Eullia. Esta
ouviu-a a princpio com interesse, depois com indiferena, afinal com
irritao.

 Mas que queres tu que eu te
faa? perguntou no fim de uma hora de confidncia.

 Nada, respondeu Fernanda. Uma s
coisa: que me animes.

 Ou te auxilie?

Fernanda respondeu com um aperto
de mo to significativo, que a viva Seixas compreendeu facialmente a
impresso que lhe causara. No sbado enviou a carta acima transcrita. Maciel
recebeu-a como vimos, e  noite,  hora habitual, estava  porta de Eullia. A
viva no estava s. Havia umas quatro senhoras e uns trs cavalheiros, visitas
habituais das quintas-feiras.

Maciel entrou na sala um pouco
acanhado e comovido. Que expresso leria no rosto de Eullia? No tardou
sab-lo; a viva recebeu-o com o seu melhor sorriso,  o menos faceiro e
intencional, o mais espontneo e sincero, um sorriso que Maciel, se fosse
poeta, compararia a um ris de bonana, rimado com esperana ou
bem-aventurana. A noite correu deliciosa; um pouco de msica, muita conversa,
muito esprito, um ch familiar, alguns olhares animadores, e um aperto de mo
significativo no fim. Com estes elementos era difcil no ter os melhores
sonhos do mundo. Teve-os Maciel, e o domingo da Ressurreio tambm o foi para
ele.

Na seguinte semana viram-se trs
vezes. Eullia parecia mudada; a solicitude e a graa com que lhe falava
estavam longe da tal ou qual frieza e indiferena dos ltimos tempos. Este novo
aspecto da moa produziu os seus naturais efeitos. Sentiu-se outro o jovem
mdico; reanimou-se, colheu confiana, fez-se homem.

A terceira vez que a viu nessa
semana foi em uma soire. Acabaram de valsar e dirigiram-se para o
terrao da casa, donde se via um magnfico panorama, capaz de fazer poeta o
mais soez esprito do mundo. Ali foi declarao, inteira, cabal, expressiva do
que sentia o namorado; ouviu-lha Eullia com os olhos embebidos nele,
visivelmente encantada com a palavra de Maciel.

 Poderei crer no que me diz?
perguntou ela.

A resposta do jovem mdico foi
apertar-lhe muito a mo, e cravar nela uns olhos mais eloqentes que duas
catilinrias. A situao estava definida, a aliana feita. Bem o percebeu Fernanda,
quando os viu regressar  sala. Seu rosto cobriu-se de um vu de tristeza; dez
minutos depois e o desembargador interrompia a partida de whist para
acompanhar a sobrinha a Santo Amaro.

A leitora espera decerto ver
casados os dois namorados e espaada a viagem a Carangola at o fim do sculo.
Quinze dias depois da declarao iniciou Maciel os passos necessrios ao
consrcio. No tm nmero os coraes que estalaram de inveja ao saber da
preferncia da viva Seixas. Esta pela sua parte sentia-se mais orgulhosa do
que se desposasse o primeiro dos heris da terra.

Donde veio este entusiasmo e que
varinha mgica operou tamanha mudana no corao de Eullia? Leitora curiosa, a
resposta est no ttulo. Maciel pareceu insosso, enquanto lhe faltou o sainete
de outra paixo. A viva descobriu-lhe os mritos com os olhos de Fernanda; e
bastou v-lo preferido para que ela o preferisse. Se me miras, me miram,
era a divisa de um clebre relgio do sol. Maciel podia invert-la: se me
miram, me miras; e mostraria conhecer o corao humano,  o feminino, pelo
menos.
