Crtica, Joaquim Nabuco: Penses dtaches et souvenirs, 1906

Joaquim Nabuco: Penses dtaches et
souvenirs

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Carta
a Joaquim Nabuco, de 19/08/1906.

Meu
querido Nabuco,  Quero agradecer-lhe a impresso que me deixaram estas suas
pginas de pensamentos e recordaes. Vo aparecer justamente quando V. cuida de
tarefas prticas de ordem poltica. Um professor de Douai, referindo-se 
influncia relativa do pensador e do homem pblico, perguntava uma vez (assim o
conta Dietrich) se haveria grande progresso em colocar Aristides acima de
Plato, e Pitt acima de Locke. Conclua pela negativa. Voc nos d juntos o
homem pblico e o pensador. Esta obra, no feita agora mas agora publicada, vem
mostrar que em meio dos graves trabalhos que o Estado lhe confiou, no repudia
as faculdades de artista que primeiro exerceu e to brilhantemente lhe criaram
a carreira literria.

Erro 
dizer como V. diz em uma destas pginas, que 'nada h mais cansativo que
ler pensamentos'. S o tdio cansa, meu amigo, e este mal no entrou aqui,
onde tambm no teve acolhia a vulgaridade. Ambos, alis, so seus naturais
inimigos. Tambm no  acertado crer que, 'se alguns espritos os lem, 
s por distrao, e so raros'. Quando fosse verdade, eu seria desses
raros. Desde cedo, li muito Pascal, para no citar mais que este, e afirmo-lhe
que no foi por distrao. Ainda hoje quando torno a tais leituras, e me
consolo no desconsolo do Ecclesiastes, acho-lhes o mesmo sabor de
outrora. Se alguma vez me sucede discordar do que leio, sempre agradeo a
maneira por que acho expresso o desacordo.

Pensamentos
valem e vivem pela observao exata ou nova, pela reflexo aguda ou profunda;
no menos querem a originalidade, a simplicidade e a graa do dizer. Tal  o
caso deste seu livro. Todos viro a ele, atrados pela substncia, que  aguda
e muita vez profunda, e encantados da forma, que  sempre bela. H nestas
pginas a histria alternada da influncia religiosa e filosfica, da
observao moral e esttica, e da experincia pessoal, j agora longa. O seu
interior est aqui aberto s vistas por aquela forma lapidria que a memria
retm melhor. Idias de infinito e de absoluto, V. as inscreve de modo direto
ou sugestivo, e a nota espiritual  ainda a caracterstica das suas pginas.
Que em todas resplandece um otimismo sereno e forte, no e preciso dizer-lho;
melhor o sabe, porque o sente deveras. Aqui o vejo confessado e claro, at nos
lugares de alguma tristeza ou desnimo, pois a tristeza  facilmente consolada,
e o desnimo acha depressa um surto.

No
destacarei algumas destas idias e reflexes para no parecer que trago toda a
flor; por numerosas que fossem, muita mais flor ficaria l. Ao cabo, para
mostrar que sinto a beleza e a verdade particular delas, bastaria apontar trs
ou quatro. Esta do livro I: 'Mui raramente as belas vidas so
interiormente felizes; sempre  preciso sacrificar muita coisa  unidade',
 das que evocam recordaes histricas, ou observaes diretas, e nas mos de
algum, narrador e psiclogo, podia dar um livro. O mesmo digo daquela outra,
que  tambm uma lio poltica: 'Muita vez se perde uma vida, porque no
lugar em que cabia ponto final se lana um ponto de interrogao.' Sabe-se
o que era a vida dos anacoretas, mas dizer como V. que 'eles s conheceram
dois estados, o de orao e o de sono, e provavelmente ainda dormindo estavam
rezando',  pr nesta ltima frase a intensidade e a continuidade do
motivo espiritual do recolhimento, e dar do anacoreta imagem mais viva que todo
um captulo.

Nada mais
natural que esta forma de conceito inspire imitaes, e provavelmente
naufrgios. As faculdades que exige so especiais e raras; e  mais
difcil vingar nela que em composio narrativa e seguida. Exemplo da arte
particular deste gnero  aquele seu pensamento CVIII do livro III. Certamente,
o povo j havia dito, por modo direto e cho, que ningum est contente com a
sua sorte; mas este outro figurado e alegrico  s da imaginao e do estilo
dela: 'Se houvesse um escritrio de permuta para as felicidades que uns
invejam aos outros, todos iriam l trocar a sua'. Assim muitas outras,
assim esta imagem de contrastes e imperfeies relativas: 'A
borboleta acha-nos pesados, o pavo mal vestidos, o rouxinol roucos, e a guia
rasteiros'.

Em meio
de todo este pensado e lapidado, as reminiscncias que V. aqui ps falam pela
voz da saudade e do mistrio, como esse quadro no cemitrio das cidades. Voc
exprime magnificamente aquela fuso da morte e da natureza, por extenso e em
resumo, e atribui aos prprios enterrados ali a notcia de que 'a morte 
o desfolhar da alma em vista da eterna primavera'. Todos gostaro essa
forma de dizer, que para alguns ser apenas potica, e a poesia  um dos tons
do livro. Igualmente sugestivo  o quadro do dia de chuva e do dia de nevoeiro,
ambos em Petrpolis tambm, como este da 'estrada caiada de luar', e
este outro das rvores de altos galhos e folhas finas.

Confessando
e definindo a influncia de Renan em seu esprito, confessa V. ao mesmo que
'o diletantismo dele o transviou'. Toda essa exposio  sincera, e
no intrito exata. Efetivamente, ainda me lembra o tempo em que um gesto seu,
de pura fascinao, me mostrou todo o alcance da influncia que Chateaubriand
exercia ento em seu esprito. O estudo do contraste destes dois homens 
altamente fino e cheio de interesse. Um e outro l vo, e a prova melhor da
veracidade da confisso aqui feita  a eqidade do juzo, a franqueza da
crtica, o modo por que afirma que, apesar da religiosidade do exegeta, no se
pde contentar com a filosofia dele.

Reli
Massangana. Essa pgina da infncia, j narrada em nossa lngua, e agora
transposta  francesa, que V. cultivou tambm com amor, d imagem da vida e do
engenho do Norte, ainda para quem os conhea de outiva ou de leitura; deve ser
verdadeira.

No h
aqui s o homem de pensamento ou apenas temperado por ele; h ainda o
sentimento evocado e saudoso, a obedincia viva que se compraz em acudir ao
impulso da vontade. Tudo a, desde o sino do trabalho at a pacincia do
trabalhador, a velha madrinha, senhora de engenho, e a jovem mucama, tudo
respira esse passado que no torna, nem com as douras ao corao do moo
antigo, nem com as amarguras ao crebro do atual pensador. Tudo l vai com os
primeiros educadores eminentes do seu esprito, ficando V. neste trabalho de histria
e de poltica, que ora faz em benefcio de um nome grande e comum a todos ns;
mas o pensamento vive e viver. Adeus, meu caro Nabuco, ainda uma vez agradeo
a impresso que me deu; e oxal no esquea este velho amigo em quem a
admirao refora a afeio, que  grande.




