Conto, Dona Jucunda, 1889

D. Jucunda

Texto Fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.
II, 1994.

Publicado originalmente em A Gazeta de Notcias, 1. de janeiro de 1889.

CAPTULO PRIMEIRO

Ningum, quando D. Jucunda aparece no Imperial Teatro de D. Pedro
II, em algum baile, em casa, ou na rua, ningum lhe d mais de trinta e quatro
anos. A verdade, porm,  que ora pelos quarenta e cinco; nasceu em 1843. A natureza tem assim os seus mimosos. Deixa correr o tempo, filha minha, disse a boa madre
eterna; eu c estou com as mos para te amparar. Quando te enfastiares da vida,
unhar-te-ei a cara, polvilhar-te-ei os cabelos, e dars um pulo dos trinta e
quatro aos sessenta, entre um cotilho e o almoo.

 provinciana. Chegou aqui no
comeo de 1860, com a madrinha,  grande senhora de engenho, e um sobrinho
desta, que era deputado. Foi o sobrinho quem props  tia esta viagem, mas foi
a afilhada quem a efetuou, to-somente com fazer descair os olhos
desconsolados.

 No, no estou mais para essas
folias do mar. J vi o Rio de Janeiro... Voc que acha, Cundinha? perguntou D.
Maria do Carmo.

 Eu gostava de ir, dindinha.

D. Maria do Carmo ainda quis
resistir, mas no pde; a afilhada ocupava em seu corao a alcova da filha que
perdera em 1857. Viviam no engenho desde 1858. O pai de Jucunda, barbeiro de
ofcio, residia na vila, onde fora vereador e juiz de paz; quando a ilustre
comadre lhe pediu a filha, no hesitou um instante; consentiu entregar-lha para
benefcio de todos. Ficou com a outra filha, Raimunda.

Jucunda e Raimunda eram gmeas,
circunstncia que sugeriu ao pai a idia de lhes dar nomes consoantes. Em
criana, a beleza natural supria nelas qualquer outro alinho; andavam na loja e
pela vizinhana, em camisa rota, p descalo, muito enlameadas s vezes, mas
sempre lindas. Aos doze anos perderam a me. J ento as duas irms no eram
to iguais. A beleza de Jucunda acentuava-se, ia caminhando para a perfeio: a
de Raimunda, ao contrrio, parava e murchava; as feies iam descambando na
banalidade e no inexpressivo. O talhe da primeira tinha outro garbo, e as mos,
to pequenas como as da irm, eram macias,  talvez, porque escolhiam ofcios
menos speros.

Passando ao engenho da madrinha,
Jucunda no sentiu a diferena de uma a outra fortuna. No se admirou de nada,
nem das paredes do quarto, nem dos mveis antigos, nem das ricas toalhas de
crivo, nem das fronhas de renda. No estranhou as mucamas (que nunca teve), nem
as suas atitudes obedientes; aprendeu logo a linguagem do mando. Cavalos,
redes, jias, sedas, tudo o que a madrinha lhe foi dando pelo tempo adiante,
tudo recebeu, menos como obsquios de hospedagem que como restituio. No
expressava desejo que se lhe no cumprisse. Quis aprender piano, teve piano e
mestre; quis francs, teve francs. Qualquer que fosse o preo das coisas, D.
Maria do Carmo no lhe recusava nada.

A diferena de situao entre
Jucunda e o resto da famlia era agravada pelo contraste moral. Raimunda e o
pai acomodavam-se, sem esforo, s condies da vida precria e rude; fenmeno
que Jucunda atribua, instintivamente  ndole inferior de ambos. Pai e irm,
entretanto, achavam natural que a outra subisse a tais alturas, com esta
particularidade que o pai tirava orgulho da elevao da filha, enquanto que
Raimunda nem conhecia esse sentimento; deixava-se estar na humildade ignorante.
De gmeas que eram, e criadas juntas, sentiam-se agora filhas do mesmo pai, 
um grande senhor de engenho, por exemplo,  que houvera Raimunda em alguma
agregada da casa.

Leitor, no h dificuldade em
explicar essas coisas. So desacordos possveis entre a pessoa e o meio, que os
acontecimentos retificam, ou deixam subsistir at que os dois se acomodem. H
tambm naturezas rebeldes  elevao da fortuna. Vi atribuir  rainha Cristina
esta exploso de clera contra o famoso Espartero: 'Fiz-te duque, fiz-te
grande de Espanha; nunca te pude fazer fidalgo'. No respondo pela
veracidade da anedota; afirmo s que a bela Jucunda nunca poderia ouvir 
madrinha alguma coisa que com isso se parecesse.

CAPTULO II

 Sabe quem vai casar? perguntou
Jucunda  madrinha, depois de lhe beijar a mo.

Na vspera, estando a calar as
luvas para ir ao Teatro Provisrio, recebera cartas do pai e da irm, deixou-as
no toucador, para ler quando voltasse. Mas voltou tarde, e com tal sono, que
esqueceu as cartas. Agora de manh, ao sair do banho, vestida para o almoo, 
que as pde ler. Esperava que fossem como de costume, triviais e queixosas.
Triviais seriam; mas havia a novidade do casamento da irm com um alferes,
chamado Getulino.

 Getulino de qu? perguntou D.
Maria do Carmo.

 Getulino... No me lembro;
parece que  Amarante,  ou Cavalcanti. No. Cavalcanti no ; parece que 
mesmo Amarante. Logo vejo. No tenho idia de semelhante alferes. H de ser
gente nova.

 Quatro anos! murmurou a
madrinha. Se eu era capaz de imaginar que ficaria aqui tanto tempo fora de
minha casa!

 Mas a senhora est dentro de sua
casa, replicou a afilhada dando-lhe um beijo.

D. Maria do Carmo sorriu. A casa
era um velho palacete restaurado, no centro de uma grande chcara, bairro do
Engenho Velho. D. Maria do Carmo tinha querido voltar  provncia, no prazo
marcado novembro de 1860; mas a afilhada obteve a estao de Petrpolis; iriam
em maro de 1861. Maro chegou, foi-se embora, e voltou ainda duas vezes, sem
que elas abalassem daqui; estamos agora em agosto de 1863. Jucunda tem vinte
anos.

Ao almoo, falaram do espetculo
da vspera e das pessoas que viram no teatro. Jucunda conhecia j a principal
gente do Rio; a madrinha f-la recebida, as relaes multiplicaram-se; ela ia
observando e assimilando. Bela e graciosa, vestindo-se bem e caro, vida de
crescer, no lhe foi difcil ganhar amigas e atrair pretendentes. Era das primeiras
em todas as festas. Talvez o eco chegasse  vila natal,  ou foi simples
adivinhao de malvolo, que entendeu colar isto uma noite, nas paredes da casa
do barbeiro:

Nh Cundinha

J rainha

Nh Mundinha

Na cozinha.

O pai arrancou, indignado, o papel;
mas a notcia correu depressa a vila toda, que era pequena, e foi o
entretenimento de muitos dias. A vida  curta.

Jucunda, acabado o almoo, disse 
madrinha que desejava mandar algumas coisas para o enxoval da irm, e, s duas
horas, saram de casa. J na varanda,  o coup embaixo, o lacaio de p,
desbarretado, com a mo no fecho da portinhola,  D. Maria do Carmo notou que a
afilhada parecia absorta; perguntou-lhe o que era.

 Nada, respondeu Jucunda,
voltando a si.

Desceram; no ltimo degrau,
perguntou Jucunda se a madrinha  que mandara pr as mulas.

 Eu no; foram eles mesmos.
Querias antes os cavalos?

 O dia est pedindo os cavalos
pretos; mas agora  tarde, vamos.

Entraram, e o coup, tirado
pela bela parelha de mulas gordas e fortes, dirigiu-se para o Largo de S.
Francisco de Paula. No disseram nada durante os primeiros minutos; D. Maria 
que interrompeu o silncio, perguntando o nome do alferes.

 No  Amarante, no, senhora,
nem Cavalcanti; chama-se Getulino Damio Gonalves, respondeu a moa.

 No conheo.

Jucunda tomou a mergulhar em si
mesma. Um dos seus prazeres diletos, quando ia de carro, era ver a outra gente
a p, e gozar as admiraes de relance. Nem esse a atraa agora. Talvez o
alferes lhe fizesse lembrar algum general; verdade  que s os conhecia
casados. Pode ser tambm que esse alferes, destinado a dar-lhe sobrinhos
cabos-de-esquadra, viesse lanar-lhe alguma sombra aborrecida no cu brilhante
e azul. As idias passam to rpidas e embrulhadas, que  difcil colh-las, e
p-las em ordem; mas, enfim, se algum supuser que ela cuidava tambm em certo
homem, esse no andar errado. Era candidato recente o doutor Maia, que voltara
da Europa, meses antes, para entrar na posse da herana da me. Com a do pai,
ia a mais de seiscentos contos. A questo do dinheiro era aqui um tanto
secundria, porque Jucunda tinha certa a herana da madrinha; mas no se h de
mandar embora um homem, s porque possui seiscentos contos, no lhe faltando
outras qualidades preciosas de figura e de esprito, um pouco de genealogia, e
tal ou qual pontinha de ambio, que ela puxaria em tempo, como se faz s
orelhas das crianas preguiosas. J havia recusado outros candidatos. De si
mesma chegou a sonhar com um senador, posio feita e ministro possvel.
Aceitou este Maia; mas, gostando dele, e muito, por que  que no acabava de
casar?

Por qu? Eis a o mais difcil de
aventar, amigo leitor. Jucunda no sabia o motivo. Era desses que nascem
naqueles escaninhos da alma, em que o dono no penetra, mas penetramos ns
outros, contadores de histrias. Creio que se liga  doena do pai. J estava
ferido, na asa, quando ela para c veio; a molstia foi crescendo, at fazer-se
desenganada. Navalha no exclui esprito, haja vista Fgaro; o nosso velho
disse  filha Jucunda, em uma das cartas, que tinha dentro de si um aprendiz de
barbeiro, que lhe alanhava as entranhas. Se tal era, era tambm vagaroso,
porque no acabava de escanho-lo. Jucunda no supunha que a eliminao do velho
fosse necessria  celebrao do casamento,  ainda que por motivo de velar o
passado; se claramente lhe viesse a idia,  de crer que a repelisse com
horror. Ao contrrio, a idia que agora mesmo lhe acudia, pouco antes de parar
o coup,  que no era bonito casar, enquanto o pai l estava curtindo dores.
Eis a um motivo decente, leitor amigo;  o que procurvamos h pouco,  o que
a alma pode confessar a si mesma,  o que tirou  fisionomia da moa o ar
fnebre que ela parecia haver trazido de casa.

Compraram o enxoval de Raimunda, e
o remeteram pelo primeiro vapor, com cartas de ambas. A de Jucunda era mais
longa que de costume; falava-lhe do noivo alferes, mas no empregava a palavra cunhado.
No tardou que viesse resposta da irm, toda gratido e respeitos. Sobre o pai
dizia que ia com os seus achaques velhos, um dia pior, outro melhor; era
opinio do doutor que podia morrer de repente, mas podia tambm agentar meses
e anos.

Jucunda meditou muito sobre a
carta. Logo que Maia se lhe declarou, pediu-lhe ela que nada dissessem 
madrinha por uns dias; ampliou o prazo a semanas; no podia faz-lo a meses ou
anos. Foi  madrinha, e confiou a situao. No quisera casar com o pai
enfermo; mas, dada a incerteza da cura, era melhor casar logo.

 Vou escrever a meu pai, e
peo-me a mim mesma, disse ela, se dindinha achar que fao bem.

Escreveu ao pai, e terminou:

No o convido para vir ao Rio de
Janeiro, porque  melhor sarar antes; demais, logo que nos casarmos, l iremos
ter. Quero mostrar a meu marido (desculpe este modo de falar) a vilazinha do
meu nascimento, e ver as coisas de que tanto gostei, em criana, o chafariz do
largo, a matriz e o padre Matos. Ainda vive o padre Matos?

O pai leu a carta com lgrimas;
mandou-lhe dizer que sim, que podia casar, que no vinha por andar achacado;
mas longe que pudesse...

 Mundinha exagerou muito, disse
Jucunda  madrinha. Quem escreve assim, no est para morrer.

Tinha proposto casamento 
capucha, por causa do pai; mas o tom da carta f-la aceitar o plano de D. Maria
do Carmo e as bodas foram de estrondo. Talvez a proposta no lhe viesse da
alma. Casaram-se pouco tempo depois. Jucunda viu mais de um dignitrio do
Estado inclinar-se diante dela, e dar-lhe o parabm. Os mais clebres colos da
cidade fizeram-lhe corte. Equipagens ricas, cavalos briosos, atirando as patas
com vagar e graa, pela chcara dentro, muitas librs particulares, flores,
luzes; fora, na rua, a multido olhando. Monsenhor Tavares, membro influente do
cabido celebrou o casamento.

Jucunda via tudo atravs de um vu
mgico, tecido de ar e de sonho; conversaes, msica, danas, tudo era como
uma longa melodia, vaga e remota, ou prxima e branda, que lhe tomava o
corao, e pela primeira vez a fazia estupefata diante de alguma coisa deste mundo.

CAPTULO III

D. Maria do Carmo no alcanou que
os recm-casados ficassem morando com ela. Jucunda desejava-o; mas o marido
achou que no. Tinham casa na mesma rua, perto da madrinha; e assim viviam
juntos e separados. De vero iam os trs para Petrpolis, onde residiam debaixo
do mesmo teto.

Extinta a melodia, secas as rosas,
passados os primeiros dias do noivado, Jucunda pde tomar p no recente
tumulto, e achou-se grande senhora. J no era s a afilhada de D. Maria do
Carmo, e sua provvel herdeira; tinha agora o prestgio do marido; o prestgio
e o amor. Maia literalmente adorava a mulher; inventava o que a pudesse fazer
feliz, e acudia a cumprir-lhe o menor dos seus desejos. Um destes consistiu na
srie de jantares que deram em Petrpolis, durante uma estao, aos sbados,
jantares que ficaram clebres; a flor da cidade ali ia por turmas. Nos dias
diplomticos, Jucunda teve a honra de ver a seu lado, algumas vezes, o internncio
apostlico.

Um dia, no Engenho Velho, recebeu
Jucunda a notcia da morte do pai. A carta era da irm; contava-lhe as
circunstncias do caso: o pai nem teve tempo de dizer: ai, Jesus!
Caiu da rede abaixo e expirou.

Leu a carta sentada. Ficou por algum
tempo com o papel na mo, a olhar fixamente; relembrava as coisas da infncia,
e a ternura do pai; saturava bem a alma daqueles dias antigos, despegava-se de
si mesma, e acabou levando o leno aos olhos, com os braos fincados nos
joelhos. O marido veio ach-la nessa atitude, e correu para ela.

 Que  que tem? perguntou-lhe.

Jucunda, sobressaltada, ergueu os
olhos para ele; estavam midos; no disse nada.

 Que foi? insistiu o marido.

 Morreu meu pai, respondeu ela.

Maia ps um joelho no cho, pegou-a
pela cintura e conchegou-a ao peito; ela escondeu a cara no ombro do marido, e
foi ento que as lgrimas romperam mais grossas.

 Vamos, sossegue. Olhe o seu
estado.

Jucunda estava grvida. A
advertncia f-la erguer de pronto a cabea, e enxugar os olhos; a carta,
envolvida no leno, foi esconder no bolso a ruim ortografia da irm e outros
pormenores. Maia sentou-se na poltrona, com uma das mos da mulher entre as
suas. Olhando para o cho, viu um papel impresso, trecho de jornal, apanhou-o e
leu; era a notcia da morte do sogro, que Jucunda no vira cair de dentro da
carta. Quando acabou de ler, deu com a mulher, plida e ansiosa. Esta tirou-lhe
o papel e leu tambm. Com pouco se aquietou. Viu que a notcia apontava
to-somente a vida poltica do pai, e conclua dizendo que este 'era o
modelo dos vares que sacrificam tudo  grandeza local; no fora isso, e o seu
nome, como o de outros, menos virtuosos e capazes, ecoaria pelo pas
inteiro'.

 Vamos, descansa; qualquer abalo
pode fazer-te mal.

No houve abalo; mas,  vista do
estado de Jucunda, a missa por alma do pai foi dita na capela da madrinha, s
para os parentes.

Chegado o tempo, nasceu o filho
esperado, robusto como o pai, e belo como a me. Esse primeiro e nico fruto,
parece que veio ao mundo menos para aumentar a famlia, que para dar s graas
pessoais de Jucunda o definitivo toque. Com efeito, poucos meses depois,
Jucunda atingia o grau de beleza, que conservou por muitos anos. A maternidade
realava a feminidade.

S uma sombra empanou o cu
daquele casal. Foi pelos fins de 1866. Jucunda estava a mirar o filho dormindo,
quando lhe vieram dizer que uma senhora a procurava.

 No disse quem ?

 No disse, no, senhora.

 Bem vestida?

 No, senhora;  assim meio
esquisita, muito magra.

Jucunda olhou para o espelho e
desceu. Embaixo, reiterou algumas ordens; depois, pisando rijo e farfalhando as
saias, foi ter com a visita. Quando entrou na sala de espera, viu uma mulher de
p, magra, amarelada, envolvida em um xale velho e escuro, sem luvas nem
chapu. Ficou por alguns instantes calada, esperando; a outra rompeu o
silncio: era Raimunda.

 No me conhece, Cundinha?

Antes que acabasse, j a irm a
reconhecera. Jucunda caminhou para ela, abraou-a, f-la sentar-se; admirou-se
de a ver aqui, sem saber de nada; a ltima carta recebida era j de muito
tempo; quando chegara?

 H cinco meses; Getulino foi
para a guerra, como sabe; eu vim depois, para ver se podia...

Falava com humildade e a medo,
baixando os olhos a mido. Antes de vir a irm, estivera mirando a sala, que
cuidou ser a principal da casa; tinha receio de macular a palhinha do cho.
Todas as galanterias da parede e da mesa central, os filetes de ouro de um
quadro, cadeiras, tudo lhe pareciam riquezas do outro mundo. J antes de
entrar, ficara por algum tempo a contemplar a casa, to grande e to rica.
Contou  irm que perdera o filho, ainda na provncia; agora viera com a idia
de seguir para o Paraguai, ou para onde estivesse mais perto do marido.
Getulino escrevera-lhe que voltasse para a provncia ou ficasse aqui.

 Mas que tem feito nestes cinco
meses?

 Vim com uma famlia conhecida, e
aqui fiquei costurando para ela. A famlia foi para S. Paulo, vai fazer um ms;
pagou o primeiro aluguel de uma casinha onde moro, costurando para fora.

Enquanto a irm falava, Jucunda
contornava-a com os olhos,  desde o vestido de seda j gasto,  o ltimo do
enxoval, o xale escuro, as mos amarelas e magras, at s bichinhas de coral
que lhe dera ao sair da provncia. Era evidente que Raimunda pusera em si o
melhor que possua para honrar a irm. Jucunda viu tudo; no lhe escaparam
sequer os dedos maltratados do trabalho, e o composto geral tanto lhe deu pena
como repulsa. Raimunda ia falando, contou-lhe que o marido sara tenente por
atos de bravura e outras muitas coisas. No dizia voc; para no
empregar senhora, falava indiretamente; 'Viu? Soube? Eu lhe digo.
Se quiser...' E a irm, que a princpio fez um gesto para dizer que deixasse
aqueles respeitos, depressa o reprimiu, e deixou-se tratar como  outra
parecesse melhor.

 Tem filhos?

 Tenho um, acudiu Jucunda: est
dormindo.

Raimunda concluiu a visita.
Quisera v-la e, ao mesmo tempo, pedir-lhe proteo. Havia de conhecer pessoas
que pagassem melhor. No sabia fazer vestidos de francesas, nem de luxo, mas de
andar em casa, sim, e tambm camisas de crivo. Jucunda no pde sorrir. Pobre
costureira do serto! Prometeu ir v-la, pediu indicao da casa, e despediu-a
ali mesmo.

Em verdade, a visita deixou-lhe
uma sensao mui complexa: d, tdio, impacincia. No obstante, cumpriu o que
disse, foi visit-la  Rua do Costa, ajudou-a com dinheiro, mantimento e roupa.
Voltou ainda l, como a outra tornou ao Engenho Velho, sem acordo, mas s
furtadelas. No fim de dois meses, falando-lhe o marido na possibilidade de uma
viagem  Europa, Jucunda persuadiu a irm da necessidade de regressar 
provncia; mandar-lhe-ia uma mesada, at que o tenente voltasse da guerra.

Foi ento que o marido recebeu
aviso annimo das visitas da mulher  Rua do Costa, e das que lhe fazia, em
casa, uma mulher suspeita. Maia foi  Rua do Costa, achou Raimunda arranjando
as malas para embarcar no dia seguinte. Quando ele lhe falou do Engenho Velho,
Raimunda adivinhou que era o marido da irm; explicou as visitas, dizendo que
'D. Jucunda era sua patrcia e antiga protetora'; agora mesmo, se
voltava para a vila natal, era com o dinheiro dela, roupas e tudo. Maia, depois
de longo interrogatrio, saiu dali convencido. No disse nada em casa; mas,
trs meses depois, por ocasio de falecer D. Maria do Carmo, referiu Jucunda ao
marido a grande e sincera afeio que a defunta lhe tinha, e ela  defunta.

Maia lembrou-se ento da Rua do
Costa.

 Todos lhe querem bem a voc, j
sei, interrompeu ele, mas por que  que nunca me falou daquela pobre mulher,
sua protegida, que aqui esteve h tempos, uma que morava na Rua do Costa?

Jucunda empalideceu. O marido
contou-lhe tudo, a carta annima, a entrevista que tivera com Raimunda, e
finalmente a confisso desta, as prprias palavras, ditas com lgrimas. Jucunda
sentiu-se vexada e confusa.

 Que mal h em fazer bem, quando
a pessoa o merece? perguntou-lhe o marido, concluindo a frase com um beijo.

 Sim, era excelente mulher, muito
trabalhadeira...

CAPTULO IV

No houve outra sombra na vida
conjugal. A morte do marido ocorreu em 1884. Bela, com a meao do casal, e a
herana da madrinha, contando quarenta e cinco anos que parecem trinta e
quatro, to querida da natureza como da fortuna, pode contrair segundas
npcias, e no lhe faltam candidatos; mas no pensa nisso. Tem boa sade e
grande considerao.

A irm faleceu antes de acabar a
guerra. Getulino galgou os postos em campanha, e saiu h alguns anos
brigadeiro. Reside aqui; vai jantar, aos domingos, com a cunhada e o filho
desta, no palacete de D. Maria do Carmo, para onde a nossa D. Jucunda se mudou.
Tem escrito alguns opsculos sobre armamento e composio do Exrcito, e outros
assuntos militares. Dizem que deseja ser ministro da Guerra. Aqui, h tempos,
falando-se disso no Engenho Velho, perguntou algum a D. Jucunda se era verdade
que o cunhado fitava as cumeadas do poder.

 O general? retorquiu ela com o
seu grande ar de matrona elegante; pode ser. No conheo os seus planos
polticos, mas acho que daria um bom ministro de Estado.
