CRNICA, Ao Acaso, 1864.htm

Ao
Acaso
(Crnicas da
Semana)

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de
Assis,
Rio
de Janeiro: Edies W. M. Jackson,1937.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, de 12/06/1864
a 16/05/1865.

12 DE JUNHO DE
1864.

Tambm o folhetim tem cargo de almas.

 apstolo e converte.

Fcil apostolado,  certo. No h terras inspitas
ou ridos desertos, aonde levar a palavra da verdade; nem se corre o risco de
ser decapitado, como S. Paulo, ou crucificado, como S. Pedro.

 um apostolado garantido pela polcia, feito em
plena sociedade urbana. Em vez de pisar areias ardentes ou subir por montanhas
escalvadas, tenho debaixo dos ps um assoalho slido, quatro paredes dos lados e
um teto que nos abriga do orvalho da noite e das pedradas dos garotos. E por
cmulo de garantia ouo os passos da ronda que vela pela tranqilidade do
quarteiro.

 cmodo, e nem por isso deixa de ser
glorioso.

Deste modo o folhetim faz de nimo alegre o seu
apostolado. Entra em todo o lugar, por mais grave e srio que seja. Entra no
senado, como S. Paulo entrava no arepago, e a levanta a voz em nome da
verdade, fala em tom ameno e fcil, em frase ligeira e chistosa, e no fim do
discurso tem conseguido, tambm como S. Paulo, uma converso.

O Sr. Baro de S. Loureno foi o meu
Dionsio.

S. Excia. veio reconciliar-se com as
musas.

Foi para isso que ocupou a tribuna tera-feira
passada, e to francamente o fez que se dignou responder indiretamente aos
perodos que lhe consagrei no folhetim de domingo.

 verdade que o meio, empregado pelo ilustre
senador, foi um meio j sedio no parlamento. S. Excia. explicou-se. No se deu
por vencido; achou que o interpretei mal, e veio explicar o sentido das suas
palavras. Seja como for explicar um erro  sempre honroso.

S. Excia. alegou que no desconhece aptido nas
musas para os cargos pblicos; e que os reparos feitos tinham por fim somente
poup-las para que elas possam conservar o brilho. Quer que os poetas sejam
aproveitados, mas no quer que a circunstncia de conversar com as musas seja
suficiente para dar-lhes recomendao.

E acrescentou ainda que as musas no podem pensar
mal de S. Excia., visto que S. Excia. tambm possui estro, faltando-lhe somente
o talento da rima.

O ilustre senador lamentou tambm que eu lhe
profetizasse a ausncia dos poetas na ocasio em que S. Excia. partir desta para
a melhor. Enfim (para terminar a parte do discurso que me toca) S. Excia. sentiu
que, com o seu discurso, ficassem as musas assanhadas.

Esta ltima expresso causaria estranheza se no
fosse transparente o fim com que o ilustre baro a empregou. Pareceu-lhe
engraada, e S. Excia. no pde conter-se: soltou-a. S. Excia. adquiriu j uma
fama de bom humor e deseja conserv-la a todo o custo.

Mais adiante ei de mostrar o custo desta
fama.

Mas, sinceramente ou no,  certo que o ilustre
senador veio reconciliar-se com as musas. As musas no so intolerantes e
recebem com galhardia as explicaes parlamentares. Pode ficar certo o ilustre
senador de que h mais alegria no Parnaso por um pecador que se arrepende, do
que por um justo que nunca pecou.

O folhetim aplaude-se com a converso.

O sentimento de contrio do ilustre senador j se
havia revelado antes, por meio de uma correozinha feita no discurso que se
publicou segunda-feira passada.

 o que h de ficar impresso.

Este meio de corrigir  alterando ou suprimindo  
muito do uso de alguns oradores. Ser til que a civilizao acabe com esse uso
de andar de jaqueta diante dos contemporneos e aparecer de casaca 
posteridade.

Convertido o ilustre baro, ficaria terminado o
incidente, se uma das musas assanhadas no me houvesse remetido duas linhas para
publicar.

A musa, ignorando se S. Excia. est ou no
sinceramente convertido, hesitou se devia escrever em prosa ou em verso. Uma
terceira forma, que no fosse nem verso nem prosa, resolvia a questo, mas essa
s o ilustre baro ou Mr. Jourdain no-la poderia indicar.

Achei um meio termo. Descosi os versos da referida
musa, e arranjei a obra, de modo que pode ser indistintamente verso ou
prosa.

Hei de public-la depois.

Agora passo a mostrar quanto custa a fama de bom
humor e jovialidade.

Expresses ouvidas no parlamento esta
semana:

Um Representante da Nao:  No aceito as
proposies que vo de encontro s minhas opinies... do momento!
(Risadas).

Outro Representante:  Confesso que se o governo me
demitisse, fazia bem. Eu sou, realmente, um mau funcionrio; se no fora o chefe
do estado-maior tudo iria por gua abaixo! (Hilaridade).

O mesmo Representante:  Seja franco o nobre
ministro; deite uma taboinha para c e ver como eu passo para l!
(Hilaridade).

H outras expresses, do mesmo jaez, de que me no
recordo agora.

O efeito  certo; rompe a hilaridade; adquire-se a
fama de jovial e bom humor; mas avalie-se o custo desta fama...

Tenho outra expresso parlamentar desta semana. 
de um novo La-Pallisse:

Um Representante (tom de lente ou diretor de
faculdade:  No, no h dvida: a destruio  a anttese da
conservao!

Un quart d'heure avant sa mort
Il tait encore en vie.

N. B. Rogo aos representantes, a quem tenho colhido
estes pedacinhos de ouro, hajam de no suprim-los na publicao dos discursos.
J no se trata de ir  posteridade  de casaca ou de jaqueta;  trata-se de
irem nus.

Do parlamento geral ao parlamento provincial  um
passo. Vamos ao Maranho.

Chegou quela provncia o corpo de Joo Francisco
Lisboa.

 intil dizer o que foi Joo Francisco Lisboa, uma
das nossas glrias nacionais, filho de uma das provncias mais ilustradas do
imprio, que nos deu Gonalves Dias, Sotero dos Reis, Odorico Mendes e tantos
outros.

J. F. Lisboa, como se sabe, faleceu em Portugal h
um ano, e s agora pde chegar o seu corpo  terra natal.

Que fez a assemblia provincial? Esqueceu nesse dia
as nomeaes policiais; no tomou conhecimento das lutas seculares, dos Aquiles
e dos Heitores de campanrio; levantou-se  altura da perda que o pas sofrera e
da imortalidade que irradiava daquele nome; e foi em corporao assistir ao
funeral do ilustre morto.

Este ato foi praticado por iniciativa do deputado
Sotero dos Reis.

J no dia anterior, a mesma assemblia votara uma
quantia destinada  impresso das obras de J. F. Lisboa; e a cmara municipal
resolvera abrir uma exceo, dispensando o cadver da jazida comum e
marcando-lhe um templo para ser sepultado.

A assemblia provincial no parou no que fez,
elegeu uma comisso para ir dar os psames  viva de J. F. Lisboa.

E para completar a resenha das demonstraes feitas
nesse dia, acrescentam os jornais do Maranho que os donos e consignatrios dos
navios surtos no porto de S. Luiz, apenas constou a chegada do navio em que ia o
cadver, mandaram cruzar-lhe as vergas em sinal de funeral, desde o dia da
chegada at o do desembarque.

Estas demonstraes honram uma provncia e fazem
am-la, como uma irm que compreende o valor das glrias nacionais e sabe
honrar, como deve, os seus mortos ilustres.

Que os interesses estreitos e mesquinhos dos grupos
locais sofressem embora.  um dia que se tomou na longa soma dos dias destinados
s lutas estreis. A poltica nesse dia devia curvar a cabea a uma das maiores
capacidades literrias do pas.

Isto vai  ao acaso  e conforme os assuntos me vo
ocorrendo, sem curar do efeito que possa causar a contigidade de um assunto
alegre.

Prometi domingo passado dizer o que pensasse da
nova companhia lrica. Mas o folhetinista pe e a empresa dispe. A semana
passou e no houve espetculo algum. Cantou-se ontem,  verdade, o
Trovador; mas,  hora em que escrevo, no posso saber ainda do que irei
ouvir.

No desanimeis, porm,  diletante! Temos assunto
lrico e verdadeira novidade.

Alguns cavalheiros e senhoras distintas resolveram
cantar. . . o que? Um quarteto? Um sexteto? Um coro? No, uma pera!

Era novidade entre ns, e a novidade atraiu a
ateno de muita gente. Choveram os pedidos, os empenhos, as
solicitaes.

Travaram-se relaes de momento com quem pudesse
interceder e arranjar um bilhete de convite.

Um bilhete de convite, sim!  E a pera no foi nem
podia ser cantada em um salo, como acontece em uma comdia francesa,
ultimamente levada  cena em Paris. A pera foi cantada em um teatro, no teatro
de S. Cristvo, pequeno, mas apropriado para aquilo.

Fora um livro para escrever, supondo eu, aquele que
fizesse a histria do modo lento por que o teatro penetrou no salo.

Os romanos j tinham por costume terminar as
refeies, com a recitao de alguns pedaos de tragdias gregas e
latinas.

O teatro entrou propriamente no salo com os
pequenos provrbios e charadas. A comdia foi-lhes no encalo. A pera vai
entrando, e os exemplos mais recentes so dois: um em Paris, em casa de uma
condessa, cujo nome no tenho presente, e este de domingo passado, no teatro de
S. Cristvo.

Neste ltimo caso, o teatro no entrou propriamente
no salo, se quisermos olhar a feio material do fato. Mas, embora a sociedade
procurasse o teatro, no fundo, o teatro  que entrava no salo. Onde estava a
sociedade, estava o salo.

Cantou-se o Ernani.

O Ernani!   verdade; e a massa de
espectadores distintos que l se achavam no deu s aplausos amigos, deu
aplausos de justia espontneos e merecidos.

Perfeitamente ensaiados, graas aos esforos do Sr.
Jernimo Martinez, de cuja proficincia musical  intil dar notcia aos
leitores, os artistas-amadores houveram-se melhor do que era de esperar de
amadores naquelas circunstncias especiais.

Ao Sr. J. Martinez se deve em parte a realizao
daquela idia, j pela insistncia e pelas animaes que dava, j pelo zelo e
solicitude com que dirigiu os estudos e ensaios da pea.

Acompanhou o Sr. Martinez, na parte relativa aos
ensaios de cena, o Sr. Cavedagni, de quem igualmente se deve fazer uma meno
honrosa.

O papel de Elvira, coube  Sra. D. M. E. G.; o de
Giovanna,  Sra. D. O. D.; Silva, foi desempenhado pelo Sr. comendador C. F.;
Ernani, pelo Sr. comendador J. F. S.; Carlos V, pelo Sr. J. A. M.; Ricardo, pelo
Sr. F. V.; Iago, pelo Sr. J. da C.

Senhoras distintas e distintos cavalheiros
compuseram os coros da pea.

Acompanhou na harpa o duo de Elvira e Carlos V a
Sra. D. C., filha do Sr. comendador F. J. S.

Os intervalos foram preenchidos do seguinte modo:
Uma ria, pela Sra. M. V.; uma pea no piano, a quatro mos, pelas Sras. DD. O.
D. e M.; outra pea, no piano, a seis mos, pelas filhas dos Srs. conselheiro J
. F. C. e Dr. L., acompanhadas por seu distinto professor J.
Martinez.

A orquestra igualmente composta de cavalheiros
distintos, foi habilmente regida pelo Sr. Dr. J. J. R.

Tal foi o programa da noite de domingo passado. O
auditrio era numerosssimo, e conservou-se at o fim, dando inequvocas e
ruidosas manifestaes do prazer de que se achava possudo.

No falo das polcas e das valsas que, entre alguns
ntimos deram fim  noite.

Consta-me que se repetir a festa de domingo
passado.  com a mais franca alegria que aplaudo esta determinao.

Antes de concluir, mencionarei a notcia de um
livro e de um poeta novo da Bahia.

No vi ainda o volume do novo poeta, mas ouvi
louv-lo a autoridades competentes. Se o obtiver esta semana, direi alguma coisa
no prximo folhetim.

20 DE JUNHO DE
1864.

Quero tratar os meus leitores a vela de libra.
Desta vez no lhes dou simples notcias:  dou-lhe um milagre.

 Um milagre!  Qual? Suou sangue algum santo?
Reconciliou-se a Cruz (papel) com a doura evanglica? Apareceu alguma
ave rara? A Fnix? O cisne preto? O melro branco?

No, leitores, nada disso aconteceu; aconteceu
outra coisa e muito melhor.

Foi um milagre verdadeiro, um milagre que apareceu
quando a gente menos esperava, como deve proceder todo o milagre consciencioso;
um milagre positivo, autenticado, taquigrafado, impresso, distribudo, lido e
relido; um milagre semelhante ao casamento do duque de Lauzun, que a bela
Sevign dizia ser, entre todos os sucessos, o mais miraculoso, o mais incrvel,
o mais maravilhoso, o mais imprevisto, o mais singular.

Sucedeu isto em pleno parlamento,  luz do sol, no
ano da graa de 1864, em presena de cerca de quinhentas pessoas, isto , mil
ouvidos, que se no podiam enganar a um tempo, incluindo nesse nmero os dois
ouvidos de um taqugrafo infalvel que recolheu as palavras do milagre,
traduziu-as em vulgar, e reproduziu-as no Correio Mercantil de
tera-feira passada.

Que houve ento no parlamento brasileiro,  luz do
sol, no ano da graa de 1864?

 A Glorificao da Invaso do Mxico. Este
acontecimento no podia deixar de entrar nestas pginas, a ttulo de poltica
amena.

E desde j declaro que o tom de gracejo com que me
exprimo resulta da natureza do folhetim e da natureza do milagre. A inteno e a
pessoa do representante da nao, autor do discurso pr Mxico, ficam
respeitadas.

Estava o Mxico em debate? No; o que se debatia
era a dotao das augustas princesas, cujo casamento se h de efetuar este ano,
segundo anunciou Sua Majestade ao parlamento, e que o pas espera com a mais
simptica ansiedade.

O Sr. Lopes Netto orava contra a elevao do dote e
desfiava as razes que tinha para isso. Um aparte annimo desviou o orador, e
deixando de parte a dotao de Suas Altezas, entrou S. Excia. a dizer o que
pensava a respeito do Mxico.

Pensa S. Excia:

Que o novo imprio no  o resultado da invaso
francesa, mas apenas uma obra da grande maioria do pas;

Que a nova monarquia  uma monarquia
constitucional;

Que o imprio do Mxico  em tudo igual ao imprio
do Brasil;

Que o Mxico vai entrar em uma era de paz e de
prosperidade;

Que o sculo no  de conquistas,  e portanto  o
Mxico no  uma conquista francesa.

S. Excia. pensa ainda outras coisinhas que eu no
posso reproduzir,  a fim de no alongar as propores do
folhetim.

Vejamos agora o que pensa o resto do mundo, exceto
a deputao mexicana, os notveis, os pr-cnsules de Napoleo, o governo
francs, o Monitor Oficial, as folhas oficiosas de Paris e o Sr. Lopes
Netto.

No conto nestas excluses os tomadores de aplices
do emprstimo mexicano, porque esses, com certeza, no pensam nada, arriscam-se
em uma empresa, como se arriscariam  banca, entre um valete e um s.

O que o resto do mundo pensa,  que o Mxico 
apenas uma conquista francesa, tanto em vista dos fatos anteriores, como dos
fatos atuais, conquista feita pelas armas e apoiada no interior por um partido
parricida.

Pensa ainda o resto do mundo:

Que o imprio mexicano, filho do imprio francs,
traz as mesmssimas feies do pai; isto , as leis de exceo, as instituies
mancas, o reinado da polcia, o adiamento indefinido do complemento do edifcio,
adiamento que o prprio discurso de Maximiliano deixa entrever menos claramente
que o clebre discurso de Bordeaux;

Que entre aquele imprio e o imprio do Brasil,
ningum pode achar afinidades possveis, nem quanto s origens, nem quanto s
esperanas do futuro;

Que, qualquer que seja o estado de um pas e
qualquer que seja a probabilidade de pronta regenerao, depois de uma nova
ordem de coisas,  nenhum outro pas pode impr-lhe um governo estranho, seja
repblica, seja monarquia constitucional ou absoluta, seja governo
aristocrtico, democrtico ou teocrtico;

Que tendo o imprio francs imposto um governo
estrangeiro ao Mxico, acontece que o ltimo argumento do Sr. Lopes Netto  um
argumento falso e virado do avesso, o qual pode ser virado deste modo:  A
expedio francesa foi uma conquista,  portanto, o sculo  ainda de
conquistas;

Que a grande maioria do pas  semelhante quela
grande maioria de uma pera espanhola, onde Astcio, presidente de um conselho
composto de sua mulher unicamente, declara que, em vista da maioria, no pode
admitir como cantora a pretendente castelhana;

Que a tranqilidade do Mxico  coisa problemtica,
 vista das guerrilhas que ainda correm o pas, e das dissenses que j lavram
entre os franceses e alguns homens influentes do partido que a Frana foi
ajudar;

Que, em face de tal futuro,  para lamentar que o
jovem imperador Maximiliano se metesse em uma aventura to arriscada, sem
reparar que serve aos interesses e aos caprichos de um governo estrangeiro e
violador dos princpios que to alto proclama;

Que, dadas todas estas razes de princpio e de
fato, deve ser coisa de espantar ouvir-se um deputado no parlamento brasileiro,
 luz do sol, no ano da graa de 1864, glorificar a expedio do Mxico, e tecer
loas  generosidade de Napoleo.

 isto o que pensam e sabem todos, menos aqueles
que eu excetuei acima, e como nas excees s h um brasileiro, que  o Sr.
Lopes Netto, eis porque julguei dever mencionar antes de tudo este
espantosssimo milagre.

Diria acaso o Sr. Lopes Netto a mesma coisa, se
qualquer governo estrangeiro mandasse uma esquadra s nossas guas, rasgas-se as
nossas instituies, dissolvesse os poderes constitucionais, derrubasse o trono,
e plantasse... o que?  a melhor utopia de governo possvel?

No diria, de certo; e  isto o que eu deploro; 
esta alterao dos princpios segundo as regies, que faz dizer com Pascal:
Plaisante justice, qu'une rivire ou une montagne borne! Verit au de des
Pyrnes, erreur au del!

Sem querer, vou dando ao folhetim uns ares de
poltica nova. Mudo de rumo. Por exemplo, fao uma perguntinha  Cruz,
rgo da sacristia da Candelria.

A Cruz parece olhar com bons olhos a
expedio francesa, sem dvida por lembrar-se que ela achou um esteio no partido
clerical do Mxico. Sabe acaso a Cruz que j as coisas no andam bem
entre os generosos estrangeiros e os pastores da igreja mexicana? Sabe que o
arcebispo do Mxico declarou em um escrito que a religio e seus ministros eram
mais infelizes sob a ditadura francesa do que sob o governo de
Juarez?

Dou este aviso  Cruz para que ela no
esfrie o santo zelo de que anda possuda.

E depois deste assunto, mais ou menos
incandescente, leitores, passemos a falar do inverno.

 amanh o dia designado nas folhinhas de Laemmert
e Brando para a entrada solene e oficial deste hspede. Quem o dir? A
temperatura tem-se conservado moderada e branda, fresca sempre, mas nunca fria;
e isto muito antes do dia assinalado nas folhinhas de Laemmert e
Brando.

 que o nosso inverno difere dos outros invernos e
do inverno pago;  um velho, sim, mas  um velho apertadinho, afivelado,
encasacado, bamboleando o corpo para disfarar o reumatismo, rindo para
disfarar a tosse; calculando as visitas pelas variaes do
termmetro.

S de ano a ano temos algum inverno um tanto
spero. De ordinrio, o inverno do Rio de Janeiro no passa disto. Todavia, como
 foroso dividir o ano em quatro estaes, do-se sempre trs meses ao inverno;
e assim resolvem os fluminenses sentir frio desde 21 de junho a 21 de
setembro.

Tudo isto no passa de um pretexto para as partidas
e para os teatros. Ento sucedem-se os bailes solenes e as reunies ntimas, os
teatros procuram melhorar o repertrio, e, mal ou bem, h sempre uma companhia
italiana.

Desta vez nada nos falta...
relativamente.

O mundo elegante pode ir dos sales do Club
s reunies particulares, da ao teatro lrico, onde uma companhia tanto ou
quanto regular executa trs vezes por semana as obras dos mestres da arte.
Aplaudir a a voz agradvel e a arte mmica de Isabel Alba, cujo talento, sem
pretender arcar com as altas capacidades lricas, sabe conquistar um aplauso
simptico e justo.

A isto acresce a presena da eminente artista
dramtica portuguesa Emlia das Neves e Souza, que chegou ontem da
Europa.

 um dos talentos mais celebrados de Portugal, em
cujo teatro ocupa o lugar primeiro. Sua reputao atravessara de h muito o
oceano e chegara at ns. A artista, tendo percorrido ultimamente grande parte
do reino, lembrou-se de vir at as nossas plagas;  uma ocasio que nos fornece
de apreci-la e aplaud-la.

Esta semana pde contar que foi rica em produes
dramticas: duas comdias em um ato!

Dos dois autores, um  estreante, o Sr. Ataliba
Gomensoro, estudante da faculdade de medicina. No assisti  representao; mas
ouvi dizer que a comdia agradou muito, que  cheia de vida e movimento, e
semeada de bastante sal cmico. Tem por ttulo: Comunismo, e foi
representada no Ginsio.

A outra comdia  de autor conhecido e aplaudido, o
Sr. Dr. Augusto de Castro; intitula-se Por um culo, e foi representada
no teatro de S. Janurio.

De todas as produes do autor  a que me parece
mais divertida, mais fcil, mais correta. Abundam nela as situaes cmicas, o
dilogo corre natural, vivo, animado, e o espectador ri e aplaude
espontaneamente.

Nenhuma outra produo veio aumentar a lista da
semana.

A casa Garnier acaba de receber de Paris os
exemplares de uma edio que mandou fazer da comdia do Sr. conselheiro J. de
Alencar  O Demnio Familiar.

O pblico fluminense teve j ocasio de aplaudir
esta magnfica produo daquela pena culta e delicada, entre as mais delicadas e
cultas do nosso pas.

A edio do Sr. Garnier  o meio de conservar uma
bela comdia sob a forma de um volume. A nitidez e elegncia do trabalho
convidam a abrir este volume;  intil dizer que a primeira pgina convida a
l-lo at o fim.

A casa Garnier vai abrindo deste modo a esfera das
publicaes literrias e animando os esforos dos escritores.  justo confessar
que as suas primeiras edies no vinham expurgadas de erros, e era esse um
argumento contra as impresses feitas em Paris. Agora esse inconveniente
desapareceu; acha-se em Paris,  testa da reviso das obras portuguesas, por
conta da casa Garnier, um dos melhores revisores que a nossa imprensa diria tem
possudo.

J as ltimas edies tm revelado um grande
melhoramento.

Nada mais natural do que passar de uma casa de
livros a uma casa de culos.  com os culos que muita gente l os livros. Se se
acrescentar que muita gente h que l os livros sem culos, mas que precisa
deles para ver ao longe, e finalmente uma classe de homens que v perfeitamente
ao longe e ao perto, mas que julga de rigor forrar os olhos com vidros, como
forra as mos com luvas, ter-se- definido a importncia de uma casa de culos e
a razo por que ela pode entrar neste folhetim.

 ao estabelecimento do Sr. Reis,  Rua do
Hospcio, que eu me refiro. Como as folhas anunciaram, e eu tive ocasio de ver
com meus prprios olhos, acabam de sair das oficinas daquele estabelecimento
excelentes trabalhos em ouro, de lavor perfeito e apurado gosto. Em culos e
lunetas, quaisquer que sejam as formas e as fantasias, no vi ainda nada melhor
ou at comparvel.

A casa do Sr. Reis  bastante conhecida.
Dedicando-se ao aperfeioamento dos objetos prprios de um estabelecimento
daqueles, o Sr. Reis tem procurado e conseguido reunir os artistas mais aptos,
os instrumentos mais capazes, e com eles tem levado a casa ao p das primeiras
da Europa.

No  s o carter individual deste fato, que impe
 imprensa uma meno especial,  igualmente porque este fato tende a fazer
apreciar a aptido que h no nosso pas, e liberta-nos, como vai acontecendo em
outras classes, da exclusiva importao estrangeira.

Acho que se devem agradecer os esforos
conscienciosos e felizes do estabelecimento Reis.

Some-se-me o papel debaixo da pena. As poucas
linhas que me restam, quero ocup-las com um pedido aos leitores, e vem a ser: 
que se renam a mim para rogar a Deus pela vida de quem completa amanh  dia do
inverno  um quarto de sculo.

3 DE JULHO DE
1864.

Um jornal desta Corte deu, h dias, aos seus
leitores uma notcia to grave quo sucinta.  nada menos que a predio de uma
catstrofe universal.

Diz a folha que o professor Newmager, de Melbourne,
prediz que em 1865 um cometa passar to prximo  terra, que esta corre srios
riscos de perecer.

Renovam-se, pois, os sustos causados pela profecia
do cometa 13 de junho, sustos que, por felicidade nossa, no foram confirmados
pela realidade.

A terra, que tem escapado a tantos cometas  aos
celestes, como o de Carlos V - aos terrestres, como o rei dos Hunos  aos
marinhos, como os piratas normandos  a terra acha-se de novo ameaada de ser
absorvida por um dos ferozes judeus errantes do espao.

O vulgo, que no entra na apreciao cientfica das
probabilidades de tais catstrofes, estremece ouvindo esta noticia, reza uma
Ave-Maria e trata de preparar a alma para o trnsito solene.

Tambm eu, apesar de j descrer at dos cometas,
no pude ler a frio a notcia deste prximo cataclisma, e fiquei dominado por um
sentimento de tristeza e desnimo.

Pois que!  disse eu comigo  dar-se- caso que o
Criador no esteja contente com os homens? Logo,  certo que somos grandemente
velhacos, imensamente egostas, profundamente hipcritas, tristemente ridculos.
Logo,  certo que esta comdia que representamos c em baixo tem desagradado 
divindade, e a divindade, usando do princpio de Boileau, lana mo de uma
pateada solene e estrondosa?

Estvamos to contentes, to tranqilos, to
felizes,  iludamo-nos uns aos outros com tanta graa e tanto talento, 
abramos cada vez mais o fosso que separa as idias e os fatos, os nomes e as
coisas,  fazamos da Providncia a capa das nossas velhacarias,  adorvamos o
talento sem moralidade e deixvamos morrer de fome a moralidade sem talento, 
dvamos  vaidade o nome de um justo orgulho,  usvamos o nome de cristos e
levvamos ao juiz de paz o primeiro que nos injuriasse,  dissolvamos a justia
e o direito para aplic-los em doses diversas s nossas convenincias, 
fazamos tudo isto, mansa e pacificamente, com a mira nos aplausos finais, e eis
que se anuncia uma interrupo do espetculo com a presena de um tila
cabeludo!

A ser exata a profecia do professor Newmager,
percamos as iluses e estendamos as mos  palmatria. Fomos mais longe do que
nos era lcito, e agravamos as coisas com a mania de dar nomes eufnicos e
bonitos s nossas maldades e aos nossos vcios.

Compreende-se que esta notcia, apanhado-nos de
supeto, nos deixe profundamente abalados.

Ainda se a profecia fosse para daqui a 20 ou 30
anos, ento sim, ira o caso diverso. Se nos fosse impossvel arrepiar carreira,
procederamos de modo a conjurar o mal, isto :  os hipcritas, sem despir dos
ombros a capa mentirosa, ensinariam contudo aos filhos que  uma coisa imoral e
ridcula fascinar as conscincias com virtudes ilusrias e qualidades negativas;
os velhacos, continuando a lanar poeira nos olhos dos outros menos velhacos,
diriam, todavia, aos filhos que nada d maior glria ao homem do que a
conscincia da sua integridade moral; os egostas, sem abandonar o culto da
prpria individualidade, aconselhariam contudo aos filhos a observncia desta
virtude crist, que  o resumo e a base de todas as virtudes: amemos a nosso
prximo; os vaidosos, os intrigantes, os ingratos, e assim por
diante.

Que resultava desta ttica?  que no prazo fixado
aparecia o cometa, lanava os olhos c para baixo, e vendo no mundo um ensaio de
paraso, tornava a enrolar a cauda e ia passear.

Mas, daqui a um ano, daqui a poucos meses, como
escapar ao choque, como evitar o cataclisma, anunciado pelo professor
Newmager?

 verdade que o professor Newmager deixa um lugar 
esperana e acrescenta que, se no houver cataclismo, haver uma coisa
inteiramente nova e nica desde a criao do mundo. Durante trs vezes 24 horas
no teremos noites, estando a atmosfera banhada por uma luz difusa mais
brilhante que os raios do sol.

 o que se chama arriscar tudo para tudo ganhar ou
tudo perder  ou morte violenta e universal, ou um dia de 72 horas, mais claro
que os dias ordinrios.

Diante de tais predies j me lembrei de que em
todo este negcio talvez no haja outro cometa seno o prprio professor
Newmager, cometa que aparece no cu da curiosidade pblica, querendo tudo abalar
e sacudir com a longa cauda da sua cincia astronmica. Varri esta idia do
esprito, por ver que esta  a segunda predio recente do mesmo gnero, e que a
cincia popular tem um provrbio para estes casos: trs vezes cadeia, sinal de
forca.

Se escaparmos ao cataclismo ficaremos livres por
algum tempo, e ento naturalmente esquecidos dos cometas vingadores,
prosseguiremos na comdia universal, sem coros nem intervalos, assistindo ao
mesmo tempo s comdias parciais e polticas,  comdia dinamarquesa,  comdia
polaca,  comdia peruana,  comdia francesa, etc., etc. Basta lanar os olhos
a qualquer ponto da carta geogrfica para achar com que divertir o
tempo.

A propsito de carta geogrfica, julgo que se
deveria mandar uma de presente aos redatores do Sicle, folha que se
publica em Paris.

Eis o que diz aquela folha em data de 15 de
maio:  A terrvel tragdia de Santiago quase se renovou ultimamente em
Montevidu, no Brasil. Durante a semana santa, etc..

No podendo supor nestas palavras uma insinuao de
anexao do territrio oriental ao brasileiro, inclino-me a crer antes que o
ilustrado noticiarista do Sicle conhece tanto a geografia da Amrica
como os leitores conhecem a geografia da lua.

Neste caso, uma carta geogrfica ser um presente
de grande valor e digno de ser apreciado pela redao do
Sicle.

Se em coisas destas que, por mui come-sinhs, todos
devem saber, se escreve na Europa tanta barbaridade, o que no sai de falso e de
imaginoso quando entram l na apreciao da vida ntima dos povos desta
banda?

Isto veio como a propsito, e eu no posso
terminar a parte relativa s surpresas da semana, sem noticiar outra, muito de
passagem.

Retirou-se a fragata Forte, de gloriosa memria,
e veio substitu-la na estao da Amrica do Sul a nau a vapor Bombay  uma
adiozinha de fora. Nisto  que est a surpresa, e em outra circunstncia mais
veio no  Bombay o almirante Elliot, casado com uma irm de Lord John
Russell, e acha-se com sua esposa a bordo da nau.

Oh!

 o caso de fazer uma pequena correo ao grande
cmico: Que vient-elle faire dans cette galre?

Deve supor-se que o almirante Elliot  um ntimo do
Lord John Russell, um eco fiel das suas intenes e dos seus desejos na
qualidade de cunhado do ilustre estadista. Ora, esta ltima circunstncia
provar anguis in herba, ou reproduz simplesmente o passo da epopia em
que a deusa de Cpria faz abrandar, com o gesto gracioso e soberano, as iras dos
deuses reunidos?

Esperemos os resultados das negociaes pendentes;
e vamos fundando a nossa verdadeira independncia e soberania.

Foi no dia de ontem que a Bahia festejou a sua
independncia, naturalmente como de costume, com ardor e entusiasmo.

Tambm ontem tivemos por c a nossa festa, festa
mais particular, mas de grande alcance,  a festa da inaugurao de uma
sociedade literria.

 de grande alcance, porque todos estes movimentos,
todas essas manifestaes da mocidade inteligente e estudiosa, so garantias de
futuro e trazem  gerao presente a esperana de que a grandeza deste pas no
ser uma utopia v.

A sociedade a que me refiro  o Instituto dos
Bacharis em Letras; efetuou-se a festa em uma das salas do colgio de D. Pedro
II.  hora em que escrevo, nada sei ainda do que se passou; mas estou certo de
que foi uma festa bonita; entre os nomes dos associados h muitos de cujo valor
tenho as melhores notcias, e que daro ao Instituto um impulso poderoso e uma
iniciativa fecunda.

Tenho agora mesmo diante dos olhos um exemplar
da  Revista Mensal dos Ensaios Literrios. Ensaios Literrios  a
denominao de uma sociedade brasileira de jovens inteligentes e laboriosos,
filhos de si, reunidos h mais de dois anos, com uma perseverana e uma energia
dignas de elogio.

Que faz esta sociedade? Discute, estuda, escreve,
funda aulas de histria, de geografia, de lnguas, enfim, publica mensalmente os
trabalhos dos seus membros.  uma congregao de vocaes legtimas, para o fim
de se ajudarem, de se esclarecerem, de se desenvolverem, de realizarem a sua
educao intelectual.

Toda a animao  pouca para as jovens
inteligncias que estriam deste modo. Se erram s vezes, indique-se-lhes o
caminho, mas no se deixe de aplaudir-lhes tamanha perseverana e modstia to
sincera.

Creio que j tive ocasio de fazer um cmputo das
diverses e festas que se prometem ao Rio de Janeiro. Como a nossa capital nem
sempre conta destas felicidades, vamos esfregando as mos e agradecendo a
fartura que se nos d.

 No hay miel sin hiel, dizem os
espanhis. A chegada de Emlia das Neves coincidiu com a retirada de Gabriela da
Cunha, para S. Paulo. Foi na noite de quinta-feira que esta eminente artista, a
instncias, segundo se anunciou, da sua ilustre irm de arte, representou nesta
corte pela ltima vez.

O teatro escolhido foi o de S. Janurio e a pea
foi a comdia de V. Sardou,  Os ntimos.

O pblico sabe com que distino, com que verdade,
com que arte, Gabriela da Cunha desempenha o papel de Ceclia naquela comdia.
Desde os primeiros sintomas de um amor, que no nasce de sbito que resvala
devagar na doce intimidade da conversa e do passeio, at ao lance terrvel em
que, na luta da paixo e do dever, o dever triunfa e a mulher salva-se roando
pelas arestas do abismo  toda esta escala de sentimentos  amor,
arrependimento, dio do amante, desprezo por si  tudo isto  reproduzido de
modo a arrancar da platia aplausos entusisticos.

A noite de quinta-feira foi para Gabriela da Cunha
uma das suas mais felizes e gloriosas noites, e o pblico, aplaudindo-a
calorosamente, fez plena justia a um talento, to celebrado quo
verdadeiro.

Emlia das Neves confundiu os seus aplausos com os
do pblico, e tal foi a tocante despedida de Gabriela da Cunha.

 exceo de dois ou trs artistas, o pessoal da
ltima representao dos ntimos foi o mesmo das primeiras
representaes no antigo Ateneu Dramtico. Todos, porm, fizeram convergir os
seus esforos para que aquela representao no desmerecesse das anteriores;
pede a justia que se mencione o bom xito desses esforos e o reconhecimento
caloroso do pblico.

E a justia pede ainda que se faa meno de outro
artista, to aplaudido sempre no papel que lhe coube, e para quem concorria
igualmente a circunstancia de representar em despedida. Foi o Sr. Lopes Cardoso,
no papel de Tolosan. Tenho manifestado mais de uma vez a minha opinio sobre
este artista, ainda novo, mas dotado de talento e incontestvel aptido. O papel
de Tolosan  dos seus melhores e mais brilhantes papis. Dizer isto  fazer-lhe
o melhor elogio, porque desempenhar Tolosan  empregar mil qualidades de
artista, das mais difceis e das mais raras.

No vejo anunciada nenhuma outra novidade de
teatro, a no ser Os Ourives, de Porto-Alegre, ainda em ensaios no
teatro de S. Janurio; e no  com essa comdia portuguesa em 3 atos, que se
representa hoje, no Ginsio.

Falarei domingo a este respeito com os meus
leitores.

J tinha lanado no papel as minhas iniciais, mas
sou obrigado a incluir ainda algumas linhas no folhetim.

 Dize aos teus leitores, escreve-me agora um
amigo, que, se querem ver um demoninho louro,  uma figura leve, esbelta,
graciosa, uma cabea meio feminina, meio anglica, uns olhos vivos,  um nariz
como o de Safo,  uma boca amorosamente fresca, que parece ter sido formada por
duas canes de Ovdio,  enfim a graa parisiense, toute pur,
vo.........

Adivinhem os meus leitores aonde quer o meu amigo
que eu os mande ver este idlio?  .... ao Alcazar:  Mlle.
Aime.

Vejam os leitores at que ponto tem razo o
comunicante. Lembro-lhes, ao concluir, que no percam da lembrana a terrvel
profecia do professor Newmager, de Melbourne.

10 DE JULHO DE
1864.

O folhetim no aparece hoje lpido e vivo; aparece
encapotado, encarapuado e constipado.

Tambm constipado? Tambm. O folhetim  homem, e
nada do que  humano lhe  desconhecido: Homo sum et nihil humanum a me
alienum, etc.

No h organizao, nem mesmo a do folhetim, que
resista s alternativas do termmetro e aos caprichos do inverno fluminense,
podendo, alis, resistir aos caprichos das damas e s alternativas da
poltica.

Depois de cinco ou seis dias de chuva mida e vento
frio, raiaram dois dias quentes, ontem e anteontem, quentes a fazer supor as
proximidades de dezembro.

 um inverno verdadeiramente gamenho, espartilhado
e rejuvenescido, alma de rapaz em corpo de velho, um inverno pimpo.

Depois desta amostra de calor, voltar amanh o
tempo chuvoso ou anuviado, e a nos temos outra vez vtimas dos caprichos da
quadra.

Esta razo serve para explicar o tom de fadiga e
aborrecimento com que o folhetim aparece hoje.

Dito isto, passo a por a limpo umas contas de
domingo passado.

A um amigo, que me observava ontem ter eu sido
demasiado severo com os meus semelhantes, quando tratei do cometa Newmager, 
respondi:

 Meu caro,  que eu reduzo a misso do folhetim a
isto:  atirar semanalmente aos leitores um punhado de rosas.. . sem
quebrar-lhes os espinhos. Tenho eu culpa que o Criador rodeasse de espinhos as
rosas, e que elas surjam assim do seio da terra, formosas, mas
pungentes?

Os meus leitores ho de lembrar-se do que eu disse
no domingo passado, quando falei do cometa Newmager;  ho de lembrar-se que eu
lamentei de corao o desgosto que ao divino espectador produziam os comediantes
humanos. Era to sincera aquela lamentao, que eu no duvido acrescentar hoje
uma observao andina ao que disse ento.

Deus me livre de negar a existncia da virtude, 
eu j tive ocasio de escrever esta frase:

 De todas as mulheres a que eu mais admiro  a
virtude.

Existe,  impossvel neg-lo; mas o que no se pode
igualmente negar,  o que nos comunicam as estatsticas que vm por apenso ao
relatrio da justia, isto ,  que a virtude por simpatia ou pela fora das
coisas, existe principalmente na classe dos vivos.

Com efeito, de 24.484 criminosos julgados pelo
jri, no decnio de 1853 a 1862, 11.077 so solteiros, 11.843 casados e 1.634
vivos.

Que achado para os intendentes de polcia que
procuram a mulher no fundo de todos os delitos!

Os solteiros e os casados, isto , aqueles que
esto mais no caso de lutar pela mulher  ou no esprito de posse ou no esprito
de conquista  esses constituem a grande soma dos criminosos; ao passo que os
vivos, isto , os que se pressupe ficaram fiis aos tmulos, formam apenas uma
insignificante minoria nos fastos policiais.

Ser este o corolrio imediato a tirar da
estatstica? ser certo que a mulher entra sempre, direta ou indiretamente, nos
ataques que os homens fazem  vida,  propriedade e  segurana dos seus
semelhantes?

 preciso notar, para esclarecimento de quem quer
entrar nesta indagao, que nos 24.484 rus se compreendem apenas 1.585
mulheres, minoria insuficiente que deixa margem  opinio dos intendentes de
polcia.

Manifestando estas dvidas a uma senhora de
esprito, numa destas ltimas noites, ouvi-lhe fazer o processo dos homens, com
uma indignao e uma energia que eu admirei, e s quais apenas pude opor dois ou
trs sofismas dbeis e inconsistentes - isto mesmo por honra da
firma.

Fiz ainda outra observao folheando as
estatsticas criminais do relatrio, e foi  que, no mesmo decnio de 1853 a
1862, apenas 363 indivduos foram executados em virtude da moralssima
lei da pena de morte.

Os leitores sabem que a questo da abolio da pena
de morte voltou  tona d'gua em diversos pases, e que, agora mais que nunca,
trabalha-se por suprimir o carrasco, isto , acabar com a anomalia de manter-se
uma lei de sangue em virtude da qual foi sacrificado o fundador do princpio
religioso das sociedades modernas.

A este respeito no posso deixar de transmitir aos
leitores as palavras de uma folha catlica de Paris, Le Monde, digno irmo e
modelo da  Cruz, desta corte.

Este nmero do Monde chegou de fresco no ltimo
paquete. Aqui vai o pedacinho que vale ouro:

Ho de acusar-nos, diz o Monde, de prezar a
guilhotina; no, no prezamos a guilhotina, que  um dos benefcios da
revoluo, e no pedimos outra coisa que no seja substitu-la por outro
gnero de suplcio.

No poucas vezes, a Cruz, referindo-se ao
Monde, deixa resvalar um ou dois adjetivos fraternais. As duas folhas
entendem-se;  de crer que este pedacinho do Monde seja transcrito na
Cruz, piedosamente comentado e aumentado.

A Cruz de Paris no quer a guilhotina por
ser invento revolucionrio, quer outro suplcio de invento catlico. A fogueira,
por exemplo?

Quando leio estas e outras coisas, no sculo em que
estamos, o qual, segundo se diz,  o sculo magno  hesito em crer nos meus
olhos e desconfio de mim mesmo.

A Cruz de Paris entende que  impiedade
matar com a guilhotina; o que ela quer  que se mate mais catolicamente, mais
piedosamente, com um instrumento das tradies clericais, e no com um
instrumento das tradies revolucionrias. Para ela a questo  simplesmente de
forma; o fundo deve ficar mantido e respeitado.

Se os meus leitores disserem que estas pretenses
da folha parisiense so mpias e ridculas, fiquem certos de que no escaparo
das iras dos piedosos defensores, e que, com duas ou trs penadas, sero
riscados do grmio catlico.

Qualquer dia destes ei de fazer um elogio dos
canibais, raa ignorante e rude, que no conhece as delcias da nossa cozinha
civilizada e limita-se a satisfazer os seus instintos brbaros.

Talvez que ao terminar este folhetim receba a
Cruz, e ento direi em post-scriptum se ela traz alguma piedosa
la ao dito do Monde.

No tenho apontamento algum sobre poltica amena a
no ser um aparte do Sr. Lopes Netto, deputado por Sergipe, respondendo a um
orador que o acusava de ter glorificado a invaso do Mxico.

S. Excia. declarou que no fizera semelhante
glorificao.

Ora, como eu, j antes do deputado argumentar,
tinha feito a mesma censura (censura de folhetim) recorri ao nmero do Jornal
do Comrcio em que veio o discurso do Sr. Lopes Netto, para ver de novo o que
S. Excia. havia dito.

Reconheci que S. Excia. havia dito aquilo mesmo que
no parlamento lhe foi apontado, e que eu  muito antes  apontei, considerando
at o fato como milagre.

H, porm, na ordem poltica umas tais retortas e
alambiques, onde se apuram as; palavras e as idias, de modo tal que as tornam
inteiramente diversas daquilo que significam na ordem comum.

 possvel que, a favor deste meio, S. Excia. nos
explique o sentido do seu discurso. Antes disso, continuo a pensar que S. Excia.
fez uma glorificao da invaso napolenica.'

A propsito do Mxico mencionarei aqui, de
passagem, um fato de que todos j tm conhecimento:  a publicao de um livro
de Sua Majestade a Imperatriz Carlota, intitulado: Recordaes das minhas
viagens  fantasia.

O livro ainda no chegou s nossas plagas, creio
eu. Ei de l-lo apenas chegar. H muitas razes para aguardar esta obra, com
certa curiosidade. Primeiramente, o ttulo j de si atraente,  depois a autora,
que, alm da considerao pessoal que tem, recebe agora toda a luz dos
acontecimentos que  em mal!  vo cercar o seu nome e o de seu
marido.

Outro livro, e de viagens, no de outra imperatriz,
mas de uma senhora patrcia nossa. Trois ans en Italie  o ttulo;
veio-nos da Europa onde se acha a autora, a Sra. Nysia Floresta Brasileira
Augusta.

A Fantasia ou  A Itlia   a mesma coisa;
, pelo menos, o que nos fazem crer os poetas e os romancistas, sussurrando aos
nossos ouvidos o nome da Itlia como o da terra querida das recordaes e das
fantasias, do cu azul e das noites misteriosas.

Trs anos na Itlia devem ser um verdadeiro sonho
de poeta. At que ponto a nossa patrcia satisfaz os desejos dos que a lerem?
No sei, porque ainda no li a obra. Mas, a julgar pela meno benvola da
imprensa, devo acreditar que o seu livro merece a ateno de todos quantos
prezam as letras e sonham com a Itlia.

Para os que sonham com os bailes tenho uma notcia
na lista da semana: a instalao de uma nova sociedade destinada a dar partidas.
Niteri carecia de uma sociedade deste gnero, verdadeiramente familiar, como
no pode deixar de ser, e que dar  cidade fronteira um novo
atrativo.

Creio no ser indiscreto anunciando que muito breve
haver novamente nos sales do Club Fluminense um grande sero
literrio-musical, com a presena de senhoras, a fim de terminar a noite com um
baile.

Ocultarei, por ora, os nomes dos promotores da
festa que, a julgar pelo entusiasmo que j vou presenciando, h de ser
esplndida e nica no gnero, entre ns.

Mais de uma vez tenho manifestado a minha opinio
acerca deste gnero de reunies literrias  nem to srias que fatiguem o
esprito do maior nmero  nem to frvolas que afastem os espritos srios.
Achar um meio termo desta ordem  j conseguir muito.

Por agora nada mais digo, pedindo apenas aos
leitores que aguardem como coisa certa (o cometa  s l para 1865) o anunciado
sero, onde se achar a flor da sociedade fluminense.

Tenho limitado as propores deste folhetim pelas
causas j apontadas no comeo, e por outra, que  a falta de espao.

 preciso no atulhar a casa de moblia
intil.

Tambm no se perde nada, visto que a semana foi
das mais indigentes e frias  Poltica  parte.

No recebi a Cruz, mas recebi o primeiro
nmero de um jornal de Camet, verdadeira ressurreio do gnero de Jos
Daniel.

Denomina-se A Palmatria, e traz como
programa as seguintes linhas para as quais peo a ateno dos
leitores:

 A Palmatria tem de defender a
rapaziada de qualquer injusta acusao que se lhe faa; tem de entreter os
jovens de ambos os sexos com a transcrio de algumas cartinha amorosas, que
possam ser obtidas por meio (ainda que sagazes) honestos e dignos, no se
compreendendo nas transcries respectivas os nomes das pessoas a quem se
dirigiram, nem os das que as dirigiram, ou qualquer frase que possa fazer
conhecedor o pblico de quem so s correspondentes; tem de inserir algumas
poesias, romances, anedotas, pilhrias e charadas, que possam deleitar, e
finalmente de tratar, por meio de uma discusso apropriada entre os dois pretos
escravos, o pai Joo Jacamim e o pai Henrique, de sancionar a necessria lei e
regulamento sobre o tratamento e quantidade de palmatoadas com que devem ser
premiados os poetas Arachias  o Palteira de cebo e escritor da variedade
em ingls assinada  que apresentaram no Liberal suas respectivas e meritosas
obras. Tambm aparecer de vez em quando um espreitador noticiando as discusses
vidas entre as vendedeiras de frutas e doces, ora em casa de certo magistrado,
ora na de um constante jogador, ora na de algum que se torne indigno de exercer
a magistratura. Tudo  semelhana do Espreitador por J. D. R. da
Costa.

Que lhes parece? Ser isto imprensa? Temo
estender-me demais; vou reler o que escrevi. At domingo.

17 DE JULHO DE
1864.

Devia comear hoje por uma lauda fnebre. Inverti a
ordem e guardei-a para o fim.

O que me embaraava, sobretudo, era  transio do
triste para o ameno. A dor e o prazer so contguos  na perna de Scrates,
segundo a legenda,  na vida humana, segundo a observao dos tempos; mas, no
folhetim  um erro entristecer os leitores para depois falar-lhes em assuntos
amenos ou festivos.

Duvido que um secretrio de Estado d melhores
explicaes ao parlamento do que eu aos meus leitores,  outro parlamento, onde
no se fala, pelo menos que eu oua.

Tenho sempre medo quando escrevo a palavra
parlamento ou a palavra parlamentar. Um descuido tipogrfico pode levar-me a um
trocadilho involuntrio. Sistema parlamentar, composto s pressas, pode ficar um
sistema para lamentar. Note-se bem que eu falo do erro de ser composto s
pressas ou mal composto... pelos compositores.

O erro tipogrfico s aproveitou a
Malherbe.

Conheci um poeta que era, neste assunto, o mais
infeliz de todos os poetas. Nunca publicou um verso que a impresso o no
estropiasse.  o que ele dizia:

 Viste hoje aqueles versos na
folha?...

  Vi.

O poeta acrescentava:

 Sou infeliz, meu amigo; tudo saiu errado; 
desenganar; no publicarei mais impressos, vou publicar manuscritos.

 verdade que, s primeiras lamentaes desta
natureza, procurei corrigir mentalmente os versos errados, e vi que, se o eram,
no cabia aos tipgrafos toda a culpa, a menos que estes no fossem as musas do
referido poeta.

Fiz, porm, uma descoberta de que me ufano: os
erros tipogrficos eram autorizados pelo poeta; esta fraudezinha dava lugar a
que se tornassem comuns as faltas da impresso e as faltas da
inspirao.

De descoberta em descoberta, cheguei  soluo de
um problema, at ento insolvel:

 Um mau poeta com a conscincia da sua
incapacidade.

Se Cambyses mandava pregar a pele de um juiz
prevaricador na cadeira do juiz que lhe sucedia, devia-se, se possvel fosse,
mandar pregar a pele deste poeta  porta de todas as oficinas tipogrficas,

Como exemplo a futuros
escritores.

Como estou no captulo das descobertas, mencionarei
mais outra que fiz esta semana... nas mos de um amigo de infncia, que j tinha
feito anteriormente. Este gnero de descobrir no  novo.

A descoberta foi o original do testamento do cnego
Felipe.

 um manuscrito venervel e legendrio; a ele est
ligado o nome daquele cnego, a quem se atribui tanta simplicidade e de quem se
contam tantas anedotas, falsas ou verdadeiras.

Nas minhas reminiscncias da infncia, tenho ainda
viva a idia de ter visto, quase diariamente, a tela a que alude a anedota do
cnego e do pintor; l estava a rvore, atrs da qual o cnego figurava estar
escondido para no ser visto de Suzana.

Ora, o cnego, a quem se imputa tanta simplicidade,
escreveu um testamento srio, grave, cheio de lucidez e de razo. Dificilmente
se acredita ver ali a mo ou a cabea do cnego Felipe.

Pois  autntico. Foi encontrado entre os seus
papis, na casa em que ele habitou, casa tanto ou quanto histrica,  a casa do
Livramento.

A concluso a tirar de tudo isto  que no h
esprito que resista diante da idia de fazer um testamento, e que, por mais
simples que seja um homem, na ocasio de assinar as suas ltimas disposies
testamentrias, torna-se de uma sisudez e uma lucidez admirveis.

No passarei adiante sem fazer uma observao, a
saber  que h uma simplicidade maior que a do cnego Felipe,  a simplicidade
dos que lhe atribuem mais simplicidade do que ele tinha, lanando  conta do bom
cnego tantas anedotas apcrifas. Aqui tenho menos em vista defender a memria
do cnego do que deixar patente a minha opinio acerca de uma espcie de
espirituosos por conta alheia, de que, infelizmente, abunda este mundo
sublunar.

Passemos adiante.

Se a minha leitora tem na sua sala uma estatueta de
Terpscore, aposto eu que lhe depositou ontem, aos ps, duas ou trs coroas,
pelo menos.

Assim deve ter sido em comemorao do milagre que
salvou um dos templos daquela musa de voar pelos ares, anteontem.

Refiro-me ao incndio do Club Fluminense.
Ardeu apenas um pouco da chamin, isto s 11 horas da manh, que, ao que parece,
 a hora dos sacrifcios daquela deusa. Preparavam-se naturalmente os bezerros
sagrados, quando se deu o sinistro.

Felizmente nada sucedeu, alm disto. Bem pensado,
no podia suceder nada, pelo menos nos sales onde se dana ou se passeia. No
tm eles resistido ao fogo dos mil olhares que ali se tm cruzado?

Acabo de receber a Cruz   A tout
seigneur, tout honneur.

Querem saber o que  um bom bispo? A Cruz
encontrou o modelo no arcebispo de Dublin, de quem transcreve um pedao de um
mandamento, dirigido ao clero, por ocasio do ms de Maria.

O ilustre prelado trata, a propsito do ms de
Maria, da viagem de Garibaldi a Londres. A piedade episcopal  de uma doura
admirvel: Garibaldi, no mandamento em questo, teve  uma carreira de roubo, de
perfdia, de violncia e de revoluo:  os fidalgos e as mulheres de Inglaterra
aviltaram-se dando-lhe honras quase divinas;  Garibaldi s ganhou vitrias
quando os seus antagonistas foram comprados para se submeterem a ele,  etc.,
etc., etc., etc.

Deixo de parte as expresses piedosas do arcebispo
de Dublin relativamente a Garibaldi! Ora, eis que uma idia da divindade que no
se havia descoberto no seio de uma sociedade crist. O Sr. arcebispo de Dublin
falou como um cidado romano falaria de Csar, na qualidade de adversrio
poltico.

Ento as festas, os jantares, as flores, as
aclamaes da cidade de Londres so coisas que se aproximam do culto da
divindade?

Que mais? Garibaldi s venceu quando os seus
antagonistas foram comprados, e os seus antagonistas, isto , os que so 
amigos do papa e do sacerdcio catlico  os que no tinham carreira  de
perfdia,  esses deixaram-se comprar, traram a causa pontifcia, fizeram uma
carreira  de perfdia.

Pode ser que esta linguagem d a medida de um bispo
modelo; mas, com certeza, no d a idia de um cristo piedoso, e menos de um
bispo lgico, e menos de um bispo reconhecido, e segundo me parece, no  dado,
nem mesmo a um bispo, divorciar-se da lgica e da gratido.

A Cruz contm ainda um suspiro pelos
jesutas, a propsito de uma festa que houve no Castelo. Que ela chore em paz as
suas saudades.

Enfim, a folha catlica anuncia uma nova refutao
a Ernesto Renan, obra do douto cnego portugus Soares Franco. Nada tenho a
dizer a este respeito, a no ser uma declarao  Cruz, a saber, que  de
estimar ler todas as respostas a Renan em linguagem crist. A nossa f lucra com
isso, e no h temer de excessos condenveis. A este respeito espero que a nova
refutao no tenha que se lhe censurar.

Mas, se trouxe esta notcia para aqui,  para
encaminhar-me a dar outra notcia muito curiosa aos meus leitores.

Li na Nao, folha de Lisboa, uma carta, em
que o Sr. Marqus de Lavradio fez importantes revelaes aos leitores daquela
folha. S. Excia. refutou Ernesto Renan, mas no seguiu o caminho dos diferentes
refutadores, bispos, clrigos ou simples particulares. S. Excia. entendeu que
refutar simplesmente a obra de Renan era fazer o que os mais faziam; S. Excia.
foi alm: refutou a obra, mas no leu a obra; fez uma refutao e um
milagre.

Mas, por que no leu a obra? No tinha licena?
Tinha licena; h quarenta anos que S. Excia. est de posse de licena de ler
obras mpias; mas S. Excia. no quis cair no erro de que ele prprio censura os
bispos refutadores. Que os bispos refutassem a obra, muito embora; mas, l-la, 
o que S. Excia. no pode levar a bem. Parodiando uma expresso clebre, S.
Excia.  mais episcopal que os prprios bispos.

Naturalmente, os leitores perguntam consigo como 
que o Sr. Marqus refutou a obra sem l-la; tambm eu fiz essa pergunta, mas
encontrei logo a resposta na mesma carta. Para refutar a obra, S. Excia. leu as
refutaes dos outros.

A isto chamo eu ler a obra em segunda
mo.

Se o Sr. Marqus pudesse responder-me agora, eu
estabeleceria o seguinte dilema, do qual duvido muito que S. Excia. sasse com
facilidade:

Ou as refutaes que leu no lhe deram uma idia
cabal do livro de Renan, e nesse caso nutro receios sobre o valor da obra do
nobre marqus; ou deram-lhe a idia do livro, clara e positiva como l vem,
apoiada pela transcrio de alguns fragmentos, e ento S. Excia. leu o livro 
seno para refut-lo, ao menos para incorrer na censura que fez aos
bispos.

No tendo esperana de que este meu argumento tenha
resposta, nem ainda que o Sr. Marqus o leia, acrescentarei o que me parece ver
no ato e na declarao de S. Excia.

Que razes de escrpulo nutre S. Excia. para ler
obras mpias, e se estes escrpulos so reais, por que recebeu a permisso
pontifcia e por que a conserva? Quanto  primeira parte, no compreendo tais
escrpulos, que os bispos mais severos, os modelos, mesmo o de Dublin, creio eu,
no sentem, tanto que leram a obra; quanto  segunda parte, peo licena para
dizer que S. Excia., apesar de tudo, no est fora da humanidade, e nesse caso,
conservar a licena de cair em um perigo  expr-se a cair nele, a cada
hora.

Eis o que se me ofereceu dizer a propsito da obra
de Renan refutada ... por um culo.

E acabo assim com o nobre Marqus de
Lavradio.

Qu'on se le passe!.

Veja o leitor o que  falar sem conta nem medida;
j me vai faltando o espao.

Sempre h de haver algum para mencionar a
publicao do 2. e ltimo volume da obra do Sr. Senador Padre Thomaz
Pompeu,  Ensaio Estatstico do Cear.

A obra fica assim composta de dois grossos volumes,
onde os leitores estudiosos podem encontrar minuciosamente tudo o que diz
respeito  estatstica,  topografia e  histria do Cear.

A obra em si honra o nome do autor; mas, se se
acrescentar que, para chegar aquele resultado, S. Excia. no teve  mo os
elementos precisos e prprios, e que lhe foi necessrio colhe-los ou antes
cri-los, com o subsidio nico dos seus esforos isolados, ver-se-h que o
Ensaio Estatstico dobra de valor, e cresce o novo ttulo que o ilustre
cearense tem  estima e  admirao.

Chegou de Paris o 2. volume da  Morte
Moral, novela do Sr. A. D. de Pascual, a respeito da qual j tive ocasio
de dizer algumas palavras.

Completa a bagagem das publicaes da semana o tomo
xxvii da  Revista
Trimensal do Instituto Histrico. A coleo das revistas do Instituto  uma
fonte preciosa para as letras e para a cincia, uma obra sria e
til.

Passemos das alegrias da inteligncia para os seus
lutos. Uma carta da Europa, publicada pelo Jornal do Comrcio, nos deu notcia
da morte do Dr. Joaquim Gomes de Souza.

A morte surpreendeu o nosso ilustre compatriota na
mais bela mocidade e cercado de grande reputao. Sua vasta inteligncia e seus
conhecimentos cientficos justificavam essa reputao, que foi quase
contempornea das suas estrias.

 sem dvida um motivo de luto a morte de um
compatriota como o Dr. Gomes de Souza; luto no s para os seus colegas,
discpulos e amigos, mas luto para todos, luto para o pas.

Vamos agora  notcia de outro luto infelizmente,
por causa diversa, e de diversa natureza.

Foi o paquete do norte que nos trouxe a notcia do
suicdio de um veterano da independncia, na Bahia. Tinha 71 anos de idade.
Comeara a servir em 1821, poca em que, segundo declarou, sofreu a mais brbara
violncia em Sergipe de El-rei. Foi um dos combatentes de Piraj. No tinha vcio
algum nem praticara nunca nenhuma ao infamante.

Que motivo levou este velho, no ltimo quartel da
vida, a lanar mo do veneno para pr termo aos seus dias?  A fome!

Para acudir a esta fome, o honrado veterano fez
tudo, at esmolar a caridade pblica. Quando quis um emprego, no lhe
deram!

Entretanto, que  esta liberdade que nos volteia
diariamente nos lbios? Que  esta independncia poltica de que o imprio goza
e se ufana? Que  esta emancipao que faz a nossa honra e a nossa
tranqilidade? Que  tudo isto, seno a obra dos veteranos das lutas passadas,
veteranos da ao ou do pensamento?

 para lamentar que um deles tivesse sido obrigado
a cometer esse crime contra a natureza e contra a religio, no auge do
desespero.

Nas vsperas de 2 de julho, enquanto a cidade se
preparava para festejar a grande data da liberdade, o infeliz veterano, j com o
veneno no seio, escreveu estas linhas melanclicas e pungentes:

  2 de Julho  1864.

 Tu te aproximas, e no mais terei de
recordar as fadigas e privaes que sofri nos campos de Piraj, Brotas, Armaes
e Itapu! Escapando de ser ferido nos fogos (antes uma bala perdida me tivesse
traspassado) no escapei de uma febre maligna, da qual fui salvo, no maior
perigo, pela filantropia do hoje Conselheiro Antonio Policarpo
Cabral.

  nas tuas vsperas, sim,  2 de Julho, que
vou por termo  vida, por no poder suportar mais os horrores da misria no seu
maior auge!

  Oxal possa este meu acontecimento
despertar o longo sono da indiferena, ou antes egosmo dos grandes que governam
o pas, e torna-los um pouco propensos em beneficiar os muitos dos meus
companheiros de armas, que tambm se acham nas horrorosas circunstncias com que
tenho lutado.

Adeus, ptria minha, que sempre amei!

Ver as lutas da independncia, por meio do culo da
histria, a distncia de 40 anos,  realmente cmodo e aprazvel. Mas, se nesta
cadeia da sucesso dos seres, bateu to tarde a hora de nossa chegada, cumpria
mostrar-nos reconhecidos aos que,  custa do seu sangue, fizeram da nossa hora
uma hora de liberdade.

25 DE JULHO DE
1864.

Visitei h dias um canteiro de rosas. Foi antes da
chuva. As belas filhas da terra acolhiam a um tempo as lgrimas da noite e os
beijos de Cntia. Tudo o que nos circundava, a mim e s rosas, convidava 
cisma,  poesia, aos vos livres da imaginao.

No durou muito o meu ledo engano; uma notcia que
eu tinha lido nessa manh, em uma folha do Sul, levou-me a uma srie de
reflexes prosaicas e aflitivas.

A mim, sempre me pareceu que o Criador de todas as
coisas tinha dado to belas cores e formas to engraadas s rosas,  em
primeiro lugar para que elas ornassem a face da terra,  depois para que  se
deviam murchar algum dia  murchassem no seio virginal da donzela ou na fronte
enrubescida da noiva.

Assim, mil fantasias de ordem poetisa atravessavam
o meu esprito, e eu estava longe de pensar nas tiras de papel almao que tenho
agora diante de mim, e que espero enche-las ao acaso, se Deus quiser.

A primeira idia aflitiva que me assaltou foi  que
se defronte de mim estivesse ento um fabricante de essncias, um fornecedor do
Claude ou do Bernardo  ao passo que eu meditava na graa nativa das rosas  ele
se ocuparia em calcular quantas libras das inocentinhas filhas da terra lhe
dariam para satisfazer alguma encomenda que tivesse em mo.

No resisti a esta idia que me chamava to
bruscamente ao mundo, donde me haviam esquecido at os cabeleireiros da Rua do
Ouvidor.

Ah! mas isto era nada, e at certo ponto  sem sair
da esfera da filosofia rstica,  eu podia defender o processo dos fabricantes
de essncias, baseado nesta considerao  que o olfato gosta de tal modo do
perfume das rosas e dos junquilhos, que chega a recebe-lo contente das mos dos
cabeleireiros.

Muito mais prejudiciais do que estes so os que
destilam os sentimentos  as rosas do corao  para vender as mesmas essncias
debaixo de diversos rtulos.

Mas, repito, aquilo era nada, ao p da tal notcia
que eu tinha lido numa folha do Sul: a notcia rezava do invento de um vinho de
rosas, feito por um processo sumrio, que no pude reter na memria; que no
posso reproduzir aqui por no ter guardado a folha.

Vinho de rosas! Confesso que esta evocao to
intempestiva da minha memria aguou-me o prazer que eu sentia, assistindo  vida
calma e silenciosa daquelas flores to decantadas pelos poetas. Eu bem sei que
j a medicina tinha utilizado as rosas, para aplica-las como tisana aos seus
doentes, donde vem, suponho, este pensamento filosfico  de que a beleza 
medicina; bem sei que elas tinham sofrido outras transformaes, mas, como
matria vincola  que eu nunca as considerei, nem me afasia a considera-las.
Vnus e Baco na mesma substncia!   lcito este ajuntamento nas odes de
Horcio, nas canes de Branger; mas, no armazm do vendilho ou na adega do
ricao, eis o que o meu esprito no podia admitir.

Se h caso em que a falsificao seja desculpvel,
 este. Todos sabem que, em qualquer lugar em que se invente um vinho, h sempre
um falsificador disposto a lanar na circulao, com o mesmo nome, um lquido
bastardo e nocivo.  o que acaba de suceder tambm no Sul, onde alguns
fazendeiros preparam agora, com os melhores resultados, um vinho nacional. J em
Porto Alegre e no Rio Grande apareceram algumas amostras de uma mistura de pau
campeche e outros ingredientes, com o nome do vinho legtimo do pas.

Pois eu desculpava de bom grado o inventor audaz
que vendesse uma tintura de erva cidreira com o nome de vinho de
rosas.

Pobres rosas! no foi para estes ensaios qumicos
que Deus vos fez to belas, e que os antigos vos ligaram ao mito de
Vnus.

Eu disse no princpio que visitara o canteiro das
rosas, antes da chuva destes ltimos dias. A chuva leva-me naturalmente a dizer
duas palavras aos senhores fiscais, em nome da classe, no dos servos da gleba,
mas dos servos da calada.

No te incluo a ti,  grande fiscal, 
construtor-mor das estradas do Brasil,  divino sol, adorado pelos antigos e
cantado por Poetas de todos os tempos!

 aos outros fiscais, aos que trajam cala e
palet, aos que tm diploma escriturado, assinado e selado. E ainda assim, no 
a todos; excluo os bons fiscais que existem e nunca deram que falar  imprensa;
minhas referncias so  regra geral dos fiscais.

A existncia desses s  conhecida, de quando em
quando, por umas notcias que a imprensa publica, e que so todas por este
teor:

 O Sr. Fiscal da freguesia de....,
acompanhado do respectivo subdelegado, visitou ontem 48 casas de negcio (por
exemplo) e multou 22,  14 por terem pesos falsificados, 8 por terem  venda
gneros deteriorados.

Ora, eu compreendia a publicao de uma notcia
como esta, se, em vez de ser concebida em termos to lacnicos, designa-se por
extenso as casas multadas, o nmero e a rua, e o nome dos
proprietrios.

Deste modo de publicao resultavam trs vantagens
transcendentais:

1. vantagem: a populao da freguesia ficava
avisada de que havia um certo nmero de casas, visitadas e multadas, a que ela
daria preferncia,  espera que outra turma fosse igualmente visitada e multada,
e que oferecesse novas garantias aos compradores, sem prejuzo dos negociantes
verdadeiramente honrados.

2. vantagem: como a multa no  punio, visto
que, sobre ser diminuta,  tirada dos acrscimos produzidos pelas falhas dos
pesos e pela venda ilcita dos gneros imprestveis, aconteceria que a
publicao do nmero, da rua e do proprietrio constitua assim o verdadeiro
castigo.

3. vantagem: esta  a que resulta da antecedente;
poucos afrontariam, a troco de alguns ris mal ganhos, a vista de uma
publicao, como esta, distribuda pelos vrios mil assinantes das
folhas.

Sem declinar a honra da lembrana, sinto toda a
satisfao em dedic-la aos fiscais e aos jornais, esperando que deste modo se
incluam no mesmo saco a utilidade privada e a utilidade pblica. Explicarei
estas ltimas expresses, antes de passar ao que tenho de dizer a propsito da
chuva.

Atribuo  publicao daquelas notcias to
lacnicas  idia de tornar o pblico ciente de que tal ou tal funcionrio
cumpre o seu dever. Ora, sem prejudicar esta utilidade privada, podia-se atender
igualmente para a utilidade pblica, empregando o sistema que eu tive de
desenvolver acima.

Acho inocentssima a idia a que atribuo essas
publicaes, em comparao com outra idia e outras publicaes, de que no so
raros os exemplos.

Citarei um fato:

Era um leilo de escravos. Na fileira dos infelizes
que estavam ali de mistura com os mveis, havia uma pobre criancinha abrindo
olhos espantados e ignorantes para todos. Todos foram atrados pela tenra idade
e triste singeleza da pequena. Entre outros, notei um indviduo que, mais
curioso que compadecido, conjeturava a meia voz o preo por que se venderia
aquele semovente.

Travamos conversa e fizemos conhecimento; quando
ele soube que eu manejava a enxadinha com que agora revolvo estas terras do
folhetim, deixou escapar dos lbios uma exclamao:

 Ah!

Estava longe de conhecer o que havia neste  Ah! 
to misterioso e to significativo.

Minutos depois comeou o prego da pequena. O meu
indviduo cobria os lanos, com incrvel desespero, a ponto de por fora de
combate todos os pretendentes, exceto um que lutou ainda por algum tempo, mas
que afinal teve de ceder.

O preo definitivo da desgraadinha era fabuloso.
S o amor  humanidade podia explicar aquela luta da parte do meu novo
conhecimento; no perdi de vista o comprador, convencido de que iria
disfaradamente ao leiloeiro dizer-lhe que a quantia lanada era aplicada 
liberdade da infeliz. Pus-me  espreita da virtude.

O comprador no me desiludiu, porque, apenas
comeava a espreit-lo, ouvi-lhe dizer alto e bom som:

  para a liberdade!

O ltimo combatente do leilo foi ao filantropo,
apertou-lhe as mos e disse-lhe:

  Eu tinha a mesma inteno.

O filantropo voltou-se para mim e pronunciou
baixinho as seguintes palavras, acompanhadas de um sorriso:

 No v agora dizer l na folha que eu pratiquei
este ato de caridade.

Satisfiz religiosamente o dito do filantropo, mas
nem assim me furtei  honra de ver o caso publicado e comentado nos outros
jornais.

Deixo ao leitor a apreciao daquele airoso duelo
de filantropia.

Se queres a caridade s escondidas, dizia-me um dia
um filantropo, sers forado a admitir que a natureza da caridade  a natureza
da coruja, que foge  luz para refugiar-se nas trevas: tira as
conseqncias.

Podia opor a este impertinente a figura da violeta
e o texto do Evangelho, mas so demasiado clssicos para os filantropos
realistas.

Voltemos aos fiscais e  chuva.

O que tenho a dizer queles funcionrios  amigvel
e franco. Se h alguns pontos da cidade que ainda no permitem um asseio
completo e irrepreensvel, lia outros que no tm merecido a ateno que se lhes
deve. A imprensa anda diariamente cheia de reclamaes. Seria til que, de uma
vez, se pusesse termo a essas queixas, fazendo do asseio da capital uma
realidade.

A cmara municipal ajudaria os Srs. fiscais naquilo
em que se tornasse necessria a interveno dela, e deste modo o trabalho no
seria ilusrio.

Se isto  uma necessidade em todas as
circunstncias e em todos os tempos, muito mais agora que estamos em vspera de
receber ilustres hspedes, e que se ho de celebrar festas por ocasio do
auspicioso consrcio de Suas Altezas.

Faamos como faz o pobre asseado que no tem
toalhas de linho  ofereamos a nossa toalha de algodo, mas lavada e
engomada.

Creio que esta linguagem est nos limites da
moderao e da justia.

A Cruz  o trao de unio para ligar todos
os assuntos. No passarei adiante sem dizer duas palavras a respeito do nmero
de ontem. Naquela seara h sempre muita coisa a colher.

Da vez passada, a Cruz nos deu o modelo de
um bom bispo. Querem os leitores saber o que  um bom catlico? Diz a
Cruz:

 Um bom catlico  Uma carta de Argel
noticia que no sbado anterior  morte do general Plissier, duque de Malakof,
recebeu ele a absolvio e a comunho das mos do bispo de Argel, sendo-lhe
administrados os ltimos sacramentos na vspera da sua morte.

O que a Cruz diz do general Plissier podia
dizer igualmente de centenas de pessoas que morrem na comunho da Igreja e com
todos os sacramentos, sem que, entretanto, fosse necessrio adjetivar o
substantivo.

 Um catlico  era suficiente.

Eu s compreendia a notcia da Cruz, se
acaso o ilustre general, nos ltimos dias da vida, estivesse cercado de doutores
judeus, maometanos e protestantes, armados de Talmudes, Korans ou bblias
modificadas, procurando cada seita chamar o moribundo s suas doutrinas; se o
general, nesta ltima Malakof, muito mais brilhante que a outra  ficasse fiel
aos princpios da Igreja, estava explicada a notcia da Cruz, e no s a
notcia como o adjetivo.

De outro modo no se compreende.

No me demoro em outras preciosidades da
Cruz. Direi, contudo, que j descobri a utilidade desta folha, e estou
longe de pensar com os que entendem que uma imprensa deste gnero no serve aos
interesses legtimos da religio.

Serve de muito.

O modo, porm,  engenhoso, e adivinha-se at no
titulo da gazeta. A Cruz  realmente cruz: serve para experimentar a f
dos catlicos; se, no fim de um ms de leitura, o catlico no tem perdido a f
em que vive,  est livre de tornar-se herege... Isto  o que acontece nas
outras partes, com os outros jornais do mesmo gnero, quer se chamem o
Universo, a Nao ou a Grita.

Passado o trao de unio, anuncio aos meus leitores
a presena, em nossa capital, de trs crianas; dois pianistas e um violinista,
Hernani, Liguori e Pereira da Costa; o segundo brasileiro, os outros
portugueses.  para completar a poca das crianas, j comeada pela companhia
dos meninos florentinos.

Deixai as crianas virem at ns.

Os florentinos, sobretudo na parte coreogrfica,
continuam a excitar o entusiasmo do pblico do Teatro Lrico.

Do talento dos novos artistas chegados da Europa e
do sul do imprio, Costa, Hernani e Liguori, apenas sei o que me dizem cartas
insuspeitas, e o que escreveram os jornalistas que os ouviram. Creio que
brevemente se nos dar ocasio de apreci-los.

Antes de concluir, quero agradecer a um jornal do
Sul, que transcreveu para as suas colunas o pedao do folhetim em que eu
relatava o milagre Lopes Netto. Foi com o mais vivo prazer que eu li essa
transcrio, destinada a dar maior publicidade ao fenmeno que tive a honra de
descobrir e narrar nestas colunas.

Dar-me-ei por feliz se as outras folhas do Sul e do
Norte imitarem o exemplo do nosso colega, de maneira a fazer com que a notcia
se espalhe, e chegue a todos a narrao do incidente mais importante da sesso
parlamentar.

Quem no pde fazer milagres,
denuncia-os.

Ho de notar que, de princpio a fim, tenho-me hoje
referido ao Sul.  para l que esto voltados todos os espritos: o folhetim
recebe a influncia do tempo, no lh'a impe.

Para que se no enfadasse o Norte, eu podia imitar
aqui um poeta, filho do Sul, vtima de uma figura e de uma rima. A rima era a
palavra   Norte  e a figura era simbolizar no Sul o alvo de todos os
seus desejos. O poeta produziu este verso:

  Sul, tu s meu Norte!

1. DE AGOSTO DE
1864.

A semana que findou teve duas festas uma festa da
dinastia, outra da indstria; nacionais ambas; ambas celebradas na quinta do
Imperador.

Sua Alteza Imperial completou 18 anos; esta
circunstncia e a do seu prximo casamento deram ao dia 29 de julho maior
importncia ainda.

Sua Alteza est moa; chegou  idade em que lhe 
preciso observar os acontecimentos, estudar maduramente as instituies, os
partidos e os homens; enfim, completar como que praticamente a educao poltica
necessria  elevada posio a que deve assumir mais tarde.

Se a esta circunstncia ligarmos outra, a do
prximo casamento de Sua Alteza, ter-se- compreendido a mxima importncia do
dia 29.

Esta importncia nada perde de si diante das
instituies que nos regem  apesar de j ir longe o tempo em que o prncipe de
Ligne, dizendo-lhe a Imperatriz Catarina que ia consultar o seu gabinete,
respondia:

  O gabinete de S. Petersburgo, bem sei o
que   vai de uma fonte a outra, e da testa  nuca de Vossa
Majestade.

Se hoje no  assim, nem por isso o critrio do
imperante deixa de tomar parte no desenvolvimento e na prtica das
instituies.

A festa da indstria foi a distribuio dos prmios
conferidos aos expositores da ex-posio nacional e da exposio de
Londres.

Deus sabe quantas folhas de papel eu no gastaria,
se dissesse tudo o que se me oferece dizer a propsito da indstria nacional.
Limito-me a assinar, com todo o pas, os votos de que as freqentes exposies e
a iniciativa individual consigam levar a nossa indstria ao maior grau de
elevao.

H muito tempo que me no ocupo de poltica amena.
No tenho reparado se nos torneios parlamentares tem havido alguma coisa que
requeira esta denominao; mas, para no ficar inteiramente baldo desta vez,
farei uma vista retrospectiva e denunciarei um pedacinho oratrio que escapou a
um dos nossos padres conscritos.

Este no usou da fraude a que eu tive a honra de
aludir quando escrevi no meu segundo folhetim:  Ser til que a civilizao
acabe com este uso de andar de jaqueta diante dos contemporneos e ir de casaca
 Posteridade.

Tratava-se de substituir o cvado histrico e a
libra tradicional, por denominaes novas, arranjadas por meio de razes gregas.
A alterao dos nomes trazia igualmente a alterao dos pesos e das
medidas.

Alguns oradores combatiam o projeto, entre outras
razes pela dificuldade e complicaes das novas denominaes. Um orador, depois
de mostrar as vantagens do projeto, passou a apreciar este ltimo argumento, e
disse, pouco mais ou menos, estas palavras:

  No acho, Sr. presidente, que esta razo
deva pesar em nosso animo. Se os nomes so arrevesados, nem por isso deixar de
fix-los a memria do povo. Tambm no so fceis as denominaes francesas das
figuras de quadrilha, e contudo vemos que, em um baile entre ns, apenas o
mestre-sala as pronuncia, saem os pares a executar as diferentes figuras
anunciadas.

Este argumento coreogrfico, este raciocnio
prprio de Terpscore, calou no nimo dos ouvintes e foi um verdadeiro En
avant tous!  todas as opinies, adversas, amigas ou vacilantes, ao ouvirem
as palavras do orador, deram-se as mos e fizeram la grande
chaine.

Felizmente est impresso e h de passar 
posteridade como foi ouvido.

Este gosto de ser ameno e divertido invade tudo e
aplica-se s coisas mais srias e mais graves.

Exemplo:

No h muito tempo, li numa folha do Norte uma
notcia cujo ttulo era:

Quis antes tiro que gaiola.

No tive tempo de refletir na elegncia da frase;
confrangeu-se-me o corao com a idia de que o noticiarista, a propsito de
algum passarinho, escapo da gaiola do caador e morto com uma carga de chumbo,
se lembrasse de ser engraado e fazer rir os leitores.

Pobre passarinho!  dizia comigo  fizeste um
esforo, aproveitaste a porta aberta e abriste as asas no espao, ao ar livre,
no reino infinito da liberdade em que nasceste. Teu dono estimava-te, mas
estimava-te como os tiranos estimam os povos que dominam  ao saber que fugiras
enraiveceu-se, espumou, gritou, travou de uma arma carregada, correu ao campo;
viu-te sobre uma rvore, a cantar de alegria, disparou o tiro, e deitou-te ao
cho!

E como se isso j no bastasse, a nica necrologia
que tiveste foi um chasco do noticiarista  quando, fugindo  gaiola, tu no
fizeste mais do que fazemos ns outros, aves de Plato.

Fiz outras consideraes antes de continuar a ler a
notcia; mas no sei com que Palavras refira o meu espanto, quando, em vez da
fuga e da morte de um pssaro, li a narrao da fuga e da morte de um
homem!

Era um acusado que estava na cadeia, fazia-se o
processo, e a justia no tinha ainda pronunciado a ltima palavra; o ru tinha,
pois, a presuno de inocncia. Mas um dia achou facilidade de fugir e
fugiu.

Perseguido pelos soldados, o ru deitou a correr
por montes e vales; enfim, depois de alguma luta, um soldado, no sei se para
intimidar, no sei se para defender-se, disparou a espingarda, e o fugitivo caiu
fulminado.

Este fato, cheio de circunstncias to lgubres,
despertou o esprito do noticiarista em questo. A cadeia chamou gaiola,
comparou o tiro do soldado ao tiro do caador que vai distrair-se ao mato;
misturou e fez uma notcia.

Cabe aqui a mxima de La Rochefoucault a respeito
de quem corre atrs do esprito.

No corramos ns, leitor, atrs dele entremos na
casa onde se vende impresso, brochado e encadernado, o esprito de todos os
homens, mortos e vivos, poetas e historiadores, clssicos ou romnticos; vamos 
livraria.

A casa Garnier distribuiu esta semana dois livros,
um impresso em Paris, outro impresso no Rio de Janeiro.

J me tenho referido mais de uma vez  livraria
Garnier, a que devemos tantas edies aprimoradas, e que cada dia alarga mais o
crculo das suas relaes.

O livro impresso em Paris  o 1. volume da obra do
Sr. Pereira da Silva, Histria da fundao do Imprio
Brasileiro.

Acompanha o volume um belo retrato do
autor.

A edio  magnfica e das melhores que tem feito o
Sr. Garnier.

Quanto  obra em si, no  possvel dizer j coisa
alguma, diante do primeiro volume. Parece-me um livro de grande investigao
histrica, mas s a concluso nos poder dar uma idia completa e definitiva do
valor e do alcance do trabalho.

O autor ter, sem dvida, compreendido a natureza
do cometimento e o alcance das promessas que nos faz.

 difcil aos homens militantes da poltica
apreciar com o olhar imparcial do historiador os acontecimentos do passado; mas
uma vez alcanado isso, a glria reala o dever, e o aplauso redobra de
entusiasmo.

Tenho a maior sinceridade no desejo de que esta
seja a sorte da Histria da fundao do Imprio Brasileiro.

A outra obra editada pela Livraria Garnier  uma
traduo que faltava s academias: Instituies do Direito Romano
Privado, de Warnkoenig.

O autor deste difcil trabalho, o Sr. Dr. Antonio
Maria Chaves e Mello,  um homem profundamente versado no latim; empregou no
trabalho que agora v  luz, longos dias e um zelo consciencioso.

Tenho ouvido a muitos competentes louvar o trabalho
do Sr. Dr. Chaves e Mello.

Reunindo a modstia  ilustrao, o Sr. Dr. Chaves
e Mello tem um duplo direito  admirao franca da crtica e do
pblico.

J que estou na Rua do Ouvidor podia ir mais
adiante e entrar em casa do Pacheco. Dizem-me que h ali trabalhos, daqueles
primorosos que ele sabe fazer. Vejo que  tarde; fica para o folhetim
seguinte.

Que vos direi dos teatros, prezados leitores? O
Ginsio vai vestir nova roupa; S. Janurio interrompeu os seus espetculos; S.
Pedro divide-se entre a Nova Castro e a Roma Encantada; o Lrico
continua a receber o pblico, que aplaude a Alba e os meninos
florentinos.

Quanto a Emlia das Neves, no se sabe ainda onde
reapresentar, e os boatos de hoje so sempre contrariados pelos boatos de
amanh. Ora se indica este teatro e esta pea; ora se fala em outra pea e outro
teatro. Mas a verdade no se sabe ainda.

Suponho ter j falado em trs jovens artistas 
dois pianistas e um violinista  que se acham no Rio de Janeiro. Tambm no se
sabe o tempo e o lugar em que apresentaro os seus talentos ao pblico. , como
se v, uma poca de expectativa.

Antes de concluir, devo dar uma explicao aos meus
leitores habituais.

Apareo algumas vezes  segunda-feira,  hoje como
na semana passada; mas isso no quer dizer que eu tenha mudado o meu dia
prprio, que  o domingo.

A profisso do folhetim no  ser exato como um
relgio; e ainda assim, todos sabem como, at na casa dos relojoeiros, os
relgios divergem entre si.

Se  lcito ao relgio variar, no  ao folhetim
que se deve pedir uma pontualidade de Monte-Cristo.

Eu cismo nos meus folhetins sempre a horas mortas,
e acontece que nem sempre posso faze-lo a tempo de aparecer no
domingo.

Fiquem avisados.

Disse  horas mortas  para seguir a linguagem
comum; mas haver acaso horas mais vivas que as da noite?

 esta pelos menos a opinio de um poeta nos
seguintes versos, escritos no lbum de uma senhora de esprito.

HORAS VIVAS

 Noite: abrem-se as flores...
Que esplendores!
Cntia sonha amores
Pelo cu!
Tnues as neblinas
s campinas
Descem das colunas
Como um vu!

Mos em mos travadas,
E abraadas,
Vo aquelas fadas
Pelo ar.
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar!

 Homem, nos teus dias
Que atonias!
Sonhos, utopias,
Ambies
Vivas e fagueiras
As primeiras,
Como as derradeiras
Iluses.

 Quantas, quantas vidas
Vo perdidas!
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anjos aps anos,
To insanos,
Vm os desenganos
Afinal!

 Dorme: se os pesares
Repousares,
Vs? por estes ares
Vamos rir.
Mortas, no; festivas
E lascivas,
Somos  Horas vivas
De dormir!

7 DE AGOSTO DE
1864.

Fui ver duas coisas novas em casa do Pacheco. A
casa do Pacheco  o mais luxuoso templo de Delos da nossa capital. Visit-la de
semana em semana  gozar por dois motivos: admira-se a perfeio crescente dos
trabalhos fotogrficos e de miniatura, e vem-se reunidos, no mesmo salo ou no
mesmo lbum, os rostos mais belos do Rio de Janeiro  falo dos rostos
femininos.

No me ocuparei com esta segunda parte nem tomarei
o papel indiscreto e difcil de Paris, trazendo para aqui o resultado das minhas
comparaes.

Quanto  primeira parte,   a casa do Pacheco a
primeira do gnero que existe na capital, onde h cerca de trinta oficinas
fotogrficas.

H vinte e quatro anos, em janeiro de 1840, chegou
ao nosso porto uma corveta francesa, L'Orientale, trazendo a bordo um
padre de nome Combes.

Este padre trazia consigo uma mquina fotogrfica.
Era a primeira que aparecia na nossa terra. O padre foi  hospedaria Pharoux, e
dali, na manh do dia 16 de janeiro, reproduziu trs vistas  o largo do Pao, a
praa do mercado e o mosteiro de S. Bento.

Trs dias depois, tendo Sua Majestade aceitado o
convite de assistir s experincias do milagroso aparelho, o padre Combes,
acompanhado do comandante da corveta, foi a S. Cristvo, e ali se fez nova
experincia; em 9 minutos foi reproduzida a fachada do pao, tomada de uma das
janelas do torreo.

 isto o que referem as gazetas do
tempo.

Desde ento para c, isto , no espao de vinte
quatro anos, a mquina do padre Combes produziu as trinta casas que hoje se
contam na capital, destinadas a reproduzir as feies de todos quantos quiserem
passar  posteridade... num bilhete de visita.

A primeira coisa que eu fui ver em casa do Pacheco,
foi uma delicada miniatura, verdadeira obra prima da arte, devida ao pincel j
conhecido e celebrado do Sr. J. T. da Costa Guimares.

O Sr. C. Guimares  um dos mais talentosos
discpulos que tem deitado a nossa academia das belas artes.

O novo trabalho de miniatura do Sr. C. Guimares 
um retrato de Diana de Poitiers, sob a figura de Diana Caadora.

Diana de Poitiers foi uma destas criaturas que
trazem consigo o elixir de longa vida e o elixir de longa beleza. Aos 40 anos
inspirou a Henrique II essa paixo profunda que soube alimentar at aos 60, e
to bela era nesta ltima idade, que um escritor do tempo dizia o
seguinte:

 Vi-a seis meses antes de morrer, to bela
ainda que eu no sei se pode haver corao de pedra que se no apaixonasse por
ela.

A miniatura do Sr. Costa Guimares corresponde 
idia que fazemos da amante de Henrique II. Parece represent-la aos trinta
anos.  apenas meio corpo, tendo parte de uma espdua e a cintura cingidas por
um estofo cinzento, e o resto em toda a esplndida nudez da beleza. Pende-lhe a
tiracolo o carcaz, e sobre a testa, no meio de uma onda de magnficos cabelos,
v-se a figura astronmica da irm de Phebo.

A delicadeza de traos, a viveza de colorido, a
verdade de expresso, a graa do gesto tornam a miniatura do Sr. C. Guimares um
trabalho digno de ser apreciado.

A outra novidade que fui ver  casa do Pacheco foi
um aparelho fotogrfico, chegado ultimamente, destinado a reproduzir em ponto
grande as fotografias de carto. No vi ainda trabalhar esse novo aparelho, mas
dizem que produz os melhores resultados. At onde chegar o aperfeioamento do
invento do Daguerre?

Feita a justia  arte moderna e a um dos seus
melhores templos  passemos a fazer justia  prpria justia, ou antes aos que
tm por misso represent-la.

Quer o leitor escrever um livro in-folio,
da grossura de um missal, em caracteres microscpicos? Escreva a histria dos
abusos judicirios e policiais que se do cada ano neste nosso abenoado
pas.

O assunto d at para mais.

Na semana que findou chegaram gazetas de Campos,
onde vm narrados dois fatos que podem figurar na obra que indiquei
acima.

Aqui vai o primeiro:

Um preso de nome Fidelis, acusado por crime de
furto, foi ao jri, mas teve de voltar para a cadeia por no ter comparecido uma
s testemunha. Ora, Fidelis j est preso h mais tempo, talvez, do que lhe
cumpriria no mximo da pena. No pra aqui; a cadeia  imunda; Fidelis entrara
para l de perfeita sade, mas quando saiu para o tribunal era outro, to mudado
se achava.

Outro fato:

Compareceu tambm ao jri e inutilmente, como
Fidelis, um preso de nome Vidal, cujo crime era o de resistncia. Vidal est na
cadeia h mais de um ano, e depois que l est perdeu a mulher e dois filhos,
reduzidos  maior misria.

O Despertador, dando notcia deste fato,
acrescenta uma frase tocante:  Ah! pobre homem! Quando voltar a casa h de
ter saudades da cadeia.

Se vivssemos no tempo de Charondas e de Cambyses,
a medida que se tomaria em casos tais seria pouco mais ou menos esta: dividia-se
o tempo da pena correspondente ao delito dos rus e puniam-se em partes iguais
os autores e cmplices dos abusos que acabo de mencionar.

No se persuada o leitor que eu lamento os tempos
de Cambyses e de Charondas, posto que algumas das leis que aqueles dois
legisladores fizeram so ainda hoje usadas em vrios pases.

No sistema parlamentar, por exemplo, usa-se ainda a
lei que Charondas decretou sobre os cidados que quisessem propor a revogao, a
alterao ou o aperfeioamento de quaisquer leis do Estado.

Quando qualquer cidado pretendia fazer alguma
proposta neste sentido, era levado  assemblia, com um lao ao pescoo. Se a
proposta era aceita, ficava livre; se era rejeitada corria-se o lao, e havia um
cidado de menos.

O resultado deste sistema era pura e simplesmente a
supresso das minorias e a vitria das maiorias soberanas. A mesma lei 
empregada hoje, com uma diferena nica, e   que o proponente, no tempo de
Charondas, morria uma vez,  ao passo que hoje morre para ressuscitar e morrer
de novo, sempre que se lembrar de iniciar alguma revogao.

Exprimindo-me deste modo, estou longe de contestar
a comodidade do sistema; limito-me a observar que  essa uma das leis adotadas
nos cdigos parlamentares.

Se o leitor se aborrece dos assuntos da
Cruz, salte alguns perodos, e achar outras coisas para ler.

A Cruz continua a ver no general Plissier
um modelo de homem catlico, coisa que eu no tenho a pretenso de contestar,
mas que me serve para dizer  Cruz que, na qualidade de gazeta religiosa,
ela no deve fazer selees desta natureza.

s razes j apresentadas, apresenta a Cruz
mais uma, no nmero que se distribuiu ontem.

Tratava-se da guerra da Crimia; marcou-se o
assalto de Sebastopol para o dia 8 de setembro.

Houve quem objetasse que alguns anti-papistas
podiam ver a escolha do dia como um excesso de devoo; ento o general
Plissier insistiu dizendo que, exatamente por ser aquele o dia da Virgem,  que
se devia dar o assalto, confiando-se na proteo da me de Deus, pensassem os
anti-papistas o que lhes parecesse.  E Sebastopol, diz a Cruz, foi
tomada no dia 8 de setembro!

Ora, como para mim  ponto de f que a Virgem no
intervm por forma alguma nesta coisa inqua, ridcula, brbara e grotesca, que
se chama   Guerra,  acho que era este o caso de dizer ao finado duque
de Malakoff:  Fia-te na Virgem e no corras!

 A fora e a percia dos aliados  que
venceram na batalha; o dia no produziu a vitria, como a beno do papa no
legitimou o imprio mexicano (com perdo do Sr. Lopes Netto).

Depois de citar mais trs atos praticados pelo
finado duque  o oferecimento de uma cruz tomada em Sebastopol a uma igreja, o
oferecimento dos seus servios ao papa, e por ltimo, ter morrido abraado com
uma cruz do Santo Sepulcro, a Cruz acrescenta:

 Ah! se os nossos homens de guerra pensassem
como este valente general, quanto seramos felizes e o pas conosco!

Dispenso-me do trabalho de desviar dos nossos
generais a censura da Cruz.

Esta insistncia da Cruz faz-me lembrar uma
clebre discusso havida este ano no senado, em que tomaram parte alguns
ministros,  sobre se o governo acreditava ou no na Providncia,  o que, seja
dito entre parnteses, no fez crescer mais um bago de caf, nem melhorou as
condies da liberdade individual.

A propsito de liberdade  h, em uma das
provncias do Norte, uma folha com este ttulo, e que parece dar uma
significao singular  palavra que lhe serve de bandeira. Com efeito, eis o que
esta folha, em um dos seus nmeros, julgou dever escrever a respeito de um
assinante remisso:

 Velhacaria.   verdade. Agora tambm podemos
afirmar que o tal Cazuza da mame-dindinha  velhaco convicto.

Mandando nos exigir dele o pagamento da assinatura
desta folha, de trs quartis  disse ao nosso preto, que nunca a leu! .. . 
preciso ser um infame caloteiro para proceder deste modo.  verdade que quem
mandou vender at os fundos de garrafas ao negociante Carreira por 880 ris 
capaz de tudo, e de mais.

 transparente o motivo desta linguagem; no foi
negar-se o assinante ao pagamento, foi no ter lido a folha. A Liberdade
reconhece todas as liberdades, menos a liberdade de no ler a Liberdade.
 como alguns tolerantes que toleram tudo, menos o direito de negar um pouco a
tolerncia deles.

Oh vaidade humana!

Para que os leitores no deixem de ter desta vez
uma pgina de bom quilate, recebi pressuroso a carta que me enviou um amigo e
colega, e que vai transcrita mais adiante.

Alguns dos leitores quereriam talvez que eu
suprimisse as palavras laudativas com que o meu colega e amigo me honra nessa
carta, isto por convenincia de modstia  daquela modstia  qu'on
impose aux autres, como diz Alphonse Karr. Todavia, eu tomo a liberdade de
inserir a carta integralmente, porque isso em nada prejudica a modstia natural
e verdadeira,  que  muito diversa da modstia de conveno e de
palavra.

Feito o que, dou a palavra ao meu colega e
amigo:

 Meu caro poeta:

Nunca ambicionei, como neste momento, possuir a
pena maravilhosa que manejas com tanta facilidade e talento, e que se ufana do
gracioso condo de transmitir ao leitor o eco simptico e ainda vibrante de tuas
inspiraes.

Mas, como te conheo, sei que no reacusars a um
teu obscuro admirador um pequeno espao em teu aprecivel folhetim, para te dar
notcia de uma reunio a que no assististe, mas de que eu e muita gente
conservamos a mais grata recordao.

Em um dos mais pitorescos arrabaldes da cidade e 
porta de uma casa conhecida pela amabilidade dos seus donos, entrava sbado
passado um grande nmero de pessoas que haviam sido convidadas para assistir s
fogueiras de Sant'Anna.

Os sales acharam-se em breve povoados de um
luzido, elegante e distinto concurso.

O primor das toilettes, a formosura e
donaire de muitas senhoras e moas que animavam com sua presena o risonho
recinto daquelas salas, o movimento das danas, as melodias do canto, os sons
harmoniosos da msica, o rumor incessante das conversaes, os ditos de esprito
que se cruzavam, os raios fulgurantes dos olhos que se encontravam, e falavam
muitas vezes inspirados em sua muda eloqncia, tudo enfim imprimiu ao encanto
desta noite um cunho de interesse, prazer, movimento e alegria que deu um
notvel realce  festa.

No me cansarei em mencionar-te o nmero das
quadrilhas, o nome das polcas, a estatstica completa do itinerrio danante;
basta que te diga que os minutos e os instantes foram aproveitados com usura, e
que havendo o baile comeado s oito horas da noite, s seis da madrugada ainda
se danava com frentico e delirante entusiasmo!

A esta hora, porm, sucedeu ao rumor vertiginoso do
folgar profano, o concentrado silncio da adorao religiosa. Foi bela e sublime
a idia! Os convidados que haviam tomado parte nos divertimentos da noite, foram
assistir a uma missa celebrada em um oratrio, ao lado dos sales brilhantes,
que anda h poucos momentos estremeciam ao rudo das danas, ao eco estridente
das msicas e ao som desencontrado dos risos e das palavras!

Depois da festa do mundo, a festa de Deus! Depois
do gozo, a adorao! Depois do sentimento, o xtase! Depois do homem, o criador
por ele glorificado! Era um quadro novo e impressionante!

Sobre aqueles tapetes, onde poucos instantes antes
se agitavam os ps mimosos e rugiam as sedas das elegantes damas, ajoelhavam-se
elas agora, prestando o ouvido atento s notas da msica religiosa e dos cantos
divinos, mais belos ainda e radiantes com este batismo de adorao
matinal!

Os que assistiram a este ato sentiram-se melhores,
rendendo depois do prazer graas  Providncia! A noite consagrada a esta festa
no se gastou inutilmente. A conscincia revelou a todos que haviam praticado
uma ao boa, e os convidados dispersaram-se depois desta cerimnia, agradecidos
para com Deus e gratos para com aqueles que haviam sido os intermedirios entre
as festas do cu e as da terra!

Que mais acrescentarei a estas palavras? Dizer-te
que o servio, a franqueza, o geral contentamento corresponderam s delicadezas
dos donos da casa, seria fazer um pleonasmo, depois de haver-te contado o que se
passou e de saber quem eles so.

Prometi-te, como se faz s namoradas, uma lembrana
da reunio. Aceita estas linhas, e possam elas, perfumadas ao contato de teus
poticos pensamentos, recender como os ramos de violetas que as moas desprendem
do seio ao voltar do baile. Teu amigo...

No folhetim seguinte direi algumas palavras sobre a
noite de anteontem na Campesina.

14 DE AGOSTO DE
1864.

Antes de comear estas pginas consultei alguns
amigos

 Ser certo? perguntei-lhes. Os meus olhos no me
enganam? Pois o Sr. Marqus de Abrantes, um ancio respeitado, um membro da
cmara dos senadores, recinto da gravidade e da prudncia, o Sr. Marqus de
Abrantes, tantas vezes ministro da coroa, proferiu as trs palavras de que nos
d conta o Correio Mercantil?

Os meus amigos responderam-me
suspirando:

 Ah!  mais que certo! S. Excia. proferiu essas
palavras infelizes!

As palavras a que me refiro foram ditas em aparte
ao Sr. Visconde de Jequitinhonha. Aqui vai o pedacinho do discurso para melhor
ser apreciado o aparte do ilustre marqus.

Diz o Sr. visconde de Jequitinhonha:

ora, algum j viu, segundo a aritmtica moderna
ou antiga que 69:555$939 com 14:020$672 somasse 101:668$526?
(hilaridade). Estou que todos somaro 83:576$611; e ento o
deficit que S. Excia., o nobre provedor, achou na casa dos expostos de
20:061$607 fica reduzido a 1:969$492. O saldo que ficou do ano anterior, diz o
relatrio,  de 7:200$, deduzindo-se estes 7:200$ dos 20:061$407, fica um
deficit, diz ainda o relatrio, de 12:000$, quando alis, digo eu, deve
existir em vez de deficit, um saldo de 5:230$508!!!

Ora, estes enganos crassssimos que aparecem no
relatrio, pelo que diz respeito  casa dos expostos, no me do direito a
desconfiar que as contas do hospital geral no sejam exatas?

Eu espero, Sr. presidente, que o nobre provedor
explicar isto ...

O Sr. Marqus de Abrantes:   No caio
nessa.

Confesso que ao ler este aparte do Sr. Marqus de
Abrantes caiu-me a alma aos ps, no s pela vergonha que ele me causou, como
pelas consideraes que do fato se podem deduzir.

Em que tempo estamos? Que pas  este? Pois um
funcionrio pblico, elevado s primeiras posies,  no para satisfao da
vaidade, mas para servir ao pas  responde daquele modo a uma intimao to
grave?

No  lisonjeiro o estado da nao ante a qual se
pronunciam tais palavras com a frescura que elas respiram, e que o ilustre
marqus sabe empregar. Com exemplos desta ordem, s conseguireis ter uma
mocidade sem f, sem decoro, sem iluses; nada alcanareis que seja durvel,
digno, elevado.

Todos conhecem o ar imperturbvel do ilustre
marqus. Estou a v-lo daqui, pronunciar as trs palavras em questo, e
conservar-se tranqilo como se houvesse dito prolas. Nem a apstrofe do Sr.
Visconde de Jequitinhonha pde mov-los. S. Excia ouviu o resto do discurso,
tomou os seus papis e jornais, e desceu para tomar o coup.

S. Excia. esquece, de certo, que h duas cadeiras
do representante da nao: uma no parlamento, outra na opinio pblica; e que
muitas vezes o indivduo ainda ocupa a primeira, quando j tem perdido a outra
h muito tempo.

No consta que S. Excia. tenha explicado as suas
palavras. Nem elas sofrem explicao possvel. O ilustre marqus s tem um meio
de resgatar o perdido.  duro, mas  o nico meio leal, srio, digno:  pedir
franca e humildemente ao senado a remisso da culpa, e confessar que aquelas
palavras lhe escaparam por um movimento de despeito;  dizer que naquele momento
se esquecera de que era um servidor do pas, para lembrar-se de que tinha
reputao de boas pilhrias; mas que, perfeitamente arrependido, retira as
palavras com que ofendera o decoro do senado e o decoro do pas.

Se no fizer isto, creio poder afirmar-lhe que as
trs palavras ho de servir-lhe de epitfio, qualquer que seja a expresso de
saudade que os seus amigos se lembrem de lhe abrir. Na opinio o epitfio do
nobre marqus h de ser por este teor:  Aqui jaz um senador do imprio que,
interpelado a respeito de dinheiros pblicos, respondeu tranqilamente ao
interpelante:

 NO CAIO NESSA!

Sem sair do senado, e apenas volvendo os olhos para
os bancos opostos, encontra-remos o Sr. Jobim, autor de alguns discursos sempre
lidos com interesse.

Est hoje provado que os discursos do Sr. Senador
Jobim so o melhor remdio contra o aborrecimento crnico ou agudo, no porque
S. Excia. seja dotado de graa, mas por serem os discursos mais desenxabidos,
mais incongruentes, mais extravagantes que inda se ouviu.

Tive a pachorra de ler o ltimo discurso e S.
Excia., de fio a pavio. S. Excia. tratou e vrias questes, insistiu em algumas,
embrulhou quase todas. Para que os leitores faam idia do discurso a dou o
ndice dos pontos de que ele trata:

Carnes verdes;
Matadouro;
Cemitrio humano e cemitrio de animais;
Falsas aparncias do gado vaccum;
guas potveis;
Necessidade de espalhar o gnero humano;
A mudana da cidade;
Irms de caridade;
Instruo superior;
Criao de universidade;
O Contrato Social;
Quadro lgubre dos costumes acadmicos de S.
Paulo;
Um axioma de Plato;
Elegia sobre a sorte dos calouros;
Hymno em ao de graas por ter-se abolido o
entrudo, e algumas palavras sentidas sobre as calas brancas dos homens
srios;
Uma anedota da escola de medicina da Corte,
apimentada com algumas reticncias;
Indignao por uma comdia em que um magistrado
nosso zomba da medicina legal;
Relaxao dos costumes da populao de S.
Paulo.

Etc., etc., etc.

Fora longe, se quisesse apreciar, em todos os seus
pontos, o discurso do diretor da escola de medicina. Deixo de parte tudo, para
dizer duas palavras a respeito do ponto em que S. Excia. mais se demorou: a
academia de S. Paulo.

Quem vir o quadro lgubre pintado pelo ilustre
senador supor que a cidade de S. Paulo  uma daquelas cinco cidades que a
clera divina destruiu por meio do fogo celeste. No repetirei aqui as
expresses de que usou S. Excia.; acho que elas no podem fazer boa figura no
folhetim.

A mocidade acadmica de S. Paulo no merece, de
certo, nem as censuras, nem os eptetos de S. Excia.  S. Excia. carregou o
pincel na pintura de um quadro que nem mesmo era verdadeiro em outras
pocas.

A mocidade de S. Paulo  a mocidade: alegre,
festiva, folgaz; mas tudo isto, na medida conveniente, sem excitar to graves
receios pelos costumes pblicos.  uma mocidade inteligente, estudiosa,
laboriosa:  funda jornais, como a excelente  Imprensa Acadmica; funda
associaes como o  Tributo s Letras, Clube Cientfico,  Ateneu
Paulistano,  Ensaio Filosfico, Instituto Cientfico, e outras, tendo
a maior parte delas as suas revistas e jornais.

Nessas associaes a mocidade estuda, aprende,
discute, escreve, aperfeioa-se, estabelece o exemplo, anima os menos laboriosos
ou menos audazes; em suma, cria esses grandes ncleos de que tm sado tantas e
to vastas inteligncias.

Tal  o esprito geral que anima a mocidade
acadmica; um outro fato, em pocas j idas, no pode dar lugar  grave censura
feita na tribuna do senado pelo ilustre diretor da escola de
medicina.

Se a mocidade, nos lazeres desses trabalhos
literrios e cientficos, se mostra ardente e alegre, deixai-a, ilustre ancio;
 a mocidade,  a esperana,  o futuro; alegra-se o esprito em v-la assim,
consola-se da tristeza causada pelo   No caio nessa  de que tratei
acima.

Era dever meu, dever de moo, de amigo, de
historiador fiel, deixar escrita esta contestao ao Sr. Jobim. Mas acaso o
corpo do discurso d alguma importncia s invectivas lanadas  academia? Que
vale aquela anedota do estudante de medicina? Que vale o cntico  abolio do
entrudo? Que vale a censura contra a comdia do magistrado, com a qual o ilustre
senador toma lugar entre Gunaut e Desfougerais?

Remeto os leitores hipocondracos para o Correio
Mercantil de 10 do corrente, onde vem publicado o referido
discurso.

O que nos deve consolar de tudo isto,  a marcha
brilhante das coisas polticas, e os altos servios prestados pelo Sr.
Zacharias. S. Excia., reservando-se o mais que pode nas manifestaes da
tribuna, apenas aparece l de quando em quando, para dizer algumas palavras
dbias e desdenhosas, como cabe a um ministro, provando quo pequena  a
distncia que vai de um presidente de conselho a Sganarello.

SGANARELLO
... vossa filha est muda.

GERONTE
Sim, mas eu quisera saber donde provm
isso.

SGANARELLO
 No h nada mais fcil; provm de ter perdido
a palavra.

GERONTE
Muito bem; mas a causa que lhe fez perder a
palavra?

SGANARELLO
Os nossos melhores autores dir-vos-o que  o
impedimento da ao da lngua.

GERONTE
Mas qual  a vossa opinio sobre este impedimento
da ao da lngua?

SGANARELLO
Aristteles diz a este respeito... coisas muito
bonitas!

E sem sair deste crculo vicioso, S. Excia. toma um
ar airoso, contente de si, descuidoso do resto do mundo, capaz de fazer at
perder o nimo de se lhe abrir oposio.

Todavia, no faltam acusaes graves a S. Excia.;
uma delas  a esterilidade do seu ministrio. Esta censura  demasiado grave,
para que possa ser levantada sem provas, e as provas, em que pese aos
acusadores, so contrarias  acusao.

Se apenas tomarmos a primeira metade do ms que
corre, como no  farta a lista dos servios polticos e administrativos
prestados pelo ilustre presidente do conselho?

Esta lista falar mais claro:

Correram as guas para o mar;
Chegou o paquete ingls;
Choveu alguns bons
milmetros;
Todos os moribundos se acharam com vida,
um quarto de hora antes de morrer;
Nasceram vrias crianas;
Amadureceram algumas goiabas;
Cessou a geada no interior de S.
Paulo;

 E outros acontecimentos deste gnero,
prprios para pulverizar as acusaes dos adversrios.

Mas, deixemos estes assuntos polticos, para cuidar
de outros que reclamam a ateno do folhetim e dos meus leitores.

No lhes falarei da estrada de ferro: j pouco
espao me resta, e a estrada de ferro merece, no uma coluna, mas um folhetim.
J os leitores conhecem o que se passou no passeio  barra do Pira, e sabem
tambm que a respeito do desenvolvimento deste grande tesouro do sculo no pode
haver duas opinies.

Prometi-lhes falar da Campesina e do violinista
Pereira da Costa que l executou vrias peas na noite de 7 do
corrente.

A Campesina goza por justo ttulo a reputao de um
dos melhores pontos de reunio de conversa, de msica e de dana. Contam-se ali
amadoras e amadores de msica do mais subido mrito.

Foi ali que o violinista Pereira da Costa executou,
na noite de 7, algumas peas, com geral aplauso e entusiasmo, graas  arte com
que sabe fazer falar o instrumento de Paganini.

Pereira da Costa  um moo de 17 anos. Comeou a
estudar na idade de 6 anos. Na idade de 9 anos deu no Porto o seu primeiro
concerto; em 1858 deu outro concerto em Lisboa, e a foi brindado pelo finado
rei D. Pedro V com um alfinete de brilhantes. O  Centro Promotor  colocou
o retrato do jovem artista no seu salo.

Nesse ano partiu Pereira da Costa para Paris, onde
estudou dois anos como externo e trs anos como interno do conservatrio de
Paris. Foi, como Muniz Barreto, discpulo do clebre Allard, de quem possui uma
carta, datada de 1863, onde o ilustre mestre o declara digno de
concorrer.

De volta a Portugal deu um concerto no teatro de S.
Carlos, em Lisboa, e to bem se houve, que mereceu de D. Luiz I o ttulo de
msico da real cmara.

Pereira da Costa vem demorar-se algum tempo entre
ns.  um artista digno de ser ouvido e aplaudido.

No passarei adiante sem falar da inaugurao da
sociedade de baile, e canto ultimamente organizada em Niteri.

A bela filha da Guanabara (estilo lrico) precisava
de uma sociedade deste gnero que reunisse de quando em quando as famlias do
lugar. Esta necessidade est atendida com a sociedade que deu ali a sua primeira
partida h dias.

A partida de inaugurao foi, como se. desejara,
verdadeiramente familiar, reinando durante a noite a maior animao e alegria. A
simplicidade das toilettes realava a beleza natural das damas, a graa,
a jovialidade; era como que uma festa de famlia. Danou-se, cantou-se, tocou-se
at alta noite, e os convivas saram de l aguardando a segunda partida, que
deve ter lugar este ms.

Com tais convivas e diante da urbanidade dos
cavalheiros que dirigem a festa, no  possvel que a sociedade niteroiense
deixe de concorrer e abrilhantar ainda mais, se  possvel, aquelas
reunies.

Estava disposto a escrever uma pgina de poesia,
alusiva  circunstncia de contigidade em que fica a casa da reunio e o mar,
mas sou forado a no continuar por faltar-me o espao.

Tudo tem limites, at o folhetim!

22 DE AGOSTO DE
1864.

Hoje  dia de gala para o folhetim. Visitam-me dois
poetas ilustres.

Para recebe-los, eu devia estender os melhores
tapetes, queimar os melhores leos e ornar com as flores mais belas os mais
ricos vasos de porcelana.

No podendo ser assim, fao o que posso com os meus
poucos teres.

Os meus hspedes so americanos, um da Amrica do
Sul, outro da Amrica do Norte; ambos poetas  cantando um na lngua de Cames,
outro na de Milton  e para que, alm de talento, houvesse neste momento um elo
de unio entre ambos, um criou uma pgina potica sobre uma lenda do Amazonas 
o outro criou outra pgina potica, traduzindo literal, mas inspiradamente, a
pgina do primeiro.

O primeiro  John Greenleaf Whittier, autor de um
livro de baladas e poesias, intitulado: In War Time,  Em tempo de
guerra;  livro, onde vem inserta a pgina potica em questo.

Chama-se o segundo, na linguagem simples das musas
 Pedro Luiz, poeta fluminense, dotado de uma imaginao ardente e de uma
inspirao arrojada e vivaz, autor da magnfica  Ode  Polnia, que a
corre nas mos de quantos apreciam as boas letras.

Tratando do poeta, no  ocasio de mencionar o
deputado eloqente, cuja estria despertou todas as esperanas nacionais e ps
em atividade todas as reaes do clero.

A poesia de Whittier, traduzida pelo Sr. Dr. Pedro
Luiz, intitula-se   O grito de uma alma perdida.  o modo por que os
ndios designam o grito melanclico de um pssaro que se ouve  noite nas
margens do Amazonas.

A poesia traduo parece poesia original, to
naturais, to fceis, to de primeira mo, so os seus versos.

No quero privar os entendedores do prazer de
compararem as duas produes, os dois originais, deixem-me assim
chamai-os.

Aqui vai a do Sr. Dr. Pedro Luiz:

O GRITO DE UMA ALMA PERDIDA

Quando,  tardinha, na floresta negra,
Resvala o Amazonas qual serpente,
Sombrio desde a hora em que o sol morre
At que resplandece no oriente,

Um grito, qual gemido angustioso
Que o corao do mato soltaria
Chorando a solido, aquelas trevas,
O no haver ali uma alegria,

Agita o viajor, com som to triste
De medo, do ansiar da extrema luta,
Que o corao lhe pra nesse instante
E no seu peito, como ouvido, escuta.

Como se o sino alm tocasse a mortos,
O guia estaca, o remo que segura
Deixa entregue  piroga, e se benzendo
 uma alma perdida, ele murmura.

Senhor, conheo aquilo. No  pssaro.
 alma de infiel que anda penando,
Ou ento  de herege condenado
Que do fundo do inferno est gritando.

 Pobre louca! Mofar cr que ainda pode

Da perdio;  meia-noite grita,
Errante, a humana compaixo pedindo,
Ou dos cristos uma orao bendita.

Os Santos, em castigo, a tornem muda!
A me do cu nenhuma reza ensina
Para quem, no mortal pecado, arde
na fornalha da clera divina!

Sem replicar, o viandante escuta
Do pago batizado essa mentira,
To cruel que de novo horror enchia
O grito amargurado que se ouvira.

Frouxamente arde o fogo da canoa;
Em torno aumenta a sombra da espessura
Dos altos troncos com cips nodosos;
Silenciosa corre a gua escura.

Porm no corao do viajante,
Secreto sentimento de bondade
Que a natureza d, e a f constante
Do Senhor na infinita piedade,

Levam seus olhos  estrela da estncia;
E ali, os gritos mpios censurando
Por toda a terra  a Cruz do perdo brilha

Esses cus tropicais alumiando.

Meu Deus! exalta a splica fervente,
Tu nos amas, a todos; condenado
Para si, pode estar teu filho errante,
Jamais ser por ti abandonado.

Todas as almas te pertencem, todas
Ningum se afasta,  Deus Onipotente,
De teus olhos nas asas matutinas,
Pois at l no inferno ests presente.

Apesar do pecado, da maldade,
Do crime, da vergonha e da amargura,
Da dvida, e do mal  sempre ilumina
Teu meigo olhar a tua criatura.

Em teu ser,  Princpio e Fim eterno!
Reata o fio dessa triste ida;
Oh! muda, muda, em cntico de graas
Esse grito infeliz da alma perdida!

Aqui vai agora o original:

THE CRY OF A LOST SOUL

In that black forest, where, when day is done,

With a snake's stillness glides the Amazon

Darkly from sunset to the rising sun,

A cry, as of the pained heart of the wood,

The long, despairing moan of solitude
And darkness and the absence of all
good,

Startles the traveler, with a sound so drear

So full of hopeless agony and fear,
His heart stands still and listens like his
ear.

The guide, as if he heard a death-bell
toll,
Starts, drops his oar against the gunwhale's
thole
Crosses himself, and whispers  A Lost
Soul!

 No, senhor, not a bird. I know it well, 
It is the pained soul of some infidel
Or cursed heretic that cries from hell.

Poor fool! with hope still mocking his despair,

He wanders, shrieking on the midnight air,

For human pity and for Christian prayer.

Saints strike him dumb! Our holy mother hath

No prayer for him who, sinning unto death,

Burns always in the furnace of God's
wrath!

Thus to the baptized pagan's cruel he,
Lending new horror to that mournful cry,

The voyager listens, making no reply.

Dim burns the boat-lamp; shadows deepen round,

From giant trees with snake-like creepers wound,

And the black water glides without a
sound.

But in the traveler's heart a secret sense

Of nature plastic to benign intent,
And an eternal good in Providence,

Lifts to the starry calm of heaven his eyes

And lo! rebuking all earth's ominous cries,

The Cross of pardon lights tropic skies!

Father of all!  he urges his strong plea,

Thou lovest all'; thy erring child may be

Lost to himself, but never lost to
Thee'.

All souls are Thine; the wings of morning bear

None from that Presence which is everywhere.

Nor hell itself can hide, for Thou art
There,

Through sins of sense, perversities of will,

Through doubt and pain, through guilt and

shame and ill,
Thy pitying cry is on thy creature
still.

Wilt Thou not make, Eternal Source and
Goal!
In Thy long years, life's broken circle
whole,
And change to praise the cry of a lost
soul.

Feitas as devidas honras da casa, como devia e como
podia, aos dois eminentes filhos das musas, passo a lanar os olhos aos
acontecimentos da semana.

Dois assuntos preocupam atualmente o esprito
pblico: os negcios do Rio da Prata e o casamento de Suas Altezas.

Parece que eu devia acrescentar:  e as eleies
municipais. F-lo-ia sem reserva se acaso fosse assim; mas ningum se preocupa
atualmente com as eleies, que ho de ser feitas daqui a 15 dias.

Ningum, digo mal; ocupam-se e preocupam-se os
candidatos, isto , um quinto da populao, ao menos aqui na Corte. Fora desses,
ningum mais gasta dois minutos em pensar no voto que se h de dar no dia 7 de
setembro, para renovar a primeira e a ltima das instituies de um pas, como
se exprime um grande escritor.

A um dos candidatos  vereana escrevi h dias um
bilhete nestes termos:  Quero um bilhete para assistir aos funerais do
municpio. Espero igualmente ser o poeta escolhido para escrever o epitfio do
ilustre finado.

Quando este candidato me encontrou, dias depois,
mostrou-se magoado pela liberdade das minhas expresses, e estranhou que eu
desse por morto o municpio, cuja vitalidade demonstrava com as publicaes dos
jornais... a pedido.

 Olha, dizia-me ele ontem, mostrando-me a segunda
pgina do Jornal do Comrcio, vs esta infinidade de listas? Queres maior
prova da vida do municpio?

 Meu caro, isso prova apenas a vida dos
candidatos, no a do municpio. Se o municpio no est morto, est doente; a
indiferena pblica no pode ser maior do que  hoje. Se o povo se agita e
comove na ocasio da eleio poltica, com igual razo devia comover-se e
agitar-se na eleio municipal, porque a municipalidade  o poder que lhe fica
mais  vista, aquele que mais direta e freqentemente influi na satisfao das
suas primeiras necessidades.

Poupo aos leitores o resto do meu discurso que,
apesar de sensato, como se v, no abalou o candidato; o que no me admirou, 
porquanto a vaidade dele exigia que o povo tomasse grande interesse na luta
eleitoral, e que, naquele momento, debaixo de todos os telhados do Rio de
Janeiro se discutisse o valor e o alcance de um nome to distinto como o
seu.

Et omnia vanitas.

Os leitores no exigem de mim a enumerao das
causas mltiplas que originam esta indiferena pblica. Creio, porm, que lero
com prazer algumas palavras com que vou auxiliar o esprito da futura
cmara.

A futura cmara, para bem desempenhar os seus
deveres e levantar a instituio do abatimento em que jaz, deve observar trs
preceitos.

Esses trs preceitos so os seguintes:

1  Cuidar do municpio.

2 Cuidar do municpio.

3 Cuidar do municpio.

Se fizer isto, ter cumprido seu dever, sem que da
lhe resulte nenhum direito  menor parcela de louvor, e contribuir com o
exemplo para que as cmaras futuras entrem no verdadeiro caminho de que  to
infelizmente  se ho desviado.

No entrando nas preocupaes do esprito pblico a
eleio municipal, reduzem-se aquelas aos negcios do Rio da Prata e ao
casamento de Suas Altezas; os negcios do Rio da Prata, pela situao extrema a
que chegaram; o casamento, pela prxima chegada dos augustos noivos, segundo
corre.

Aqui devo eu dizer qual  a situao do esprito do
Sr. presidente do Conselho.

S. Excia. vive atualmente sob a influncia de dois
grandes desejos  espcie de Prometeu, rodo por dois abutres  um no fgado,
como o antigo, outro no crebro, abaixo da parte posterior e superior do osso
parietal. Segundo a doutrina de Gall e Spurzheim,  neste ltimo ponto que
reside o rgo da vaidade.

Deseja o ilustre estadista: uma retirada e uma
chegada; a retirada das cmaras e a chegada dos augustos noivos. S. Excia. v
que, no alto posto em que se acha colocado, no pode deixar de obter o
sacramento da confirmao, e S. Excia.  muito bom catlico para no ir em
procura dele.

Uma vez alcanado o sacramento, S. Ex. que pode
viver independente, mesmo das leis do dever constitucional, passar
tranqilamente a vara a outros, recitando o clebre verso de Sylla:

J'ai gouvern sans pour, et j'abdique sans
crainte.

A propsito do assunto guerreiro da semana, no
quero esquecer-me de uma reflexo que ouvi a um deputado, orando h dias na
cmara.

  necessrio, dizia ele, que o Brasil tenha uma
forte organizao militar, porque  esse o meio de fazer-se respeitar pelas
outras potncias.

Esta reflexo  de uma justeza irrepreensvel e
mostra bem como estamos longe da denominao que aprouve a alguns poetas dar ao
nosso sculo.

 fora!  divina fora! Quem  que teve a triste
idia de dar-te por morta, enterrar-te e embalsamar-te? No s tu ainda a grande
razo, a ultima ratio do nosso tempo?

Despovoado o cu dos pagos, tenho para mim que
ainda l ficaram dois deuses, aceitos pelo tempo, Mercrio e Palas, esta, armada
em guerra. Assim, quando em janeiro de 1863 se deu no nosso porto o fato das
represlias britnicas, imagino que houve entre as duas divindades o seguinte
dilogo:

Palas  Ah! o imprio resistia, armava-se do
direito contra as minhas fragatas! Respondia com altivez! levantava a cabea
diante dos meus canhes! Pois agora sofra as conseqncias do erro.

Mercrio  Longe de mim,  Palas, contrariar o teu
justo ressentimento: mas lembro-te que, na desforra legtima que tomaste, fui eu
quem sofreu... Respeito as tuas fragatas, por que no respeitarias os meus
brigues?

Palas  Mas o insulto que recebi? Ah eles vo ver
coisas bonitas... Londres os espera, Londres h de fazer ouvir a razo queles
senhores.

Mercrio  Ouso ainda,  Palas, fazer uma
observao. Se o teu conde Russell quiser levantar a grimpa, o que ser de
Manchester e Liverpool? E as fazendas de algodo? E a cerveja? E a manteiga? E o
canhamao? E a aniagem?

Palas  E a fora da fora?

A discusso continuou naturalmente por este tom,
at que Mercrio,  fora de representaes e peties, conseguiu acalmar Palas,
ficando to amigos como dantes.

 naturalmente fundado neste dilogo, que o
deputado, a quem me referi, julga a organizao militar um princpio
econmico.

Esta situao dos povos armados para terem seguros
os direitos,  a mesma situao dos habitantes de uma cidade que no dispensam
as fechaduras das portas.

Duas coisas provam que ainda no chegamos ao
progresso perfeito; as fechaduras e os tabelies. Estas duas precaues contra
os ratoneiros e os velhacos no existiro de certo no tempo em que uma
verdadeira civilizao tiver descido a este mundo. Isto no quer dizer que se
suprima a fechadura  meio de segurana contra os ladres corajosos  e o
tabelio, garantia contra os ladres de m f  como no se pode ainda suprimir
a fechadurazinha de vinte mil homens, para guardar a nossa casa
americana.

Uma ltima observao antes de sair da
Cmara.

Temos admirado todos o procedimento do Sr. Lopes
Netto que, a 16 ou 17 de janeiro, cumprimentou o ministrio com um discurso de
oposio decidida, e que da para c se recolheu ao mais prudente
silncio.

Embora me acusem de excentricidade, devo confessar
que a mim nada me admirou.

O ilustre deputado, tendo adivinhado o espanto
causado pelo silncio em que se mantinha, lanou agora mo de um meio curioso.
Acompanha todas as discusses com um chuveiro de apartes, uns ministeriais,
outros duvidosos, nenhum oposicionista.

Aproveitando um dos seus apartes, alusivo ao Sr.
Ministro da Marinha e da Guerra,  eu direi que o ilustre deputado apareceu na
cmara armado de duas espadas, uma com que combateu o ministrio ao nascer,
outra com que o defende agora. S. Excia., por uma singularidade, de que nos d
exemplos o sistema parlamentar, vira do avesso o sistema dos Abissnios:
apedreja o sol ao nascer, para adora-lo no resto da viagem.

 evidente que o sistema dos apartes, dbios ou
ministeriais, tem por fim fazer uma transio para os discursos positivamente
ministeriais.

Entretanto, devo comunicar ao pblico a predileo
que o Sr. Lopes Netto tem pelos trocadilhos.

Um dia, no me lembro em que discusso, pediram a
palavra vrios deputados. Entre eles estavam alguns de nome Brando. Algum que
se achava nas galerias, com o ouvido alerta, ouviu ao Sr. Lopes Netto as
seguintes palavras a um colega:

 Esta discusso h de ser luminosa.

 Por que?

 Porque esto inscritos todos os
brandes.

O colega riu-se, e o Sr. Lopes Netto tambm  o que
me admirou bastante, porqu achei o tal trocadilho muito medocre e sobretudo j
octogenrio.

Se me sobrasse tempo e espao, discutiria aqui
algumas opinies do Sr. Senador Ferraz acerca da imprensa, em um discurso
publicado na semana passada. Ficar para a semana seguinte.

Tambm adio para a semana seguinte a apreciao do
romance do Sr. A. de Pascual, A Morte Moral, cujo 4. volume acaba de
chegar de Paris.

Os leitores j conhecem naturalmente o volume das
fbulas do Sr. Dr. J. J. Teixeira, algumas das quais viram primeiro a luz nas
colunas do Jornal do Comrcio.

As fbulas do distinto poeta so geralmente
engenhosas e conceituosas, cheias de muito sal cmico e muita propriedade. 
sobretudo um fabulista brasileiro. No faz falar somente o mundo animal, faz
falar o mundo animal do Brasil.

Dou os meus sinceros parabns s letras
nacionais.

Foi tambm publicado o 4. volume do Pequeno
Panorama, obra do Sr. Dr. Moreira de Azevedo.

O nome do Sr. Dr. Moreira de Azevedo  j conhecido
do nosso pblico, por seus trabalhos de investigao histrica acerca dos
monumentos do Rio de Janeiro.

To modesto quo talentoso, o Sr. Moreira de
Azevedo pertence ao nmero daqueles escritores que no almejam a fortuna das
reputaes pnicas. Esconde-se o mais que pode para trabalhar, investigar, 
enfim, concluir a obra encetada h poucos anos sob o ttulo de Pequeno
Panorama.

Esta obra deve ser aceita como um verdadeiro
servio pblico.

S agora me chega s mos o nmero da Cruz
que foi distribudo ontem. Nada tens de novo, a no ser uma noticiazinha
curiosa.

Diz a Cruz:

A repartio da caridade da irmandade da
Candelria distribuiu pelas suas 600 pobres a quantia de 7:000$000 durante este
ltimo trimestre.

Leram, no? Pois bem: diz agora o evangelho de S.
Matheus, captulo V, versculos 2, 3 e 4:

 Quando derdes alguma esmola, no faais tocar
diante de vs a trombeta, como fazem os hipcritas nas sinagogas e nas ruas,
para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo, esses j tm o devido
prmio.

 Mas quando derdes alguma esmola, que a vossa mo
esquerda no saiba o que fez a vossa mo direita.

  Afim de que a vossa esmola seja em
segredo, e vosso pai, que v em segredo, vos dar a recompensa.

Apliquem el cuento.

Direi em ltimo lugar que se apresentou no Teatro
Lrico ao pblico fluminense o jovem pianista portuense Hernani Braga. No o
ouvi; mas todos so acordes em louvar a talentosa criana e predizer-lhe um
futuro brilhante.

Unindo os meus aplausos aos de quantos o ouviram,
acrescentarei uma reflexo  importa muito para o futuro do menino Hernani que,
gastando o maior tempo que puder, se aperfeioe na arte para que nasceu,  a
fim de que, daqui a alguns anos, possamos admirar, em vez de um, dois prodgios:
um moo de talento e um moo de talento instrudo.

Agora  fora parar. Urge o tempo e manda o
calor.

 o agosto de mais feia catadura que tenho visto.
Se  assim hoje, que ser quando a folhinha de Laemmert nos disser que entrou
oficialmente o vero?

Eu no sou como o cigano de lvares de
Azevedo:

Sou filho do calor, odeio o
frio.

Sou filho do inverno, ou antes irmo, pois que
nasci com ele; sou profundamente inimigo desta estao contra a qual no h
remdio, nem mesmo o passeio pblico - sobretudo o passeio pblico.

E com isto, deixo a trpode.

28 DE AGOSTO DE
1864.

Mais alguns dias e est o ministrio em
frias.

s frias! s frias! Livros para um lado, pedra
para o outro, corao  larga, toca a saltar e a brincar, at que volte o tempo
de entrar de novo no regmen das sabatinas e das lies.

At l folgana e alma livre.

O curso deste ano foi longo.

Durante oito meses andou o ministrio de Herodes
para Pilatos  do senado para a cmara, onde inventou uma maioria  da cmara
para o senado, onde inventou um superlativo por rgo do Sr. Dias Vieira, com
grave desgosto dos mestres da lngua portuguesa.

No sei porque guardaria eu este segredo que a
posteridade pode ter a curiosidade de saber. O superlativo foi este

 No direi a este respeito, Sr. presidente, mais
COISSSIMA nenhuma.

Deste modo  oh! primognita filha da latina!  se
um Vieira te ilustrou, outro Vieira te deslustra.

Mas, o que se no esquece com umas frias
parlamentares? A vem o tempo dos lazeres e do recreio. Custa, mas h de
chegar.

Todavia, nem sempre a ausncia das cmaras traz a
tranqilidade ao esprito do governo; se no h cmaras, h muitas outras coisas
capazes de desesperar um santo, quanto mais o ministrio que no  santo, o que,
seja dito entre parnteses, verifica este dito de S. Francisco Xavier:  Que a
igreja do diabo imita a igreja de Deus.

Por exemplo, aqui vai uma anedota.

Disseram-me que num destes dias andou a secretaria
da justia numa verdadeira confuso.

Era meio-dia quando l entrou o Sr. Zacarias.
Parecia outro homem. Cabisbaixo, triste, meditabundo. Falava a todos, no falava
a ningum, porque mal dirigia uma palavra a qualquer, interrompia-se logo, antes
de concluir.

De repente, apressava o passo, como se tomasse uma
resoluo sbita, depois voltava ao passo demorado com que entrara, tudo isso
sem perder aquela graa nica que faz de S. Excia. a Eufrosina
ministerial.

...ses gardes affligs
imitaient son silence autour de lui
rangs.

Sentou-se  mesa, assinou alguns papis, ora em
cima, ora em baixo, ora sobre a parte j escrita, e deste modo inutilizou grande
soma de expediente.

Foi uma consternao geral.

Choviam os comentrios.

Dizia um:

 No tem que ver. Os negcios do Rio da Prata
complicam-se; naturalmente o corpo diplomtico estrangeiro mandou alguma nova
nota coletiva, por insinuao do Sr. Dias Vieira. No  outra coisa.

Cochichava outro:

 Nada, no  isso. Inclino-me a crer que a legao
inglesa insta pela emancipao geral dos africanos livres, e S. Excia. est
agora entre a espada e a parede. A situao, na verdade,  difcil; mas S.
Excia.  homem superior, patriota, et cetera...

Acudia um terceiro:

 Quanto a mim, suponho que S. Excia. rompeu com a
maioria da cmara. A maioria, naturalmente, quis governar, e S. Excia. entende
que ele  dono da fazenda, no que lhe acho razo. Vero que  isto.

Enfim, um quatro opinava por este modo:

 Aposto o meu lugar em como S. Excia. est
amofinado por outra coisa muito mais sria. V que a sesso legislativa est a
findar-se, e que o oramento no est pronto. Talvez no possa prorrogar a
sesso, faute de combattants.

Tais eram os comentrios que circulavam nas salas e
nos corredores; mas ningum podia afirmar positivamente qual fosse o motivo de
tanto alvoroo no faceiro cisne que dirige agora os negcios do
Estado.

Pude investigar as coisas, e estou de posse do
verdadeiro motivo, que  este:

S. Excia. tinha perdido um boto da
casaca.

Em aparncia o motivo  frvolo, mas bem examinado
 dos mais poderosos.

Motivo frvolo  a perda do concurso de dois
ministros, o da agricultura e da guerra, o que faz do ministrio (com perdo de
queira me ouve) um ministrio de p quebrado.

Mas, como pelos domingos se tiram os dias santos,
pode-se adivinhar o que fariam os ministros invlidos, por aquilo que fizeram e
por aquilo que no fizeram.

Tenho j  mo um exemplo.

Uns fornecedores do arsenal de guerra incorreram em
multas, no sei agora por que falta de condio. Requereram ao Sr. ministro da
guerra para serem relevados das multas, e o ilustre ministro deu um
despacho...
Ah! que despacho!

Despachou S. Excia.:

 vista das circunstncias dos cofres pblicos no
tem lugar serem aliviados das multas. Cumprissem as condies do contrato se as
no queriam pagar.

Do que resulta:

1.  que no se dispensam multas quando os cofres
pblicos esto em penria;

2.  que, quando nos cofres h dinheiro em
abundncia, o Estado distribui o caldo  portaria e perdoa todas as dvidas por
sua conta e risco;

3.  que, se os fornecedores tivessem cumprido as
condies, no pagariam as multas, o que equivale a dizer que Mr. de la Palisse

Un quart d'heure avant sa mort
Il tait encore en vie.

Oh! manes do cnego Felipe! No  verdade que este
despacho vos est vingando das boas risadas que temos dado  vossa
custa?

Ora, eu pergunto se,  vista deste despacho, 
vista da nota Ad referendum do Sr. Dias Vieira,  vista do artigo do
cdigo ressuscitado pelo Sr. Zacarias, pergunto se,  vista de tudo isto, pode o
atual ministrio ter a pretenso de dirigir seriamente os negcios do
Estado?

Diz a isto o Sr. Zacarias que as pastas
ministeriais so as suas Termpilas, e que S. Excia.  o novo Lenidas,  de
modo que ningum l h de entrar enquanto viver um espartano que
seja.

Esta resoluo do Sr. Zacarias e uma opinio do Sr.
Senador Fonseca foram as duas coisas que mais me divertiram na semana
passada.

O senador paulistano tratou da venalidade
eleitoral. Denunciou que nas eleies se compravam votos, sem rebuo. Todavia,
S. Excia. fez uma exceo  probidade ituana. Em It, conforme diz S. Excia.,
compram-se votos,  verdade, mas se o votante acha segundo comprador que lhe d
mais, aceita o segundo importe, e restitui o primeiro preo. A isto chama S.
Excia. um fundo de probidade. Em portugus e boa moral chama-se  pr a
conscincia em almoeda.

Desculpe-me a populao ituana; eu falo pelas
informaes do ilustre representante de S. Paulo.

Tenho pressa em ver-me desde j livre dos assuntos
da poltica amena.

J reparei que alguns membros do par-lamento
costumam vrias vezes suprimir os discursos nos jornais e nos anais,
substituindo-os por estas palavras: O Sr. F... fez algumas
observaes.

Qualquer que seja a insignificncia das observaes
e a modstia dos referidos membros do parlamento, como o parlamento no  uma
academia onde se vo recitar perodos arredondados e sonantes, o pas tem o
direito de saber de tudo o que a se diz, mesmo as observaes
insignificantes.

Porquanto, o fato da publicao dos discursos por
extenso ou em resumo no tem por objeto mostrar que tal ou tal representante
fala com elegncia e propriedade, mas sim dar  nao o conhecimento da opinio
que o dito representante manifestou e o modo por que a manifestou.

Isto quanto  razo de ser da publicao. Querem
agora saber os inconvenientes deste sistema de supresso? Apliquemos a
observao ao caso que me sugeriu este reparo, e que se deu h poucos dias com
um Sr. deputado na discusso de uma aplicao de lei.

O cidado que reside, por exemplo, nos confins de
Gois, ao ver to sucinta notcia dada pelo modesto deputado, diz
consigo:

 Ah! O Sr. F. fez algumas observaes sem declarar
em que sentido! No se sabe, pois, como ele entende a aplicao da lei, de modo
que pode, no caso de ser ministro, praticar inteiramente o contrrio, sem que se
lhe v s mos! Ah! o Sr. F.  engenhoso! o Sr. F.  atilado! o Sr. F. 
previdente.

E outras coisas que me parecem muito pouco
agradveis de ouvir.

Tudo isto se remediava se, em vez da sucinta
notcia a que me referi, viessem as observaes por extenso ou em
resumo.

Enfim, para terminar com a poltica amena, o Sr.
Jobim orou de novo e declarou-se dotado de uma impassibilidade antiga
diante dos insultos que recebeu em S. Paulo.

S. Excia. refere-se  resposta que mereceu da
Imprensa Acadmica a propsito do que ele disse dos costumes da faculdade de S.
Paulo.

Tomo a liberdade de convidar S. Excia. a confrontar
as suas apreciaes com a resposta da imprensa. Ver que, ao lado da linguagem
digna e sria da Imprensa, as suas reflexes humorsticas fazem muito
fraca figura.

Quer o Sr. Jobim mais uma prova dos maus costumes
da mocidade acadmica de S. Paulo? Tenho diante de mim um folheto denominado:
Uma Festa da Inteligncia.

 escrito pelo Sr. Belfort Duarte.

O Sr. Belfort Duarte  membro efetivo e j foi
orador de uma das sociedades que eu mencionei no folhetim antepassado, o
Instituto Jurdico.

O dia 11 de Agosto, aniversrio da inaugurao dos
cursos jurdicos no Brasil, foi, como sempre, festejado em S. Paulo.

O Instituto Jurdico festejou esse dia to grato 
famlia acadmica. Essa festa  o objeto do folheto que tenho agora ante os
olhos.

Talento brilhante e cultivado, esprito ardente e
cheio de nobre entusiasmo, o Sr. Belfort Duarte comemorou a festa e o dia em
algumas pginas que honram o seu nome,
e
respondeu perfeitamente s esperanas da mocidade. Uma Festa da
Inteligncia, no s  uma leitura simples,  uma pgina que se deve
guardar, to brilhante e vigoroso  o seu estilo, to nobres e elevadas so as
suas idias.

O Sr. Belfort Duarte, j eu o sabia,  daqueles
talentos srios e refletidos, cuja falange cresce e vigora cada dia, por bem do
futuro do pas.

Tal  o Sr. Belfort Duarte, tal  a mocidade da
academia, em que pese ao Sr. Jobim, que achou na defesa da Imprensa um
insulto, e no seu discurso uma pgina oratria,  o que eu no contesto, se
acaso  isso necessrio ao sistema nervoso do ilustre senador.

J lembrei as trs condies essenciais que esto
impostas  nova cmara municipal,  a fim de que ela possa sobressair no
meio das cmaras anteriores. Apontarei agora uma especialidade.

Os jornais reclamam todos os dias contra o abandono
e o abuso a que esto condenadas as rvores plantadas em certos pontos da
cidade. Tais so, por exemplo, as do Campo da Aclamao e as do
Catete.

No Rio de Janeiro houve sempre horror s rvores.
Ningum pode explicar o fenmeno, mas ele existe. Infelizmente, tanto a
populao como a municipalidade se acham animadas do mesmo sentimento, o que faz
com que as rvores no possam medrar.

Todos sabem em que estado se acham, por exemplo, as
rvores do boulevard Carceler, hcticas e dilaceradas, graas ao horror de que
falei acima.

J estou a ouvir daqui uma pergunta infeliz:  Se a
cmara municipal tem horror s rvores, como as faz plantar?  Ao que eu
respondo:  Se a cmara no tem horror s rvores, porque as no faz
conservar?

Estas observaes foram-me sugeridas durante um
passeio que dei anteontem  noite no terrao do teatro de S. Pedro, contemplando
o plantio do largo e descrevendo na imaginao o estado em que havemos de v-lo
ainda, mais dia menos dia.

Dei o referido passeio no terrao do teatro de S.
Pedro, enquanto se cantava o primeiro ato do Ernani, por no ter podido
penetrar na sala.

Ah!  que estava cheia a deitar fora. Todos quantos
gostam da pera italiana l se achavam, levados por dois motivos  a pera e a
companhia.

Esta companhia foi entusiasticamente aplaudida na
Bahia, onde esteve durante trs meses.

Aqui veio encontrar outra no teatro Lrico; mas,
confiando em si e nos recursos de que podia dispor, conseguiu instalar-se no
teatro de S. Pedro.

No se enganou a companhia nas esperanas que
nutriu; o acolhimento foi entusistico e o sucesso dos mais completos. Dizer que
o mereceu  confirmar a opinio do pblico escolhido que l esteve.

Todos os artistas foram chamados  cena;
especialmente prenderam a minha ateno a Sra. Tabachi e o Sr. Pozzolini,
soprano e tenor. A Sra. Tabachi, apesar de comovida e incomodada, como se
achava, mostrou possuir uma voz pura, simptica e maviosa. O Sr. Pozzolini pde
revelar os grandes recursos de que dispe e a bela voz de tenor que possui.
Tanto o Sr. Nerini, baixo, como o Sr. Bonetti, bartono, mereceram, como j
disse, sufrgios de verdadeira simpatia.

Alguns pedaos foram cantados de modo a arrebatar o
pblico.

A Sra. Francisca Tabachi no tem s a voz de que
falei,  igualmente dotada de uma figura graciosa e de um rosto simptico. 
positivamente um tipo de brasileira, parecendo ao v-la, que a um tempo lhe
embalaram o bero as brisas de Sorrento e as brisas da Guanabara.

To belos olhos e to gracioso semblante explicam o
amor de Ernani e os acontecimentos da tragdia.

No s o mrito da companhia convida a
concorrncia; acrescem outras razes: a companhia nada percebe dos cofres
pblicos, confia unicamente em si; e, segundo sou informado, o Sr. Merciaj
associou  sua empresa um cavalheiro, patrcio nosso. Enfim, possui um regente
de orquestra, o Sr. Bezanzoni, perfeito conhecedor das funes que
exerce.

Pode-se dar como certo que o pblico concorrer aos
espetculos da nova companhia. Os que ainda no viram, vo v-la, que no se ho
de arrepender.

A chega a Cruz; cessa tudo.

A Cruz dedica-me trinta e uma linhas, como
resposta ao meu folhetim passado.

No folhetim passado transcrevi uma notcia da
Cruz, e um texto do evangelho de S. Matheus. A notcia dava parte das
esmolas feitas pela associao de caridade da Candelria, e o texto de S.
Matheus recomendava o segredo de tais atos, para no imitar os hipcritas das
sinagogas.

A esta simples confrontao responde a Cruz
que ela no tem nada com a associao da Candelria; que, portanto, S. Mateus
no escreveu para ela; finalmente que a boa razo lhe manda publicar as boas
obras dos outros para terem imitadores.

Ora, para fazer a confrontao entre a notcia da
Cruz e S. Matheus, eu fundava-me neste raciocnio: a Cruz
escreve-se e distribui-se na Candelria, os redatores pertencem quela igreja;
logo,  caro que, havendo ali uma associao de caridade, os redatores da
Cruz fazem parte dela, porque, mesmo que eles tenham um po,  natural
que o repartam com os pobres, no sendo possvel acreditar que eles assistam
impassveis s esmolas que se lhes fazem nas barbas.

Isto posto, publicar os benefcios da associao 
publicar os prprios benefcios.

Em vez de explicar estas coisas, a Cruz
responde com aquela violncia habitual, to longe da mansido evanglica. No 
nova nem particular  freguesia da Candelria. Mas no h nada que irrite um
homem como eu, que est disposto a divertir-se com todos os ridculos polticos,
clericais, ou simplesmente humanos.

O que  certo  que eu tenho a vaidade de supor que
j vejo melhorando a Cruz  a respeitvel folha da Candelria j no
apresenta aquelas notcias e observaes com que eu procurei distrair muitas
vezes os meus leitores.

Isto mesmo,  escrevendo ao acaso, meus caros
amigos da Cruz.

At domingo.

5 DE SETEMBRO DE
1864.

Poucas semanas tero sido como a passada, em que os
acontecimentos de toda a espcie se sucederam e puseram o esprito pblico em
atividade.

Comeou a semana pela queda do gabinete de 15 de
janeiro, sucedendo imediatamente a ascenso do de 31 de agosto.

J no  presidente do conselho o Sr. Zacharias de
Ges. De um dia para outro faltou-lhe o apoio parlamentar. Era a conseqncia
legtima da vida que levou. No se trava do timo do Estado para fazer um
passeio de gndola veneziana,  luz dos archotes e ao som dos
bandolins.

A queda do gabinete assemelhou-se  catstrofe de
Hiplito. Ele ia tranqilo, mas pensativo, sobre o carro, deixando flutuar as
rdeas dos corcis. Surgiu o monstro da legenda, sob a figura de um voto
simblico, e, apesar de todos os esforos e da magna luta, o gabinete teve de
ceder, e caiu fulminado.

Sua agonia foi longa; durou trinta e seis horas;
durante esse tempo morriam, antes que ele, as esperanas de que se manteve.
Parece que um deus vingativo cercava a morte do Sr. Zacharias de tantas torturas
quantas foram as ambies que o alimentaram em vida.

S. Excia. morreu com todos os sacramentos, menos o
crisma, o que foi profundamente doloroso, no para ns, mas para ele.  certo,
porm, que no h mal que no deixe alguma vantagem, e S. Excia. teve uma no
pequena. Por isso, segundo consta, o gabinete proferiu em coro,  hora de
morrer, estes dois versos de Racine, no referido episdio da morte de
Hiplito:

Le ciel, dit-il, m'arrache une innocente
vie;
Prends soin, aprs ma mort, du triste Zachrie,

Cher senat...

E o senado ouviu to sentida prece, guardando l o
finado, ministro, at que soe a hora da sua ressurreio poltica.

Correu, mas eu no afirmo, que, para que o
espetculo de que falei no se compusesse somente de um pedao trgico, chegou a
haver um Recrutamento na Aldeia, a fim de ver se o gabinete podia continuar a
dirigir os negcios do Estado.

Naturalmente foi boato falso.

O que  certo  que est dissolvido o ministrio, a
grande aprazimento da opinio. To famosa retirada no pode deixar de ser
comemorada no folhetim, onde em vida se falou tanto do gabinete. Mas o folhetim
 como os gatos: acaricia arranhando. Em vista do que, quero lembrar ao Sr.
Zacarias a molstia da sua ambio, dando-lhe a sentida despedida do Prncipe de
Orange ao conde de Horn, s portas de Bruxelas:

 Adieu, comte sans terre.

Duas palavrinhas acerca do Sr. Baro de S.
Loureno.

Eu s me ocupei de S. Excia. duas vezes e a
propsito do horror que S. Excia. manifestou pelos poetas. Os leitores deste
folhetim lembram-se, de certo, que eu tive ento a honra de converter o ilustre
senador, assumindo assim a grandeza de um S. Paulo, e S. Excia. a nobreza de um
Dionsio.

Desta vez, venho apenas mencionar que o nobre
senador declarou ontem pelo Jornal do Comrcio ser a um tempo Scrates e
Temstocles. Lamento que, como o guerreiro grego,  fosse preferido por
Euribades para o comando das foras confederadas. Euribades, neste caso,  o
Sr. Visconde de Abaet, presidente do senado. S. Excia. responde ao basto do
Sr. Visconde de Abaet como Temstocles:  Bate, mas ouve.  Na opinio do
Temstocles baiano, Euribades  de um  mrito medocre; S. Excia.  que
devia comandar as foras confederadas; em termos claros, o senado devia apear o
Sr. visconde de Abaet e pr no seu lugar o Sr. baro de S. Loureno,  o
primeiro guerreiro de seu tempo,  que j viu passar as balas perto de
si.

Que modstia!

No meu folhetim passado referi um superlativo
inventado pelo Sr. Dias Vieira. Fi-lo ento, como uma destas coisas que podem
entrar no folhetim, para fazer sorrir o leitor fatigado com as tribulaes da
semana.

Mas um amigo meu, que o  tambm do ex-ministro dos
negcios estrangeiros, julgou dever dirigir-me algumas linhas a este respeito.
Entendo que no devo deixar de mencionar o fato. Em prova de lealdade, se
algumas vezes escrevi expresses menos agradveis a S. Excia., no deixarei
agora de comunicar-lhe que possuo um amigo e um amigo que me no consente a
publicao do nome.  uma ave duplamente rara: amigo e sem
ostentao.

Podia, se me sobrara espao, transcrever aqui a
carta do meu amigo, e escrever-lhe duas linhas em resposta. Acrescentaria mesmo
algumas palavras justificando a fuga que ele fez do campo da poesia para o da
poltica, atendendo-se ao sentimento de gratido que o levou a faz-lo. De um ou
de outro modo estou certo de que ele ficaria amigo como dantes.

Passo a anunciar um livro.  mais uma obra do Sr.
A. E. Zaluar, autor de muito belo verso e muita bela prosa.

Folhas do Caminho  o ttulo do livro que vai ser distribudo dentro
em pouco tempo.

No  um livro propriamente de viagem.  a reunio
das fantasias, lendas, impresses, episdios, que durante o caminho foi achando
a imaginao do autor.

Pude surpreender uma circunstncia e venho
denunci-la: o livro  dedicado a uma senhora elegante e espirituosa, do Rio de
Janeiro. To graciosa lembrana  prpria de um poeta e digna de uma musa; a
musa compreender a obra do poeta. A felicidade do livro no podia ser mais
segura nem mais decisiva.

Passemos ao teatro.

Apareceu finalmente ao pblico fluminense a
eminente atriz portuguesa Emlia das Neves. A pea escolhida era  Joana a
Doida, j representada entre ns por Joo Caitano e Ludovina.

O vasto bojo do teatro Lrico estava cheio de
espectadores, levados pela natural curiosidade de ver de perto a celebrada
artista.

Confesso que, para fazer um estudo mais profundo e
amplo do talento de Emlia das Neves, careo de maior espao do que tenho agora.
O que posso dizer hoje  o simples resultado das impresses de uma
noite.

Estas impresses so daquelas que se gravam
profundamente, e dificilmente se desvanecem do esprito.

O sucesso de Emlia das Neves foi dos mais
legtimos.

Deve-o ao superior talento que possui e  subida
arte com que soube form-lo, aperfeio-lo, legitim-lo pela lio dos mestres e
pela aplicao do estudo.

A pea escolhida pode dar de algum modo a medida
dos seus recursos e dos seus dotes. Joana  a expresso exaltada do amor, do
amor que chora, vinga, pede e enlouquece; do amor que faz da rainha uma mulher,
da mulher uma Nmesis, da Nmesis uma louca.

Representar cabalmente Joana era dar prova de uma
alta capacidade artstica. Emlia das Neves conseguiu este resultado com que
ganhou uma vitria esplndida. A gravidade do gesto, a eloqncia da fisionomia,
a distino do porte, uma natureza abundante casada a uma arte profunda,  tudo
isso se encontra na eminente artista. E se a estes dotes se juntar o de uma voz
que sabe falar, gemer, odiar, comover, teremos reconhecido em Emlia das Neves
os seus talentos capitais e os seus altos recursos.

No me sobra tempo para mencionar uma por uma as
belezas que o pblico aplaudiu anteontem. A ilustre artista as teve em larga
escala, sobretudo no 2., 3. e 5. atos.

 Mas o falar lisboeta? dizia-me um amigo ao sair
do teatro.

A este amigo respondi eu:

  Pouco me importa que o artista fale o
lisboeta ou o fluminense, contanto que, tendo de fazer uma declarao de amor,
mostre sentimento de amor, isto em fluminense ou em lisboeta. A expresso do
sentimento, que  absoluta,  tudo quanto eu exijo; o resto 
relativo.

Abri um dos folhetins passados com chave de ouro; 
com chave de ouro que vou fechar este.

Os leitores j tm conhecimento do romance A
Morte Moral, de que eu prometi notcia mais detida, sem ter at hoje podido
faz-lo. Esta demora produziu um benefcio para mim e para os leitores.  espera
do que eu disser, leiam a carta que o Sr. conselheiro Jos Maria do Amaral acaba
de dirigir ao autor da Morte Moral.  uma pgina honrosa para ambos, e
gloriosa para mim que tenho o prazer de ser o primeiro a divulg-la.

Ouamos o ilustre escritor:

Meu caro Adadus Calpe: Conclui ontem a segunda
leitura da sua obra intitulada: A Morte Moral.

Ontem mesmo fui  sua casa  mas em vo  para
tributar-lhe as honras devidas ao seu talento incontestvel e mui superior, e
tambm para agradecer-lhe a honra que me fez, presenteando-me com um exemplar do
seu importante livro.

Hoje vai por mim esta carta testemunhar-lhe as
minhas intenes frustradas ontem. Queira, pois, consider-la como tributo de
admirao e, ao mesmo tempo, como abrao afetuoso.

As formas e as dimenses de uma carta no comportam
a anlise formal de um livro da ordem do seu.

O ttulo da obra, s por si, revela o intuito
filosfico do autor.

Em verdade, a morte moral, embora nos seja
apresentada como simples novela,  uma apreciao muito ponderosa do estado
atual do gnero humano, estudado relativamente s condies da vida
social.

Quatro volumes habilmente compostos, com vistas to
filosficas, riqussimos de importantes lances da vida real, comentados com
notvel critrio, e com segura experincia do mundo, s podem ser dignamente
analisados em escrito especial trabalhado com muita e mui sria
meditao.

Contudo, aqui posso desde j declarar que a ndole
e ao dos admirveis personagens da sua novela deixarem-me vivamente possudo
das seguintes verdades.

A sociedade humana, tal qual est organizada, no 
a luta do bem com o mal, como se diz vulgarmente,  mais que isso,  a soberania
absoluta do mal e a vassalagem efetiva do bem.

O mal, que na ordem social tem por causa primria o
princpio animal, posta em plena atividade por meio do predomnio dos sentidos,
 fora real e permanente.

O bem, que  o influxo do princpio psicolgico
realizado pela inteligncia cultivada,  quase hiptese,  acidente.

Este fato deplorvel, quero dizer, o predomnio do
instinto animal,  a causa magna dos tristssimos efeitos deste conjunto de
contradies a que chamam estado social.

Visto que inegavelmente a sociedade  obra da
civilizao, no teor desta devemos procurar os motivos da pssima organizao
daquela. Ora,  foroso confessar que a civilizao dominante mantm, debaixo de
aparncias crists, a realidade gentlica  a sensualidade.

Esta faz consistir a vida quase exclusivamente nos
deleites materiais, e o gozo desta natureza produz em ltimo resultado  o
egosmo.

O egosmo , com efeito, a alma da civilizao
atual, porque s dele pode proceder uma ordem social, em que talvez dois teros
dos scios nominais so na  realidade vassalos infelizes dos eglatras
que constituem o outro tero.

Importa reagir contra esta civilizao falsa e
nociva, restabelecendo a verdadeira civilizao crist, que contrape ao
predomnio da matria o da alma, e ao gozo sensual o gozo mais moral que pode
haver  a caridade.

A civilizao que tem por princpio o materialismo,
por doutrina a sensualidade e por conseqncia infalvel o egosmo, 
necessariamente  morte moral.

Para o leitor srio  esta a filosofia contida no
seu livro e posta em ao pelas figuras principais do drama.

O pobre Anbal, cego duas vezes por falta de vista
e de educao,  o processo do egosmo da civilizao falsa, a condenao do
presente.

Cesar e Almerinda constituem o programa do futuro,
quanto  parte poltica,  parte civil, e  parte domstica da reforma
social.

O Padre Guise  o representante do princpio
fundamental da verdadeira civilizao crist: alteri ne facias, quod tibi
nonias.

Pela minha parte, basta-me esta preciosa essncia
da sua obra para consider-la como escrito de ordem muito superior  das simples
novelas; porque contm interessantssimas teses relativas  organizao social e
mui dignas de serem estudadas e discutidas.

Por agora, pois, prescindo da forma notvel do
livro, dos primores com que o talento do autor a enriqueceu.

Parece-me que os filhos desta terra, amigos das
letras, ho de congratular-se pela aquisio da Morte Moral, e dar-lhe na
literatura ptria o lugar de honra que, na sua classe, incontestavelmente lhe
pertence.

Admita estas breves consideraes relativas ao seu
livro, meu caro Adadus Calpe, como prova da ateno com que o li, e tambm como
fundamento do tributo de respeito e afeio que venho prestar ao autor to
distinto pela inteligncia como pela ilustrao.

J. M. do Amaral.

Laranjeiras, 26 de Agosto de 1864.

11 DE SETEMBRO DE
1864

Subamos  trpode.

No vos direi daqui,  fluminenses, aquilo que
dizia o cnico Digenes, no dia em que se lembrou de clamar em plena rua de
Atenas:

  homens!  homens!

E como os atenienses que passavam se reuniam em
torno do filsofo, e lhe perguntavam o que queria, ele lhes respondeu com a
mordacidade do costume:

 No  a vocs que eu chamo; eu chamo os
homens.

No vos direi isso,  fluminenses, mas confesso que
nos primeiros dias da semana tive vontade de diz-lo, nu e cru, na verdadeira
expresso de conscincia.

Eu via aproximar-se o dia nacional, sem que se
anunciasse, nem nas folhas nem nas conversaes, uma festa, uma manifestao de
regozijo pblico.

Muitos atribuam esta indiferena ao fervor
eleitoral; mas esta razo no procedia no meu esprito, porque eu, como j
disse, via o fervor eleitoral apenas em um quinto da populao, isto , nas
fileiras dos candidatos.

No era, portanto, o fervor eleitoral.

Mas o Rio de Janeiro preparava-se calado,
organizava as festas silenciosamente, como um cidado prepara o jantar para o
dia dos seus anos. Na vspera fez os convites; no dormiu essa noite; foi
esperar o raiar da aurora e saudou entusiasticamente o dia nacional.

 verdade que a campanha eleitoral sempre tirou
algum entusiasmo s festas, ou antes, deu-lhes um carter variado, porque
exercer o direito de voto, tambm  celebrar a emancipao poltica.

A data gloriosa da nao no passou indiferente aos
nossos olhos e aos do estrangeiro. Arrependo-me de ter duvidado um dia de que a
capital do Imprio se mostrasse zelosa das glrias do pas.  verdade que,
ouvindo os tiros de honra dados pelas fortalezas e pelos vasos de guerra, no me
pude furtar  lembrana daquele infeliz Bananeira, morto de fome, depois de ter
contribudo com o seu brao e o seu valor para a independncia da nossa
ptria.

No hay miel sin hiel  dizem os
castelhanos.

O Rio de Janeiro esteve luzido e elegante no dia 7,
graas s luminrias, s exposies de casas de modas, ao povo que se aglomerava
nas ruas, s bandas de msica, aos vivas matutinos, etc., etc.

Os leitores no esperam de mim uma descrio
circunstanciada do que houve, nem eu lhes quero infligir semelhante coisa. Todos
viram o que houve, e todos leram a descrio feita nos andares superiores dos
jornais.

Sem inteno de fazer excluses odiosas,
mencionarei apenas trs fatos: a festa da Petalgica, a dos Ensaios Literrios e
a exposio do estabelecimento fotogrfico do Pacheco.

A sociedade Petalgica, como  sabido, teve
nascimento na antiga casa do finado e sempre chorado Paula Brito. Quando a
sociedade nasceu j estava feita; no se mudou nada ao que havia, porque os
membros de ento eram aqueles que j se reuniam diariamente na casa do finado
editor e jornalista.

Cuidavam muitos que, por ser petalgica, a
sociedade nada podia empreender que fosse srio; mas enganaram-se; a Petalgica
tinha sempre dons semblantes; um jovial, para as praticas ntimas e familiares;
outro sisudo, para os casos que demandassem gravidade.

Todos a vimos, pois, sempre  frente das
manifestaes pblicas nos dias santos da histria brasileira. Ainda neste ano a
velha associao (honni soit qui mal y pense!) mostrou-se animada do
mesmo entusiasmo de todos os anos.

De outro lado, tivemos a sociedade Ensaios
Literrios, da qual j tenho falado diversas vezes, sempre com
admirao.

Tambm ela celebrou a independncia  a portas
fechadas  na sala das suas sesses  onde se tocou, cantou e recitou 
acrescendo este ano a novidade da presena de algumas senhoras.

Os leitores sabem o que penso desta associao
modesta, mas distinta, de moos de talento e de coragem no trabalho.

Enfim, o estabelecimento fotogrfico do Pacheco
tambm abriu as suas salas  visita do pblico.

A casa do Pacheco  a primeira desta corte,  de um
lado, pelo luxo e pelo gosto  do outro, pela perfeio dos trabalhos. O pblico
fluminense j a conhece sob estes dois pontos de vista, e tem feito plena
justia ao distinto fotgrafo. Acrescentarei apenas a opinio de um homem
autorizado em coisas de artes, como de letras: Porto-Alegre. Em uma carta,
dirigida a um dos seus numerosos amigos desta corte, diz o ilustre poeta,
referindo-se ao Pacheco, que  ele estava ficando um dos primeiros
fotgrafos do mundo e que os seus trabalhos podiam competir com os melhores de
Paris e de Berlim.

O pblico teve, por tanto, mais uma ocasio de
apreciar e admirar as fotografias daquele estabelecimento.

Assistiram s festas da nossa independncia Suas
Altezas o conde d Eu e o duque de Saxe.

Os augustos visitantes, que aqui se acham h nove
dias, j tm visitado diversos estabelecimentos e alguns pontos dos
arrabaldes.

Diz-se que na semana prxima vo, com toda a
famlia imperial, passar alguns dias em Petrpolis.

Petrpolis, como se sabe,  o partido do vero,
como o Rio de Janeiro  o partido do inverno; estes dois partidos no lutam
nunca, como os partidos polticos. Concordaram em governar uma vez cada ano  um
no inverno, outro no vero; em chegando a poca marcada, a cidade dominante
passa as rdeas da governana  dominada e esta recebe em si a sociedade
distinta.

Este espetculo de uma harmonia to perfeita no
nos oferecem, como j disse, as lutas eleitorais. Temos o exemplo diante de ns.
Que batalha! Durante um ms andaram os candidatos em guerra aberta, como os
dentes de Cadmo, destruindo-se uns aos outros  com pleno direito cada um deles,
isso  verdade.

Como na tradio mitolgica, alguns ho de escapar,
no cinco, mas nove, que iro construir, no a cidade de Tebas, mas a
municipalidade, instituio que tem sido nula at hoje e que eu quisera ver
levantar-se do nada para ser alguma coisa.

Outro objeto em que todos reconhecem necessidade de
reforma, a fim de ser alguma coisa, porque realmente no vale nada,   o
correio.

O correio  um monumento vivo da injria. Se disto
no resultasse mais do que um servio negativo, era mau de certo, mas ainda
assim o esprito pblico tinha menos de que andar alvoroado. Mas o correio  um
perigo, um verdadeiro perigo para a honra e para a propriedade. Uma carta que
no chega ao destino nem sempre fica inutilizada; some-se muitas vezes, perde-se
ou desaparece. E, sem querer fazer aqui nenhuma injria aos diversos
funcionrios espalhados pela vasta superfcie do imprio, o esprito do
particular no fica tranqilo e tem tudo a temer de uma carta
perdida.

Esta repartio merece de certo as vistas do novo
ministrio, e carece de uma urgente reforma, sem a qual ficaremos condenados a
ter um correio nominal.

J que estou no captulo das coisas que reclamam a
ateno da autoridade, lembrarei de passagem dois fatos de que nos chegou
notcia h poucos dias: o milagre de Viana, no Maranho, e a nova santa de
Sorocaba, em S. Paulo.

Descobriu um morador de Viana que uma imagem de
Santa Teresa comeava a lacrimejar. Durou a umidade dos olhos trs horas; o dono
da casa examinou o quadro, mas no descobriu nada que pudesse contrariar a idia
de milagre.

Tudo isto era j singular para o vianense; mas a
Santa no parou nisso; na quarta-feira de trevas apareceu sobre o rosto da
imagem uma nuvem azul, que passou a ser verde; o colo tomou uma cor vermelha; as
lgrimas continuaram a correr.

Fora longe se continuasse a referir estas
ocorrncias que puseram em alvoroo os crdulos vianenses.

A santa de Sorocaba  uma mulher hedionda e
miservel, que, a favor da credulidade do povo, achou um novo meio de ganhar a
vida. Tem em casa um S. Antnio milagroso, o qual, a troco de setecentos e vinte
ris, que se do  sacerdotisa, absolve os pecados e distribui indulgncias
plenrias. D-se, alm dos setecentos e vinte ris, uma libra de cera para
alumiar o santo, mas que o santo no tem o prazer de gozar em toda a plenitude,
porque acumuladas as libras de velas, a sibila  obrigada a converter metade em
moeda corrente.

Dizem que, apesar do aspecto imundo, a mulher 
proprietria.

No pode haver duas opinies sobre este ltimo
fato. Estou certo de que as autoridades de S. Paulo ho de pr cobro 
especulao da velha de Sorocaba.

Quanto ao milagre de Vianna, deve-se crer que no
ser fcil nem imediata a represso. Naturalmente proceder exame de uma
comisso de eclesisticos, e sabe Deus o que no dir a comisso, sobretudo se a
Cruz fizer parte dela!

O ltimo nmero deste jornal apareceu ontem como
sempre;  uma nnia aos frades. A folha da Candelria pede a reparao das
instituies monsticas. Fora dos frades, no h salvao. Na sua dor  dans
sa douleur  a infeliz lstima no ser o governo para fazer, com uma penada,
o que tanto deseja. No o declara expressamente, mas transparece do
escrito.

Em diversos pontos a Cruz deixa uma saudade
ao reinado dos mosteiros e conventos. Mas em alguns vai at censurar
implicitamente os prprios frades, porque no reclamam do governo as reformas de
que precisam, e porque no vo a outros pases mais livres inflamar-se no
esprito dos seus institutos.

Mais livres, diz a Cruz, dando a entender
claramente que o Brasil no  completamente livre. No  livre porque, como ela
nota em outro artigo, o governo e o parlamento tm feito e executado algumas
leis de tolerncia religiosa. De modo que a falta de liberdade est no excesso
de liberdade.

Sem dizei-o claramente, a Cruz lamenta que
se tivesse feito a lei dos casamentos mistos, e que haja templos de seitas
dissidentes nesta capital.  preciso fazer uma triste idia da gerao a quem se
fala, para dizer hoje coisas destas, que nos atiram para o tempo das
perseguies religiosas.

O que sobretudo a folha da Candelria no perde
nunca  o tom de dio, de tolera, de rancor, com que se exprime. Em vez de opor
s invectivas e aos erros, se querem, uma frase branda, evanglica, persuasiva,
 a Cruz acende-se naquele furor sagrado, que um poeta caracterizou to
bem nestes versos:

Dont la haine terrestre au feu du ciel
sallume
Et qui naus percera la langue avec sa
plume?

O folhetim no discute, assinala. No discutirei,
portanto, as expresses da Cruz.

Farei apenas mais uma observao   um erro
tipogrfico.

Referindo-se ao Sr. Jobim, diz a Cruz: Mas
que provas quer Lua Excelncia?  Cuido que a Cruz queria dizer: Mas
que provas quer Sua Excelncia?  Importa-me fazer esta retificao para que os
malvolos no achem relaes indiscretas entre a Lua e o Sr. Jobim.

Aqui fao uma transio brusca.

Apareceram ao pblico, no teatro de S. Pedro, os
clebres campanlogos, cujo secretrio, o Sr. D. Santiago Infante de Palcios,
j havia chegado a esta corte e tinha preparado tudo  estria da clebre
famlia.

O pblico aplaudiu muito os trabalhos da companhia,
e ela o merece, sem dvida alguma. No me incumbirei da difcil tarefa de
explicar o meio por que os campanlogos tocam os seus instrumentos; por muito
que explicasse, os leitores no entenderiam.

O trabalho da famlia Sauwyer  um exemplo do que
pode a destreza e a pacincia. Imaginem seis pessoas a executar, com 150
campainhas, os mais belos trechos lricos, com a mesma preciso e presteza, com
que se faria em um piano.

Os campanlogos vo aparecer mais vezes ao pblico;
so realmente admirveis para merecer o aplauso dele.

Emlia das Neves representa hoje a Mulher que
deita cartas. S daqui a uma semana poderei dar conta das minhas impresses. 
de crer que elas confirmem as que me deixou a representao de Joana Doida,
que  um dos seus mais belos flores artsticos.

Mais algumas linhas, e vou escrever as minhas
iniciais.

Que querem dizer estas iniciais? perguntava-se em
urna casa esta semana.

Uma senhora, em quem a graa e o esprito realam
as mais belas qualidades do corao,  disse-me um amigo, 
respondeu:

 M. A. quer dizer  primeiramente,  Muito
Abelhudo  e depois,  Muito Amvel.

O meu amigo acrescentou:

 Alegra-te e comunica isso aos teus
leitores.

19 DE SETEMBRO DE
1864

Crise! Crise! Crise!

Tal foi o grito angustioso que se ouviu, durante a
semana passada, de todos os peitos da populao e de todos os ngulos da
cidade.

A fisionomia da populao exprimiu sucessivamente o
espanto, o terror, o desespero  conforme cresciam as dificuldades e demorava-se
o remdio.

Era triste o espetculo: a praa em apatia, as ruas
atulhadas de povo  polcia pedestre a fazer sentinela, polcia eqestre a fazer
correrias  vales a entrarem, dinheiro a sair  vinte boatos por dia, vinte
desmentidos por noite  iluses de manh, decepes  tarde  enfim uma situao
to impossvel de descrever como difcil de suportar,  tal foi o espetculo que
apresentou o Rio de Janeiro durante a semana passada.

Mas, se uns davam  crise esta feio e esta
gravidade, outros  no desejo de aliar o zelo da lei e a salvao pblica, viam
na crise um alcance menor, e conseguintemente no aconselhavam o emprego de
remdios hericos.

Os remdios hericos, que uns aconselhavam e outros
combatiam, eram medidas aplicadas pelo governo, conforme o extraordinrio da
situao. Tais remdios, dizia-se, tero a virtude de atalhar o mal e acalmar os
espritos.

Os que pediam isto fundavam-se no princpio de que
no se cura um cancro com gua de malvas.

E fundavam-se igualmente na moralidade da seguinte
anedota:

Um homem achava-se encerrado em uma sala. Cai uma
vela e comunica o fogo a uma cortina. Ele procura extinguir o fogo, mas no
pode; as chamas devoraram em poucos segundos a cortina, comeavam a tisnar uma
porta, e j lambiam o teto. Vendo a gravidade do perigo, o homem corre  porta
da sada, mas desgraadamente estava fechada; procura a chave sobre as mesas e
cadeiras, nos bolsos, na secretria, e nada!

Entretanto, o fogo lavrava com intensidade.
Aturdido, e no querendo gastar mais tempo em procurar a chave, o infeliz chega
 janela e grita por socorro.

A tempo o fez, porque exatamente passava nessa
ocasio um homem que ouviu o grito e subiu.

Quando o infeliz sentiu que o salvador estava do
outro lado da porta, gritou:

 Fogo! Fogo!

 Espere um pouco, respondeu o outro.

 Arrombe a porta!

 No;  preciso ver uma chave. Com chave  que se
abre uma porta. Tenho algumas comigo; vou ver uma por uma  vejamos esta; 
muito grande. Outra: nada! Bem. Outra: no entra!

 Cresce o fogo, arrombe a porta, por
favor!

 No arrombo!  mais uma chave: esta h de servir.
Mau! no d volta. Ah! Aqui vai a ltima: no serve.

 Por favor, arrombe a porta!

 Mas, depois?

 Depois, fica arrombada at que se extinga o fogo;
no faz mal; posso da em diante fech-la com uma tranca de pau, at que cheguem
os ferreiros para concertar a fechadura. Depressa! o fogo est a alguns palmos
de mim!

 Meu caro, est salvo.

 Ah!

 Est salvo, fazendo ato de contrio e
encomendando a alma a Deus. Eu no abro as portas seno com chaves; quando no
tenho chaves no arrombo as portas.

Ora, o homem morreu, e a casa ficou reduzida a um
monto de cinzas.

Era o caso da crise comercial.  sempre conveniente
abrir uma porta com chave, mas nos casos de incndio, em no havendo chave,
duvido muito que se possa recorrer a outro meio que no seja o
arrombamento.

Felizmente, o governo, auxiliado pelas vozes
generosas da imprensa e pelo voto esclarecido do conselho de estado, compreendeu
a magnitude da situao e aplicou o meio extraordinrio do arrombamento, certo
de que os ferreiros concertaro depois a fechadura.

Uma crise como esta no d lugar a nenhum outro
acontecimento. Tudo passou despercebido. A crise era o ltimo pensamento da
noite, e o primeiro pensamento da manh. Era o assunto obrigado das conversaes
nas ruas, nos cafs, nos jornais.

Aqui, esquecendo a gravidade das circunstncias,
devo mencionar um fato que prova em favor de um rifo popular:  em tempo de
guerra, mentira como terra.

Correram mais mentiras em uma semana de crise do
que costuma correr em um ano de circunstncias normais.

Era algum espirituoso que as inventava?

Era a interpretao exagerada que se dava a alguns
boatos fundados? No sei; talvez uma e outra coisa; mas o certo  que, de meia
em meia hora, todas as bocas repetiam, com a maior sinceridade e convico, os
boatos mais incongruentes e as mais inconsistentes asseveraes.

Mas, no meio de tantas asseveraes e conjeturas,
foi agradvel de ver que nada se articulou contra a casa, cuja falncia produziu
a crise. De ordinrio, as coisas passam-se de outro modo: tambm as ovaes do
infortnio tm os seus apedrejadores. Doena humana,  vocao de
apedrejar.

A crise trouxe o fechamento dos teatros. No se
repetiu por isso, na quinta-feira, A mulher que deita cartas, com Emlia
das Neves.

Ainda no tive ocasio de falar aos meus leitores
acerca de Emlia das Neves no papel de Gema, naquele drama.

O drama, como se sabe, foi um drama de ocasio e
feito por encomenda imperial. Tira o assunto do fato do pequeno Mortara. Segundo
se disse ento, Napoleo III encomendara a composio de uma pea em que aquele
episdio servisse de base. Disse-se mais que, alm do autor confesso, outro
havia da prpria casa do Imperador. A presena deste no espetculo confirmou os
boatos.

Isto basta para predispor contra a pea a crtica
sensata. Naquelas condies no se faz drama, faz-se panfleto. Encomenda no 
arte.

Todavia, se no caso atual a gente no ouve uma pea
literria, tambm no ouve o que conta ouvir: argumento em vez de dilogo,
silogismo em vez de lance dramtico. Ganha-se sempre alguma coisa.

A moralidade da Mulher que deita cartas  a
tolerncia religiosa; a pea acaba quando a me crist e a me judia confundem
as suas lgrimas sobre a cabea da filha comum.

Este desenlace, que eu esperava ver ontem combatido
na Cruz, se a Cruz no tivesse suprimido o nmero de ontem,
tranqiliza e alivia o esprito das fortes comoes que recebe durante a
pea.

O interesse consiste na perseverana com que a me
judia procura a filha, adotada pela me crist, e, uma vez encontrada a filha,
na luta entre as duas mes, no conflito doloroso entre o amor da educao e o
amor da natureza.

Apesar da importncia relativa dos outros papis,
Gema  a personagem que nos atrai mais a ateno.

Li a pea a fio, e creio poder julg-la em breves
palavras.

Gema devia ser a um tempo a mulher judia e a
mulher humana. Tenho visto muitas judias em cena; o erro capital dos autores
est em reunir nas suas heronas todos os distintivos do carter judeu, sem
cuidar em lhes dar um corao humano.

Ora, Gema poucas vezes  mulher, mas  sempre
judia. De princpio a fim, procura com amor, com perseverana, com desespero, a
filha de suas entranhas, mas em tudo isso est longe de ser a Rachel das
Escrituras ou a Hcuba de Eurpides.

O enunciado basta para reunir muitos votos  minha
opinio. No descerei a minuciosidades. V-se em geral que o autor da pea tem
presente o contrato da encomenda, e busca fugir ao movimento natural para ceder
 necessidade de produzir tal efeito, ou chegar a tal concluso.

Em prova disto, citarei apenas a cena capital do
drama, aquela em que as duas mes levam a filha  situao de escolher uma ou
outra.  uma cena absurda e fora da natureza. No negarei que h a lugares
tocantes e expresses pungentes; mas isso no legitima a totalidade da cena, nem
justifica a existncia do lance.

Feitos estes reparos ao drama, confessarei que
alguns pontos foram aplaudidos com justia.

Emlia das Neves desempenhou o papel de
Gema.

Tendo j conhecimento do drama, direi que, apesar
do imenso talento da artista, receei que nem sempre pudesse triunfar das
escabrosidades do papel.

Mas ento esquecia-me de que muitas vezes os
artistas realam as obras, dando relevo s belezas secundrias ou criando novas
belezas nos lugares em que elas so inteiramente nulas.

Ouvi a pea at o fim, e, se me devesse guiar pelos
aplausos, outro seria o meu juzo. Os aplausos no pagaram o merecimento. Emlia
das Neves confirmou plenamente a apreciao feita neste mesmo lugar por ocasio
de Joana Doida.

Uma arte consumada d-lhe os meios de tudo criar e
colorir tudo. Ou exprima um sentimento, ou acentue uma palavra, ou faa um
gesto, v-se que ela sabe realizar a difcil e rara aliana da arte e da
natureza.

O papel de Gema tem, como disse, defeitos
capitais. O talento da artista pode disfarar esses defeitos e dar-lhe, no o
interesse da curiosidade, mas o interesse da humanidade.

Em mais de uma cena subiu ao pattico; teve gritos
de leoa para as agonias supremas, teve lgrimas tocantes para as dores do
corao; soube ser me e mulher.

Familiar aos grandes efeitos da cena, Emlia das
Neves emprega-os com a discrio necessria para no cair das alturas da
natureza e da arte. Sombria ou radiante, irada ou terna, amorosa ou odienta, ela
sabe que, em cada uma dessas fases do sentimento, a arte exige um toque
ideal.

As duas peas representadas bastam para julg-la.
Dizem que as duas peas que ainda falta representar so de gnero diverso, de
modo a mostrar ao pblico as diferentes faces do talento da artista. Citam-se as
Proezas de Richelieu, em primeiro lugar, e depois a Dama das
Camlias ou a Judith. Eu preferia a Judith, no por supor que
o seu talento, to variado como , no possa reproduzir a paixo de Margarida
Gauthier, mas pelo desejo de v-la calar o coturno trgico e brandir o punhal
de Melpmene.

A representao da Mulher que deita cartas
teve lugar antes da crise. Como disse, durante a semana passada, o teatro esteve
fechado por ordem superior.

 que realmente aquele acontecimento absorvia todos
os outros. At a prpria eleio se concluiu no meio da indiferena
geral.

A apurao de todos os sufrgios do municpio est
feita. Acha-se, portanto, composta a nova cmara municipal; acha-se composta de
novos homens, uns conservadores, outros liberais,  estes em maioria.

J tive ocasio de manifestar os meus desejos de
que a nova cmara realize os desejos de todos os muncipes.

Esses desejos limitam-se a que trate do municpio
seriamente, acudindo s suas necessidades mais urgentes, empregando utilmente as
suas rendas, melhorando o pessoal do seu servio, corrigindo ainda, se for
preciso, os regulamentos a que est sujeito esse pessoal, de maneira que o
clamor pblico venha a calar-se, e a cidade e seus subrbios possam viver
contentes e felizes.

Por exemplo, no haver um melhor sistema de
limpeza da cidade, em virtude do qual no ande a gente condenada,  em tempo de
chuva,  lama,  em tempo de sol,  poeira?

No haver um meio de vigilncia que venha garantir
as rvores plantadas em vrios pontos da cidade, do vandalismo que as torna
hcticas e mofinas? E na transplantao dessas rvores no convir consultar os
meios que a cincia fornece, para que das cicatrizes produzidas no ato de
transplantao no lhes resulte a morte certa?

Tais so alguns dos inumerveis pontos para que se
espera que a nova cmara municipal atenda, a fim de produzir todos os bens que
promete e que se lhe devem exigir.

Aqui devia eu acabar se no houvesse de dar uma
notcia grata para as letras.

Um jovem acadmico de S. Paulo acaba de publicar um
livro de versos. Chama-se o livro: Vozes da Amrica, e o poeta: Fagundes
Varela.

Varela  uma vocao potica das mais robustas que
conheo; seus versos so inspirados e originais. Goza na academia de S. Paulo, e
j fora dela, de uma reputao merecida; as esperanas que inspira, ele as vai
realizando cada dia, sempre com aplauso geral e singular admirao.

Ainda no vi as Vozes da Amrica. Mas por
cartas e jornais de S. Paulo sei que  um livro, no s digno irmo dos que
Varela publicou anteriormente, mas ainda um notvel progresso e uma brilhante
promessa de outras obras de subido valor.

Apenas receber o volume, hei de l-lo, e direi com
franqueza e lealdade aos leitores o que pensar dele. Estou certo de bater
palmas.

26 DE SETEMBRO DE
1864

Antes tarde do que nunca.

O folhetim demorou-se um dia porque,  hora em que
devia preparar-se e enfeitar-se, para conversar com os leitores, corria pelo
caminho de ferro em busca das guas do Paraba.

Nenhum homem de gosto, que tenha em apreo as
maravilhas da natureza e os prodgios do brao humano, pde deixar de ir ver, ao
menos uma vez na vida, os trabalhos arrojados e os panoramas esplendidos que lhe
oferece uma viagem pela estrada de ferro de D. Pedro II.

Direi mesmo que ali a natureza cede o passo ao
homem, to pasmosas so as dificuldades que a perseverana e a cincia
conseguiram vencer.

O futuro das estradas de ferro no Brasil est
garantido e seguro. Quem venceu at hoje, vencer o que falta. Um anel unia em
consrcio o doge e o Adritico; o wagon consorciou j a civilizao e o
Paraba. Esta unio no pode deixar de ser fecunda. E a prole que vier deve ter
como braso e como senha o nome do cidado eminente que preside ao
desenvolvimento de uma obra to colossal.

O folhetim aplaude os progressos srios; mas ri dos
progressos e dos melhoramentos ridculos. H-os assim.

Uma hiptese:

O leitor foi aluno do conservatrio de msica; l
esteve muito tempo e de l saiu como entrou; nunca pde entender o abecedrio
musical; a semifusa era uma esfinge que o leitor no pde desencantar, como
dipo, mas que tambm no o devorou, por felicidade nossa; em resumo, o leitor
perdeu alguns anos de vida, e achou-se um dia condenado a lanar mo de outra
profisso qualquer.

Mas como? O leitor  fantico por msica; freqenta
o teatro lrico, e no perde uma rcita que seja;  o primeiro que entra e o
ltimo que sai; assiste  afinao dos instrumentos, acompanha de cabea todos
os andantes e allegros. Quando sai do teatro est desvairado.
Atira-se ao piano intil que tem em casa, a ver se pode, mesmo sem o auxlio das
regras, reproduzir as harmonias que sente em si. Mas nada consegue, faz um rudo
infernal, atordoa os vizinhos, perde uma noite de sono, e  obrigado a passar o
dia seguinte de cama.

Desengana-se por fim:  para a msica um ente nulo.
Mas quem pode deixar facilmente a primeira iluso que acalentou no peito? O
leitor hesita, estremece, consulta o cu, arranca um punhado de cabelos, at que
um dia de manh, segunda-feira passada, vai ter-lhe s mos o Jornal do
Comrcio, e o leitor v a a seguinte notcia:

Msica a vapor.  Segundo o Jornal dos
Debates  , devia haver na rua Neuve Bossuet, em Paris, uma sesso pblica
e gratuita, dada pelos Srs. Carlos Hermann e Rahn, para se poder apreciar toda a
importncia de um novo ensino musical, em que o professor Rahn pensa h muito
tempo e que vem a ser a resoluo do seguinte problema: habilitar qualquer
indivduo a compor um trecho de msica, a improvisar em um piano com tanta
presteza como se escreve uma carta e se improvisa uma conversao.

Deixo em claro o monlogo de satisfao que o
leitor naturalmente h de produzir depois de ter lido as linhas que a ficam
transcritas.

Graas aos Srs. Rahn e Carlos Hermann, o leitor,
at ento completamente leigo na arte de Euterpe, pode vir a ser um msico
notvel e preencher a misso de que se supe investido.

Antes no poderia faz-lo; a msica era ento um
monoplio dos gnios e dos talentos que Deus criava e o estudo instrua. Hoje, a
msica democratize-se; no s Mozart pode ser msico, como pode s-lo qualquer
indivduo, o leitor ou eu, sem precisar nem de talento nem de estudo.

Mais. O estudo e o talento tirariam ao sistema dos
Srs. Rahn e Carlos Hermann o maior mrito que eu lhes vejo, que  a supresso
daquelas duas condies.

Tnhamos at aqui as mquinas de moer msica, na
expresso de um escritor ilustre; agora temos mquinas para fazer msica, o que
  em que pese aos fsseis  o supremo progresso do mundo e a suprema
consolao das vocaes negativas.

Daqui em diante todas as famlias sero obrigadas a
ter em casa uma mquina de fazer caf e uma mquina de fazer msica  para
digerir o jantar.

Alm da vantagem de vulgarizar a arte, o novo
sistema  til pela economia de tempo. O tempo  dinheiro. Achar um sistema que
habilite a gente a compor uma sinfonia enquanto fuma um cigarro de Sorocaba, 
realmente descobrir a pedra filosofal.

Trs vezes salve, rei Improviso!

Que vales tu agora, velha Inspirao? Os tempos te
enrugaram as faces, e te amorteceram os olhos. Tens os cabelos brancos, v-se
que a tua realeza chega ao termo;  preciso abdicar. Sfregos de viver e de
produzir, queremos em teu lugar um rei ativo, sfrego, pimpo, um rei capaz de
nos satisfazer, como o no fazes tu que j andas trpega de velhice.

Tudo isto que acabo de dizer, diria naturalmente o
leitor, se acaso estivesse na hiptese que figurei.

Estas conversas semanais, como o ttulo indica,
produzem-se  medida que a memria vai despertando os sucessos e as reflexes
vo caindo ao acaso dos bicos da pena.

Assim  que, sem procurar um elo que ligue dois
assuntos, passo de um a outro quando o primeiro se esgota e o segundo vem
procurar o seu lugar no papel.

J tive ocasio de falar no Sr. Ataliba Gomensoro,
jovem estudante de medicina, que no h muitos meses fez a sua estria literria
com uma comdia num ato, Comunismo, representada no Ginsio.

O mesmo teatro representa agora uma nova comdia do
Sr. Ataliba Gomensoro, denominada O casal Pitanga. Em um ato.

O casal Pitanga  um progresso sobre o Comunismo. No
casal Pitanga a intriga  mais bem ligada e o movimento mais natural,
posto que estas duas condies no estejam ainda a cabalmente preenchidas. O
dilogo e o estilo esto muito acima do dilogo e do estilo do Comunismo,
v-se que a mo do autor, apesar de ainda incerta e inexperiente, procura
assentar-se melhor e busca corrigir nos trabalhos do dia seguinte os defeitos
escapados nos trabalhos da vspera.

O Sr. A. Gomensoro  um moo inteligente, e possui
aquilo que tanto reala a inteligncia:   modesto.   sombra dessa modstia
que eu me animo a falar-lhe com franqueza. Aplaudo a discrio com que se vai
ensaiando no gnero difcil da comdia, no querendo desde o primeiro dia
expr-se a uma tentativa grande, mas infeliz.

Presumo que o Sr. A. Gomensoro no querer ficar no
campo da comdia de intriga; outro campo imensamente vasto se abre aos que
procuram alistar-se nas bandeiras de Plauto e Molire. Esse exige muito estudo e
muita observao; os aplausos que o pblico lhe deu convidam o Sr. A. Gomensoro
a no perder de vista aquelas duas condies. E ouvindo, como acredito, as
palavras da crtica simptica, no se arriscar nunca a tristes
derrotas.

No desempenho da comdia O casal Pitanga
distinguiram-se o Sr. Graa e a Sra. Elisa, que faziam os papis dos dois
Pitangas.

Na noite em que se representou pela primeira vez a
comdia do Sr. A. Gomensoro, representou-se igualmente um dialogo cmico em que
o Sr. Simes desempenhou o papel de um ingls. Esse desempenho foi excelente, e
o Sr. Simes mostrou-se artista na acepo elevada da palavra.

O Ginsio  agora uma das mais belas salas de
teatro, depois que se acha pintado e adornado.

Os leitores j sabem que no dia 15 de outubro se
efetuar o casamento de S. A. Imperial com o Sr. conde dEu.

A imprensa j comemorou a escolha do noivo e
escreveu palavras de cordial respeito e firme esperana no consrcio que se vai
efetuar.

A ambio dos povos livres, neste caso,  que nos
seus tronos se assentem prncipes honestos e ilustrados, capazes de compreender
toda a vantagem que se pode tirar da aliana da realeza com o povo.

Assim, o pas recebe alegremente a notcia deste
acontecimento.

Segundo se diz, preparam-se para o dia 15 de
outubro manifestaes de regozijo.

No me faltar ento matria para o
folhetim.

Entre as festas que nesse dia se devem realizar
figurar uma ascenso aerosttica, feita pelo Sr. Wells, ultimamente chegado a
esta corte.

O Sr. Wells  um corajoso americano que acaba de
admirar a populao de Buenos Aires com as suas ascenses. Toda a imprensa
portenha  unnime em tecer ao Sr. Wells os mais pomposos e entusisticos
elogios.

O pblico fluminense j assistiu, h alguns anos, a
uma ascenso aerosttica. Creio, porm, ao que se diz do Sr. Wells, que o novo
espetculo que se lhe vai oferecer  ainda mais imponente.

O Sr. Wells tem concebido e realizado vrios
projetos de viagem, a todos os respeitos dignos da admirao pblica.

A viagem aerosttica  uma das mais arrojadas
concepes do esprito humano. Filinto Elsio cantou esse grande arrojo na ode
Os novos Gamas. Porto Alegre  autor da bela poesia O Voador. Esta
ltima citao traz-me ao esprito muitas consideraes j velhas e repetidas
sobre a sorte do verdadeiro inventor dos bales aerostticos, o brasileiro
Bartolomeu de Gusmo, filho deste continente que h de substituir a velha Europa
na vanguarda da civilizao.

O nome de Gusmo no  conhecido na Europa. Raros
lhe do a palma que to legitimamente lhe pertence. Fora da lngua portuguesa 
e at na prpria lngua portuguesa  o nome de Montgolfier anda sempre ligado ao
clebre invento.  o caso do poeta:

Sic vos non vobis...

Voltando ao Sr. Wells, mencionarei o projeto que
este aeronauta afaga h muito tempo: atravessar em um balo o continente
sul-americano.  sem duvida um projeto arrojado. A perseverana vence tudo,
perseverantia vincit omnia,  tal  a divisa do Sr. Wells.

No deixarei o assunto sem acrescentar uma
reflexo:

O homem tem admirado a natureza por todos os lados
e de todos os modos. Chega mesmo a penetrar nela, se  poeta ou filsofo. Mas
que soma de espetculos novos e deslumbrantes no lhe oferece a conquista do ar!
 Sugeriu-me esta reflexo a leitura do seguinte fragmento de uma carta do Sr.
Wells ao redator de Nacin Argentina.

.... Quando cortei a ltima corda da barquinha o
sol tinha-se escondido por traz das ilhas, mas logo pareceu que subia de novo,
porque o balo subira rapidamente a uma imensa altura sobre as nuvens que
estavam como inflamadas pelos ltimos raios do astro. A cena era belssima vista
a uma lgua de altura.

O Rio parecia reduzido a metade, e os seus limites
se perdiam de um lado entre um monte de nuvens, e de outro entre as
ilhas.

Era uma coisa singular ver levantar-se o sol do
poente; contemplei-o com prazer, e cantando o hino Star Spangled Rauner,
empunhei a bandeira da minha ptria, em honra do primeiro panorama desta espcie
que via em minha vida...

Veja-se por aqui quantos aspectos novos a face do
globo tem ainda para oferecer aos olhos vidos e ao incansvel esprito do
homem.

Aguarde o pblico a primeira ascenso do corajoso
aeronauta.

No por acaso, antes muito de indstria, guardei
para o fim do folhetim a notcia da morte de Odorico Mendes.

A imprensa comunicou ao pblico que o ilustre
ancio falecera em Londres a 17 do passado.

Odorico Mendes  uma das figuras mais imponentes de
nossa literatura. Tinha o culto da antiguidade, de que era, aos olhos modernos,
um intrprete perfeito. Naturalizara Virglio na lngua de Cames; tratava de
fazer o mesmo ao divino Homero. De sua prpria inspirao deixou formosos
versos, conhecidos de todos os que prezam as letras ptrias.

E no foi s como escritor e poeta que deixou um
nome; antes de fazer a sua segunda Odissia, escrita em grego por Homero, teve
outra, que foi a das nossas lutas polticas, onde ele representou um papel e
deixou um exemplo.

Era filho do Maranho, terra fecunda de tantas
glrias ptrias, e to desventurada a esta hora, que as v fugir, uma a uma,
para a terra da eternidade.

H poucos meses, Gomes de Souza; agora Odorico
Mendes; e, se  exata a dolorosa notcia trazida pelo ltimo paquete, agrava-se
de dia para dia a enfermidade do grande poeta, cujos Cantos sero um
monumento eterno de poesia nacional.

Deus ampare, por glria nossa, os dias do ilustre
poeta; mas, se ele vier a sucumbir depois de tantos outros, que lgrimas sero
bastantes para lamentar a dor da Nobe americana?

3 DE OUTUBRO DE
1864

O Brasil acaba de perder um dos seus primeiros
poetas. Se ele tem em alguma conta a glria das musas, o dia em que um destes
espritos deixa a terra, para voar  eternidade, deve ser um dia de luto
nacional.

E aqui o luto seria por um duplo motivo: luto por
mgoa e luto por vergonha. Mgoa da perda de um dos maiores engenhos da nossa
terra, talento robusto e original, imaginao abundante e fogosa, estro arrojado
e atrevido. Vergonha de haver deixado inserir no livro da nossa histria a
pgina negra do abandono e da penria do poeta, confirmando hoje, como no sculo
de Cames, a dolorosa verdade destes versos:

O favor com que mais se acende o engenho

No no d a ptria, no, que est metida

No gosto da cobia, e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.

Todos sabem que a vida de Laurindo Rabelo foi uma
longa srie de martrios. Se no tivesse altas e legtimas aspiraes, como
todos os que sentem vibrar em si uma corda divina, os padecimentos ser-lhe-iam
menos sensveis; mas, cheio daquela vida intelectual que o animava, dotado de
asas capazes de subir s mais elevadas esferas, o poeta sentia-se duplamente
martirizado, e a sua paixo atingia propores dos maiores exemplos de que reza
a histria literria de todos os pases.

A figura de Prometeu  uma figura gasta em
alambicados necrolgios; mas eu no sei de outra que melhor possa representar a
existncia atribulada deste infeliz poeta, espicaado, no por um, mas por dois
abutres, a fatalidade e a indiferena. A fatalidade  se  lcito invocar este
nome  assentou-se-lhe no lar domstico, desde que ele abriu olhos  vida; mas,
se ao lado dela no se viesse depois sentar a indiferena, a vida do poeta seria
outra, e aquele imenso esprito no teria atravessado por este mundo 
amargurado e angustiado.

Consola um pouco saber que, na via dolorosa que o
poeta percorreu, se j lhe no assistia a f nos homens, nunca se lhe amorteceu
a f em Deus. Os sentimentos religiosos de Laurindo Rabelo eram os mais
profundos e sinceros; ele tinha em si a conscincia da justia divina, em quem
esperava, como o ltimo refgio dos desamparados deste mundo. Em seus ltimos
momentos deu ainda provas disso; o seu canto do cisne foi uma orao que ele
improvisou para ajudar-se a morrer. Os que ouviram essa inspirao religiosa
dizem que no se podia ser nem mais elevado nem mais comovente. Assim acabou o
poeta cristo.

Laurindo Rabelo era casado h alguns anos. A
famlia foi ento para ele o santurio do seu corao e o asilo da sua musa. Os
seus labores nestes ltimos tempos tendiam a deixar  companheira dos seus dias
uma garantia de futuro. No tinha outras ambies.

Um grande talento, uma grande conscincia, um
grande corao, eis o que se perdeu em Laurindo Rabelo. Do talento ficam a
provas admirveis, nos versos que escreveu e andam dispersos em jornais e na
memria dos amigos. Era um poeta na verdadeira acepo da palavra; estro
inspirado e imaginao fecunda, falando a lngua de Bocage e admirando os que o
ouviam e liam, to pronta era a sua musa, to opulenta a sua linguagem, to
novos os seus pensamentos, to harmoniosos os seus versos.

Era igualmente uma grande conscincia; conscincia
aberta e franca, dirigida por aquele rigorismo de Alceste, que eu ouvi censurar
a mais de um Filinto do nosso tempo. O culto da justia e a estima do bem
eram-lhe iguais aos sentimentos de revolta produzidos pela injustia e pelo mal.
Ele desconhecia o sistema temperado de colorir os vcios medocres e cantar as
virtudes ilusrias.

Quanto ao corao, seus amigos e companheiros sabem
se ele o tinha grande e nobre. Quando ele se abria, aos afetos era sempre sem
reservas nem refolhos; sabia amar o que era digno de ser amado, sabia estimar o
que era digno de ter estima.

Se este corao, se esta conscincia, se este
talento acaba de fugir aos nossos olhos, a ptria que o perdeu deve contar o dia
da morte dele na lista dos seus dias lutuosos.

H oito dias comemorava eu uma perda literria do
pas; hoje comemoro outra, e Deus sabe quantas no sucedero ainda nesta poca
infeliz para as musas!  Assim se vo as glrias ptrias, os intrpretes do
passado diante das geraes do futuro, os que sabem, no turbilho que leva as
massas irrefletidas e impetuosas, honrar o nome nacional e construir o edifcio
da grandeza da ptria.

Ouo que se pretende fazer uma edio dos escritos
de Laurindo Rabelo.  um duplo dever e uma dupla necessidade; o produto
auxiliar a famlia viva; a obra tomar lugar na galeria literria do
Brasil.

Quanto a ti, infeliz poeta, pode-se dizer hoje o
que tu mesmo dizias em uma hora de amarga tristeza:

A tua triste existncia
Foi to pesada e to dura,
Que a pedra da sepultura
J te no pode pesar.

Cometi uma falta no folhetim de domingo passado;
no falei de uma obra e de um artista. Cumpre-me reparar a falta.

Quando se festejou a Exaltao da Cruz na igreja de
Santa Cruz dos Militares foi inaugurado o retrato a leo do atual provedor o Sr.
general Antonio Nunes de Aguiar.  um retrato de corpo inteiro.

A obra foi olhada como digna de apreo e de estima.
Estimar a obra de arte  prestar-lhe uma honra elevada. Os conhecedores e
amadores no hesitaram em dar este gnero de homenagem ao trabalho com que a
irmandade da Cruz resolvera perpetuar na memria dos vindouros os seus
sentimentos de gratido.

 que realmente a simples vista do quadro faz
adivinhar um pincel adestrado e inteligente. O nome do autor corresponde a essa
apreciao. O Sr. Rocha Fragoso  um dos nossos artistas mais capazes e mais
dignos de apreo. Dotado de talento real para a pintura, foi um discpulo
esperanoso da nossa academia, e quando mais tarde voltou de Roma, duplamente
condecorado,  com o aplauso dos mestres e com a comenda de S. Gregrio Magno, 
os seus irmos de arte o receberam como uma honra da classe.

Dando ao Sr. Rocha Fragoso os meus sinceros
aplausos, no deixarei de consignar aqui o desejo de que novas provas de seu
apreciado talento venham conquistar novos aplausos, dando-me ainda o prazer de
escrever muitas vezes o seu nome neste folhetim.

Que a arte e os artistas vo ganhando neste pas um
lugar distinto,  o melhor desejo de todo o corao verdadeiramente brasileiro.
Vem a propsito mencionar mais sentou a tragdia Judith e a comdia As
primeiras proezas de Richelieu.

Calar na mesma noite o coturno de Melpomene e a
chinela de Talia, passar da tenda de Holofernes e dos rochedos de Betlia aos
paos de Luiz XIV e ao camarim do sobrinho do Cardeal, era dar prova de um
talento vasto e variado. A artista quis entrar nessa prova, que, alis, j dera
ao pblico do seu pas. Aquela circunstncia e a de ser o espetculo em
benefcio da artista encheram o vasto salo do teatro Lrico.

Choveram nessa noite aplausos, flores e
coroas.

O primeiro espetculo que se ofereceu aos olhos do
espectador ao levantar o pano, foi, como j se tem visto em outras peas, o de
um asseio e ordem cnica a que no andamos muito acostumados. Essa primeira
impresso  j de si agradvel e dispe o esprito do espectador.

Como sempre, o espectador assiste distrado s
primeiras cenas at a entrada de Emlia das Neves, e da em diante  a eminente
atriz quem lhe atrai exclusivamente a ateno.

Os dotes que eu j tive ocasio de reconhecer em
Emlia das Neves, e que so de primeira ordem, acham-se perfeitamente acomodados
 figura de Judith e s condies da tragdia; voz, figura, gesto,
fisionomia, tudo corresponde a uma ao trgica. Emlia das Neves, que possui
estas duas condies  a inteligncia e o natural  uma para compreender, outra
para reproduzir, soube entrar no esprito do papel e desempenh-lo ao vivo,
mediante os recursos de uma arte que lhe  familiar.

Se houvera tempo e espao para estabelecer
preferncias nas diversas situaes da tragdia, eu desenvolveria os motivos
pelos quais a eminente artista me agradou mais no 2, no 3 e no 5 atos.
Limito-me a assinalar aqui essas preferncias, que de modo nenhum concluem
contra o desempenho, alis excelente, do resto do papel.

Mas quem dir que a figura trgica, a voz potente,
a gesticulao larga, mas sbria, como deve ser,  quem dir enfim, que a atriz
talhada para a reproduo das grandes paixes, pode to facilmente acomodar-se
ao gnero familiar da comdia, em que sorri, brinca, moteja, em que de guia se
faz pomba, apenas com o intervalo de um quarto de hora?

Conheo alguns artistas que possuem o dom de
enternecer no drama e alegrar na comdia; mas no so muitos, de certo, posto
que quase todos procurem vencer a mesma dificuldade. Esta dificuldade s muita
natureza e muita arte podem vencei-a; se eu admiro, portanto, a inteno de
todos os cometimentos desta ordem, estou muito longe de admirar-lhes os
resultados.

Com a artista de que me ocupo duvido que se possa
exigir mais. Mesmo pondo de parte a circunstncia de ter representado na mesma
noite os dois gneros, o que tornava mais flagrante e mais vivo o contraste, o
desempenho do papel do menino duque no podia ser mais completo do que foi. Fora
sem dvida para desejar que, em vez das Proezas de Richelieu, comdia do
gnero anedtico, sem grande alcance nem grandes pretenses literrias, a
empresa fizesse representar uma verdadeira comdia, uma comdia da boa escola,
onde o talento de Emlia das Neves pudesse entrar no largo estudo que a comdia
das Proezas lhe no permitiu.

 verdade, porm, que uma comdia nessas condies
no teria um pessoal completo,  exceo da artista de que me ocupo, e do Sr.
Gusmo, que no deixarei de mencionar aqui pelo desempenho do baro de
Belle-Chasse.

O papel de madame Patin, burguesa ridcula que o
leitor pode encontrar, at com o mesmo nome, mas tratada com outro talento, no
Chevalier  la mode, comdia de Dancourt, sofreu com o desempenho, no
tanto por estar longe de ser completo, como pelo contraste que se apresentava 
memria, comparando-se com o excelente desempenho que fez h anos a eminente
artista dramtica Gabriela da Cunha.

Dizem que a pea escolhida para a prxima recita 
a Adriana Lecouvreur.

Terminarei anunciando uma transmigrao; morreu a
Cruz, mas a alma passou para o Cruzeiro do Brasil  continuando
assim a mesma Cruz, revestida de novas galas, segundo a expresso
singularmente modesta da redao.

Procurei as novas galas, mas confesso ingenuamente
que as no encontrei. Quer-me parecer que ficaram na. inteno dos
redatores.

10 DE OUTUBRO DE
1864

Dai-me boas semanas e eu vos darei bons
folhetins.

Mas que se pode fazer no fim de sete dias chochos,
passados a ver chover, sem acontecimento de natureza alguma, ao menos destes que
tenham para o folhetim direito de cidade?

Gastaram-se os primeiros dias da semana a esperar o
paquete,  e o paquete, como para punir to legtima curiosidade, nada trouxe
que estivesse na medida do desejo e da ansiedade. Veio apenas a notcia de um
casamento real no norte da Europa, que muita gente olha como um prenncio da
formao do reino escandinavo, mas que eu no sei se dar em resultado
exatamente o contrrio disso, isto , a supresso de uma monarquia
constitucional em favor de uma monarquia autocrtica.

A vou eu entrando pelo terreno da poltica torva e
sanhuda. Ponto final ao acidente.

Mas  como dizia eu  que se pode fazer depois de
uma semana to vazia como a cabea do rival de Andr Roswein?

Diz Alphonse Karr que depois de encerradas as
cmaras e posta a poltica em frias, os jornais franceses comeam a descobrir
as virtudes e os milagres; aparecem os atos de coragem e abnegao, e as
crianas de duas cabeas e quatro ps. A observao  verdadeira, talvez, mas
para l; o Rio de Janeiro em falta de poltica, nem mesmo se socorre da virtude
e dos fenmenos da natureza. Tudo volta a um silncio desolador; raream os
acontecimentos, acalma-se a curiosidade pblica.

Assim, foi com profundo desgosto que eu fiz hoje
subir  minha varanda a musa gentil e faceira do folhetim.

 Casta filha do cu, que vs tu na plancie?
perguntei-lhe como no poema de Ossian.

A infeliz desceu com ar desconsolado e disse-me que
nada vira, nem a sombra de um acontecimento, nem o reflexo de uma
virtude.

Perdo, viu uma virtude.

No sei em que lugarejo da Baa reuniu-se o jri no
prazo marcado e teve de dissolver-se logo, porque o promotor de justia no
apresentou um s processo.

 den baiano! dar-se- caso que no intervalo que
mediou entre a ltima sesso do jri e esta, nem um s crime fosse cometido
dentro dos vossos muros? Nem um furto, nem um roubo, nem uma morte, nem um
adultrio, nem um ferimento, nem uma falsificao? O pecado sacudiu as sandlias
s vossas portas e jurou no voltar aos vossos lares? O caso no  novo;
lembra-me ter visto mais de uma vez notcias de fenmenos
semelhantes.

O den, antes do pecado de Eva, no era mais feliz
do que essas vilas brasileiras onde o cdigo se vai tornando letra morta e os
juizes verdadeiras inutilidades.

Onde est o segredo de tanta moralidade? Como  que
se prov to eficazmente  higiene da alma? H nisto matria para as
averiguaes dos sbios.

 Mas  juste retour des choses
dici-bas  talvez que na prxima sesso do jri, a vila, que desta vez subiu
tanto aos olhos da moralidade, apresente um quadro desconsolador de crimes e
delitos, de modo a desvanecer a impresso deixada pelo estado
anterior.

Tudo  possvel neste mundo. Em falta de
acontecimentos h sempre um acontecimento que pode entrar em todos os folhetins,
e ao qual j me tenho referido muitas vezes  at com risco de
monotonia.

 um dever de que no me liberto abrir os olhos 
cmara municipal a respeito de uma coisa que no  favor, mas dever de to alta
instituio.

Se a cmara municipal no tem por obrigao cuidar
do municpio, tomo a liberdade de perguntar para que serve, ento, e se  para
continuar a viver do mesmo modo que os cidados, de quatro em quatro anos, vo
deitar uma cdula  urna eleitoral.

Longe de mim negar o que a cmara tem feito, mas
tambm longe de mim a idia de ficar mudo diante do abandono em que certas
necessidades municipais esto.

O caminho do Catete, que um homem ao esprito chama
 caminho apopltico,  , por assim dizer, o resumo do estado geral da cidade.
As folhas reclamam todos os dias contra o descuido da cmara e dos seus agentes,
mas  como se pregasse no deserto.

Todos os sentidos de que aprouve  natureza
dotar-nos andam perseguidos e em guerra aberta com a poeira, a imundcie, os
boqueires, etc.

Ah! a imundcie! Como Lucrecia Brgia aos convivas
de Gennaro, a cmara municipal tomou a peito dizer aos fluminenses, depois que
lhes alcana os votos:

 Messeigneurs, vous tes tous
empoisonns.

E fala verdade.

Quando se anunciou a chegada dos augustos noivos de
Suas Altezas, disse eu que a cmara tratasse de fazer com que vestssemos roupa
lavada, de algodo embora, mas coisa mais limpa do que os molambos que ns temos
a honra de receber das suas ilustrssimas mos.

Sobreveio o perodo eleitoral, e manifestou-se a
grande febre no municpio. Ento perderam-se as esperanas. A soberania popular
 frase que os tipgrafos de todos os pases j esto cansados de compor e os
leitores de todos os livros e jornais cansados de ler  a soberania popular
abafou o grito da necessidade pblica, e ningum achou mau o caminho que ia de
casa  parquia.

A cmara, porm, mostrou-se compenetrada do alto
papel que se lhe destinou, e lembrou-se de convidar os muncipes para solenizar
o casamento de Sua Alteza Imperial que, como os leitores sabem, ter lugar no
sbado.

Constroem-se arcos e coretos em vrios pontos da
cidade, desde o Aterrado at o largo do Pao, mas essas construes deviam ter
sida precedidas de alguns melhoramentos, a fim de no ter lugar a aplicao
daquela cantiga popular:

Por cima muita farofa, etc.

Demorar-me neste assunto seria aborrecer os
leitores. A primeira condio de quem escreve  no aborrecer.

Tous les genres sont bons, hors le genre
ennuyeux.

E s agora vejo, na minha carteira da semana, o
apontamento de uma notcia que eu estou certo de que h de alegrar os leitores,
sejam escritores ou no.

Segundo me disseram, Sua Majestade o Imperador
trata de mandar fazer uma edio das obras completas de Odorico Mendes. Os
leitores conhecem, de certo, o nome e as obras do ilustre poeta, cuja morte em
Londres as folhas noticiaram no h muitos dias.

O ato imperial honra a memria do ilustre poeta;
essa memria e esse ato so duas honras para o nome brasileiro.

Uma folha hebdomadria que se publica nesta corte,
denominada Portugal, deu ontem aos seus leitores uma notcia que os enche
de jbilo, como a todos os que prezam as letras e a lngua que
falamos.

De h muito que o autor do Eurico, recolhido  vida
privada, assiste silencioso ao movimento de todas as coisas, polticas ou
literrias.

Esse silncio e esse isolamento, por mais legtimas
que sejam as suas causas, so altamente prejudiciais  literatura
portuguesa.

Mas o culto das musas , alm de um dever, uma
necessidade. O esprito que uma vez se votou a ele, dele vive e por ele morre. 
uma lei eterna. No meio dos labores pacficos a que se votou, A. Herculano no
pde escapar ao impulso intimo. O historiador e poeta pode fazer-se agricultor,
mas um dia l se lhe converte o arado em pena, e as musas voltam a ocupar o
lugar que se lhes deve. As musas so a fortuna de Csar; acompanham o poeta
atravs de tudo, na bonana, como na tempestade.

O que se anuncia agora, na correspondncia de
Lisboa do Portugal,  a publicao prxima de dois livros do mestre:
Contos do Vale de Lobos,  o primeiro; o segundo  uma traduo do poema
de Ariosto.

Quando se trata de um escritor como Alexandre
Herculano, no se encarece a obra anunciada; espera-se e aplaude-se.

Ler as obras dos poetas e dos escritores  hoje um
dos poucos prazeres que nos restam ao esprito, em um tempo em que a prosa
estril e tediosa vai substituindo toda a poesia da alma e do
corao.

Quando os tempos nem do para um folhetim, no sei
que se possa fazer outra coisa melhor.

Eu por mim j fiz at aqui o que era humanamente
possvel; pouca diferena vai deste folhetim ao milagre dos pes; e essa mesma 
mais nos efeitos do fato que no prprio fato. Quando os leitores chegarem ao fim
achar-se-o vazios como no princpio, sentindo uma fome igual  que sentiam
quando comearam a ler.

S haver uma satisfao:  a do preenchimento
destas pginas inferiores que est a cuidado do mais indigno servo dos leitores
preencher todas as semanas.

Vejam se no  assim.

E no cuidem que as seguintes linhas, transcritas
do Despertador, de Santa Catarina, entram aqui por enchimento.  uma
remessa que julgo de meu dever fazer ao Cruzeiro do Brasil. Leia o colega
e admire:

A estria do jesuta Razzini como pregador, no
domingo ltimo,  aquela que se podia esperar de quem, ignorando o mais trivial
de uma lngua, se afoita a ir nela pregar para no ser entendido de quem quer
que seja!

Pergunte-se a maior parte dos que l foram se
entenderam  pitada,  apesar dos calafrios e suores que deviam custar ao pobre
do Revma., que raras eram as palavras que no fossem muito ruminadas?

 a estas coisas que jamais poderemos ser
indiferentes: um padre que no conhece absolutamente nada da nossa lngua, para
que vai pregar nela?... Para fazer rir da mmica que emprega quem se acha nesses
apertos?!...

Porm ainda isso no  tudo,  naquela crislida
que est o futuro da ilustrao da nossa esperanosa mocidade! H de ser esse um
dos que vm fazer parte do professorado no ensino de lnguas em o novo
estabelecimento; o mesmo que tem por obrigao fazer compreender aos seus
discpulos comparativamente as belezas de uma lngua com as da outra, que tem de
descer aos seus modos mais particulares (idiotismos) para dar em equivalentes,
se no iguais, ao menos os mais aproximados possveis. Como sero preenchidas
condies to essenciais, e indispensveis ao ensino? Veja o pblico que a maior
parte do que importamos em todas as espcies so objetos de carregao, como os
chama o vulgo; dos mestres, por esta amostra, j podemos fazer juzo
seguro.

17 DE OUTUBRO DE
1864

O Rio de Janeiro est em festas  festas realizadas
anteontem e festas adiadas para 24 e 25. O casamento da herdeira da coroa  o
assunto do momento.

Um cu puro e um sol esplndido presidiram no dia
15 a este acontecimento nacional. A natureza dava a mo aos homens; o cu
comungava com a terra.

No descreverei nem a festa oficial nem a festa
pblica. Quem no assistiu  primeira leu j a relao dela nos andares
superiores dos jornais; na segunda todos tomaram parte  mais ou menos  todos
viram o que se fez, em arcos, coretos, pavilhes, iluminaes, espetculos,
aclamaes e mil outras coisas. E sobretudo ningum deixou de ver e sentir a
melhor festa, que  a festa da alegria ntima, natural, espontnea, a festa do
cordial respeito que o povo tributa  primeira famlia da nao.

Uma das coisas que fez mais efeito nesta solenidade
foi a extrema simplicidade com que trajava a noiva imperial.  impossvel
desconhecer o delicado pensamento que a este fato presidiu, na idade e na
condio de Sua Alteza: as suas graas naturais, as virtudes do corao e o amor
deste pas, so o seu melhor diadema e a suas jias mais custosas.

As festas celebradas anteontem, e que deviam
continuar hoje, foram adiadas para 24 e 25, poca em que devem os augustos
consortes voltar de Petrpolis. At l o Rio de Janeiro apresentar o aspecto da
mais completa desolao?

Refiro-me ao temporal, a esse temporal nico,
assombroso, aterrador, que os velhos de oitenta anos viram pela primeira vez,
que os adolescentes de quinze anos esperam no ver segunda vez no resto dos seus
dias, a esse temporal, que, se durasse 2 horas, deixava a nossa cidade reduzida
a um monto de runas.

Durante uns dez minutos tivemos, ns, os
fluminenses, uma imagem do que seria o grande cataclismo que extinguiu os
primeiros homens. Rompeu-se uma catarata do cu; olo soltou os seus tufes; o
trovo rolou pelo espao; e um dilvio de pedras enormes comeou a cair sobre a
cidade com a violncia mais aterradora que se tem visto.

Seria o ltego com que a divindade nos castigava? O
mesmo temporal tinha-se dado em S. Paulo poucos dias antes; dar-se- caso que
tenhamos de v-lo repetido em todas as cidades do mundo? Se assim for, no h
dvida de que so chegados os tempos; os tufes so, portanto, os batedores do
cometa Newmager, com que me ocupei num dos meus primeiros folhetins.

Os leitores estaro lembrados do que eu disse nessa
ocasio, aceitando o cometa como um castigo do cu. Apesar de j descrer at dos
cometas, no pude recusar a este o testemunho da minha f. Eu lastimei ento que
um anncio feito to tarde no pudesse fornecer aos homens o meio de conjurar o
cataclismo, cessando a transmisso dos seus vcios e dos seus defeitos s
geraes que se lhes seguissem, embora continuassem eles a ser hipcritas,
velhacos, ingratos, difamadores, egostas, vaidosos, ridculos.

Se acreditava, porm, no cometa, ainda assim no
deixava de nutrir certa esperana. Essa esperana comea a desvanecer-se diante
dos prenncios que vo aparecendo.

A proximidade do tila celeste revoluciona o
espao; no h dvida que o tufo que comea a varrer a face da terra  a
respirao do monstro. E, a julgar pela violncia, o monstro est
prximo.

No repetirei aqui o trocadilho que toda a gente
repetiu durante a semana  at o Cruzeiro do Brasil  o trocadilho
da quebra dos banqueiros e da quebra das vidraas. Mas se falo em vidraas  s
para dar um conselho aos vidraceiros. Foram estes os nicos que aproveitaram com
o temporal. H cerca de duzentos mil vidros quebrados no Rio de Janeiro; os
vidraceiros aproveitaram a ocasio e declaram-se os soberanos reparadores dos
males da cidade. Em conseqncia, altearam os preos.

Os vidraceiros desconhecem os seus prprios
interesses. Baixar os preos era a nica medida da ocasio, por isso que,
havendo trabalho em abundncia, convinha assegurar esse trabalho pela
perspectiva da modicidade do custo. Mas, como a operao de encher vidraas no
requer estudos preliminares de lgica, os vidraceiros podem facilmente abster-se
de raciocinar, e o resultado  cometerem um erro, quando podiam exercer duas
virtudes:  primeira, socorrer facilmente aos males pblicos; a segunda, fazer
no oramento dos seus ganhos um aumento de verba.

Demais  e  isto o importante  os proprietrios,
receosos do cataclismo de 1865,querero acaso envidraar as suas casas para ver
perdidos, dentro de pouco tempo, o dinheiro e o trabalho? Eu acho que no, e
nesse caso, se  difcil reparar os estragos do temporal do dia 10, com os
preos nfimos, s-lo- muito mais, com os preos alteados.

Ofereo estas reflexes  corporao dos
vidraceiros da capital.

Se  verdade que o cometa deve aparecer e se as
revolues da atmosfera so sintomas da presena do tila celeste,  para
admirar  mais do que em circunstncias ordinrias  o ato que a populao
fluminense apreciou no sbado: a ascenso do aeronauta Wells.

Pois que, ousado mortal! quando um habitante do
espao ameaa visitar a terra, quando os teus semelhantes tremem de pavor s a
essa idia, ousas tu  de alma alegre e corao  larga  invadir os domnios
areos, afrontar o dito habitante no seio da sua prpria casa?

Esta arrojada visita area  que  bastante para
despertar a idia de represlias  foi executada no sbado, como se sabe, s 11
horas da manh.

O dia estava magnfico; o cu azul, o ar purssimo.
Tudo convidava o Sr. Wells a realizar as suas promessas. O campo de SantAnna
regurgitava de povo que correu a ver aquele espetculo duplamente curioso: 
primeiro, por ser arrojado; depois, por ser gratuito.

O balo subiu no meio de aclamaes.

No era o primeiro espetculo deste gnero efetuado
na capital, mas  sempre digno de ser visto e apreciado.

Pouco tempo depois o Sr. Wells descia sobre o morro
da Viva, calmo e tranqilo, como quem volta para casa, depois de um passeio
higinico.

Anuncia-se nova ascenso para o dia 24.

Ento pretende o Sr. Wells admitir alguns amadores.
Vou j avisando aos corajosos da capital; dizem que na prxima ascenso ir com
o Sr. Wells uma americana.  vergonhoso que o exemplo de uma mulher no seduza a
muitos homens, tanto mais que neste caso h dois bales, em vez de um, o que
torna mais efetiva a segurana.

Completem os leitores mentalmente as muitas pginas
que eu podia escrever neste assunto e a propsito da ltima ascenso.

A conquista do ar! Quem  que no se sente tomar de
entusiasmo frente esta nova aplicao dos conhecimentos humanos? Enquanto os
leitores deixam assim correr a imaginao pelo ar, o folhetinista atravessa os
mares e vai ver em longes terras da Europa um poeta e um livro.

Cantos fnebres  o novo livro do Sr. Dr. Gonalves de Magalhes.
No  completamente um livro novo; uma parte das poesias esto j publicadas.
Compe-se dos Mistrios (cantos  morte dos filhos do poeta), algumas
nnias  morte de amigos, vrios poemas e uma traduo da Morte de
Scrates, de Lamartine.

O autor dos Cantos fnebres ocupa um lugar
eminente na poesia nacional. O voto esclarecido dos julgadores j lho
reconheceu, a sua nomeada  das mais legtimas.

Quando os Mistrios apareceram em volume
separado, o pblico brasileiro aceitou e leu esse livrinho, assinado pelo nome
j venerado do eminente poeta, com verdadeiro respeito e admirao.

O sucesso dos Mistrios foi merecido; nunca
o autor dos Suspiros poticos tinha realizado to brilhante a unio da
poesia e da filosofia: ao p de trs tmulos, sufocado pelas prprias lgrimas,
o poeta pde mais facilmente casar essas duas potncias da alma. A elevao do
sentido e a melanclica harmonia do verso eram dignas do assunto.

To superior  o merecimento dos Mistrios
que agora mesmo, no meio de um livro de trezentas e tantas pginas, eles ocupam
o primeiro lugar e se avantajam em muito ao resto da obra.

No li toda a traduo da Morte de Scrates,
nem a comparei ao original; mas as pginas que cheguei a ler pareceram-me dignas
do poema de Lamartine. O prprio tradutor declara que empregou imenso cuidado em
conservar a frescura original e os toques ligeiros e transparentes do poema.
Essa devia ser, sem dvida, uma grande parte da tarefa; para traduzir Lamartine
 precioso saber suspirar versos como ele. As poucas pginas que li dizem-me que
os esforos do poeta no foram vos.

Os Cantos fnebres encontraro da parte do
pblico brasileiro o acolhimento a que tm direito. Tanto mais devem procurar o
novo livro quanto este volume  o 6 da coleo das obras completas do poeta,
que o Sr. Garnier vai editar.

O volume que tenho  vista  nitidamente impresso.
A impresso  feita em Viena, aos olhos do autor, garantia para que nenhum erro
possa escapar; sendo esta a edio definitiva das obras do poeta,  essencial
que ela venha limpa de erros.

Um bom livro, uma bela edio  que mais pode
desejar o leitor exigente?

Passemos ao teatro.

O Ginsio representou na sexta-feira uma nova pea,
 Montjoye, em 5 atos e 6 quadros, por Octavio Feuillet.

Montjoye teve um grande triunfo em Paris. Crtica e platia
se juntaram para coroar a nova composio do autor da Dalila e do
Romance de um moo pobre. Ora, a nova composio era a primeira em que O.
Feuillet deixava a esfera fantstica e ideal de Maximo Odiot e de Andr Roswein,
para pisar a terra ch da vida real e dos costumes burgueses. O poeta cortava as
asas para envergar o palet.

Mas, ningum melhor que o autor da Dalila
podia cometer essa empresa. Descendo  vida prtica, ele trazia consigo as
chaves de ouro com que abria as portas da fantasia; soube penetrar na realidade
sem tomar a natureza dela: tinha palheta e tintas, desdenhou a mquina e o
coldio. Em resumo, no submeteu a musa s exigncias de uma realidade estril;
sujeitou a realidade s mos instrudas da musa.  o que se conhece vendo a nova
pea do autor da Dalila.

Mme quand l'oiseau marche on voit qu'il a des
ailes.

O tipo de Montjoye est reproduzido com habilidade
de mestre. Montjoye  o homem prtico, o homem utilitrio, o homem forte. Todos
os bons sentimentos, todas as iluses da mocidade, so para ele inteis
quimeras; indicai-lhe a melhor aptido, adornada por essas iluses, cheia desses
sentimentos, ela nada valer para ele; mostrai-lhe, pelo contrrio, a
inteligncia esperanosa, mas nua desses sentimentos e dessas iluses,
mostrai-lhe Gendrin, e ele dar um suspiro de lamentao, quando lhe vieram
dizer que o pobre rapaz morreu em Xangai.

Momo, consultado por Jpiter sobre a organizao do
homem, notou um defeito: o de no ter ele uma janela no corao por onde todos
lhe vissem os sentimentos. Se Deus consultasse Montjoye no mesmo assunto, este
criticaria a prpria existncia do corao e aconselharia a supresso
dele.

Montjoye s conhece uma utilidade nos sentimentos
dos outros homens:  a de lhe servir aos fins que ele tenha em vista.

Aproveitar a fibra humanitria de Saladin para
preparar a candidatura  cmara dos deputados; dar plena sano ao amor de
Ceclia, uma vez que o prximo casamento quebre nas mos do adversrio poltico
uma arma eleitoral.

Ele prprio faz a sua profisso de f; s acredita
em duas coisas; em moral, o meu  o teu,  em filosofia, dois e dois so quatro.
Fora da  h o vcuo.

Assim estudado, o tipo de Montjoye mostra-se,
desenvolve-se, afirma-se de ato para ato. Um dia, j separado dos seus, Montjoye
sente que lhe falta alguma coisa; no  ainda o sentimento da saudade e do amor;
 puramente o gosto do hbito; Montjoye no estima esta ou aquela pessoa,
acostuma-se a v-la. Quando ela lhe falta,  ainda uma exigncia egostica que
reclama contra o isolamento.

Mas os acontecimentos se sucedem, e o esprito de
Montjoye transforma-se com eles.

No relatarei esses acontecimentos nem indicarei o
sentido dessa transformao. O leitor preferir ir ver por seus prprios olhos
os lances dramticos, as situaes novas, os traos enrgicos e verdadeiros com
que esto acabados os caracteres da pea de O. Feuillet.

Reproduzir na cena um tipo to verdadeiro e to
artisticamente acabado como Montjoye,  tarefa difcil para um ator. Consegui-lo
 dar prova de muito talento. Folgo de mencionar aqui esta vitria do Sr. Pedro
Joaquim, que fez um desempenho excelente do papel de Montjoye. No maior lance,
como na menor frase, o artista soube conservar o carter do papel, na altura em
que o autor o colocou, e em que ele o compreendeu. Montjoye fica sendo um dos
seus mais brilhantes ttulos de artista.

O papel de Montjoye  o principal da pea;  roda
dele movem-se as outras personagens, como para lanar um fundo no quadro em que
ressalta aquela enrgica figura. O papel de Ceclia, um dos tipos mais suaves da
graa e de ingenuidade,  representado pela Sra. Adelaide com um talento a que o
pblico fez justia. A cena em que o pai lhe fala do casamento, e a que se
segue, com Jorge de Sorel, merecem da parte da crtica sinceros aplausos: 
difcil ser to ingenuamente ingnua como a distinta artista o foi. A dor e a
angstia daquela situao em que Ceclia v entrar no ptio o amante ferido
foram reproduzidas por um grito e por um movimento fisionmico cheio de
verdade.

Vai-se-me acabando o papel e minguando o espao.
No entrarei em minuciosa anlise dos outros papis. Farei meno especial da
mulher de Montjoye, papel que a Sra. Cllia representou com muita distino. Os
Srs. Salles Guimares e Paiva merecem meno especial nos papis de Saladin e
Tiberge; talvez haja alguma coisa a exigir do Sr. Monvlar em uma ou em outra
cena, mas esse artista soube em geral haver-se to bem, que eu prefiro adiar as
observaes para o caso de reincidncia. Uma primeira representao pode
desculpar algumas faltas.  por isso que eu me abstenho de referir outras que
achei no resto dos papis.

24 DE OUTUBRO DE
1864

Se h nesta boa cidade do Rio de Janeiro algum
Homero disponvel,  chegada a ocasio de ilustrar o seu nome e mandar um homem
 posteridade.

Canta,  deusa, a clera do presidente
Lopez!

O presidente Lopez no quis deixar passar esta
ocasio de brilhar; conseguiu apanh-la pelos cabelos. Era a mais propcia para
trazer  tona da gua os seus sentimentos de liberdade, de independncia e de
democracia  trs vocbulos sonoros que tm conceituado muita gente, debaixo do
sol.

Dizia-se h muito que o presidente Lopez nutria
pretenses monrquicas e preparava o terreno para cingir um dia a coroa
Paraguaia; mas S. Excia. , antes de tudo, democrata americano; onde quer que
oua gemer a democracia americana  no hesita:  pede a sua espada de Toledo,
cinge o capacete de guerra e dispe-se a ir verter o sangue em defesa da me
comum.

Democracia americana  naqueles climas  quer
dizer: companhia de explorao dos direitos do povo e da pacincia dos vizinhos.
Dspotas com os seus, turbulentos com os, sem grandeza moral, sem dignidade
poltica, incapazes, presumidos, gritadores, tais so os pretendidos democratas
de Montevidu e de Assuno.

 uma santa coisa a democracia  no a democracia
que faz viver os espertos, a democracia do papel e da palavra,  mas a
democracia praticada honestamente, regularmente. Quando ela deixa de ser
sentimento para ser simplesmente forma, quando deixa de ser idia para ser
simplesmente feitio, nunca ser democracia,  ser espertocracia, que  sempre o
governo de todos os feitios e de todas as formas.

A democracia, sinceramente praticada,tem os seus
Gracos e os seus Franklins; quando degenera em outra coisa tem os seus Quixotes
e os seus Panas, Quixotes no sentido da bravata, Panas no sentido do grotesco.
Arreia-se ento a mula de um e o rocinante de outro. Cinco palmos de seda, meia
dzia de vivas, uma fila de tambores,  e quanto basta ento para levar o povo
atrs de um fanfarro ao ataque de um moinho ou  defesa de uma
donzela.

Donzela! Nem isto mesmo encontra agora o cavaleiro
paraguaio. Aquela por quem ele vai fazer reluzir a espada ao sol, no cinge a
coroa virginal.  a matrona arrancada ao sono e entregue aos afagos brutais da
soldadesca. O que perdeu em vio ganhou em desenvoltura. As mos torpes e
grosseiras dos seus adoradores deram-lhe um ar desavergonhado e insolente. Tal 
a herona ameaada, a favor de quem vai combater  com a lana em riste  o
cavaleiro de La Mancha.

Pobre herona! pobre cavaleiro!

Mas o cavaleiro est de boa f. Todo o seu desejo
  equilibrar o rio da Prata. Opor uma barreira s invases imperialistas,
eis o dever de um bom democrata americano, que ama deveras a liberdade e quer a
independncia da livre Amrica: vinte quilmetros de baboseiras neste gosto,
como se diz na comdia Montjoye.

Para isto o cavaleiro paraguaio convoca as
multides, prepara as manifestaes pblicas, fala-lhes a linguagem da liberdade
e do valor. Tudo se extasia, tudo aplaude; corre uma fasca eltrica por todos
os peitos; uma centelha basta para inflam-los; ningum mais hesita; todos vo
depor no altar da ptria o bolo do seu dever  os homens o seu sangue, as
mulheres a sua honra.

 um delrio.

Devem tomar-se ao srio estas demonstraes?
Devemos estremecer  notcia do aspecto blico do equilibrista paraguaio?
Ningum responder afirmativamente. S em Montevidu  que ningum ri do
presidente Lopez e do entusiasmo de Assuno. A razo  clara. Confederam-se os
espertos e os impotentes para a obra comum de salvar uma democracia nominal, sem
a fora da dignidade nem o alento da convico.

Quanto aos infelizes povos, sujeitos aos caprichos
de tais chefes, se devemos lament-los, nem por isso deixaremos de reconhecer
que a Providncia consente s vezes na dominao dos Lopez e dos Aguirres, como
flagelos destinados a faze-los pagar, pelo abatimento e pelo ridculo, a
fraqueza de que se no sabem despir.

O presidente Lopez  que eu continuo a recomendar a
algum Homero disponvel  entra com direito nos assuntos amenos da
semana.

Foi ele, com efeito, um dos assuntos mais falados
depois da chegada das ltimas notcias relativas  aproximao de foras
paraguaias.

Fora disso tivemos apenas uma preocupao: a das
festas que se ho de celebrar hoje e amanh por motivo do casamento de S. A.
Imperial.

Os augustos consortes devem chegar hoje de
Petrpolis. Preparam-se festas que, alm das cerimnias oficiais da corte,
constaro dos espetculos de gala e da iluminao das casas, arcos e
coretos.

O Rcio, segundo se diz, tomar novo aspecto,
diverso daquele que apresentava no dia 15. Quanto ao arco da Rua Direita, que no
dia 15 ainda se achava em trajes menores, trata de vestir-se aceleradamente para
os dias de hoje e de amanh.

S uma das festas do programa fica adiada  a
ascenso do aeronauta Wells.

Noticiei no meu folhetim passado que uma dama
americana pretendia acompanhar o Sr. Wells na sua excurso ao ar. Segundo me
afirmam agora, ir igualmente com o corajoso Wells uma brasileira.  uma glria
que no deixarei de mencionar nestas pginas.

Mas que faro os homens? Deixaro acaso o sexo
frgil, o sexo das cinturas quebradias, o sexo dos desmaios, o sexo excludo da
guerra, da urna, da cmara, o sexo condenado a viver debaixo dos tetos, ao p
das crianas,  deixaro acaso, pergunto eu, que este sexo apresente um tal
exemplo, sem que atrs dele corra uma legio de homens?

Fao simplesmente a pergunta.

Prepara-se no Teatro Lrico, o Aroldo de
Verdi. Durante a semana houve apenas um espetculo, creio eu; cantou-se o
Baile de Mscaras. A representao em geral correu bem. Mereceram as
honras da noite o soprano e o tenor. Quanto ao novo contralto, sem conden-la
inteiramente, a opinio geral  que devem haver novas provas para um julgamento
definitivo. Afigura-se-me que a artista, cuja voz est longe de ser condenada,
se sair bem nas provas requeridas.
A pressa obriga-me hoje a muito pouca demora nos
assuntos e nenhum cuidado no enlace necessrio entre eles.

Ainda no tive ocasio de falar de Emlia das
Neves, na nova pea em que atualmente representa, Adriana
Lecouvreur.

Como o objeto principal, direi mesmo exclusivo, da
concorrncia pblica,  a eminente artista, acontece que ainda no mencionei um
grande melhoramento que se observa nos espetculos dramticos no Teatro
Lrico.

Refiro-me ao vesturio e aos arranjos de cena, em
que se nota sempre muita propriedade e asseio, e muitas vezes um luxo a que no
andvamos acostumados.

A representao da comdia de Scribe foi uma
ocasio que tivemos de apreciar este melhoramento to reclamado.

Emlia das Neves  uma artista julgada. Vimo-la j
no drama, na tragdia e na comdia. J sabemos a medida do vasto talento que ela
possui; mais de uma vez o reconheci.

No papel de Adriana teve esse talento uma ocasio
mais para manifestar-se com todos os seus recursos. O dilogo familiar da
comdia, o monlogo apaixonado do drama, receberam dos lbios da eminente
artista aquela vida e sentimento, que ela sabe empregar com tanta natureza e
tanta arte.

No desempenho do papel de Adriana, crescem as
belezas,  proporo que cresce a paixo e  proporo que o drama vai surgindo
do meio dos galanteios da comdia.

O quinto ato  a situao suprema da artista. A,
nas poucas cenas que tem, pode dizer-se que resgataria os quatro atos
anteriores, se acaso j nos no houvesse dado nesses atos muitas belezas de bom
quilate. A cena da morte  feita com rara perfeio. Os aplausos que lhe deram
foram merecidos. Uno os meus aplausos sinceros aos do pblico. A cena deveria
ser talvez um pouco mais rpida, embora fosse menos real; mas no seria de certo
mais admirvel no ponto de vista da verdade e da observao com que a eminente
artista nos pinta aquela suprema angstia.

Fala-se em diversas peas que ho de subir  cena.
A crtica e o pblico esperam, sem dvida, com muita ansiedade, novas ocasies
de dar ao talento de Emlia das Neves os aplausos a que ele tem incontestvel
direito.

Este assunto d certamente para muitas linhas
ainda, mas eu no devo esquecer que tenho hoje um hspede em casa, e que  tempo
de apresent-lo ao pblico.

Joaquim Serra no  de certo um nome desconhecido
aos leitores dos bons escritos e aos amigos dos talentos reais. J. Serra, bela
inteligncia, que se alimenta dia por dia com slidos estudos. A imprensa
literria e poltica do Maranho conta muitos escritos valiosos do nosso
distinto patrcio. J. Serra  hoje secretrio do governo da Paraba do
Norte.

A morte de uma ilustrao nacional, Odorico Mendes,
filho do Maranho como ele, no deixou de lhe inspirar algumas linhas de saudade
e de admirao. Como colega e como amigo, no me quero furtar ao desejo de
reproduzir aqui essas linhas inspiradas e sentidas.

Diz J. Serra:

A Sotero dos Reis,

Uma a uma se vo precipitando no bratro as mais
fulgurosas estrelas do grande imprio do Cruzeiro.

Longe, bem longe dos arrebis de sua terra, l nas
brumosas campinas transatlnticas, repousa o velho peregrino e venerando
proscrito da ptria de Gonalves Dias!

Silncio! Nem sequer venha o rudo de um gemido
despertar o exausto caminheiro, que descala  sombra dos ciprestes!

Foi rude e penosa a sua jornada; mais rude e mais
penosa ainda foi-lhe esse cerrar de olhos longe das brisas que lhe embalaram o
bero, e que no lhe puderam roar pelos cabelos no doloroso momento da ltima
agonia.

Estalou-se melancolicamente a corda harmoniosa da
harpa inspirada do Virglio cristo! Os anglicos sons de seu ltimo lamento
foram reboando, de eco em eco, desde as plancies verdejantes da antiga Lavino e
por sobre o cerleo azul da vaga Jnia, at os saudosssimos campos de
Dardnia.

Silncio! Nem um gemido desperte o velho
peregrino, que dorme sem os pesadelos dos antigos sonos, risonho e plcido
depois de um lidar to suarento!

A nobre fronte de poeta, a abenoada cabea de
apstolo no se reclina no regao da amizade, nem achou recosto na terra querida
da ptria.

Embora; descanse ainda entre as neblinas dessa
glida terra, o fatigado romeiro que trabalhou sem cessar e que nunca pesou no
solo da ptria.

Desde a hora da libertao, na antemanh de nossas
glrias, com o verbo e com a lira, ele, poeta e heri, foi sempre o mais
denodado na refrega.

As sombras do crepsculo acharam-no ainda no
labor; e, perto do sol, foi tempo que ele repousasse. No pde alcanar o seu
lar no longo rodeio, que o infortnio o obrigou a fazer.

Enfraqueceu alm, e alm tombou. Silncio! que ele
no seja interrompido no seu sono.

Despe as tuas galas, risonha ilha de S. Luiz;
cobre-te de d e de tristezas, que o teu poeta, o teu orgulho e o teu heri j
no so teus!

Como a Raquel do livro santo, tu nem podes ser
consolada!

Morrem pela segunda vez os bardos de Mntua e de
lion, e agora o trespasso vai abalar a terra virgem do Amazonas!

Silncio! nem as nnias saudosas desta terra, nem
a apoteose sublime de alm-tmulo despertam o peregrino adormecido.

Silncio e paz.

10 DE NOVEMBRO DE
1864

Houve domingo dois eclipses: um do sol, outro do
folhetim. Ambos velaram a sua face  um aos olhos dos homens  outro aos olhos
dos leitores. No caso do primeiro, houve uma lei astronmica; no do segundo, foi
simplesmente um princpio de estratgia. Que olhos se guardariam para o
folhetim, se todos estavam ocupados em ver o fenmeno celeste, atravs de vidros
enfumados?

H inexatido em dizer que o sol velou a sua face.
No foi inteiramente assim para a nossa regio. Apenas umas sete partes ficaram
cobertas; a luz e o calor diminuram nessa proporo; o sol tornou-se triste,
como  hora do poente, em uma campina devastada e deserta; ou, para voltar do
avesso uma figura de Hoffmann,  triste como o sorriso de um velho nos ltimos
dias da existncia. Durou pouco o fenmeno; ao fim de algum tempo a luz
readquiriu o seu fulgor habitual.

Afora os poetas,  que mais tarde ou mais cedo
tecem um canto ao grande astro,  e os astrnomos, que tm por timbre cientfico
examin-lo em todos os aspectos,  no h ningum debaixo do sol, que o admire
nos dias ordinrios. Mas anuncie-se um eclipse; ver-se- toda a gente improvisar
os meios de assistir c debaixo ao escurecimento do disco solar. Todos querem
v-lo nessa fase de desfalecimento em que parece disposto a nunca mais abrir as
suas fontes de luz.

 certo, porm, que, eclipsado embora, ningum o v
a olho nu, mas sim por meio de objetos expressamente preparados. Aquele Luiz
XIV, mesmo nos seus colquios com a celeste Maintenon, mesmo nas horas em que
deixa de ser rei para ser amante, no consente que o olhar humano possa
encar-lo de frente.

Embalde os sbios afirmam que ele tem manchas  sem
dvida para no desconsolar a nossa humanidade das muitas que ela tem  ainda
assim, manchado e eclipsado, o sol  sempre o grande astro que ningum ousa
encarar, o astro que ilumina, mas cega, o astro que aquece, mas
queima.

H tantos mil anos assiste ele ao nascimento, vida
e morte de todos os homens;  aos sucessos de toda a casta  s conquistas
guerreiras, cujos heris so comparados a ele, posto que ele no tenha nem a
crueldade, nem a parvoce dos conquistadores; s grandezas e aos abatimentos;
perfdias dos povos e dos homens;  s lutas estreis por honras de conveno;
 ao desmembramento das naes, a pretexto de equilbrio;   sano dos fatos
consumados;  assiste a tudo isso impassvel, mudo, regular, exato como relgio
universal que , vendo alar tudo e tudo desabar, sem a menor comoo nem o
menor desmaio.

Ser por vergonha ou por clera que ele esconde a
face, de quando em quando? Os sbios dizem que no. O povo, sempre poeta, no
meio do prosasmo, tem duas expresses para definir os eclipses: ou  o
casamento da lua e do sol; ou  a briga do sol e da lua.

O casamento explica-se por si; quanto  briga, 
to potica a expresso como a primeira; parece realmente que uma rixa conjugal
deve estender um vu sobre o casamento.

Os antigos  todos sabem  tinham os eclipses como
pressgios funestos. Se a superstio antiga pode prevalecer, que sucesso
funesto nos anuncia o eclipse de domingo? Os nossos vizinhos orientais, que
tiram partido de tudo, so capazes de atribuir ao sol opinies contra o imprio,
calnia evidente, pois que  ele quem faz as nossas estradas e seca as nossas
ruas. Lembra-me ter lido nos Incas, livro de Marmontel, que um eclipse
decidira de uma batalha: aviso aos soldados brasileiros.

No dia de hoje  que o sol no pode deixar de
ostentar-se em todo o meu fulgor.  o dia da maior glria do cu, porque  para
ser santo.  ter o corao limpo, diz o padre Vieira, e neste ponto, com ajuda
do padre e de S. Bernardo, exorto a todos os meus leitores, no dia de hoje, cuja
festa o referido pregador portugus define nestas belas palavras:

A festa mais universal e a festa mais particular:
a festa mais de todos e a festa mais de cada um,  a que hoje se celebra e nos
manda celebrar a Igreja............ E este mesmo dia to universal e to de
todos,  tambm o mais particular e mais prprio de cada um; porque hoje se
celebram os santos de cada nao, os santos de cada reino, os santos de cada
religio, os santos de cada cidade, os santos de cada famlia. Vede quo novo e
quo particular  este dia. No s celebramos os santos desta nossa cidade,
seno cada um de ns os santos da nossa famlia e do nosso sangue. Nenhuma
famlia de cristo haver to desgraada, que no tenha muitos ascendentes na
glria. Fazemos, pois, hoje, a festa a nossos pais, a nossos avs, a nossos
irmos, e vs que tendes filhos no cu, ou inocentes ou adultos, fareis tambm
festa a vossos filhos. Ainda  mais nossa esta festa, porque, se Deus nos fizer
merc de que nos salvemos, tambm vir tempo, e no ser muito tarde, em que ns
entremos no nmero de todos os santos e tambm ser nosso este dia. Agora
celebramos e depois seremos celebrados; agora ns celebramos a eles, e depois
outros nos celebraro a ns.

Isto dizia o padre Vieira, no convento de Odivelas,
no ano da graa de 1643, duzentos e vinte um anos antes da publicao do
Cruzeiro do Brasil, folha em que, de envolta com a tortura da lngua do
grande jesuta, se ataca por todas as formas a dignidade de conscincia humana,
e onde de quando em quando se escreve uma linha em honra do Tibrio do sculo
XIX. Talvez que a ltima conveno de Turim altere um pouco os sentimentos do
Cruzeiro, nesta ltima parte.

Damos agora um pulo.

Vo se retirando para os seus penates as famlias
dos arredores que o vapor conduziu por terra e por mar, a fim de assistirem s
festas do casamento de sua Alteza Imperial.

Essas festas foram realizadas no meio da geral
animao. Poucas vezes se tem visto tanta gente na rua. As ruas irradiavam de
luz e as pedras gemiam debaixo dos ps da gente  tudo se encontrava e se
abalroava, mas sem a menor desordem nem a mais ligeira perturbao.

As construes improvisadas para as iluminaes
pblicas eram boas ou ms? Ouo daqui murmurar esta pergunta, e sinto-me
embaraado para responder-lhe. As opinies a este respeito, como em tudo,
dividiram-se. Uns achavam-nas magnficas, outros pssimas. Se houvssemos de
reduzir o juzo a uma discusso de todos, no haveria campanha de presidente que
moderasse os nimos.

O que  certo  que as construes tinham por si a
escassez do tempo; mas, se o tempo no lhes permitiu maiores louanias, no
prevalece a mesma razo para a suprema falta de gosto. Fossem mais singelas, mas
no desrespeitassem as leis do gosto. Est claro que eu excluo destas
observaes a iluminao do Gs,  qual no h que se dizer. Acrescentarei
igualmente que o pavilho  um tanto fantstico  do largo do Pao apresentava
um aspecto elegante.

As festas do casamento imperial no acabaram no dia
25. Ainda na sexta-feira houve no Ginsio uma festa dada em comemorao do mesmo
casamento.

Os meus leitores ho de lembrar-se de que, em Junho
deste ano, dei notcia de uma bela tentativa, realizada por algumas damas e
cavalheiros da sociedade de S. Cristvo. Foi a execuo do Ernani por
amadores, no teatrinho daquela localidade. O talento e o esforo conseguiram
realizar to bela idia. O imenso auditrio que ento assistiu a representao
aplaudiu o esforo e o talento.

As mesmas pessoas resolveram repeti-lo agora, no
Teatro Ginsio, em comemorao do casamento da herdeira da coroa, com
assistncia da famlia imperial.

Como os heris de que fala Tcito, brilhei pela
minha ausncia; mas fui informado por pessoas insuspeitas que a festa mereceu os
aplausos que teve; a representao do Ginsio esteve  altura da primeira
tentativa e algumas vezes acima.

A orquestra e os coros, sobretudo, ouvi eu louvar
como dignos do mais alto conceito.

Tanto os coros, como a orquestra, eram compostos de
amadores escolhidos. Ficava assim a sociedade no palco e na platia; o teatro
convertia-se em salo; executava-se uma pera de Verdi, como se executaria ao
piano um trio de Weber, ou uma sonata de Mozart, entre uma valsa e uma xcara de
ch.

Tais diverses no se repetem todos os dias; no
so coisas fceis, porque demandam muita aplicao e estudo; mas  para desejar
que os diretores da festa de sexta-feira no adiem para muito longe a repetio
de uma noite to agradvel como aquela.

Devo mencionar que o objeto da festa foi explicado
em algumas palavras, proferidas de um camarote pelo Sr. Dr. Leonel de
Alencar.

Estreou no Teatro Lrico a Sra. A. Murri. No  uma
artista de primeira ordem; mas possui uma voz s, embora fraca; e  dotada de
certa graa e conhecimento de cena. Cantou no Elixir de Amor.

Estou que os leitores tero gosto em fazer algumas
consideraes acerca de um fato altamente significativo, ocorrido h coisa de 40
dias, em Porto Alegre.

 hoje difcil  mesmo nos pases em que o duelo
ainda no saiu dos costumes  que um amigo se bata por outro amigo. A espada s
se despe em favor do dono; a pistola s vomita uma bala em defesa daquele que a
foi comprar ao armeiro. Pode-se dizer que  um sentimento de gratido pessoal da
parte das pistolas e das espadas.

Mas, se um amigo no pode fazer alar a pistola do
amigo, outro tanto no pode dizer um co. Foi um co quem armou o brao de um
caador em Porto-Alegre. Caava este e mais outros nos arredores da cidade; um
moo, Hugo Heitmann, munido de uma espingarda de dois canos e acompanhado de um
mastim, passou por eles; deteve-se mesmo a conversar com um dos caadores.
Separaram-se, e da a pouco ouviu-se um tiro um dos ces da matilha dos
primeiros caadores jazia banhado em sangue.

Um grito de indignao surgiu do grupo nada, porm,
se pronunciou que ofendesse o delinqente; somente um dos caadores foi no dia
seguinte tratar de obter uma reparao cabal. Mas, como o pai de Hugo
interviesse, em vez de um desenlace mais romntico, a pendncia passou para os
trmites prosaicos de um processo judicial.

Longe de mim a idia de contestar o direito do
caador, cujo co foi assassinado, nem desconceituar a legitimidade da sua
queixa.

Se noto o fato  para deixar bem patente que agora,
mais que nunca, o co vai adquirindo a elevada posio de amigo, que o homem faz
por ele o que ordinariamente no faz por seus semelhantes.

Uma coisa no ocorreu ao caador em questo, e  
que, se o co no tivesse sido assassinado por Hugo, talvez um dia viesse a
danar, e fosse o dono a primeira vtima dele,  costume em que os ces no so
originais, porque j o imitaram dos seus amigos homens. Nada  novo debaixo do
sol, diz o livro do Eclesiastes.

8 DE NOVEMBRO DE
1864

Quisera lembrar-me neste momento o nome do autor de
quem me ficou este verso:

La partisse est un don qui vient des
immortels.

Quem quer que sejas,  poeta,  vivo ou morto,
obscuro ou celebrado,  daqui te envio um protesto de reconhecimento profundo e
admirao eterna.

Porquanto, eu estava assaz confuso a respeito do
modo por que havia de legitimar o meu estado indolente, e no achava, nem no meu
esprito, nem na minha memria, expresses capazes de me absolver aos olhos dos
leitores.

Graas ao teu verso, estou inteiramente salvo;  na
prpria linguagem dos deuses, que os deuses me absolvem. Que os leitores os
imitem na clemncia, como o folhetim os imita na preguia, e as sete colunas que
se vo ler escaparo  censura que merecem, por milagre do meu poeta
deslembrado.

 certo que os deuses deviam ficar um tanto
espantados no dia em que saiu da cabea do referido autor aquele verso de
absolvio para os indolentes. Quem dotaria os mortais com to precioso dom? Os
deuses eram uns rudes trabalhadores, quer servissem os mortais, quer lhes
amassem as mulheres o javali de Erimanto, o touro de Europa, o rebanho de
Admeto, e muitos outros smbolos mostram que a profisso dos deuses no era
ento uma sinecura como alguns empregos da nossa poca sem templos, nem
orculos.

Bom tempo, o dos orculos! No se escreviam ento
folhetins, faziam-se. Um prtico ou Cermico ou uma sala de hetaira   hora de
Febo ou  hora de Cnthia  eram azados para aquelas confabulaes aprazveis,
semeadas de sal tico, sem compromisso com leitores, sem colunas limitadas, sem
horas de preguia.

Tudo desapareceu com os tempos; rasgamos a clmide
em honra da casaca  espcie de asas de gafanhoto, menos a cor; entramos a
lavrar as terras da prosa, cheios do mesmo ardor com que o filho de Alcmene
lavava o curral de ugias.

Bom tempo, o dos orculos!

Vou cortando muito mar nestas digresses da
fantasia, mas no pode ser de outro modo, quando o cu sombrio e nevoento me
lana um olhar aborrecido atravs das vidraas. O cu triste faz-me triste, como
a melancolia da mulher amada entristece o esprito do amante.  bom dizer isto,
para que no se atribua este amor pelo tempo dos orculos a uma tibieza do meu
esprito catlico.

Esta observao leva-me a tocar de passagem num
assunto de que tive conhecimento pelo paquete francs,  e de um salto caio das
recordaes de um tempo potico para as consideraes da pior prosa deste mundo,
que  a prosa clerical.

Trata-se de monsenhor Pinto de Campos.
A tout seigneur, tout
honneur.

Monsenhor Pinto de Campos acaba de escrever uma
carta, em resposta a outra que lhe foi dirigida pela direo do Gabinete
Portugus de Leitura no Recife, e que o Dirio de Pernambuco publica,
declarando aderir, como catlico,  doutrina que ela contm.

O Gabinete consultou monsenhor Pinto de Campos
sobre se devia admitir nas suas estantes a Vida de Jesus, de Renan;
monsenhor Pinto de Campos responde que no a devia admitir, por algumas razes
que ligeiramente desenvolveu.

Os leitores encontraro essa carta no fim.  uma
iguaria com que desejo lisonjear o paladar dos amadores.

No discuto a carta por duas razes:

1 porque ela no  discutvel;

2 porque, mesmo que se quisessem examinar os
argumentos de monsenhor Pinto de Campos, o folhetim no comportaria um largo
desenvolvimento.

Mas no posso deixar de chamar a ateno dos
leitores para a doutrina e para a argumentao da referida carta. Ho de
sentir-se tomados do mesmo pasmo que ela me causou.

No  que eu me iluda acerca do arrojo do clero; a
esse respeito estou mais que muito edificado; mas sempre acreditei que neste
pas ningum ousaria, afora o Cruzeiro do Brasil, proferir tais doutrinas
e tecer tais argumentos.

Monsenhor Pinto de Campos comea por aconselhar o
exlio do livro e acaba por insinuar a queima dele. Na opinio de S. Revma.  o
que devem fazer todos os bons catlicos. Tal conselho nestes tempos de
liberdade, nem mesmo provoca a indignao:   simplesmente ridculo.

Que teme por esse livro monsenhor Pinto de Campos?
Ele mesmo declara que  um livro absurdo, onde a impiedade no raciocina com a
lgica da impiedade de Strauss,  o que provaria antes a necessidade de exiliar
o livro de Strauss e no o de Renan.

Eu de mim digo que li a Vida de Jesus sem
perder a mnima parte das minhas crenas; mas no fui queim-lo depois da
leitura, nem adiro, como o Dirio de Pernambuco, s doutrinas de
monsenhor Pinto de Campos.

Estou plenamente convencido de que as iras do
clero, as injrias dos livros e dos plpitos tiveram grande parte no sucesso
obtido pela obra de Renan. Neste ponto  impossvel deixar de reconhecer que os
refutadores foram de uma inpcia sem nome. Toda a gente quis ler o livro do
Anticristo, e as edies foram sucessivamente esgotadas.

Todos sabem o que so essas injrias e doestos, em
completa oposio com a brandura evanglica.  coisa velha, e eu receio repetir
uma observao de cabelos brancos.

Comeai, diz Pascal, por lastimar os incrdulos,
que so muito infelizes; s se poderia injuri-los no caso de que isso lhes
servisse; mas, pelo contrrio, faz-lhes mal.

Eu quisera que, num pas livre e num tempo de
civilizao, ningum se lembrasse de empregar essas ridiculezas sem utilidade.
Infelizmente no  assim, e o paquete do norte nos trouxe a notcia de que h
ainda um escritor do clero brasileiro convencido de que, fora da fogueira e do
doesto, no h salvao para a Igreja.

Falando assim da carta de monsenhor Pinto de
Campos, deixo de parte a inteno do Gabinete na consulta que fez a Sua
Reverendssima.  Creio que a recente publicao de um opsculo daquele
sacerdote, onde se desenvolve muita soma de erudio, foi, sem dvida, o que
levou o Gabinete a pedir conselho sobre se devia ou no introduzir a Vida de
Jesus nas suas estantes.

No quero estender-me muito para deixar espao 
carta, que os leitores apreciaro em falta de coisa mais amena.

A mocidade de D. Joo V  um drama extrado do romance de Rebelo da Silva,
que tem o mesmo ttulo. Todos sabem disso, e sabem todos tambm que ele se
representou na segunda-feira passada, no espetculo dado para solenizar o
aniversrio natalcio do rei de Portugal.

Menciono o fato sem adiantar coisa alguma; no
assisti  representao comemorativa, e tive a infelicidade de achar o teatro
fechado na noite da segunda representao.

Mas tive compensao  falta. Se no vi Emlia das
Neves debaixo da figura do rei D. Joo, vi-a depois no desempenho do papel de
Margarida Gauthier.

Aplaudida j na tragdia, na alta comdia, no alto
drama, Emlia das Neves quis mostrar o seu vasto talento no papel da Dama das
Camlias. Em minha opinio,  esse um dos seus melhores desempenhos; creio
ser essa tambm a opinio do pblico, que a aplaudiu calorosamente.

V-se que ela estudou conscienciosamente os
sentimentos que devia reproduzir; a paixo cresce por meio de uma gradao bem
compreendida e bem desempenhada; a expanso dos sentimentos casa-se a uma arte
serena e refletida. No citarei belezas, por no alongar-me, nem elas so para
se contar; mas lembrarei, entre outras, todas as cenas com Armando e a cena com
o velho Duval, no 3 ato. Citarei ainda o monlogo desse ato, depois da
entrevista com o velho, e finalmente a cena do espelho no 5.  o que me lembra
ao correr da pena.

Dando ainda uma vez os meus sinceros aplausos 
eminente artista, espero nova ocasio de os repetir.

Tambm no Ginsio se representou a Dama das
Camlias, fazendo o papel de Margarida Gauthier a distinta artista D.
Adelaide Amaral. No pude assistir  representao. Se houver segunda l
irei.

Deveria falar igualmente num drama que representa
atualmente a Bohemia Dramtica, Dor e Amor. Dizem-me ser uma composio
de pequeno alcance literrio, mas ornada de boas situaes e cenas
verdadeiramente comoventes. Foi nesse drama que estreou o Sr. Dias Guimares,
inteligente artista, entrado h pouco naquele teatro.

Na prxima semana resgatarei estas duas
faltas.

Agora, para que os leitores entrem j no gozo de
uma pgina amena vou pingar o ponto final, e dar a palavra a monsenhor Pinto de
Campos:

Ilmo. Sr. Jos da Silva Loyo.  Passo a responder
 estimada carta que V. S. me dirigiu em data de ontem, na qual teve a bondade
de consultar-me sobre a convenincia ou desconvenincia de ser admitido nas
estantes do Gabinete Portugus de Leitura o livro de Ernesto Renan, que tem por
ttulo  Vida de Jesus.  E louvando antes de tudo os justos escrpulos
de V.S., que de modo to significativo patenteiam a piedade de seus sentimentos,
dir-lhe-ei que, sem embargo de reconhecer quo destituda de autoridade  a
minha palavra, para servir-lhe de regra no presente ensejo: todavia, fiel ao
hbito em que estou de emitir com franqueza a minha opinio, sem me importar
muito com as emergncias ulteriores de sua livre manifestao, releva declarar a
V. S. que a obra de Renan  um grito de impiedade contra a natureza divina de
Jesus Cristo e por conseguinte contra a origem espiritual e celeste da religio
que 19 sculos tm professado, como a nica verdadeira. , pois, afagar um livro
tal, coloc-lo na biblioteca de um estabelecimento literrio, cujos membros e
diretores pertencem  comunho catlica; , se no aderir, mostrar pelo menos
tendncia a abraar as monstruosas concluses a contidas; , em todo o caso,
uma irreverncia sacrlega para com o Filho de Deus, cuja divindade  negada por
esse esprito das trevas chamado Ernesto Renan, o qual, sobre ser mpio e
blasfemo,  pssimo argumentador. O seu livro  um acervo de contradies, de
incoerncias e paralogismos de todo o lote.

Afastando-se da escola mtica da Alemanha, Renan,
sem a mesma originalidade e habilidade de absurdos, que distinguem Hegel e
Strauss, duas inteligncias pervertidas, mas assombrosas em erudio, deles
copiou boa parte dos despropsitos e blasfmias que assoalha. Digo que se afasta
da escola mtica, porque, negando a divindade de Cristo e autenticidade de seus
milagres, admite contudo a existncia material de ambos os fatos, a saber:
reconhece que Jesus Cristo existiu, no como Deus, mas como puro homem;
reconhece por igual que se deram todos os fatos milagrosos referidos nos
Evangelhos, mas que todos esses milagres so explicveis, e explicados pelas
leis naturais, e que portanto despem-se de todo o carter do sobrenaturalismo!
Hegel e Strauss foram mil vezes mais conseqentes. Negaram a concluso, porque
negaram o princpio. Sabiam que, desde que admitissem a realidade histrica de
Jesus Cristo, seriam forados a reconhecer a sua divindade; porque ningum
contempla a figura do Filho do homem sem reconhecer nela um raio de beleza
infinita, um milagre de perfeio divina.

Na cristologia e filosofia de Hegel, que serviu de
base ao livro do Dr. Strauss, e, mais tarde, ao de Renan, o Cristianismo se
converte em um ideal, criado pela humanidade, de modo que Jesus Cristo no  o
autor do cristianismo, mas o cristianismo o criador de Jesus Cristo! Strauss
aplicou a famosa dialtica hegeliana aos Evangelhos, e todo o sistema do
cristianismo ficou reduzido a uma srie de mitos. A histria, diz ele,
desaparece de toda a parte onde o maravilhoso se apresenta; porque, sendo o
milagre intrinsecamente impossvel, toda a narrao que o contm no pode ser
histria. Evangelho  um tecido de milagres; ora, os milagres so impossveis,
logo impossvel tambm a histria deles, e por conseqncia tal histria no
existe; no pode deixar de ser um mito.

Em tudo isto h erro, audcia e impiedade; mas h
coerncia. Strauss quis ser lgico. No pode compreender a metafsica do
milagre, ou a ao soberana de Deus julgou que saltava a dificuldade negando
tudo. Mas Renan! isso  um encadeador sutil de filigranas, cujo falso
ouropelismo no resiste  anlise. Quis imitar a Celso e Porfrio, mas ficou
muito atrs na diablica argumentao. S conseguiu provar a atividade
incansvel com que Satans procura desvairar e perder os que lhe no resistem
fortes na f: Resistite fortes in fide.

Podia ir longe na demonstrao dos erros herticos
de Renan, se me permitissem os estreitos limites de uma carta escrita sob a
presso da urgncia. Insisto, porm, em estabelecer como uma verdade, de
conscincia, que a leitura e o apreo do livro de Renan  um tributo
involuntrio, se no sincero, ao prncipe das trevas, que alis, mais lgico que
Renan, reconhece, ainda que a seu pesar, a divindade de Jesus Cristo, o melhor,
e o mais extremoso amigo e benfeitor dos homens.

Napoleo I, encontrando em mo de um seu general
um opsculo em que o imperador era bastante ultrajado, disse:  General, quem
l o que contra mim se escreve, aprende a aborrecer-me.

Medite bem V. S. no que h de sublime neste
pensamento, e o corrobore com a certeza de que, dentro em poucos minutos,
chegava ao imperador a notcia de que o opsculo era atirado s chamas, e
conclua finalmente daqui qual deve ser o procedimento dos bons catlicos em
relao ao mpio livro de que se trata, e que, para nada lhe faltar, se acha
condenado pela Igreja.

Sou com toda considerao  De V. S. amigo e
obrigado.

Recife, 21 de Outubro de 1864.

J. Pinto de Campos.

14 DE NOVEMBRO DE
1864

O boato recebeu esta semana um desmentido solene. O
dia 10, que se antolhava tempestuoso  imaginao pblica, correu calmo e
indiferente, como os mais dias. A cidade amanheceu em p e de p se conservou
at hoje. O obiturio foi regular; s a doena (e a medicina, acrescentaria
Bocage) ceifou algumas espigas na seara humana.

Pobre boato!

Em compensao, seno acertou em uma coisa,
afirma-se que acertar em outra  perde  banca, mas ganha ao
voltarete.

Passo em silncio essas outras coisas em que dizem
que o boato acertar.

Teoria do boato  o ttulo de um livro que ainda
se no escreveu e que eu indico ao primeiro escritor em disponibilidade. O
assunto vale a pena de alguma meditao.

 que o boato  no me refiro ao boato das simples
notcias que envolvem carter pblico e interesse comum   uma das mais cmodas
invenes humanas, porque encerra todas as vantagens da maledicncia, sem os
inconvenientes da responsabilidade.

A verdade tem uma telegrafia mantida pelo
Estado.

O boato  a telegrafia da mentira. Algumas vezes
esta acerta e aquela mente, mas  por exceo.

Quando um homem, por motivo de dio, ou por simples
pretexto de amizade, quer fazer correr a respeito de outro uma calnia, comea
por comunic-la ao primeiro amigo que encontre, acrescentando t-la j ouvido de
outrem. O meio  infalvel; dentro de uma hora o segredo tem corrido cem bocas,
e est convertido em boato. Alguns simplrios tm mesmo o preconceito de que
nada corre em pblico que no tenha um fundamento de verdade,  preconceito que
determina no esprito de alguns jurados a condenao de todos os que so
acusados perante a justia.

 sabido que a notcia de uma boa ao nunca passa
de meia dzia de ouvidos, isto por duas razes, a saber: a primeira,  que, como
ordinariamente  o prprio autor quem a revela, com as devidas precaues da
modstia, o esprito revolta-se contra essa maneira de levantar uma esttua no
corao do pblico; a segunda,  que uma boa ao nunca aparece ornada dos
singulares atrativos de que se atavia uma ao escandalosa, nem possui aquele
sabor apimentado que d vontade de provar e dar a provar.

Deste modo as boas aes que praticamos no passam
da nossa rua, mas as ms aes que nos atribuem vo de um extremo a outro da
nossa cidade. Esta  a regra,  a exceo  o contrrio.

Tudo isso graas a essa coisa misteriosa, cmoda,
impalpvel, veloz como o raio, como ele fulminante, a que se d o nome de
boato.

Neste ponto o leitor interrompe o folhetim e
dispe-se a saltar alguns perodos, se o folhetim continuar ainda neste assunto
de boatos, a propsito do boato do dia 10.

Ter razo o leitor: quer uma revista da semana e
no uma revista dos sculos.   conta da pena que deve lanar estas divagaes,
que  uma vez escritas  no podem ser riscadas, sob pena de se perder tempo e
papel.

O papel  nada, mas o tempo...

Quando os americanos inventaram este provrbio
caracterstico, mas infeliz  time is money  quiseram, entre outras
coisas, avisar os leitores e os escritores de folhetim.

Um provrbio indiano far remate s reflexes
acerca do boato:  O fogo tisna aquilo que no pode destruir, diz o provrbio,
que mais tarde foi convertido em expresso clebre de um clebre
poltico.

Em poltica  este provrbio uma das melhores
armas, com a diferena de ter por apndice outra arma to valiosa, e que eu
defino deste modo:  O carmim enfeita o que no pode aformosear.

Sacrifico algumas reflexes que vinham j a sair
dos bicos da pena, e volto aos assuntos da semana.

Um dos principais assuntos , sem contestao, o
concerto do violoncelista Carl Werner, que se efetuou sexta-feira, no Ginsio,
diante de um pblico escolhido.

A imprensa j fez plena justia ao talento do Sr.
Werner.  realmente um artista de primeira ordem, e honra o nome do artista de
quem  discpulo.

Parece incrvel que de um instrumento como o
violoncelo se possam tirar sons to delicados e to lmpidos, cantar com tanto
sentimento e tanta melodia. O Sr. Werner recebeu aplausos merecidos.

O Sr. Werner chega-nos de uma viagem artstica pela
Sucia, Noruega e Dinamarca; foi uma viagem de triunfos. Agora empreende outra,
que comea pelo Rio de Janeiro e seguir-se- por algumas capitais do Prata e do
Pacfico, Mxico, China e Rssia.

 outra viagem de triunfos.

Dizem que o violoncelo  um instrumento ingrato;
creio piamente que o , mas acrescentarei uma reflexo   que, se o violoncelo
 ingrato, tambm o  a maioria dos talentos, que no dispem de uma capacidade
artstica como o Sr. Werner. Nas mos de um artista como aquele o violoncelo 
um milagre.

Outro concerto se realizou, no Teatro Lrico. Este
 apenas uma espcie de estria.

Hermenegildo Liguori  uma esperanosa vocao
brasileira. Tem apenas 10 anos, mas dispe de muito talento como pianista.
Apresentou-se ao pblico fluminense, no como um artista completo, mas como uma
vocao que carecia de meios para ir aperfeioar-se. O pblico fluminense no 
avaro destas demonstraes de apreo; correu ao Teatro Lrico e animou com os
seus aplausos o interessante menino.

Em boa hora v ele buscar no estudo detido e
profundo a perfeio que falta aos dons que a natureza lhe deu.

 mui jovem ainda, tem uma vida diante de si, pode
vir a ocupar um lugar eminente entre os bons artistas deste tempo.

Dos artistas passemos aos escritores; vamos do
teatro ao livreiro.

Pouco tenho que dizer do pouqussimo que houve na
semana, ainda assim bastante, ainda assim muito, na capital do imprio, onde se
publicam livros como caem as chuvas em alguns pontos do norte, a grandes
intervalos.

O manual do proco  um livrinho do Sr.
Cnego Fernandes Pinheiro, editado pela casa Garnier. A mesma casa editou um
volume de versos do Sr. Dr. J. Norberto, intitulado Flores entre
espinhos.

O primeiro  um livro de suma utilidade, e que tem
a rara vantagem de corresponder ao ttulo, nesta poca em que os ttulos no
correspondem s coisas.

Do segundo ainda nada posso dizer, pois que o no
li.

Fica adiado para a semana.

Uma ocorrncia da semana dava ainda margem para
muitas explanaes, mas eu no posso estender-me desta vez, visto que tenho um
hspede.

A ocorrncia da semana a que me refiro foi o
suicdio de um moo que, por fugir  vergonha, julgou prefervel tomar o caminho
da sepultura.

Sedues e maus conselhos o levaram a ir tentar a
sorte em uma casa de jogo, onde perdeu o seu e o alheio, e da qual saiu para pr
termo aos seus dias.

 precisa uma grande soma de energia para extirpar
este horrvel mal das casas de jogo, onde a mocidade e a velhice perdero, noite
por noite, todas as foras vivas de que  dotada e toda a dignidade de que est
revestida.

Sem querer e sem poder estender-me, deixo em branco
as reflexes que esto a transpirar do fato. As casas de jogo esto entre as
maiores imoralidades contra as quais a polcia no devia cessar de empregar os
seus recursos.

Acho mesmo que o castigo no corresponde ao delito
de manter essas espeluncas.

Demos agora lugar ao hspede.

Num dos meus folhetins passados inseri umas linhas
do meu amigo J. Serra, em homenagem a Odorico Mendes, cuja morte todos
deploramos.

Aqui vai agora uma poesia com que o mesmo talentoso
amigo comemorou a morte do tradutor de Homero.

A poesia  oferecida a Gentil Braga.

Diz o poeta:

ODORICO MENDES

(A Gentil Braga)

Plangente e triste o palmeiral
sombrio,
Solua e geme, e molemente o
rio
Na verde margem suspirando
est...
Tangendo as cordas do rouquenho alade,

Ao coro triste minha voz to rude,

Sentida e amarga misturada 
j.

Longe da ptria que ilustrou com a
lira,
Braslio cisne l se abate e
expira
Entre as neblinas da brumosa
Albion
Dalm do oceano o sibilante vento

Traz do poeta o derradeiro
alento
Como um perdido e gemebundo
som!

Quebrando o elo, que a retinha unida

Ao triste encerro que se chama vida,

Sua alma danjo para o cu se alou

Entre as dulias do imortal concerto,

L longe canta o que cantou to perto,

Canes dulcssimas quele aqui
soltou.

Bardo e tribuno, sempre grave e austero,

Tinha nos lbios o falar
sincero
Que  turba move e seduz e atrai;

Hoje prostrado, se buscou repouso,

 que cara como o tronco anoso,

Que l nas matas se debrua e
cai.

Era um poeta de uma raa extinta,

De musa altiva, que no vai
faminta
L junto aos grandes se arrojar no
p...
Deu para muitos um exemplo
novo,
Filho do povo sempre amou o
povo;
Podendo tudo, viveu pobre e
s!

Virglio e Homero, lhe cedendo o passo,

E aps sublime e fraternal abrao,

Quase vencidos o chamaram  irmo

Na vasta fronte j rugosa e calva,

Do gnio o selo, do talento a lava

Era-lhe aurola de imortal
condo.

E hoje  morto o valoroso atleta,

Tribuno herico, gigantesco poeta,

Que tantas glrias  sua ptria deu

Hoje esta terra, num cruel gemido,

Repete o eco que nos vem dorido

Dalm oceano, que nos diz:
morreu!

Plangente e triste o palmeiral sombrio

Solua e geme, e molemente o
rio
Na verde margem suspirando est...

Tangendo as cordas do rouquenho alade,

Ao coro triste minha voz to
rude,
Sentida e amarga misturada 
j...

 que, se podes tomar uma resoluo de Alceste, 
s com a condio de no deixares no caminho a inspirao, como se fora bagagem
intil. Graas a Deus,  ela a maior consolao e a maior glria das almas
destinadas a serem os intrpretes da natureza e do Criador. Os espritos srios,
graves, positivos, no trocariam, de certo, uma estrofe por um lance poltico de
sua preparao; mas, a despeito desse desdm, continua provado que os referidos
espritos srios e graves s tm de grave e de srio as denominaes  que eles
prprios se do entre si.

Se, em vez de te refugiares como andorinha
friorenta, houvesses ficado no tumulto da vida, quem sabe se  tremo em pens-lo
 quem sabe se no acordavas um dia com alma de poltico?

Ah! ento  que eu te dava por perdido de uma
vez.

No que eu comparta a opinio do Sr. Baro de S.
Loureno, senador pela Bahia, a quem parece que os poetas no servem para nada
em poltica, mormente quando so moos, isto , quando ainda conservam um pouco
de entusiasmo e um pouco de convico.

Quando aquele senador disse algumas frioleiras
nesse sentido perante o senado brasileiro, tive eu a honra de consagrar o fato
nesta revista, acompanhado por alguns comentrios de casa. O ilustre varo
cantou da a dias uma palindia muito mal arranjada, sob pretexto de
retificao.

No, eu no sou dos que acham que os poetas so
incapazes para a poltica. O que penso  que os poetas deviam evitar descer a
estas coisas to baixas, deviam pairar constantemente nas montanhas e nos cedros
 como condores que so.

Afinal de contas, os homens que no so srios e
graves, so exatamente os homens graves e srios. Demcrito continua a ter
razo: s  srio aquilo que o no parece.

Mas eu insisto em lamentar que juntasses  tua
solido o teu silncio. Quisera saber de ti por que motivo fizeste emudecer a
lira to auspiciosa e apagar a inspirao to prometedora. Contos largos,
talvez. Ningum cala a voz ntima e impetuosa, por causa simples e passageira;
escreve da um folhetim, em que me contes todas essas coisas.

J te disse como e porque pensei em ti; agora vou
dizer-te o modo por que pensaste em mim.

Ah! tu cuidavas que o annimo te encobria! Tive
quem mo revelasse, e nem precisava, porque era ler aquelas cinqenta linhas de
prosa da Alvorada campista, para ver-te logo tal qual s, tmido,
receoso, delicado.

Se Casimiro de Abreu fosse vivo e estivesse em
Campos, ainda eu poderia hesitar. reis ambos os mais tmidos, os mais
delicados, os mais receosos caracteres que tenho visto. Mas Casimiro l se foi
caminho da eternidade, no vejo outro que pudesse escrever aquilo e por aquele
modo.

Pois a publicao de um autgrafo meu, s porque
no tinhas autorizao, carecia de tantas escusas, tantos rodeios, tantos
sustos, tantos perdes? No tinhas mais do que public-lo, embora me no
conviesse  e est longe disso  era coisa sem grande resultado.

Se algum efeito mau produziu essa publicao, foi o
do desgosto de no ter o autgrafo comigo, porque o inclua no meu livro, de que
ainda no te mandei um exemplar, por no ter sobeja confiana no correio, e no
saber ao certo onde devia mand-lo.

Alm deste, produziu outro efeito mau no meu
esprito a tua publicao.  que eu preferia, em vez dos meus versos, ter versos
teus, compostos agora, l na tua solido. Em resumo, em vez de dares 
publicidade as obras alheias, cujos originais possuis, devias revelar ao pblico
as novas meditaes da tua musa, os teus melhores sonhos e as tuas sombras mais
belas.

Se os olhos de algum hipcrita correm agora por
estas colunas, no hesito em crer que est naturalmente pensando entre si que
estas ltimas linhas nada tm de sinceras; mas como escrevo para ti, que me
acreditas, importo-me mediocremente com o juzo que possa fazer o referido
hipcrita  se algum me l.

Ora, eis a tudo o que eu tinha para te dizer,
aproveitando a via do folhetim, na esperana de que ele chegar s tuas
mos.

Concluo repetindo  que no podes nem deves deixar
a musa em cio, porque, alm de um pecado, seria uma desconsolao. Se s feliz,
escreve; se s infeliz, escreve tambm. O remdio assemelha-se um pouco s
panacias universais inventadas pelos charlates, mas tambm  o nico remdio
que no se vende, porque Deus o d aos seus escolhidos.

 intil dizer que para ser escolhido no basta
rimar algumas estrofes em horas de desfastio   preciso sentir a poesia, como
tu, e morrer com ela, como Casimiro de Abreu.

A transio dos assuntos  suave; passo de um moo
a uma associao de moos.

Os acadmicos do Recife, segundo a notcia que nos
trouxe o paquete, pretendem dar um espetculo em favor das vtimas da Polnia,
sendo eles prprios os atores.

Deixemos de parte a considerao da oportunidade; a
lembrana vem tardia, de certo; mas eu procuro ver o que h de essencial no
ato.

Assim, mando daqui os meus calorosos aplausos aos
acadmicos do Recife pela idia nobre e generosa que pretendem levar a efeito. 
prpria da mocidade, e d a esperana de que na gerao que desponta h
centelhas de sincero amor  causa da justia.

A causa da justia tem enchido o estmago e inchado
o esprito de muito galopim deste mundo; no como causa, mas como frase  que se
adapta a todos os programas. A mocidade no calcula nem especula. Eu, quando
vejo manifestaes destas, sinto-me cheio de orgulho e de esperana; porque elas
simbolizam o esprito do futuro como uma condenao do presente.

O presente  isto; a Polnia revoltou-se mais uma
vez contra os seus injustos opressores; alou-se um grito de todos os pontos da
terra. Os que dirigem as coisas humanas, os piedosos construtores da felicidade
universal, franziram o sobrolho e mandaram afiar as espadas. Mas, como acontece
no Trovador, Maurcio leva todo o tempo a florear e repetir: Corro a
salvar-te! No arreda p:  mister satisfazer primeiro o compasso do maestro.
Quando chega, j bruxuleiam os restos da fogueira.

Os basbaques da platia, alm de pagarem o bilhete,
aplaudem o brio dos Maurcios.

Se os bonapartistas da nossa terra no levam a mal,
acho que esta frase clebre:  Deus est muito alto e a Frana est muito longe,
 deve ser modificada neste sentido: Deus est muito alto e a Frana est muito
baixo.

Perdoem-me os Nemrods e seus adoradores.

Quem me no h de perdoar  o leitor, que j me v
entrar assim na poltica turva, como se estivera fazendo um panfleto, em vez de
um folhetim.

Dou-lhe coisa mais agradvel ao paladar.

O Cruzeiro do Brasil anda concitando as
turbas  guerra religiosa.

A propsito do fato ocorrido em Niteri, no dia 7,
em que o povo prorrompeu em excesso contra um vendedor de bblias protestantes,
O Cruzeiro escreve um artigo em que parece animar os movimentos daquela
natureza, certo de que ser turvar as guas para ele pescar mais abundante
peixe.

O Cruzeiro s acha responsabilidade no
governo, que protegeu o vendedor contra a ira popular, e que anima a esse, como
a outros, na propagao das doutrinas condenadas pela Igreja.

A folha catlica diz coisas mais dignas de serem
lidas por todos quantos apreciam a liberdade da palavra.

Termina ameaando o governo com a lembrana das
guerras religiosas.

Nada do que diz o Cruzeiro  novo; mas nem
por isso deixa de ser lamentvel que se imprimam coisas tais em um pas onde a
liberdade religiosa, se no  completa, est j adiantada.

H dois fatos para considerar no artigo do
Cruzeiro do Brasil:

1  O Cruzeiro alega a constituio mas a
constituio garante a liberdade religiosa, e no h liberdade religiosa, como
bem lembra a Imprensa Evanglica, sem proselitismo,  de outro modo fora burlar
o princpio.

2  O Cruzeiro faz recair a
responsabilidade sobre o governo e intima-o a fazer cessar a propagao dos
metodistas. O procedimento de uma religio, que  a verdade, devia ser outro: em
vez de apelar para a fora do governo, dever apelar para a palavra do clero, a
quem incumbe combater as doutrinas que se vo propagando. Sero estas o erro?
Tanto melhor para os que defendem a verdade; uns confundiriam facilmente os
outros.

Fazem homenagem  interveno direta do governo, e
queixam-se depois quando este  cujo apetite se abre s primeiras colheradas de
sopa  d um passo mais e lhes entra por casa!

Tinha muita coisa ainda que dizer, mas vai-se-me
escasseando o papel;  preciso resumir.

Com o folhetim no se pode dar o que se deu com o
balo do Sr. Wells. A corda do paginador  robusta, no arrebenta com
facilidade: pode-se subir at certa altura, mas no se passa da  a no ser
para descer imediatamente.

Aconteceu o contrrio com o balo do Sr. Wells,
cuja corda rebentou na melhor ocasio, indo o balo por esses ares  guisa do
acaso e do vento.

Os leitores sabem que ia dentro Miss Isabel Case, e
sabem tambm que esta corajosa senhora traduziu as suas impresses para uma
carta que enviou ao Jornal do Comrcio.

Quando se anunciou pela primeira vez que Miss
Isabel Case ia fazer a sua viagem aerosttica, avisei os corajosos da capital
para se no deixarem ficar em terra. No surtiu muito efeito o conselho; Miss
Isabel Case continua a ser a herona do ar.

Nisto no vejo um fato isolado, vejo um sintoma de
troca de papis entre os dois sexos. J um escritor mostrou, a propsito da
roupa, que os dois sexos tendem a mudar as situaes.

Mais um volume acaba de publicar a importante casa
Garnier: Meandro potico, coleo de poesias dos primeiros poetas
brasileiros para uso da mocidade dos colgios.  coordenada pelo Sr. Dr.
Fernandes Pinheiro. Est enriquecida com esboos biogrficos e numerosas notas
histricas mitolgicas e geogrficas.

J na semana passada dei notcia de um livrinho do
Sr. Fernandes Pinheiro, editado pela mesma casa Garnier  O manual do
proco.

Folgo de ver uma tal atividade; o Sr. Dr. F.
Pinheiro no , de certo, um talento criador, mas tem a discrio e a pacincia
para os trabalhos de compilao e investigao. Todo o arado  til para as
terras literrias.

Os poetas escolhidos para a presente coleo so
Cludio Manoel, Alvarenga Peixoto, Silva Alvarenga, padre Caldas, Duro, J.
Carlos, J. Baslio da Gama, Jos Bonifcio, M. de Paranagu, Natividade e
outros.

 um livro muito aproveitvel para o ensino dos
colgios.

A impresso, feita em Paris,  o que so as ltimas
impresses da casa Garnier: excelente.

Numa terra em que no h editores  preciso animar
os que se propem, como o Sr. Garnier, a facilitar a publicao de
obras.

Duas linhas sobre o teatro.

Os leitores conhecero, sem dvida, o nome do Sr.
Reis Montenegro, jovem estreante na literatura dramtica, para a qual revela uma
boa vocao.

Assisti h dias no teatro de S. Janurio, pela
Bohemia Dramtica,  representao de uma comdia em um ato do Sr. Reis
Montenegro,  procura de casamento. No  de certo um trabalho completo;
v-se que falta a verossimilhana das situaes e outras condies ainda; mas, a
par desses defeitos, que eu denuncio com toda a franqueza, reconheo o sal
cmico e a vivacidade do dilogo, a naturalidade das cenas e a justeza de
algumas observaes.

 um gnero de literatura cujo cultivo aconselho
francamente ao Sr. Reis Montenegro, em quem vejo felizes situaes. O que desejo
 que, a par do estudo que fizer, faa o autor todo o esforo para fugir ao
elemento do burlesco. A cena do ovo incorre nesta censura, como a declarao de
amor  criada.  certo que no nosso teatro no escasseiam, antes sobram os
sucessos devidos ao burlesco; mas, se esse elemento d a vida de algumas noites
 luz da rampa  no pode fazer mais do que isso.

Falo com franqueza ao Sr. Reis Montenegro, moo de
talento e que me parece sinceramente modesto; no se deixe seduzir pelo gnero a
que aludi; o que faz estimar Molire, no  o saco de Scapin, nem a seringa de
Pourceaugnac:   o profundo estudo das suas admirveis criaes cmicas, os
Alcestes, as Filamintas, os Harpagons.

Dito isto, bato palmas ao poeta e espero ver novas
produes suas disputarem a palma do triunfo.

No tenho espao para a Dor e Amor, drama
representado pela Bohemia. , como disse na semana passada, um drama de pequeno
alcance literrio, mas ornado de boas situaes. O desempenho  regular, alguns
papis fraquearam, talvez, mas em compensao merecem meno a Sra. D. M.
Fernanda e o Sr. Dias Guimares.

Tambm me falta espao para outras coisas, que eu
contaria  se pudesse, como Miss Isabel Case, ter a felicidade de romper a
corda.

29 DE NOVEMBRO DE
1864

A questo Kelly no ficou na rua e na imprensa;
subiu  tribuna legislativa provincial.

Em vista do que, o heri do dia  o doutor Kelly 
aquele metodista de quem falei a semana passada, aludindo a um artigo do
Cruzeiro do Brasil.

Antes de comear as suas prdicas, numa casa
particular de Niteri, o Dr. Kelly examinou naturalmente se o podia fazer.
Recorreu  constituio, e a constituio em mais de um artigo respondeu-lhe que
sim,  porque ela tolera todos os cultos, contanto que eles sejam praticados em
casas sem forma exterior de templo; consente que se difundam idias religiosas,
uma vez que no ataquem os dogmas fundamentais da existncia de Deus e da
imortalidade da alma.

No direi que estes preceitos satisfaam amplamente
as aspiraes da liberdade, nem que respondam  idia dominante do sculo, mas
esses preceitos davam lugar a que o Dr. Kelly realizasse a sua misso
evanglica.

O defeito da constituio est em no ter
completado a liberdade, tirando os entraves que lhe impe, e em declarar a
religio catlica como religio do Estado.

Se eu tivesse  mo o livro de Ch. Ribeyrolles, o
Brasil Pitoresco, transcreveria algumas linhas que o ilustre proscrito
escreveu a este respeito. Citarei de memria. O ilustre proscrito, prestando 
constituio do imprio aquele tributo de venerao que ela merece, dizia aos
brasileiros que era necessrio fazer ao nosso evangelho poltico aquelas
modificaes impostas pela civilizao do tempo.

Por quanto, dizia ele:

Se uma alta capacidade, um grande patriota, um
poltico sincero, quisesse tomar parte na direo dos negcios pblicos, levando
 tribuna poltica a soma vasta dos seus conhecimentos, fosse ele um Pitt, mas
no fosse ele catlico, no poderia faz-lo em face da constituio.

No dia em que se tiver sado da tolerncia para a
liberdade completa, teremos dado o ltimo passo neste assunto.

Que os leitores me permitam a figura,  a
tolerncia assemelha-se a uma gaiola de papagaio, aberta por todos os lados, sem
aparncias, mesmo de gaiola, mas onde a ave fica presa por uma corrente que lhe
vem do p ao poleiro.

Quebre-se a corrente, uma vez por todas, e d-se a
liberdade ao pobre animal. Um sistema poltico como o nosso que, a pretexto de
proteger os rouxinis, protege cem papagaios por cada rouxinol, parece incrvel
que nutra tanta averso a este judicioso conselho.

Mas voltemos ao Dr. Kelly.

Fundado na constituio, o pregador protestante
comeou a misso de que se incumbira, procurando para isso uma casa em Niteri,
onde ia uma ou duas vezes por semana. Ora, como a palavra do Dr. Kelly tivesse
convertido ao protestantismo algumas pessoas catlicas, espalhou-se essa
notcia, e o povo, talvez por instigaes de algum pregador oculto, entendeu
dever manifestar o seu desagrado pelos resultados da misso Kelly.

Os leitores sabem o que houve. As coisas tomaram
uma face tal, que a polcia niteroiense foi obrigada a proteger a pessoa do
pregador protestante contra a ira popular.

Do que resultou surgirem duas questes  a questo
religiosa e a questo policial,  isto , o direito que tinha o Dr. Kelly de
exercer a sua misso evanglica, e o direito que tinha a polcia de intervir
para proteger  no o Dr. Kelly  mas o art. 5 da constituio.

A segunda questo deixou o lugar  primeira e
desapareceu,  sem dvida, porque se reconheceu que, se a liberdade individual 
um direito inaprecivel, a liberdade policial  uma garantia. No falo do
abuso.

A primeira questo passou da rua  imprensa e da
imprensa  tribuna. Foi o Sr. Dr. Castro e Silva quem iniciou na assemblia de
Niteri um longo e caloroso debate.

No cabe nestas colunas acompanhar a discusso
havida na assemblia a este respeito; mas eu a menciono,  primeiramente, como
uma ocorrncia da semana,  depois, como um triste sintoma da existncia de
algumas aspiraes clericais.

O protesto contra as teorias do Sr. Dr. Castro e
Silva foi feito por parte do Sr. Dr. Pinheiro Guimares, que pronunciou em
primeiro lugar um discurso cheio de raciocnio e de verdade, e depois  por
outros que o acompanharam no mesmo terreno.

Sem querer diminuir a glria dos deputados que
combateram o Sr. Dr. Castro e Silva, devo, todavia, dizer que a tarefa no era
difcil nem rdua. As teses sustentadas por este ltimo eram to calvamente
falsas (deixem passar o adjetivo); os argumentos to errneos, as apreciaes da
lei to absurdas, que no se demandava demasiado trabalho para restabelecer a
verdade da lei e da razo.

O Sr. Dr. Castro e Silva molestou-se por que se lhe
disse que no entendera os artigos da constituio. No direi, portanto, que no
os entendeu, direi que no os quis entender, embora caia em outro escolho, que 
o de atribuir ao ilustrado deputado um erro voluntrio.

Mas como hei de apreciar as suas reflexes se eu
vejo que elas negam a luz do dia e torturam a expresso lgica e gramatical da
constituio?

Isto quanto  interpretao da lei, porque quanto
ao resto, o ilustrado orador fez uma srie de consideraes velhas, debatidas e
refutadas,  dessas consideraes que tm enchido tanto papel e tanto tempo, e
que ningum pode ouvir hoje com seriedade.

Tero acaso os distintos deputados que refutaram o
Sr. Dr. Castro e Silva, tero acaso os liberais catlicos, ter acaso o folhetim
algum medo da organizao de um partido clerical? No creio, no devem ter.
Podem haver alguns sintomas de uma aspirao para a intolerncia, mas essa
aspirao no se converter em partido  ao menos em partido que cause
susto.

E no ser por virtude dos rgos dessa aspirao,
porque esses  a julgar pela linguagem e pela ousadia  parecem falar em nome de
um exrcito em linha de batalha.

Dizendo isto, tenho principalmente em memria o
Cruzeiro do Brasil.

A f vem pelo ouvido, diz S. Paulo, e a folha
catlica, citando a expresso do apstolo, indica aos padres o nico
procedimento que se pode opor ao procedimento dos protestantes. Mas o
Cruzeiro, ao passo que se exprime assim, acorooa os movimentos,
populares, cujo impulso santo e louvvel aplaude.

To audaciosas palavras so apenas a revelao de
um fato que est na conscincia de todos: o Cruzeiro do Brasil faz o seu
negcio e exerce a sua profisso.

Laurent, serrez ma haire avec ma
discipline.

O Cruzeiro do Brasil menciona nas suas
colunas a discusso da assemblia provincial. O adjetivo faz as despesas do
louvor aos defensores das doutrinas intolerantes.

Depois menciona a discusso nas colunas pagas da
imprensa, atribuindo ao Dr. Kelly os artigos que censuram o procedimento do povo
de Niteri.

Neste ponto era necessrio dar ao Dr. Kelly um nome
insultante, um nome de chocarrice, que atrasse ao pregador protestante o
ridculo e o dio  um nome feio, um nome que lhe amargasse e provasse ao mesmo
tempo a f e o esprito dos redatores do Cruzeiro.  Achou-se o nome, e o
nome foi escrito com todas as letras. Que nome seria, meus caros
leitores?

O Cruzeiro chama ao Dr. Kelly:

 O Bblia!

Aqui vai o fragmento do Cruzeiro para que se
me no atribua o pecado de haver desvirtuado o pensamento da folha:

 porm lquido que o autor de semelhante aranzel
no  mais nem menos do que o Bblia que por ali anda a amotinar o
povo.

Louis Veuillot invejaria este perodo.

Terminar aqui a questo Kelly? Se as alegaes da
tribuna e do Cruzeiro impressionarem o povo niteroiense, naturalmente o
Dr. Kelly no poder continuar as suas pregaes, ser compelido a no exercer
um direito expresso na constituio.

 pena! porque a constituio  ainda uma das
melhores coisas que possumos.

No tarda que os redatores do Cruzeiro
redijam o programa de um milagre  que procurem efetu-lo em qualquer templo, e
que, em virtude desse milagre, fique escrita uma reprovao de Deus s misses
do Dr. Kelly.

Aqui vai uma amostra de milagre para inspirar os
referidos redatores.

Julgou-se ultimamente em Madri um processo curioso.
Acusou-se um soldado de ter furtado uma taa de ouro de um altar de Nossa
Senhora. O soldado fez a sua defesa nestes termos:

Pobre e com famlia, recorreu  me de Deus para
obter algum alvio; mas, enquanto tinha os olhos pregados na Virgem, reparou que
a imagem sorria e lhe indicava com o olhar a taa que ficava aos ps. Foi uma
revelao; o soldado lanou mo da taa (quatro milhes de reales) e
partiu.

O tribunal comunicou a narrao do acusado 
comisso eclesistica; a resposta da comisso no deixou dvidas ao tribunal,
que mandou restituir a taa ao soldado.

Isto  o soldado, o tribunal e a comisso
eclesistica fizeram de comum acordo um roubo  Santa Virgem, distribuindo-se as
vantagens do modo seguinte:

O soldado teve a taa.

A comisso eclesistica teve mais um milagre para
inserir nos anais dos milagres.

O tribunal policial teve a perspectiva de alguns
emolumentos provenientes dos muitos processos que vo haver  imitao deste,
depois que as imagens animam os larpios com olhares e sorrisos.

O milagre que acabo de relatar pode tomar lugar
distinto entre as teses cujo desenvolvimento temos visto nestes ltimos
dias.

 uma descoberta que os nossos ratoneiros ainda no
tinham feito, mas que eu no estou longe de crer que ho de imitar, sobretudo se
o Cruzeiro a estiver para apoiar as manifestaes divinas das
imagens.

Demos trgua aos milagres, ao Cruzeiro  a
questo Kelly.

Falemos de um poeta nascente.

 o Sr. Carlos Augusto Ferreira, do Rio Grande do
Sul, jovem de esperanoso talento, que vai publicar brevemente um volume de
versos.

O Mercantil de Porto Alegre escreve a
respeito do jovem poeta algumas linhas que eu transcreveria, se me sobrara
espao.

 moo,  rfo,  pobre; a pobreza, a mocidade, a
orfandade foram e so outros tantos motivos para as manifestaes da sua musa
auspiciosa.

Anim-lo  dever.

Pode vir a ser uma das glrias do pas; no lhe
cortemos, com uma desdenhosa indiferena, o ardor da sua vocao, que de tantos
obstculos triunfa.

Recebi uma carta de Barbacena, encapando um soneto
do poeta mineiro Sr. Padre Corra de Almeida.

Os leitores desta folha tiveram ocasio de apreciar
a formosssima traduo de um canto da Farslia de Lucano, feita pelo Sr.
conselheiro Jos Feliciano de Castilho.

O soneto do poeta mineiro  um belo soneto, na
verdade,   dirigido ao elegante tradutor do poeta latino.

Vejam os leitores:

A histria, que aproxima priscos anos,

Tardio tribunal justo e
severo,
Horroriza tratando do mpio
Nero,
O mais torpe e funesto dos
Tiranos.

No furor das cruezas e dos
danos
No lhe escapa um dos mulos de Homero,

Pois  Lucano vtima do fero
Algoz que dominou sobre os
romanos.

De Espanha era o poeta ilustre filho,

Mas, por ptria adotando amena Itlia,

Deu  lngua de Horcio novo
brilho.

Inspirou-se nas guas da
Castlia,
Escreveu, como escreve hoje um
Castilho,
O prlio sanguinoso de
Farslia.

Depois de escrita a revista, chegou a notcia da
morte de Gonalves Dias, o grande poeta dos Cantos e dos Timbiras.

A poesia nacional cobre-se portanto de luto. Era
Gonalves Dias o seu mais prezado filho, aquele que de mais louanias a
cobriu.

Morreu no mar  tmulo imenso para o seu
talento.

S me resta espao para aplaudir a idia que se vai
realizar na capital do Maranho: a ereo de um monumento  memria do ilustre
poeta.

A comisso encarregada de realizar este patritico
pensamento compe-se dos Srs. Antnio Rego, Dr. Alexandre Tefilo de Carvalho
Leal, Francisco Sotero dos Reis, Pedro Nunes Leal e Dr. Antnio Marques Leal.
No  um monumento para o Maranho,  um monumento para o Brasil. A nao
inteira deve concorrer para ele.

Quanto a ti,  Nobe desolada,  me de Gonalves
Dias e Odorico Mendes, se ainda tens lgrimas para chorar teus filhos, cimenta
com elas os monumentos da tua saudade e da tua venerao!

3 DE JANEIRO DE
1865

Volto com o novo ano  no direi to louo como
ele, nem ainda to celebrado,  mas seguramente to cheio de promessas que
espero cumprir, se, todavia, no intervier alguma razo de Estado.

Os leitores sabem, mais ou menos, o que  uma razo
de Estado para o folhetim. A preguia  um dom em que samos aos
deuses.

O ano que alvorece  sempre recebido entre palmas e
beijos, ao passo que o ano que descamba na eternidade vai acompanh-lo de
invectivas e maldies. Se isto no fosse uma regra absoluta, era legtima a
exceo que se fizesse para a ocasio presente, em que se despede de ns o mais
frreo, o mais infausto, o mais negro de todos os anos.

Se eu no receasse fazer uma revista do ano, em vez
de uma revista da semana, percorria aqui os principais acontecimentos e
desastres do finado ano de 1864.

Foi esse o ano dos fenmenos de toda a casta, tanto
naturais, como polticos, como financeiros; foi o ano que produziu as revolues
astronmicas, as crises comerciais e as patacoadas e empalmaes polticas  em
ambos os mundos, e quase em todos os meses.

Veja-se, pois, se o ano de 1865 no deve ser um ano
singularmente celebrado, o alvo de todos os olhos, o objeto de todas as
esperanas.

Ele , por assim dizer, o arco da aliana, que se
desenha no horizonte assombreado, como uma promessa de paz e de
concrdia.

Manter a confiana que inspira? Ai triste! a
resposta  negativa: todas as palmas do dia da Circunciso se convertero em
pedras.  a repetio do mesmo programa, o programa dos abissnios.

Mas tal  a singular disposio do esprito humano
que, s quando se for embora este ano, em que se puseram tantas esperanas, 
que se lembrar de que no ano ento amaldioado houve para ele um momento de
felicidade verdadeira  ou a satisfao de uma ambio poltica  ou a
realizao de uma iluso literria  ou uma hora de amor, de solitrio andar por
entre a gente  ou o sucesso de uma boa operao econmica.

Temos saudade de todos os anos, mas  s quando
eles se acham j mergulhados em um passado mais ou menos remoto  porque o homem
corre a vida entre dois horizontes  o passado e o futuro  a saudade e a
esperana  a esperana e a saudade, diz um poeta, tm um horizonte idntico:
 l'loignement.

Quando 1865 no corresponder s aspiraes de cada
um, e quando todos se lembrarem desse momento de felicidade de 1864, ento cada
qual repetir as suas maldies contra 1865, e sentir mas de modo diferente, as
suas decepes: o poltico e o financeiro correm o risco de procurar na boca da
pistola a soluo da dificuldade e o esquecimento da derrota; o poeta e o amante
espalharo algumas saudades sobre a campa dos seus amores e das suas iluses.
Pobre poeta! pobre amante! pobre poltico! pobre financeiro!

Folgo de crer que entre os meus leitores nenhum
haver que tenha ocasio de assistir a tais catstrofes; a todos desejo que o
ano que comea seja mais feliz do que o ano que acaba, ou to feliz, se ele foi
feliz para alguns.

Para ligar esta revista  ltima que eu publiquei
antes do intervalo de silncio, devera passar em resenha todos os acontecimentos
que se produziram nesse intervalo. A tarefa seria por demais difcil, sem deixar
de ser intil. Intil, porque o grupo dos sucessos ocorridos serve apenas como
um fundo desmaiado em que ressalta um acontecimento principal:  a guerra do Rio
da Prata.

O folhetim precisa dizer o que pensa, o que sente,
o que julga a respeito das ltimas ocorrncias naquela parte da Amrica? Haver
acaso duas opinies e dois sentimentos nesta questo nacional? No h um s
ponto de vista na apreciao das arlequinadas de Lopez e Aguirre?

O enunciado contm a resposta.

Vinga-se atualmente no campo da ao a honra
nacional. O valor do exrcito brasileiro no est fazendo as suas provas; j as
fez, j foi consagrado naquelas mesmas regies. Nem a tarefa pode assoberb-lo
desta vez: para aquelas crianas traquinas, constitudas em naes, bastam a
vergasta e a palmatria.

A conscincia da justia que anima os nossos
soldados,  j um penhor de vitria.

Volvo os olhos s ltimas semanas e no vejo nenhum
acontecimento literrio, isto , nenhuma publicao que deva assumir semelhante
carter.

Se bem me recordo, desde que me recolhi ao
silncio, houve dois livros: um Compndio da Histria Universal pelo Dr.
Moreira de Azevedo; e a 2 edio das Lembranas de Jos
Antonio.

O primeiro destes livros  um bom livro. Tem os
trs principais mritos de tais livros: a exatido, o mtodo e o estilo.  um
livro acomodado s inteligncias infantis. Todos conhecem j o nome do Sr. Dr.
Moreira de Azevedo, autor de diversos opsculos de investigao histrica,
dignos da nomeada que tem alcanado.

Falando do Compndio do Sr. Dr. Moreira de
Azevedo, ocorre-me a publicao recente de outro compndio de histria, escrito
originalmente em francs pelo ministro da instruo pblica em Frana, e
traduzido para o portugus pelo Sr. padre Joaquim Bernardino de Sena.

A este livro dispenso-me de tecer
encmios.

Quanto a Lembranas de Jos Antonio, no
acrescentarei nada ao maior louvor que a obra obteve e vai obter ainda: a
aceitao geral, no como uma obra de certas propores literrias, mas como uma
coleo de pginas amenas; chistosas, epigramticas, cuja leitura faz rir sem
esforo.

Este livro  uma recordao,   a recordao da
Petalgica dos primeiros tempos, a Petalgica de Paula Brito  o caf Procpio
de certa poca,  onde ia toda a gente, os polticos, os poetas, os dramaturgos,
os artistas, os viajantes, os simples amadores, amigos e curiosos,  onde se
conversava de tudo  desde a retirada de um ministro at a pirueta da danarina
da moda; onde se discutia tudo, desde o d de peito do Tamberlick at os
discursos do marqus de Paran, verdadeiro campo neutro onde o estreante das
letras se encontrava com o conselheiro, onde o cantor italiano dialogava com o
ex-ministro.

Do-me saudades da Petalgica lendo o livro de Jos
Antonio,  no porque esse livro rena todos os caracteres daquela sociedade;
do-me saudades porque foi no tempo do esplendor da Petalgica primitiva que os
versos de Jos Antonio foram compostos e em que saiu  luz a primeira edio das
Lembranas.

Cada qual tinha a sua famlia em casa; aquela era a
famlia da rua  le mnage en ville;  entrar ali era tomar parte na
mesma ceia (a ceia vem aqui por metfora) porque o Licurgo daquela repblica
assim o entendia, e assim o entendiam todos quantos transpunham aqueles
umbrais.

Quereis saber do ltimo acontecimento parlamentar?
Era ir  Petalgica. Da nova italiana? Do novo livro publicado? Do ltimo baile
de E***? Da ltima pea de Macedo ou Alencar? Do estado da praa? Dos boatos de
qualquer espcie? No se precisava ir mais longe, era ir 
Petalgica.

Os petalgicos, espalhados por toda a superfcie da
cidade, l iam, de l saam, apenas de passagem, colhendo e levando notcias,
examinando boatos, farejando acontecimentos, tudo isso sem desfalcar os prprios
negcios de um minuto sequer.

Assim como tinham entrada os conservadores e os
liberais, tinham igualmente entrada os lagrustas e os chartonistas; no mesmo
banco, s vezes, se discutia a superioridade das divas do tempo e as vantagens
do ato adicional; os sorvetes do Jos Toms e as moes de confiana aqueciam
igualmente os espritos; era um verdadeiro ple-mle de todas as coisas e
de todos os homens.

De tudo isso e de muitas coisas mais me lembro eu
agora, a propsito do volume de Lembranas, que no posso deixar de
recomendar aos leitores para as horas de tdio ou de cansao.

Os dois primeiros livros de que falei so editados
pelo Sr. Garnier, cuja livraria se torna cada vez mais importante. Falar do Sr.
Garnier, depois de Paula Brito,  aproxim-los por uma idia comum: Paula Brito
foi o primeiro editor digno desse nome que houve entre ns. Garnier ocupa hoje
esse lugar, com as diferenas produzidas pelo tempo e pela vastido das relaes
que possui fora do pas.

Melhorando de dia para dia, as edies da casa
Garnier so hoje as melhores que aparecem entre ns.

No deixarei de recomendar aos leitores fluminenses
a publicao mensal da mesma casa, o Jornal das Famlias, verdadeiro
jornal para senhoras, pela escolha do gnero de escritos originais que publica e
pelas novidades de modas, msicas, desenhos, bordados, esses mil nadas to
necessrios ao reino do bom tom.

O Jornal das Famlias  uma das primeiras
publicaes deste gnero que temos tido; o crculo dos seus leitores vai se
alargando cada vez mais, graas  inteligente direo do Sr. Garnier.

De teatros temos apenas duas novidades, ou antes
duas meias novidades. Estas so da ltima semana. Anteriormente, tivemos a
representao no Ginsio de uma comdia em um ato do Sr. Dr. Caetano Filgueiras,
intitulada Constantino.

Constantino  uma produo ligeira, escrita por desenfado, com
o nico fim de fazer rir. O pblico riu com espontaneidade ouvindo o dilogo
animado e gracioso da comdia e deu ao seu autor merecidos aplausos.

O Sr. Dr. C. Filgueiras  um dos nossos moos mais
instrudos e inteligentes. Nunca se tinha ensaiado na comdia; seus estudos
especiais so outros. Mas a primeira tentativa foi feita em boa hora. Dou-lhe
por isso os meus sinceros parabns.

Vamos s meias-novidades.

A primeira foi a apresentao da Madalena,
drama em 5 atos, no teatro de S. Janurio, pelos artistas da Bohemia Dramtica,
com o concurso da Sra. Emlia das Neves.

Madalena  um drama de data antiga; foi produzido na poca
mais fervente da escola romntica. No lhe falta interesse nem lances
dramticos. O principal papel  feito por Emlia das Neves, que tem recebido do
pblico entusisticos aplausos.

 que realmente no papel de Madalena a eminente
atriz eleva-se a uma grande altura. No ato da loucura  sublime.

Eu devia, segundo uma promessa feita no alto da
folha, apreciar individualmente os artistas encarregados dos outros papis; mas
vejo que me escasseia o espao e o tempo.  fora resumir. O papel confiado ao
Sr. Heliodoro  um papel seco e frio; aquele artista f-lo muito a contento;
parece ser esse o seu gnero. No papel de Andr, carter um pouco estranho ao
Sr. Dias Guimares, houve-se este artista s vezes com felicidade. Aos esforos
coletivos dos outros dou os meus aplausos sinceros.

A companhia da Bohemia tem em si tudo o que pode
inspirar simpatias.  justia prestar-lhe apoio; nem o trabalho inteligente e
honesto pede outra coisa que no seja justia.

A outra meia-novidade foi o Pai de uma
atriz, no Ginsio, para reentrada do ator Areias. A pea e o artista so
conhecidos do pblico do Ginsio. Se os vir antes da prxima revista, direi as
minhas impresses. At tera-feira.

10 DE JANEIRO DE
1865

Temos teatro lrico? No temos teatro lrico? Tais
foram as perguntas que se fizeram durante a semana passada, depois da
representao de Luiza Miller, dada como a ltima da extinta empresa.

O Dirio Oficial veio pr termo s dvidas,
declarando peremptoriamente que o governo no fez nem pretende fazer contrato
sobre o Teatro Lrico concedendo subveno ou loterias.

Mais de uma circunstncia concorre para tornar este
ato digno dos aplausos gerais. A mais insignificante dessas circunstncias  a
presena da estao calmosa,  durante a qual, nos pases que nos servem de
modelo, suspendem-se as representaes lricas.

Mas h alguns amadores intrpidos que resistem a
tudo, a despeito de tudo, e que estavam dispostos a afrontar o vero, e a ir
suar na sala do Provisrio, enquanto na cena suassem os cantores durante
as notas impossveis de algumas peras em voga.

Esses dificilmente se acomodaro. Os lees
fluminenses exigem a todo o custo os encantos da lira de Orfeu. Infelizmente a
resoluo foi tomada e publicada. Em matria de msica devemos contentar-nos
agora com o rudo da guerra e os gritos vitoriosos dos nossos bravos batalhes
que l defendem no Sul a honra nacional ultrajada.

Se o governo tivesse concedido o Teatro Lrico a
uma empresa, em semelhante situao, teria cometido simplesmente um escndalo.
Repartir os dinheiros pblicos entre os defensores do pas e as gargantas mais
ou menos afinadas dos rouxinis transatlnticos, era uma coisa que nenhum
governo se devia lembrar, e eu folgo muito de ver que este se no
lembrou.

Acabaram, portanto, as noites lricas do
Provisrio. A Alba, que pela arte com que cantava, e pela semelhana com
Ovdio Naso, foi to celebrada nas folhas dirias e nas gazetas ilustradas; a
Alba, que comoveu o pblico fluminense, mesmo depois da Stoltz e da Lagrange, de
quem alis se distanciava infinitamente, a Alba no se far ouvir mais. Os
amantes de Euterpe podem pr luto; o tambor sucede  rabeca, o rufo substitui o
trinado; as flores vo desabrochar sossegadas, at  hora em que devam juncar o
solo para dar passagem aos soldados brasileiros.

Mas os amigos de Euterpe no podem deixar de
aplaudir esta resoluo.  doloroso ter de presenciar situaes tais, e qualquer
de ns preferia que elas se no produzissem,  mas uma vez que assim , no h
que hesitar: ouviremos cantar depois.

No tivemos s esta notcia na ltima semana;
tivemos outras altamente favorveis; as provncias, as dignas irms desta grande
famlia, vo-se levantando com entusiasmo para depositar no altar da ptria a
espada vingadora. O corao nacional ainda no morreu. Ao contrrio, palpita com
a vitalidade prpria de uma juventude briosa.

Um amigo, cuja experincia e esprito observador
bastariam para impr-me uma reflexo, disse-me h dias que um dos nossos grandes
males nascia da educao que se dava  infncia. Concordamos nisto, mas
divergamos num ponto, a saber  ele preconizava com certo ardor o esprito
militar. Eu no ia to longe como ele. No que eu suponha estarmos prximos da
poca da paz universal e bem aventurana terrestre. Para que os reinos no se
faam guerra,  preciso que tambm a no faam os homens entre si; enquanto a
segurana precisar de uma fechadura, e a boa f precisar de um tabelio  os
homens lutaro de reino a reino, como de pessoa a pessoa.

No ia to longe como disse, mas concordava no
ponto capital. Todavia,  agradvel ver que, apesar de todos os obstculos, o
sentimento patritico levanta as coragens e anima o valor dos
cidados.

Assim  que vamos registrando todos os dias atos de
verdadeiro amor ao pas. Bastam estes exemplos para animar a reproduo de
outros.

O que no inspira estmulos, antes provoca
indignao em todos,  um ato de brutalidade, igual ao que se praticou no mar, a
dois passos do Rio de Janeiro, entre um vapor de guerra ingls e um
patacho.

Os ingleses tm obrigado o resto do mundo a aceitar
a sua filantropia como uma virtude nacional. Mas, sem dvida para mostrar o
perptuo contraste das coisas humanas, apresentam ao lado da filantropia alguns
atos de brutalidade. O pas do box deve ser assim. Politicamente no falemos; os
executadores das faanhas deitam a barra diante de tudo.

Mas o que a arrogncia poltica pode inspirar aos
que se dizem diretores do mundo, no devia aparecer nas situaes e nos lugares
em que se apela simplesmente para os sentimentos humanos.

Quando o patacho Mercrio foi abalroado pelo
vapor Sharpshooter, no se tratava de mostrar que os tripulantes do
ltimo eram ingleses, descendentes de Nelson; tratava-se de mostrar que eram
homens, descendentes de Ado. Cair sobre um navio pequeno, obrigar a tripulao
a abandon-lo, e quando ela buscava um refgio no prprio vapor expuls-la,
repeli-la, abandon-la  lei do acaso e dos ventos,  um ato que envergonha uma
nao inteira. Tal foi entretanto o ato praticado pelo vapor de Sua Majestade
Britnica, na madrugada do dia 5, demandando a baa do Rio de
Janeiro.

Que vergonha!

Mas passemos a outras coisas.

Relendo as primeiras tiras desta revista ocorre-me
uma reflexo; a lei do acaso obriga-me a faz-la aqui mesmo, sem prestar maior
ateno  ordem do escrito.

Um teatro lrico tornou-se uma necessidade nesta
capital; foi essa necessidade que fez permanecer o teatro Provisrio. Mas
eu no posso deixar de notar uma singularidade;  o af com que todos clamam por
teatro lrico, e o desdm com que quase todos se esquecem de um teatro
dramtico. Entretanto, ningum por duvida que, se o teatro lrico  o agradvel
e talvez o suprfluo, o teatro dramtico  mais que o til,  o necessrio. Para
reconhecer isto no precisa receber do cu uma grande sagacidade; a inteligncia
medocre o reconhece.

Uma coisa, entre outras muitas, que no entrou
ainda na cabea do governo do Brasil,  a criao de um teatro dramtico
nacional. Houve uma tentativa: um ministro do imprio dos ltimos anos deu um
passo para preencher essa lacuna, nomeando uma comisso de escritores
competentes para estudar o assunto e dar um parecer. A comisso fez mais do que
se lhe pediu, no s deu um parecer como deu dois. Aqui  que naufragou a idia.
O ministro, colocado entre os dois pareceres,  resolveu no fazer coisa alguma,
limitando-se a dizer consigo:

... je crois, ma foi, qu'ils ont tous
deux raison.

Os pareceres l foram jazer nos arquivos,  espera
que a mo curiosa de algum antiqurio os torne  luz do dia, mas sabe Deus em
que dia!

Sem desconhecer o pouco que fez o ministro, no se
pode deixar de critic-lo pelo que no fez.

Por que no estudou os dois pareceres? por que no
viu as diferenas essenciais? por que no os harmonizou? por que no tomou um
terceiro alvitre? Em suma, por que no completou a obra que havia
comeado?

A criao de um teatro normal devia tanto mais
seduzir o esprito do ministro, quanto era esse um meio infalvel de perpetuar o
seu nome, alis arriscado a um infalvel esquecimento.

Dar-se- caso que o governo desconhea a
importncia e a necessidade de um teatro nacional? Ele dir que no as
desconhece, e que at o errio pblico tem contribudo para sustentao da arte
dramtica. Esta resposta, se o governo a d,  a sua prpria
sentena.

No se pedem subvenes, nem  com esses paliativos
que o teatro h de nascer.

O teatro nacional no deve ser um beneficiado do
governo;  uma instituio, depende de um sistema, supe uma direo oficial e
importa uma responsabilidade. Fora disto,  fazer trabalho de Penlope, tecer de
dia e destecer de noite, sem a consolao de salvar a virtude, como a mulher de
Ulisses.

No se precisa de olhar de lince para reconhecer a
urgncia de uma iniciativa sria a esse respeito.

Nem tambm estamos no tempo em que se ia  casa da
pera passar algumas horas de galhofa para ver no fim casarem os
bbados.

Ningum hoje contesta que o teatro seja uma escola
de costumes, uma pedra de toque da civilizao. Em matria de escolas no se
deve dispensar nenhuma. O governo que, no amor s artes, sustenta uma academia
de msica e uma de pintura e estaturia, s pode negar-se a sustentar uma
academia dramtica, fundado na razo das suas predilees pessoais, o que no
pode ser uma razo de governo.

 uma matria esta em que todos os nossos
escritores esto de acordo. No h muito o ilustrado orador do Instituto
Histrico fez ouvir duas palavras nesse sentido, por ocasio da sesso
aniversria daquela sociedade.

Que resultou do abandono de tantos anos? O estado
deplorvel que hoje presenciamos: uma arte bastarda, apenas legitimada por
alguns raros lampejos, arrasta a mais precria existncia deste
mundo.

Os artistas foram obrigados a fazer ofcio daquilo
que devia ser culto; enfim, os escritores dramticos, que podiam contribuir mais
ativamente para um repertrio nacional, se outras fossem as circunstncias 
apenas, por uma devoo digna de ser admirada, apresentam de longe em longe os
produtos da sua inspirao.

Em tal estado de coisas, sem esperana de um
prximo remdio, no h outra coisa a fazer seno cruzar os braos.

E a crtica, diante de uma arte penosa e inglria,
deve tomar a benignidade por seu principal elemento, a fim de no aumentar a
aflio ao aflito.

 com essa benignidade que eu julgarei a nica
novidade da semana: a representao da Cruz de S. Luiz, comdia em 3
atos, pelos artistas da Bohemia Dramtica.

Esta pea est longe de ser perfeita; de uma
situao trgica no 1 ato, nasce uma situao cmica nos dois atos restantes; e
esta mesma  em si muito discutvel. Mas eu deixarei de parte uma apreciao que
me poderia levar longe, para dizer que, uma vez aceitos os dados da pea,  ela
uma das mais divertidas e engraadas que tenho visto.

O aplauso foi entusistico.

O principal papel  o de um rapaz que desconhece o
seu sexo, e que, criado como mulher, em virtude dos acontecimentos do 1 ato, 
como tal aceito por todos.  certo que ele sente para as mulheres uma inclinao
mais pronunciada do que h de ordinrio entre as mulheres; joga a espada com a
parede, abafa no espartilho, sonha com batalhas e s pega nos trabalhos da
agulha para disfarar uma situao.

No me resta espao para contar os meios por que
este homem-mulher chega a casar com um baro. A pea acaba por um duelo, em que
o rapaz, restitudo ao seu sexo, liquida uma dvida de honra de seu
pai.

O papel foi confiado  Sra. Emlia das Neves que o
desempenhou com a arte cmica que j tive ocasio de reconhecer-lhe em outra
pea.

Uma mulher que deve representar um homem vestido de
mulher  no  pequena dificuldade. A Sra. Emlia das Neves foi
perfeita.

O baro que chega a casar com o rapaz foi
desempenhado pelo Sr. Gusmo. O Sr. Gusmo  unicamente um artista cmico:
estava no seu papel.

Aconselharei ao Sr. Lisboa certa moderao no papel
do espadachim. Os sustos da criada, papel feito pela Sra. Ricciolini, fizeram
rir s gargalhadas. O papel da duquesa, feita pela Sra. N. Fernanda,  um papel
um tanto passivo, bastava diz-lo com a simplicidade com que foi dito. A mesma
reflexo posso fazer a respeito de alguns dos papis restantes.

A pea est montada e adereada a
capricho.

A sala do teatro, como se sabe, foi recentemente
pintada.

24 DE JANEIRO DE
1865.

Quereis que vos fale de Coimbra e Paysand? Foram
dois famosos feitos de armas; um ataque de heris e uma defesa de heris. No
houve menor bravura nos que se defendiam dos paraguaios, do que nos que atacavam
os orientais. E se a sorte das armas fez plantar em Paysand a bandeira
nacional, coube aos valentes de Coimbra a vitria dos vencidos.

Antes de ir tomar contas ao Croquemi-taine de
Assuno, o exrcito brasileiro terminar a questo oriental.  o que 
provvel, de Paysand a Montevidu dista um passo. A primeira vitria assegura a
segunda, que ser a ltima. Com ela entre a ordem na desolada repblica,
entregue hoje aos restos de um partido de sangue.

Depois de Aguirre passa-se a Lopez. Mata-se o dois
de paus e arma-se a cartada ao rei de copas.  esse o pensamento de um epigrama
publicado no ltimo nmero da Semana Ilustrada:

Joga-se agora no Prata
Um jogo dos menos maus:
O Lopez  o rei de copas,
O Aguirre  o dois de paus.

O que  ao! Alguns dias de combate fizeram mais
do que longos anos de polmica diplomtica. Bem podia ter-se poupado o papel que
se gastou em notas e relatrios: eram mais algumas libras de plvora.

Com selvagens no h outro meio.

Mas era preciso que a diplomacia gastasse o seu
tempo e o seu papel por dois motivos: o primeiro era mostrar que os sentimentos
do imprio no eram hostis  liberdade interna da repblica, o segundo era dar
expanses ao prprio esprito da diplomacia, que, de ordinrio, faz menos no
gabinete do que o soldado no campo.

Se os diversos representantes do imprio que
trataram por tantos anos das reclamaes brasileiras em Montevidu me prometem,
sob palavra, que no tiram destas linhas nenhuma aluso pessoal, acrescentarei
aquilo que j foi escrito e repetido um milho de vezes, em todas as lnguas, a
saber: que a diplomacia  a arte de gastar palavras, perder tempo, estragar
papel, por meio de discusses inteis, delongas e circunlocues desnecessrias
e prejudiciais.

Balzac, notando um dia que os marinheiros quando
andam em terra bordejam sempre, encontrou nisso a razo de se irem empregando
alguns homens do mar na arte diplomtica.

Donde se conclui que o marinheiro  a crislida do
diplomata.

Uma nota diplomtica  semelhante a uma mulher da
moda. S depois de se despojar uma elegante de todas as fitas, rendas, jias,
saias e corpetes,  que se encontra o exemplar no correto nem aumentado da
edio da mulher, conforme saiu do prelo da natureza.  preciso desataviar uma
nota diplomtica de todas as frases, circunlocues, desvios, adjetivos e
advrbios, para tocar a idia capital e a inteno que lhe d origem.

Vejam da qual no foi o meu jbilo, lendo
ultimamente nas folhas da Europa uma nota de Theodoro, imperador da Abissnia,
ao vice-rei do Egito.

 a nota mais concisa e mais franca que tenho lido.
O monarca africano diz em poucas palavras o que pensa e o que quer. No usa de
introduo, nem fecho oficial. No h franjas inteis:  tudo pano, e uma boa
amostra de pano.

A idia no est ali como em um leito de Procusto,
esticada e retesada at dar para certas dimenses de palavreado
intil.

Por exemplo,  Theodoro julga que o vice-rei do
Egito, filho do Crescente,  um filho do Erro. No recorre  biblioteca para
diz-lo. Comea a nota por estas simples palavras:

Filho do Erro!

Os teus antecessores, por surpresa e por traio,
roubaram aos meus antepassados as ricas provncias do Soudan.

Restitue-mas, seremos amigos.

 Se recusares,  a guerra. Mas o sangue de tantos
bravos deve correr por causa da nossa pendncia?

 Ouve e reflete: Provoco-te a um combate
singular.

Revestido de todas as tuas armas, e eu das do meu
pas, vem: entre ns dois, Deus nos julgar.

Um combate  morte; ao vencedor, o
universo.

Espero!

Dois minutos e um quarto de papel para escrever uma
nota como esta, nada mais. No lhe falta nem clareza nem energia. Falta a
renovao dos protestos da alta considerao e amizade, coisa que nada
significa, nem nas notas diplomticas, nem nas cartas particulares. Em vez de
umas trs linhas que gastaria nisso, o imperador africano escreve apenas esta
enrgica palavra:

 Espero!

O que  certo  que o vice-rei do Egito no
respondeu nem acudiu ao reclamo, e o rei Theodoro l ficou esperando pelas
cebolas do Egito.

Pelo que nos concerne, terminou felizmente o
perodo do papel e entrou o perodo da bala.

No pretendo entreter os leitores com a narrao do
estado de extrema anarquia em que ficou a capital oriental depois da tomada de
Paysand. J todos leram e releram isso nas folhas fluminenses e argentinas. Se
alguma razo precisasse ainda o imprio dos atos que foi compelido a praticar,
bastaria a situao atual de Montevidu, onde, fora o governo e meia dzia de
comparsas, todos desejam a entrada das foras libertadoras.

E o que o governo oriental , num pas onde os
estrangeiros ocupam a maior parte das terras e do uma grande poro da riqueza
pblica,  apenas uma espcie de alta polcia local. Este pensamento no 
meu.

O paquete que parte hoje para a Europa leva uma
comisso de blancos, a fim de pedir auxlio s potncias europias. O
auxilio que, se houver, no ser seno diplomtico, h de chegar quando uma nova
ordem de coisas se tiver estabelecido em Montevidu, isto , depois do asno
morto.

Mas ser esse o fim real da embaixada oriental? A
este respeito cada qual tem feito as suas conjeturas, e eu sou muito discreto
para no mencion-las nesta revista. Que v em paz a embaixada
oriental.

Uma notcia dada a esse respeito no Jornal do
Comrcio ofereceu ocasio a que aparecesse ontem naquela folha uma
comunicao assinada. Essa comunicao tem um fecho que me no pode escapar.  o
que felicita o Mxico por estar na doce fruio de um governo paternal, liberal,
criador e animador! ...

Os leitores que me acompanham desde Junho do ano
passado ho de lembrar-se do que eu disse a respeito do Mxico, quando o Sr.
Lopes Netto endeusou aquela conquista na cmara dos deputados.

 do meu dever protestar contra esta assero da
comunicao a que me refiro. No conheo o cavalheiro que a assinou, mas
protesto, e creio que em nome dos brasileiros, contra ela.

Nem o Mxico aceitou o novo governo, nem ele 
governo paternal e criador. O imprio napolenico, sob a responsabilidade legal
de Maximiliano, foi puramente imposto ao povo mexicano, em nome da fora, le
droit du plus fort. Quanto  doce fruio de um governo paternal e liberal,
temo encher demasiado estas colunas, relatando os atos que provam inteiramente o
contrrio disso.

Sabemos todos que o imperador Maximiliano, no
discurso de entrada na sua nova ptria, indicou as suas intenes de adiar o
remate do edifcio,  semelhana de Napoleo III. A mania dos tutores dos povos
 distribuir a liberdade, como caldo  portaria do convento; e a desgraa dos
povos tutelados  receber a caldeirada como um favor dos amos, augustos e no
augustos.

Se o meu sculo aplaudisse a conquista do Mxico,
eu no hesitaria em dizer que era um sculo de barbaria, indigno da denominao
que se lhe d.  certo que o consentimento tcito das diversas potncias que
andam  frente do mundo, fazem desanimar a todo aquele que est convencido do
esprito liberal e civilizado do seu tempo.

A gazetilha do Jornal do Comrcio tem
anunciado muitas conquistas do Mxico, reduzidas a propores individuais, sob
esta epgrafe: Um dos tais.

No vejo inconveniente em dizer estas coisas, com a
presena da Embaixada mexicana nesta corte. A verdade sai do poo, sem indagar
quem se acha  borda. Creio que todo o Brasil pensa o mesmo que a deixo
escrito, a respeito do Mxico, e se no pensar do mesmo modo, tanto pior para
ele.

Tinha ainda muitas coisas para dizer acerca da doce
fruio do governo paternal do Mxico, mas fico por aqui.

 tempo de passar a outros assuntos.

O captulo dos teatros continua escasso. S a
Boemia nos apresenta peas novas, em que toma parte Emlia das Neves. O Ginsio
tem remontado algumas composies dos seus bons tempos. Os miserveis,
que ali subiram ultimamente, eram uma pea nova para aquele teatro, mas acabava
de ser esgotada no teatro de S. Janurio, com 26 representaes sucessivas. Se
me perguntarem o segredo destas 26 representaes de uma pea em que se no
acham todas as condies do drama, no hesito em encontr-la no desempenho igual
e distinto que lhe deram os artistas da Boemia.

Trabalha atualmente no teatro Lrico o artista
Germano, acompanhado de alguns artistas. S tem montado duas peas, creio eu:
D. Csar de Bazan e os Milagres de Santo Antnio, peas
conhecidas do pblico. D. Csar era um floro de Joo Caetano; quanto a
Santo Antnio, evocando os peixes e reverdecendo as vinhas, no me
inspira curiosidade.  uma pea sem valor.

Portanto, s a Boemia vai dando peas novas. J
falei na Cruz de S. Luiz, que continua a sustentar-se no cartaz e na
cena, graas s situaes cmicas e divertidas de que est cheia, e ao
desempenho magistral do papel do duquesinho de Forvile, feito por Emlia das
Neves.

Na noite de anteontem houve ocasio de mostrar esta
artista as duas faces do seu brilhante talento. Teve um papel dramtico e um
papel cmico: este era o da Cruz de S. Luiz, aquele era o de
Eugnia, na nova pea em dois atos, A louca de Toulon.

O que h de mais importante nesta pea  o
desempenho do papel de louca. Os que viram Emlia das Neves na Madalena, onde
tambm representa a loucura, iro sem dvida v-la no papel de Eugnia.  a
mesma sublimidade. H apenas a diferena de uma circunstncia. Eugnia
enlouquece em cena, a essa passagem da razo para a demncia, altamente difcil
por correr o risco da exagerao e da extravagncia, f-la Emlia das Neves com
uma arte suprema.

A pea compe-se de dois atos.  um quadro
estreito, porque a ao  igualmente estreita. Mais um ato seria dilu-lo. Assim
fica mais compacta, inspira maior interesse. O dio de um irmo e o amor de uma
irm, empregados no mesmo homem, eis o drama. O dio do irmo  legado do pai,
que morre convencido de ter sido desonrado pelo pai daquele que mais tarde 
amado por Eugnia. Posso acaso explicar s leitoras a causa do amor da irm, a
causa do fogo que arde sem se ver?

Os artistas que acompanham Emlia das Neves nesta
pea fazem conscienciosos esforos e conseguiram fazer um conjunto digno de
meno. S notarei ao Sr. Leal uma falta de que desejava v-lo corrigido. O Sr.
Leal  um moo de talento, tanto para os papis dramticos, como para os
cmicos. No seu ltimo papel notei-lhe uma certa falta de flexibilidade na voz,
uma certa monotonia, talvez intencional, mas de mau efeito. Fora esta reserva,
dou-lhe os meus aplausos.

No terminarei a revista sem fazer uma reflexo que
me sugeriu a leitura das primeiras laudas. Essa reflexo j foi feita no alto da
folha, e tem por si todas as razes da justia.  relativa aos prmios
honorficos a que vo tendo direito os bravos defensores da honra do pas.
Conferi-los no campo da batalha  de imediata justia, e de proveitoso
exemplo.

A luta h de ser longa e grande;  preciso que o
pas v reconhecendo oficialmente os atos de bravura dos seus
defensores.

A conscincia do dever  de certo um prmio
suficiente, mas isso  um ato puramente ntimo do patriota. A honra do pas
exige outro galardo.

 de crer que o governo imperial execute este
dever.

Dito isto, dou a palavra  reflexo dos
leitores.

31 DE JANEIRO DE
1865.

Aleluia! comeou o reinado da virtude.

Sim, ilustres prelados,  sim, monsenhor Pinto de
Campos,  a casta e foragida virtude voltou a ocupar o trono da humanidade; o
sculo regenerou-se; j no h indiferena, nem dvida, nem impiedade; os vcios
abriram vo, como as guas dantescas, e volveram para sempre aos antros do
inferno; o diabo cortou as pontas e lanou a causa ao fogo; Mefistfeles
abandonou o Fausto; o Fausto repousa no seio de Margarida; o mundo  um den; a
vida  um idlio: estamos em pleno Tecrito.

Quereis a prova?

As folhas do Rio de Janeiro publicaram o ano
passado uma grande notcia. Era uma predio do professor Newmager, de Melburne.
Segundo este sbio devia aparecer em 1865 um cometa, ao qual estava destinado um
destes dois importantes papis:

Ou destruir o globo, com um golpe da cauda; ou dar
aos olhos dos homens uma coisa nunca vista desde o comeo do mundo: um dia de 72
horas.

A terra  disse eu ento nestas colunas  que tem
escapado a tantos cometas  aos celestes, como o de Carlos V  aos terrestres,
como o rei dos Hunos  aos martimos, como os piratas normandos  a terra est
de novo ameaada de ser destruda por um dos ferozes judeus errantes do
espao.

A meu ver o mundo estava irremediavelmente perdido,
porque o cometa era o instrumento da clera do Senhor.

O Senhor tinha velado a sua face. Era um novo
cataclismo que vinha destruir a humanidade, sem que desta vez uma s famlia de
justos tivesse a honra de ser o tronco de uma raa futura.

Pois bem! o cometa apareceu, o cometa paira sobre
nossas cabeas, mas  um cometa inofensivo, tnue, descorado, que ainda no
destruiu a menor coisa, e que promete retirar-se em perfeito estado de
paz.

Concluso: comeou o reinado da virtude; o mundo
criou pele nova.

J no h hipcritas, nem velhacos, nem egostas,
nem vaidosos, nem incrdulos, nem invejosos, nem maus. Tartufo  um homem
sincero; Bertrano  um homem honrado; D. Juan envergou o burel do monge; s
Alceste quer um lugar,

O d'tre homme d'honneur on alt la
libert,

para ir viver entre os homens. No encontrar
melhor, nem mais pronto.

Viva Deus!  isto o que se chama reparar as faltas,
aproximar-se da divindade, ganhar num ano o que perderam sculos.

Mas se a virtude reina entre os homens e se a paz
universal vai dar um repouso definitivo aos espritos, no acontece assim entre
os prprios deuses.

Os deuses, sim, que ainda existem apesar da
abdicao:  Vnus na montanha misteriosa, cercada de silvanos e madryadas; Baco
no convento dos franciscanos; Jpiter e mais a cabra Amalthea na ilha dos
Coelhos, conforme rezam as lendas germnicas. Nada sei de Marte e de Apolo, mas
sei que os dois filhos de Saturno se desavieram por coisas srias; estando a
razo do lado do pai da poesia.

Que o Deus Marte acenda a guerra entre os Estados,
v.  esse o seu ofcio nico. Mas que, ao som da metralha, favorea aos
vndalos a subida  montanha sagrada, isso no. Pois no foi outra coisa. Mal
soaram os primeiros tiros em Paysand, os poetastros, vendo que os poetas
afinavam a lira, no se deixaram ficar em casa. Travaram da guitarra e l se
foram atrs dos poetas, cobertos e disfarados, para melhor iludir o pai da
poesia. Foi uma verdadeira confuso.

Ou eu me engano, ou o nico perigo da guerra atual
 este.

J que falo em poetas, escreverei aqui o nome de um
jovem estreante na poesia, a quem no falta vocao nem espontaneidade, mas que
deve curar de aperfeioar-se pelo estudo.  o Sr. Joaquim Nabuco. Tem 15 anos
apenas. Os seus versos no so de certo perfeitos, o jovem poeta balbucia
apenas; falta-lhe compulsar os modelos, estudar a lngua, cultivar a arte; mas,
se lhe faltam os requisitos que s o estudo pode dar, nem por isso se lhe
desconhece desde j uma tendncia pronunciada e uma imaginao viosa. Tem o
direito de contar com o futuro.

Fiquemos no terreno da poesia, ao menos no papel,
se isso nos consente a prosa desta terra e a gravidade desta
situao.

Tivemos domingo uma ressurreio literria. Foi 
cena no teatro de S. Janurio o ngelo de Victor Hugo. Mais de vinte anos
antes conquistara o mesmo drama nas mesmas tbuas os aplausos de um pblico,
muito mais feliz que o de hoje, um pblico a quem se dava o ngelo, o
Hamleto, o Misantropo e o Tartufo.

Parece que as obras srias da arte ficaram,
proscritas do nosso teatro. No meio de muita coisa boa, de alguma coisa
excelente, avultam as enxurradas que nos vem de Paris.  o tempo das
quinquilharias. Muita coisa excelente fica condenada ao abandono. Por exemplo, o
Marqus de Villemer, recente comdia da autora de Llia, est
proibida de ir  cena; os atores que a representassem dois meses morriam de
fome. Em compensao os Milagres de Santo Antnio do ainda para uma
dzia de jantares.

A farsa e o melodrama, eis os dois alimentos que o
estmago do pblico suporta. No lhe faleis no drama ou na comdia; a tragdia,
essa  coisa ante-diluviana. Cinna, representada nos ltimos dias de Joo
Caetano, teve alguns raros aplausos e no obteve cinco
representaes.

De Molire suportar-se-ia hoje o Doente
imaginrio ou o Pourceaugnac. Ainda assim seria o successo das
seringas.

Quanto ao Misanthropo e s Mulheres
letradas, morriam na primeira representao.

Pelo que nos toca, no deve a culpa ser lanada ao
teatro nem ao pblico. O pblico  uma criana que se educa; o teatro, na
situao em que se acha,  um meio de vida que se exerce.

Fiz estas reflexes no domingo, ouvindo o
ngelo. Que faria naquela ocasio o poeta das Contemplaes, da em
Hautevile-House, na ocasio em que, a tantas centenas de lguas, era
ouvido o seu drama no meio de aplausos gerais? Depois de tantos anos de
existncia, a obra dramtica de Victor Hugo ainda grangeia o aplauso e a
admirao. No  um mrito da escola,  um mrito do poeta.

A escola romntica, que partilha ainda hoje com a
realista o domnio do teatro, s tem produzido monstros informes. Os gnios
iniciadores conservaram-se na altura donde olhavam para baixo; os imitadores
deixaram-se arrastar no cho da sua mediania.

Diante de ngelo, estamos diante da
violncia das paixes e da energia dos caracteres. Tem as cores carregadas do
tempo e da ao. Que quereis que houvesse no tempo da Serenssima Repblica de
Veneza? Mas ngelo e Rodolfo so homens, Tysbe e Catarina so mulheres; a
mscara no substitui o rosto, a ao no se sacrifica  situao; as paixes
so humanas, os sentimentos so humanos.

Ouvindo o ngelo o pblico sentiu-se
comovido e abalado. ngelo, um dos filhos mais velhos da escola
romntica, aparecia com ares de novo, tal  a distncia que o separa das chusmas
de composies das mesmas escolas que h tanto tempo nos atordoam.

Era isso, e era outra coisa. A Sra. Emlia das Neves desempenhava o papel de Tysbe;
Tysbe, em quem o amor, o cime, o dio tomam propores colossais, aparecia aos
olhos e abalava a alma do pblico, graas ao grande talento da artista, tantas
vezes provado, tantas vezes reconhecido. Gesto, voz, fisionomia, tudo fala, tudo
se apaixona, tudo ama e odeia, naquela artista privilegiada.

O pblico no lhe fez um ceitil de favor com os
vivos aplausos que lhe deu.

Deve-se agradecer  Boemia esta ressurreio
literria.

ngelo mata Catarina para lavar a sua honra. No 
o cime que nasce do amor,  o cime que nasce do orgulho. O correspondente do
Jornal do Comrcio, em Londres, conta-nos uma tragdia mais ou menos
nestas circunstncias, com a diferena de que a ao no se passa em Pdua, mas
em Constantinopla.

Cuidais que o autor do crime  um ngelo, um tirano
sem alma? Nada:  uma criaturinha de 22 anos, uma rapariga casada de fresco;  a
sultana Djemila, sobrinha do atual imperador.

O marido deste ngelo feminino  o pax Mahmoud
Jelladin. Djemila baixou os olhos sobre Mahmoud e casou com ele. Era um
casamento de amor. Mas por isso mesmo o pax estava obrigado a no desviar os
olhos da mulher. No sei se os desviou; mas o certo  que a sultana teve cimes
de uma das escravas. Nada disse; mandou simplesmente cortar a cabea da infeliz
com uma cimitarra. Foi isto a 12 do ms passado.

O pax de nada soube. A sultana, que no dava a
honra de jantar com o marido, nesse dia f-lo sentar ao p de si. Mahmoud de
nada suspeitava; sentou-se alegremente. Veio o primeiro prato; vo descobri-lo:
era a cabea da escrava.

O pax caiu fulminado.

Esta morte foi produzida pelo terror? pela dor de
ver a escrava morta? enfim, por certo licor que a sultana lhe dera antes, para
abrir o apetite?

Mistrio.

O que h de certo  que o pax est
morto.

No cito este fato para inspirar imitadoras.
Livre-nos Deus de ngelos e Djemilas. Se todas as damas quiserem seguir o
exemplo da sultana e dar um golpe de cimitarra por cada pecadinho dos senhores
seus maridos, h um meio mais breve e mais sumrio:  decretar a supresso do
sexo.

7 DE FEVEREIRO DE
1865.

Dedico este folhetim s damas.

J me aconteceu ouvir, a poucas horas de intervalo
e a poucas braas de distncia, duas respostas contrrias a esta mesma
pergunta:

 Que  a mulher?

Um respondeu que a mulher era a melhor coisa do
mundo; outro que era a pior.

O primeiro amava e era amado; o segundo amava, mas
no o era. Cada um apreciava no ponto de vista do sentimento pessoal.

Entre as duas definies eu prefiro uma terceira, a
de La-Bruyre:

 As mulheres no tm meio termo: so melhores ou
piores que os homens.

Mas no  neste ponto de vista que eu venho hoje
falar das damas. Deixemos em paz os amantes e os moralistas. No entrais hoje
neste folhetim, minhas senhoras, como Julietas ou Desdmonas: entrais como
Spartanas, como Philipas de Vilhena, como irms de caridade.

A bem dizer  uma reparao. J falei dos
voluntrios; j consagrei algumas palavras de homenagem aos coraes patriticos
que, na hora do perigo, se esqueceram de tudo, para correr em defesa da ptria.
Mas nada escrevi a respeito das damas, e quero hoje reparar a falta, comeando
por a, e dedicando s damas estas humildes colunas.

No nascestes para a guerra, isto , para a guerra
da plvora e da espingarda. Nascestes para outra guerra, em que a mais inbil e
menos valente vale por dois Aquiles. Mas, nos momentos supremos da ptria, no
sois das ltimas. De qualquer modo ajudais os homens. Uma, como a me espartana,
arma o filho e o manda para a batalha, outras bordam uma bandeira e a entregam
aos soldados, outras costuram as fardas dos valentes, outras dilaceram as
prprias saias para encher os cartuchos, outras preparam os fios para os
hospitais, outras juncam de flores o caminho dos bravos.

Voltar aquele filho antes da desafronta da ptria?
Deixaro os soldados que lhes arranquem aquela bandeira? Entregaro as fardas
que os vestem? Sentiro os ferimentos quando aqueles fios os ho de
curar?

Ao par da santa idia da ptria agravada, vai na
imaginao dos heris a idia santa da dedicao feminina, das flores que os
aguardam, das oraes que os recomendam de longe.  assim que ajudais a fazer a
guerra. Deste modo estais acima daquelas aborrecidas Amazonas, que, a pretexto
de emancipar o sexo, violavam as leis da natureza e mutilavam os divinos
presentes do cu,

Com quem amor brincava e no se via.

No tendes uma espada, tendes uma agulha; no
comandais um regimento, formais as coragens; no fazeis um assalto, fazeis uma
orao; no distribuis medalhas, espalhais flores, e estas, podeis estar certas,
ho de lembrar, mesmo quando forem secas, os feitos passados e as vitrias do
pas.

Que nenhuma brasileira se recuse para esta batalha
pacfica. De qualquer modo pode servir-se a ptria, provam-no alguns exemplos j
conhecidos. Acudam as outras, reclamam as primeiras. E nisto haver, no s uma
dedicao generosa, mas um dever sagrado;  desforrar, por um zelo unnime, a
falta de se ter cedido o passo s damas argentinas, a quem, alis, devemos votar
todos e todas uma eterna gratido.

A Semana Ilustrada j consagrou uma pgina 
corajosa mineira de que deram notcia as folhas da corte. Se as senhoras
brasileiras no so das ltimas a tomar parte no entusiasmo geral, a Semana
Ilustrada  dos primeiros jornais a manifest-lo, mimoseando os seus
leitores com os mais interessantes desenhos.

Agora, mais que nunca, apela-se para o patriotismo
de todos. A gravidade vai crescendo; as ltimas notcias da expedio dos
paraguaios provocaram um grito de geral indignao. Esperava-se ainda alguma
coisa daquela gente; podia contar-se com uma certa sombra de lealdade e de
humanidade. Os que mantinham esta iluso acham-se diante de uma realidade
cruel.

Se depois do espetculo das orelhas enfiadas numa
corda e expostas  galhofa dos garotos de Assuno, houver um pas no mundo que
simpatize com o Paraguai, no precisa mais nada  esse pas est fora da
civilizao.

A Europa que no conhece os negcios da Amrica,
anda quase sempre errada nas suas apreciaes e notcias. Os correspondentes dos
jornais europeus, em Assuno e Montevidu, estabelecem ali uma opinio
visivelmente parcial.  mais ou menos um eco da imprensa apaixonada destes
pases.

Essa opinio vai ser confirmada pela embaixada
oriental? Talvez; mas a embaixada, que se dizia ir pedir auxlio, parece que
apenas vai buscar refgio. H nada mais triste e imoral do que esta desero, na
hora da derrota? As ltimas notcias de Buenos Aires dizem que o chefe da
deputao recebeu cerca de quarenta contos de ajuda de custo.

Dizia-se que a embaixada ia bater  porta da
Frana; um artigo annimo do Jornal do Comrcio insinuou que no era 
Frana mas  Itlia que a embaixada ia recorrer. Os atos do ministro italiano em
Montevidu parecem confirmar esta suspeita.

Ora, a Itlia, em vez de intrometer-se nos negcios
alheios, tinha outra coisa a fazer muito mais sensata e til para si: era cuidar
de afirmar a sua existncia e desarmar as ltimas antipatias que ainda tem no
mundo.

Se   Frana que a embaixada vai recorrer, nutro
alguns receios, no pelo efeito do auxlio, que h de vir quando o asno j
estiver morto, mas pela questo do Mxico. No posso ser mais explcito. No
estado em que se acha a poltica internacional, o Brasil talvez no possa deixar
de reconhecer a monarquia mexicana. Mas uma coisa  reconhec-la, outra 
aplaudi-la. Ho de ver que se h de aplaudi-la.

Suponha-se que, em vez de ser o Mxico, fosse
invadido o Brasil e que no trono de D. Pedro II tomasse lugar o primeiro
praticante imperial da Europa:  os que aplaudissem aqui a invaso do Mxico,
haviam de gritar contra a invaso do Brasil; e todavia, a questo  a mesma; s
difere na situao geogrfica. Plaisante justice, diria Pascal, verit au de, erreur au
del!

Aguardemos, porm, a recepo da embaixada que j
aqui se espera h muitos dias.

No levantarei mo das coisas do mundo poltico,
sem dar os meus parabns ao Cruzeiro do Brasil, cuja alma naturalmente
nada agora de jbilo com a publicao da encclica de Pio IX.

Sinto no ter  mo o nmero de domingo, que ainda
no li, mas que h de estar impagvel, mais do que costuma.

No sei se tenho crdito no esprito do Cruzeiro
do Brasil; tenha ou no tenha, no guardarei para mim uma profecia que me
est a saltar da pena: Pio IX h de ser canonizado um dia.

Os papas, de certo tempo para c, entraram mais
raramente para a lista dos santos. Todos os primeiros pontfices, entretanto,
gozam dessa honra. Ser uma espcie de censura pstuma? No quero investigar
este ponto. Insisto, porm, na crena de que Pio IX h de receber a coroa dos
eleitos.  principalmente aos bispos de Roma que se aplicam estas palavras:
muitos sero os chamados e poucos os escolhidos.

Que o santo padre merece da parte dos fiis mais do
que respeito, adorao, isso  o que me parece incontestvel No meio dos perigos
que o cercam, tendo contra si as potncias, ameaado de perder os ltimos
pedaos de terra, o dbil velho no se assusta; toma friamente a pena e lana
contra o esprito moderno a mais peremptria condenao.  positivamente
arriscar a tiara.

No sei que faro os nossos bispos com a encclica.
A encclica  a condenao dos princpios fundamentais da nossa organizao
poltica. Quero crer que estendero um vu sobre esse documento: acredito
igualmente que as folhas de Pernambuco vo publicar brevemente um artigo de
monsenhor Pinto de Campos em oposio  encclica  a menos que monsenhor Pinto
de Campos no esteja to disposto a aceit-la, que desista para sempre de ser
deputado,  o que no me parece provvel.

Um brasileiro inventou o balo; era justo que outro
brasileiro achasse meio de regular a navegao aerosttica. Parece que se d o
caso, a julgar por uma notcia do Jornal do Comrcio. O Sr. Jos Serapio
dos Santos Silva descobriu o meio de dirigir o balo e explicou o seu sistema a
Sua Majestade. Ser realmente uma descoberta? Eu no quero pedir ao Sr. Serapio
os seus ttulos cientficos; o problema  difcil, mas um acaso podia favorecer
a soluo; o banho de Arquimedes e a ma de Newton a esto em prova disso.
Todavia o autor da descoberta no me querer mal se eu, de envolta com os meus
parabns, apresento um ponto de semelhana com S. Tom, e espero v-lo para
cr-lo.

Parece que a guerra no impedir a estao
lrica... sem subveno. Anuncia-se a prxima chegada de uma prima-dona
contratada para o Rio de Janeiro... Dizem que tem talento e boa voz; o
Correio Mercantil, anunciando o fato, acrescenta que a nova dama 
extremamente linda. O colega devia comear por a. A maior parte dos
apreciadores do canto italiano consideram a voz como ltimo merecimento. O
essencial  que a dama seja bonita.

At aqui nenhum cantor se benzeu com uma luta de
partidos igual  que houve entre a Lagrua e a Charton; nenhum viu ainda o seu
carro puxado por homens, como a Candiani. Dizem,  verdade, que Tamberlick causa
delrio na Europa, no s pela voz que Deus lhe deu, como pelas graas pessoais
que o mesmo Deus lhe no negou; mas eu devo prevenir aos leitores que os meus
irmos em sexo  no tomam parte nas ovaes de que  objeto o grande tenor, e
que essas ovaes esto longe das cenas ruidosas com que saudamos as
primas-donas.

Voltando  nova dama que se anuncia, acrescentarei
que, segundo uma folha de Lisboa, ela recusou contratos vantajosos s para vir
ao Rio de Janeiro. No  que o Rio lhe aparecesse ao esprito com o encanto do
Jardim das Hesprides,  viso que, alis, persegue muitos cantores e
cantarinas; mas  porque ela vem acompanhar sua me que se acha doente. Este
sentimento filial desarmar os desafeioados da sua voz e os amigos da sua
beleza,  duas classes igualmente perigosas para uma cantora.

No se sabe, ao certo, do pessoal que deve compor a
nova companhia. Palpita-me que h de ser to medocre como a que acabou. Mas,
sem subveno, no se podem trazer grandes artistas; se  um mal para os
diletantes,  um bem para os cofres pblicos; os diletantes no me querero mal
se, neste conflito, eu me pronuncio pelos cofres pblicos. Temos de pagar a
nossa glria, pagaremos depois o nosso prazer.

Os apreciadores da musa de Offenbach freqentam
agora o Alcazar, onde se canta Orfeu nos infernos, pera daquele
compositor. No ouvi a nova pea do Alcazar. O assunto dizem que  uma charge,
em que os deuses fazem rir  custa do burlesco. A msica  excelente, ao que se
afirma, como toda a msica do Offenbach. Quanto ao assunto, duvido que possa
fazer rir. No h muito tempo, um crtico francs, apreciando uma obra do mesmo
gnero, escreveu uma frase que  todo o meu juzo acerca desta: J'adore ce
qu'elle baffoue.

Segundo a potica dos leitores, no  lcito ao
escritor falar de si.  por isso que eu adio para outro lugar um comentrio que
deveria ter as ltimas palavras do perodo anterior.

O Ginsio representou domingo a Vida da
Boemia, de Th. Barrire e Henri Murger. Quem no conhece o excelente romance
de Henri Murger? Qual de ns deixou de l-lo, ao menos uma vez na vida?
Transplant-lo para o teatro era difcil. Em geral o romance no se d bem nas
tbuas da cena. Desde que a concepo foi vazada em um molde,  raro que ela
possa viver transportada para outro.

Falta  comdia de Barrire certo encanto que o
romance de Murger possui; mas  impossvel deixar de reconhecer-lhe o mesmo ar
vivo, alegre, original dos bomios do romance, o mesmo carter cmico e
sentimental. Sobra-lhe o interesse, no lhe faltam situaes. Somente fora para
desejar uma mudana de ttulo; ao romance cabe o ttulo da comdia:  Vida da
Boemia:  Cenas da vida de Boemia.

E essas cenas so bem apresentadas, bem conduzidas,
cheias de vida e de verdade. As lgrimas vm naturalmente aos olhos quando,
diante do cadver de Mimi, exclama Rodolfo:   minha mocidade, acabam de
matar-te!

No vi a comdia, li-a. Nada sei do desempenho:
irei v-la um dia destes e voltarei ao assunto na prxima revista.

Post-scriptum.  O Cruzeiro do
Brasil no diz uma
palavra da encclica. Tu quo-que, Brutus?

21 DE FEVEREIRO DE
1865.

Quinta-feira passada, s 6 horas e meia da tarde,
foi recebido no palcio de S. Cristvo o Sr. D. Pedro Escondon, embaixador do
Mxico.

S. Excia. veio notificar a Sua Majestade a elevao
de Maximiliano I ao trono do Mxico, e apresentar as suas credenciais de
ministro plenipotencirio daquele pas nesta corte.

Nada temos que ver com o discurso do embaixador
mexicano.  natural que S. Ex. ache no presente estado de coisas de seu pas uma
obra justa e duradoura. Sendo assim, no nos demoraremos em desfiar algumas
expresses do referido discurso; no indagaremos quais so os recprocos
interesses entre os dois imprios, nem criticaremos a identificao do governo
existente entre os dois pases.

O que merece a ateno no ato da recepo da
embaixada  a resposta do soberano do Brasil.

Como essa resposta no podia deixar de ter
importncia poltica, e neste carter caa debaixo da apreciao pblica,
procuramo-la com alvoroo, mesmo antes de ler o discurso do embaixador, o que S.
Excia. nos perdoar.

Que , pois, essa resposta? Oito linhas simples,
discretas, reservadas. No significa um ataque, mas tambm no  um aplauso. 
um agradecimento ao soberano do Mxico, e um voto para que se mantenham entre os
dois pases amigveis relaes. Aceita-se o fato, resguarda-se a apreciao do
direito. As potncias fracas, neste caso, imitam as potncias fortes: suportam
mais esta travessura do tutu das Tulherias.

Semelhante resposta deve e h de receber os
aplausos de todo o pas. Mas, se fosse possvel que ela produzisse uma impresso
m, ou que o esprito do soberano fosse tomado de arrependimento depois de
proferi-la, a esto as ltimas correspondncias do Mxico para confirmar o pas
e o soberano nas suas disposies anteriores.

Fala-se no Mxico, dizem as correspondncias deste
pas publicadas nos jornais da Europa, em que o imperador Maximiliano I ia ceder
 Frana a provncia de Sonora como penhor de dvida.

Querem mais claro?

Francamente, fatiga-nos insistir nesta questo
mexicana, que j passou para a ordem dos fatos consumados; mas, quando as
concluses da invaso francesa vo aparecendo to descaradamente,  impossvel
deixar de fazer, ao menos, um ligeiro protesto.

Dissemos que a resposta do imperador h de produzir
o melhor efeito no esprito pblico; acrescentaremos que no o ser em virtude
do princpio da poltica americana, principio vasto e elevado, mas ainda assim,
menos vasto e elevado que o principio da justia universal.   justia
universal que repugnam essas exploraes em nome da fora. A mesma latitude
moral cobre a provncia de Sonora e o ducado de Sleswig.

Sabemos que estas linhas vo ser lidas por um
distinto amigo nosso, que olha as coisas por um modo diverso, e que, sobretudo,
toma muito a peito a defesa pessoal do imperador Maximiliano. Folgamos em
mencionar de passagem que as intenes daquele prncipe nunca foram suspeitas
para ns. Cremos que ele sinceramente deseja fazer um governo liberal e plantar
uma era de prosperidade no Mxico. A modificao do gabinete mexicano e o
rompimento com o nncio do papa so os recentes sintomas da disposio liberal
de Maximiliano. Alm disso, o nosso amigo afirma com razo que o novo imperador,
moo, ilustrado, liberal, nutre a legtima ambio de guiar uma nao enrgica e
robusta a uma posio digna de inveja. A origem espanhola do Mxico, acrescenta
o nosso amigo, influiu poderosamente no esprito de Maximiliano, que nutre
decidida simpatia pela raa do Cid, cuja lngua fala admiravelmente.

Estamos longe de contestar nada disso; mas
precisamos acaso acrescentar uma verdade comezinha, a saber, que as melhores
intenes deste mundo e os esforos mais sinceros no do a menor parcela de
virtude quilo que teve origem do erro, nem transformam a natureza do fato
consumado?

Apesar da importncia poltica que teve a recepo
do embaixador mexicano, nem esse fato, nem a eleio de eleitores para senador,
ocupam neste momento a ateno pblica. Todos os espritos esto voltados para o
Sul. A guerra  o fato que trabalha em todas as cabeas, que provoca todas as
dedicaes, que desperta todos os sentimentos nacionais.

De cada ponto do imprio surge um grito, levanta-se
um brao, estende-se uma oferta. A educao dada  gerao atual no era de
certo prpria para inspirar os grandes movimentos, mas h no povo brasileiro um
sentimento ntimo que resiste a todos os contratempos e vive mesmo atravs do
sono de muitos anos. Graas a essa virtude mxima do povo, no faltaro
elementos para a vitria, nem escassearo braos para lavar a afronta do
pas.

Neste movimento geral  agradvel ver o modo
espontneo por que os estrangeiros fraternizam conosco. Sem referir as diversas
manifestaes efetuadas nas provncias por muitos desses hspedes generosos,
citaremos as duas que acabam de ter lugar nesta corte, por parte do comrcio
portugus e do comrcio alemo, que se renem para uma coleta em favor do
Estado.

No se devia esperar menos de to amigos
povos.

 porque o esprito pblico est exclusivamente
dominado por este sentimento de nobre entusiasmo, que nos admirou o anncio de
bailes mascarados; e realmente, se no fora to impertinente anncio nem
sabamos que o carnaval era domingo.

No queremos pregar o terror pblico, mas l nos
parece que os empresrios de semelhantes bailes ho de perder o tempo e o
dinheiro  e queles que ainda assim acudirem a esses divertimentos, no
duvidamos aconselhar uma aplicao melhor de suas quantias:   d-las para as
necessidades do Estado ou para as famlias dos bravos que morrerem.

Ho de perdoar-nos se isto  um erro.

Antes de dizer duas palavras da exposio das
Belas-Artes  outro fato que passou despercebido  consagraremos duas linhas de
louvor  cmara municipal da corte.

Os leitores ho de lembrar-se que, por ocasio da
morte de Gonalves Dias, o Dirio do Rio indicou uma idia  cmara municipal:
a de dar  rua dos Latoeiros o nome do eminente poeta lrico, que ali morou
durante muitos anos. Era uma homenagem  memria do poeta.

A cmara municipal atendeu a este conselho. O Sr.
Dr. Dias da Cruz, um dos vereadores mais distintos, props  cmara a mudana do
nome da rua dos Latoeiros e a Cmara adotou a proposta sem discusso.

Folgamos de ver a municipalidade fluminense tomar a
iniciativa de tais reformas; mas desejamos que ela no se detenha
nesta.

H outras ruas cujos nomes, to ridculos e
sensabores, como o da rua dos Latoeiros, carecem de reforma igual. As ruas do
Sabo, Fogo, Violas, Pescadores e outras muitas podiam trocar os seus nomes por
outros que recordassem uma individualidade histrica ou um feito nacional, mesmo
independente da circunstncia especial que se d com a ex-rua dos
Latoeiros.

 isso que se faz atualmente em Paris, graas 
iniciativa do Sr. Hussmann. Quase todos os poetas, prosadores, dramaturgos,
estadistas clebres da Frana deram os seus nomes s ruas da capital do
mundo.

As boas disposies da cmara devem ser
aproveitadas. O Sr. vereador Dias da Cruz parece-nos, pela iniciativa que tomou,
o mais prprio para redigir um projeto neste sentido, e completo em todas as
suas partes, que a cmara no teria dvida em aprovar.

Entretanto, demos desde j os nossos emboras 
cmara municipal, que, ao inverso das anteriores, saiu do programa ramerrameiro
e tacanho, e no hesitou em fazer uma homenagem a um grande poeta.

Vamos agora  exposio da Academia de
Belas-Artes.

Foi domingo que se inaugurou essa exposio, com a
presena de Suas Majestades e o cerimonial do costume.

Parece-nos que a exposio deste ano  menos
copiosa que a dos anos anteriores, no s no nmero total dos objetos expostos,
como no nmero dos trabalhos que merecem uma distino. No indagaremos a causa
de semelhante fato, que no  de certo a guerra com o estrangeiro. A verdade 
que uma grande parte dos objetos expostos pertencem a expositores externos e
alguns estrangeiros; pouca coisa h dos alunos da academia, pela razo simples
de que o nmero dos alunos  muito escasso.

Do pouco que h dos alunos distinguem-se, todavia,
alguns trabalhos de desenho, escultura e ornatos. Nesta parte referimo-nos, no
s aos alunos que cursam as aulas da academia, como aos que se acham em Paris,
como pensionistas.

Citaremos alguns quadros dos Srs. Motta, Victor e
Arsnio; citaremos a Carioca do Sr. Pedro Amrico, que foi ultimamente objeto de
uma discusso renhida, em que os gritos de - sublime! respondiam aos gritos de 
detestvel!  mas que no  nem detestvel, nem sublime. O meio termo no  uma
posio cmoda, mas ns a tomamos afoitamente, reconhecendo na Carioca
uma bela prova de um talento gracioso e correto, mas no limpa de alguns
defeitos que lhe foram apontados.

Do Sr. Carlos Luiz do Nascimento existem alguns
painis restaurados, um de Lesueur, outro de Campora, e trs de autor
desconhecido. O Sr. Nascimento tem um pincel especial e inteligente para este
gnero de trabalhos.

Alguns quadros do Sr. Vinet merecem a ateno dos
visitantes entendidos, especialmente o Rancho e as Pedras do Ribeiro
Vermelho.

J conhecido por excelentes trabalhos de escultura,
o Sr. Chves Pinheiro apresentou o modelo de um cavalo para esttua eqestre,
que  uma das obras mais corretamente acabadas da presente exposio.

Citaremos ainda na classe da escultura os
excelentes bustos do Sr. Formili e as medalhas do Sr. Christiano
Guster.

O Sr. Costa Guimares exps dois trabalhos de
miniatura, a Melancolia, de Landele, e um retrato da Pompadour. Ambas as
miniaturas so feitas sobre marfim e do mais perfeito acabado. Todavia no
hesitamos em preferir a Melancolia. O Sr. Costa Guimares  um dos
melhores artistas que tm sado da nossa academia.

Os trabalhos fotogrficos do Sr. Pacheco
avantajam-se a todos por uma rara perfeio que, no dizer de um velho artista e
poeta, igualam os melhores da Europa.

Mas no so s essas obras que igualam as melhores
da Europa; os trabalhos do estabelecimento de tica do Sr. Jos Maria dos Reis
chamam a ateno dos visitantes na sala que fica em frente  porta do edifcio.
Uma rvore feita de prata e coberta por uma redoma de vidro, sustenta nas pontas
de suas palmas cerca de sessenta lunetas, culos e pince-nez, do mais
perfeito lavor. Cremos que na Europa no se fabrica com mais perfeio. Acresce
que os objetos expostos so simplesmente objetos de consumo, tirados do trabalho
regular e comum do estabelecimento. Quisramos dar aqui a relao detalhada dos
diferentes objetos expostos pelo Sr. Reis, mas falta-nos espao. Cumpre dizer
que a rvore de prata, em que pendem to belos frutos,  igualmente fabricada no
mesmo estabelecimento.

Citaremos por ltimo a porta principal da igreja de
S. Francisco de Paula, pelo Sr. A. de Pdua e Castro, e um relgio do Sr.
Hentiot. A primeira, sobretudo,  de um primoroso trabalho.

Tal  o balano da exposio.

Sem sair do terreno da arte, concluiremos o
folhetim, mencionando o concerto dado pelo Sr. Bonetti, no teatro de S.
Janurio, sbado passado. O Sr. Bonetti  um artista de talento, e de uma
modstia que ainda mais lho reala. Cantou nessa noite a Sra. Isabela Alba,
recebendo mui merecidos aplausos. A orquestra, dirigida pelo distinto professor
Bensanzoni, era excelente.

7 DE MARO DE
1865.

Os trs ltimos dias da semana passada foram de
festa para a capital do imprio. Festejou-se a capitulao de Montevidu. O
entusiasmo da populao foi sincero e caloroso. Mas no nos iludimos sobre o
carter da festa desses trs dias: foi a festa da paz.

Uma notcia inexata, afixada na praa do comrcio,
e a presena do bravo comandante do Recife, Mariz e Barros, deram os primeiros
impulsos. Tarde se reconheceu que o convnio de paz no atendera, nem para a
honra, nem para os interesses do Brasil; mas a manifestao popular no cessou.
 por isso que dizemos que o povo satisfez os seus instintos humanitrios,
aplaudindo a paz sem sangue, deixando a outros o cuidado de ventilar a questo
de mais alcance.

No cabe nos limites do folhetim a apreciao do
convnio de 20 de Fevereiro:  matria exclusiva das colunas editoriais. A
opinio do folhetim acerca desse documento no pode ser duvidosa. Admira-nos
mesmo que no haja a este respeito s uma opinio, e que nem todos julguem, 
uma, que o convnio de paz no atendeu nem para os direitos, nem para a
dignidade do imprio. Esse documento seria, alm disso, uma sepultura poltica,
se neste pas houvesse uma rocha Tarpia ao lado do Capitlio. Quem quer que
seja o culpado, essa devia ser a pena.

De todas as opinies contrrias, uma apenas  digna
de respeito:  a do protesto filial que ontem acudiu s colunas do Jornal do
Comrcio. Qualquer que seja a energia e o azedume desse protesto, ele
representa o justo respeito e natural admirao do filho pelo pai. Mas, sem
privar a palavra filial da ateno que ela merece, fica livre a todos os homens
a apreciao franca e sisuda do triste desenlace da questo oriental.

Dissemos que o movimento popular teve por causa
primeira a notcia inexata da praa do comrcio, de ter havido uma capitulao
sem condies. Este fato  grave. Quem foi o culpado dessa notcia? Como  que,
em to graves assuntos, se empalma deste modo a manifestao pblica? Examine o
caso quem tem o direito e o dever de faz-lo, e previnam-se deste modo to
graves abusos para o futuro.

Uma das conseqncias do convnio de 20 de
Fevereiro seria esfriar o ardor e o entusiasmo com que o pas est pagando o
tributo de sangue, se fosse necessrio ao povo brasileiro outro incentivo mais
do que o dever. E contudo, o povo deve entristecer-se, vendo que a diplomacia
inutiliza os seus esforos, e que o papel e a pena, armas fceis de brandir,
desfazem a obra produzida com o fuzil e a espada.

Ainda no domingo l se foi para o Sul um
contingente de voluntrios. Foi uma festa igual  do domingo anterior. Aqueles
bravos marcham para o campo de batalha como para uma festa. Eles sentem que
obedecem  lei da honra; no os inspira uma vaidade pueril ou uma ambio mal
provada.  a imagem da ptria que os atrai e os move.

J tivemos ocasio de fazer um reparo, nestas
colunas, acerca da ignorncia e da m f dos jornalistas europeus a respeito das
nossas coisas. No fomos dos primeiros: esta queixa  velha. Nem seremos dos
ltimos, porque muito tempo h de correr ainda, antes que a imprensa europia
empregue nos negcios americanos o critrio e a ilustrao com que trata os
negcios do velho continente.

Os jornais trazidos pelo ltimo paquete oferecem
uma nova pgina de m f e de ignorncia. Dos poucos que lemos pode-se avaliar
da maioria deles, que  sempre antiptica ao desenvolvimento do
Brasil.

A Presse, num artigo, que traz a assinatura
do Sr. E. Chatard, acusa-nos de ter pretextado reclamaes para conquistar a
repblica Uruguaia; louva o Paraguai pelas suas tendncias de equilbrios; conta
que ele apreendeu os nossos navios; que o Brasil, vendo que tinha ido muito
longe, retirou as suas tropas do territrio oriental, e limitou-se a bloquear
dois pequenos portos; em Paysand, segundo o Sr. Chatard, os nossos soldados
saquearam as casas.

O Sr. Chatard conclui o seu artigo, que ocupa uma
coluna da folha, com as seguintes memorveis palavras:

 estranho ver que, quando os Estados mais
poderosos da Europa, a Frana e a Inglaterra, aderem a uma poltica de no
interveno...

Se o Sr. Chatard soubesse uma polegada dos negcios
desta parte da Amrica, queremos crer que outra seria a sua linguagem.
Preferimos cr-lo ignorante a cr-lo de m f, posto que ambas as coisas se
possam dar,e se do em geral, quando se trata da poltica brasileira.

Aqui vai, por exemplo, um caso de m f.  da
Indpendance Belge.

Para responder a alguns jornais do Rio de Janeiro e
aos correspondentes de certos jornais europeus, que disseram ter o governo do
Paraguai dificultado ao nosso ministro em Assuno os meios de sair da
repblica, a folha belga publica dois documentos que, segundo ela, confirmam a
assero do seu correspondente em Buenos Aires, que  perfeitamente
exata.

Que documentos so esses? Uma nota do Sr. Washburn,
ministro americano em Assuno, e outra nota do Sr. Jos Bergs, ministro das
relaes exteriores. Na primeira, o ministro americano agradece a resoluo do
governo paraguaio, que ps  disposio do nosso ministro um vapor e os
passaportes para a legao, e pede um novo passaporte para o Sr. Muniz Fiza; na
segunda, o ministro paraguaio remete o passaporte pedido.

Mas, o que a Indpendance Belge empalmou,
com evidente m f, foi toda a correspondncia anteriormente trocada entre o
ministro americano e o ministro paraguaio, correspondncia que, longe de
confirmar a assero do exato correspondente de Buenos Aires, confirma a
assero da imprensa fluminense e a dos correspondentes de certos jornais
europeus. Como se sabe, as dificuldades encontradas pelo Sr. Viana de Lima
levaram-no a pedir a interveno graciosa do Sr. Washburn. Foi s depois de uma
longa correspondncia, que ocupou uma pgina quase da Tribuna de Buenos
Aires, que o Sr. Jos Bergs resolveu facilitar a sada do ministro
brasileiro.

As folhas europias que tanto so antipticas, na
ignorncia dos negcios da Amrica, so sempre induzidas em erro pelas narraes
infiis dos seus correspondentes.

O tal correspondente de Buenos Aires, a quem se
refere a Indpendance Belge,  dos mais divertidos. A redao, apreciando
o seu correspondente, diz que ele se ressente do esprito hostil de Buenos Aires
contra o Brasil, mas que, apesar de tudo, a poltica do Brasil, se no tem um
pensamento de ambio pouco justificvel, parece difcil de explicar-se. S se
compreende a interveno do Brasil na guerra civil, pelo sonho de anexar o
Uruguai, e nesse caso o presidente Lopez obra com esprito poltico, energia e
resoluo.

Esta  a opinio da folha, j manifestada mais de
uma vez. Na opinio do correspondente, a poltica do Brasil  ambiciosa e o
imprio despreza o direito das gentes. A narrao dos atos de pirataria
praticados pelo governo paraguaio  feita com as cores prprias a tornar o
tiranete digno de admirao universal. Conta, por exemplo, a apreenso dos
fundos que levava o vapor Olinda, mas no acrescenta o procedimento que em
seguida teve o Sr. Francisco Solano. O presidente do Paraguai, pensa o
correspondente,  a providncia do Rio da Prata.

Mas, se todas essas inexatides e apreciaes
falsas so condenveis em jornais importantes como a Presse e a
Indpendance Belge, muito mais o so num jornal que se decora com a
denominao de Jornal Internacional, e que, por este modo, se impe um
conhecimento perfeito dos negcios do mundo.

Tal  o Nord. Os correspondentes desta folha
so do mesmo gnero que os das outras.  intil resumir as asseres e as
opinies dele: so as mesmas. Mudam as palavras,  certo: ali  poltica
invasora do Brasil, aqui  o Brasil que tira a mscara. L como aqui, os
soldados brasileiros saquearam Paysand; aqui como l, Leandro Gomes  um heri.
As barbaridades, as violncias, os roubos, praticados pelos heris daquela
medida, tanto orientais como paraguaios, ficam no escuro. As nossas legtimas
queixas, os justos motivos que nos levaram  guerra, so substitudos por um
desejo de anexar o Uruguai, por uma poltica ambiciosa, por uma interveno mal
compreendida. Voil comme on crit l'histoire.

Naturalmente os nossos leitores perguntaro o que
fazem os nossos agentes na Europa, que no trazem  luz da imprensa a narrao
fiel dos acontecimentos, e no destroem a opinio acerca dos honrosos e
imprescindveis motivos da guerra contra a repblica do Uruguai. Tambm ns
fazemos essa pergunta, e tanto ns, como os leitores, ficamos sem
resposta.

Voltemos um pouco o rosto para as coisas
literrias.

A imprensa do Maranho deu-nos uma boa notcia, que
alis devera ter sido conhecida antes nesta corte, onde se deu o fato.  a de
terem aparecido os manuscritos dos dramas de Gonalves Dias, Beatriz de Cenci
e Boabdil. Esses manuscritos apareceram de um modo singular. A viva do
poeta fizera um anncio pedindo a entrega dos manuscritos que existissem nas
mos de alguns particulares. Logo no dia seguinte apareceu-lhe em casa um preto
que entregou os dramas de que j falamos e desapareceu.

No se encontraram somente os dramas na caixa
entregue pelo preto; encontraram-se tambm varias poesias, e alguns trabalhos
sobre instruo pblica.

Deus queira que atrs desses apaream os outros.
No  de crer que, se algum os possui, queira conserv-los, fazendo assim um
profundo desfalque s letras brasileiras. E uma vez reunidos todos, ou perdidas
as esperanas de encontrar o resto, faz-se necessria uma nova e completa edio
das obras do grande poeta.

Temos dois fatos teatrais: a estria do ator
Furtado Coelho no Ginsio, e a primeira representao da Bertha a
flamenga, em S. Janurio. S nos ocuparemos com o segundo; iremos depois ao
Ginsio habilitar-nos para o apreciar primeiro, verificar os progressos do
artista que ali iniciou a sua carreira.

Bertha a flamenga foi uma nova ocasio para que a Sra. Emlia das
Neves colhesse justos aplausos. Esses aplausos s se fizeram ouvir no fim do 3.
e no 4. e 5. atos; nos dois primeiros no havia lugar para as brilhantes
qualidades da artista; mas quando apareceu a ocasio, mostrou-se ela como nas
suas boas noites.

O drama  interessante, mesmo apesar de algumas
ficelles mal escondidas. Promete manter-se em cena. O resto do pessoal
que acompanha a Sra. Emlia das Neves no  no todo irrepreensvel, mas tem em
grande parte direito  meno dos seus conscienciosos esforos.

Guardamos para a ltima coluna a notcia de um
livrinho de versos que acabamos de receber da Paraba do Norte. Tem por ttulo
Mosaico, e por autor Joaquim Serra, jovem maranhense, de cujo talento j
temos apresentado aos leitores irrecusveis provas.

O livro de um poeta digno deste nome  sempre
credor da nossa ateno; este, porm, tem um duplo direito; alm do nome do
autor tem o nosso nome, a quem o autor dedica a sua obra. Somos obrigados por um
sentimento de gratido a mencionar o fato nestas colunas. Cremos que este caso
faz exceo na potica dos leitores.

A lembrana do autor do Mosaico  para ns
tanto mais honrosa e agradvel ao corao, quanto resulta de espontnea
simpatia, sem que nunca trocssemos um aperto de mo.  por isso que o poeta
quis dar-me um apertado abrao, atravs do mar que nos separou sempre, e que no
nos servir de obstculo um dia.

O Mosaico compe-se de tradues de Vigny,
Victor Hugo, Musset, Laprade, Mickiewicz, Mry e muitos outros poetas, que
Joaquim Serra estudou com perfeita madureza e reproduziu com brilhante
fidelidade.

Transcreveremos em outra ocasio algumas peas
deste interessante volume.

De novo agradecemos ao jovem colega e amigo a prova
de simpatia que acaba de nos manifestar, e daqui lhe repetimos a palavra dos
admiradores do seu talento: avante!

12 DE MARO DE
1865.

Devemos comear esta revista por uma
reparao.

Apesar de mencionada entre as nossas notas,
esqueceu-nos dar na ltima revista uma breve resposta  Sra. D. Olympia da Costa
Gonalves Dias.

A viva do poeta, tomando em considerao algumas
linhas que escrevemos acerca do achado dos dramas Beatriz di Cenci e Boabdil,
respondeu-nos por esta folha, retificando alguns enganos que nos tinham
escapado.

Um deles era a publicao do fato, que dissemos ter
sido feita no Maranho, antes de ter sido feito no Rio de Janeiro. A Sra.
Gonalves Dias lembra-nos que a primeira notcia foi dada nos jornais do Rio a 5
de Fevereiro. Confessamos que nos escapou a notcia, e aceitamos cordialmente a
retificao.

O segundo engano foi quanto ao dia em que foram
entregues os manuscritos. Dissemos que fora no dia seguinte ao do primeiro
anncio, quando essa entrega s se efetuou cinco dias depois. Neste ponto, a
culpa no  nossa; fomos guiados pela notcia do Maranho.

Quanto ao agradecimento que a viva do poeta nos d
pelos votos que fizemos pelo aparecimento de todos os manuscritos extraviados,
no podemos aceit-los, seno como pura expresso de delicadeza: esses votos
constituem um dever de todo aquele filho do pas em que tamanho poeta floresceu
e viver.

Saldadas estas contas, entremos nos assuntos da
semana.

No fatigaremos mais os leitores com o convnio da
paz.  uma questo adiada; perdeu o calor dos primeiros dias. Depois de duas
semanas de imenso estrpito, de confuso extrema, o convnio de paz foi entrando
na classe dos assuntos discutidos; e hoje raro aparece um artigo nas colunas a
pedido dos jornais.

Assistindo  discusso do convnio, que comeou
devagar, atingiu ao maior grau de calor, e foi depois amortecendo, a pouco e
pouco, mais de uma vez nos lembramos daquela formosa oriental de Victor Hugo,
Os djins. Apostamos que os leitores, no s se esto recordando do
assunto da poesia, como at da forma mtrica, que varia conforme se aproximam os
djins, e cresce desde o verso de duas slabas,

Murs, vile
Et port,

at o verso de dez slabas, indo depois a
decrescer, a decrescer, at chegar  ltima estrofe. Hoje pode-se dizer do
convnio, como dos djins orientais:

Tout passe,
Tout fuit,

Acabou-se o debate a pedido, o debate annimo, o
debate sem significao, sem alcance, sem efeito. O governo encerrou-se no mais
profundo silncio; os contendores, depois de esgotada a matria, deram por finda
a controvrsia.

Et le combat finit, faute de
combattants.

Imitemos aqueles heris e risquemos o assunto das
nossas notas semanais. Todavia, no podemos deixar de referir um ato com relao
 capitulao de Montevidu.

No sabemos se o leitor cr ou no cr no
espiritualismo. Pela nossa parte, nunca prestamos f a essas supersties,
apesar de conhecermos algumas pessoas para quem o espiritualismo  uma verdade
incontestvel e uma cincia adquirida.

Uma dessas pessoas, muito antes da notcia do
convnio, remeteu-nos uma folha de papel, contendo o resultado de duas sesses
de espiritualismo, nas quais algumas profecias foram feitas relativamente 
guerra do Sul.

Uma dessas profecias dizia assim:

Montevidu comeou a ser bombardeada no dia 9 do
corrente ms; no dia 14 ainda se sustentava, apesar de horrveis estragos
sofridos; mas dentro de poucos dias se render.

Da a dias a notcia do clebre convnio da paz,
com o qual s se bombardeou a dignidade nacional.

Que fica sendo o espiritualismo depois deste
fato?

De ordinrio devem recear-se os profetas e as
profecias. Confessamos, porm, que se as profecias nos fizeram rir, diante dos
acontecimentos posteriores, no nos rimos ns dos profetas, e eis aqui a
razo.

A maior parte dos acontecimentos anunciados pelo
espiritualismo no eram predies, eram indicaes. Quase todos eram a
conseqncia provvel dos fatos conhecidos. O bombardeamento de Montevidu
estava no caso. A atitude da praa, a tenacidade dos chefes, a surdez do governo
oriental, tudo fazia crer no ataque, nada fazia crer no convnio. Era induo
lgica.

Mas estar neste caso a seguinte profecia da mesma
sesso: Caxias vai para o Paraguai?  Limitamo-nos a este ponto de
interrogao.

Partiu domingo um novo contingente de tropa para o
Sul.  esse um acontecimento que se vai repetindo todas as semanas, sempre no
meio do maior entusiasmo popular.  belo ver o aplauso unnime, o ardor geral, o
sentimento de todos, quando se trata de cumprir um dos mais santos deveres do
homem. Folgamos em dize-lo, a nao foi alm do governo, o povo foi alm dos
homens de Estado.

Duas palavras agora para um fato
pessoal.

Vieram dizer-nos que vrios reverendos padres se
tinham irritado com algumas linhas da nossa ltima revista. Os leitores ho de
lembrar-se do que ento dissemos, a propsito dos nossos pregadores e da
mediocridade do clero brasileiro.

O fato do jovem Bossuet, citado por ns sem
declarao nem do nome, nem do ano, nem do templo, tomou-o para si um dos nossos
sensores, que, apesar da caridade evanglica de que deu exemplo o Divino Mestre,
se exprimiu a nosso respeito com algumas palavras dissonantes.

Quoi! vous tes devot et vous vous
emportez!

Declaremos, porm, que, nas observaes que ento
fizemos, no houve nunca inteno de ofensa pessoal, porque  essa a norma de
todo aquele que sabe colocar-se no terreno da lealdade. Referimos o fato,
omitindo expressamente a personalidade: contamos o que era de contar; exprimimos
a nossa opinio, e embora vissemos a ser amigo do sacerdote em questo, se
acaso ele fosse o mesmo que naquela noite, continuaramos a dizer que ele era um
excelente homem e um mau orador.

Fica assim satisfeita a nossa conscincia, e
respeitada a dignidade do sacerdote. Que Sua Reverendssima faa o mesmo, e
ficaremos quites.

S temos uma novidade no captulo dos teatros. O
Sr. Gomes Cardim, maestro portugus, h longo tempo residente no Rio Grande,
chegou ultimamente a esta corte, para executar uma composio musical,
denominada Batalha de Paysand.

No dia 18 teve lugar essa execuo no teatro de S.
Janurio, com a presena da famlia imperial, e diante de um numeroso
concurso.

A Batalh de Paysand foi aplaudida com
muito entusiasmo e muita justia.  uma composio enrgica, viva, original, bem
inspirada, bem concebida e bem executada. Uma grande orquestra, ou antes uma
trplice orquestra foi dirigida com muita maestria pelo prprio autor. O assunto
e o ttulo da composio entraram por muito no movimento estrepitoso dos
espectadores que  uma se levantaram, no meio de vivas ao Imperador e ao
Brasil.

Felicitemos o Sr. Gomes Cardim, cujo talento tem
direito aos aplausos, e lhe impe o dever de no abandonar a bela arte a que se
dedicou.

Passemos agora a um assunto de poltica. Trata-se
do Mxico.

Recebemos uma carta que nos apressamos a
transcrever nestas colunas, dando-lhe em seguida a resposta
conveniente:

Ei-la:

AO ILUSTRE REDATOR DO AO ACASO.

CARTA 1.

Rio de Janeiro, 12 de Maro de 1865.

Meu caro amigo.  Na Revista da Semana do dia 21
de Fevereiro prximo passado, sob a epgrafe supra mencionada, vos dignastes de
fazer aluso a este vosso reconhecido amigo, dizendo:

Sabemos que estas linhas vo ser lidas por um
amigo nosso, que olha as coisas por um modo diverso, e que, sobretudo, toma
muito a peito a defesa pessoal do imperador Maximiliano. Folgamos em mencionar
de passagem que as intenes daquele prncipe nunca foram suspeitas para ns.
Cremos que ele sinceramente deseja fazer um governo liberal e plantar uma era de
prosperidade no Mxico.

 A modificao do gabinete mexicano e o
rompimento com o nncio do papa, so os recentes sintomas das disposies
liberais de Maximiliano. Alm disso, o nosso amigo afirma com razo que o novo
imperador, moo, ilustrado, liberal, nutre a legtima ambio de guiar uma nao
enrgica e robusta a uma posio digna de inveja. A origem espanhola do Mxico,
acrescenta o nosso amigo, influiu poderosamente no esprito de Maximiliano, que
nutre decidida simpatia pela raa do Cid, cuja lngua fala
admiravelmente.

Estamos longe de contestar nada disto; mas
precisamos acaso acrescentar uma verdade comezinha, a saber, que as melhores
intenes deste mundo e os esforos mais sinceros no do a menor parcela de
virtude quilo que teve origem no erro, nem transformam a natureza do fato
consumado?.

Para responder dignamente s proposies por vs
emitidas, tanto nesta revista como em outras ocasies pblicas e de intimidade,
relevar-me-eis que vos escreva algumas cartas, nas quais tratarei de ser breve,
discreto e verdadeiro. Esto brevis et placebis.

Compenetrado da vossa vontade, desnecessrio me
parece repetir-vos que, sobretudo, sou americano e, depois de tudo, americano:
porque acredito que a excelncia das instituies, como nota o Sr. Escandon,
no depende do hemisfrio nem da latitude em que foram adotadas, seno da
ndole, do carter, da educao e das convices dos homens que formam as
naes.

Antes, porm, de entrar em matria, ser-me-
lcito dizer duas palavras sobre as frases sublinhadas da anlise rpida que
fizestes do discurso pronunciado pelo Exmo. Sr. D. Pedro Escandon, enviado
extraordinrio e ministro plenipotencirio de S. M. o imperador, Maximiliano I,
no ato de apresentar as suas credenciais a S. M. o imperador, o Sr. D. Pedro II,
notificando ao mesmo augusto senhor a elevao ao trono mexicano do seu
monarca.

Eis aqui o trecho a que quero responder antes de
elucidar a tese principal das minhas cartas:

Nada temos que ver, dizeis, com o
discurso do embaixador mexicano.  natural que S. Excia. ache no presente
estado de coisas de seu pas uma obra justa e duradoura. Sendo assim, no nos
demoraremos em desfiar algumas expresses do referido discurso; no indagaremos
quais so os recprocos interesses entre os dois imprios, nem criticaremos a
identificao do governo existente entre os dois pases.

 preciso que nos entendamos, para que as minhas
futuras cartas sejam recebidas por vs com a benevolncia com que a vossa
ilustrao costuma aceitar as opinies alheias, baseadas na convico, na
verdade e na justia.

Ignoro a impresso que as vossas palavras havero
produzido no esprito do alto funcionrio mexicano, que deve naturalmente t-las
lido; mas posso glosar  se de glosa carecem as suas expresses claras,
terminantes e lgicas  o texto de seu discurso.

No quereis indagar quais so os recprocos
interesses entre os dois imprios; e eu tomo a liberdade de chamar a vossa
ilustrada ateno para as palavras do diplomata mexicano, e ouso perguntar-vos
se era necessrio esmerilhar quais so ou podem ser os recprocos interesses
entre os dois imprios.

Alm disso,  diz S. Excia. o Sr. Escandon no
supra mencionado discurso,  para que os vnculos da amizade e dos recprocos
interesses, que devem unir ambos os imprios, sejam to estreitos e sinceros
como os que felizmente ligam os das duas famlias reinantes, etc..

 Notai que o distinto diplomata mexicano no
diz tem, seno que devem unir no futuro; porque bem sabia eles que acabava de
ser acreditado na corte do Brasil; que a distncia, que separa os dois imprios,
 grande; que no existiram at agora as mnimas relaes entre os dois povos;
mas no deixava de enxergar para o porvir que esses interesses podem e ho de
chegar a ser mtuos, poltica e comercialmente falando; e deseja, para esse
tempo, que os vnculos de amizade e recprocos interesses, entre ambos os
imprios, sejam to estreitos e sinceros como os que felizmente ligam os das
duas famlias reinantes.

A essa delicada e americana frase, dita com toda a
uno de amizade mais sincera, no deveis vs, meu caro e ilustrado redator da
Semana, responder no querendo indagar quais so os recprocos interesses
entre os dois imprios.

Eu prometo fazer-vos ver nesta srie de cartas, 
que me concedestes a licena de dirigir-vos,  que esses recprocos interesses
entre os dois imprios podero ser com o correr dos tempos mais transcendentais
e valiosos, em poltica e comrcio, do que parece ao primeiro lance de
olhos.

Relevai-me ainda que faa uma simples observao
sobre a frase - nem criticaremos a identificao do governo existente entre os
dois pases.

Como! E acreditais que pode merecer uma censura ou
crtica  identificao em origem, raa, crena, o governo dos dois
povos?

No so por ventura os dois pases uma monarquia
constitucional, um governo monrquico moderado, dois povos que proclamaram este
sistema  arco-ris das idias de ordem, autoridade, liberdade e dignidade
nacional? No  o seu estado poltico presente o resultado das suas prprias
convices?

Enxergo a vossa resposta, entrevejo as vossas
objees, estudei j os vossos argumentos em perspectiva, ponderei a sua fora e
estou disposto a encetar esta melindrosa discusso.

Vs dizeis,  fazendo referncia  resposta de S.
M. o imperador do Brasil, ao enviado extraordinrio e ministro plenipotencirio
de S. M. o imperador do Mxico, - que as potncias fracas, neste caso, imitam as
potncias fortes: suportam mais esta travessura do tut das
Tulherias.

Perdoai, se eu no admito este mot heureux de
circonstance.

O povo mexicano no recebeu o seu monarca atual,
como uma imposio de Napoleo III.

Para esclarecer esta questo, so acanhados os
limites da presente carta. Dignai-vos de esperar ainda alguns dias, para eu
poder manifestar-vos que a monarquia mexicana  o resultado da convico, da
amargosa experincia, da deduo lgica dos fatos, da vontade refletida de um
povo enrgico e robusto que, como diz o Sr. Escandon no seu discurso, teve o
acerto de confiar os seus destinos a um Maximiliano I, e a fortuna de receber em
troca a ordem e a paz, fundamentos indispensveis da liberdade bem entendida,
depois de ter sofrido, durante quarenta anos, todas as agonias da anarquia,
todos os soobros da revoluo, todas as misrias das ambies dos caudilhos e
todas as frias dos demagogos aventureiros que s podem e sabem pescar em guas
turvas.

Vosso deveras

O AMIGO DA VERDADE.

Agradecemos ao Amigo da Verdade, que tambm
 nosso amigo, as expresses de extrema benevolncia e apurada cortesia, com que
nos trata. Devramos talvez mutilar esta carta, suprimindo os benvolos eptetos
que o nosso dever no pode aceitar sem constrangimento; mas para os homens de
bom senso, isso seria simplesmente mascarar a vaidade.

De pouco trata esta carta.

O Amigo da verdade promete entrar em outras
explanaes nas cartas posteriores, reservamo-nos para essa ocasio.

Mas, o Amigo da Verdade, referindo algumas
frases nossas da revista de 21 do passado, repara que houvssemos estranhado no
discurso do Sr. D. Pedro Escandon as expresses  recprocos interesses  entre
os dois imprios,  e a identificao de governo  entre os dois
pases.

Nossa resposta  simples.

Falando das duas frases do embaixador mexicano,
fizemo-lo em forma de excluso. No quisemos torn-las essenciais para as
observaes que amos apresentar. Todavia, no ser exato dizer que, fazendo
aquele ligeiro reparo, no tivssemos uma inteno; tivemo-la e
confessamo-la.

Em nossa opinio o imprio do Mxico  um filho da
fora e uma sucursal do imprio francs. Que reciprocidade de interesses podia
haver entre ele e o imprio do Brasil, que  o resultado exclusivo da vontade
nacional? O Amigo da Verdade promete mostrar que os interesses polticos e
comerciais entre os dois pases so mais transcendentais do que se pensa. No
tnhamos em vista a comunidade dos interesses comerciais e as convenincias de
ordem poltica. Subentendamos os interesses de ordem moral, os interesses mais
largos e durveis, os que no recebem a impresso das circunstncias de um
momento. A justia universal e o esprito americano protestam contra a
reciprocidade desses interesses entre os dois imprios.

Ocorriam outras circunstncias, ao escrevermos
aquelas linhas.

Estava reunido em Lima, capital do Peru, um
congresso americano destinado a celebrar uma aliana dos Estados da Amrica do
Sul. No sabemos por que razo deixou o Brasil de figurar naquele congresso. O
esprito poltico do governo imperial no nos d ocasio de supor que ele fosse
movido por grandes razes de Estado. Mas o fato  que o Brasil no teve
representante no congresso, e eis aqui como a democracia americana traduz o
nosso procedimento: antipatia do Imprio para com os interesses americanos. 
sem dvida uma iluso; a nao brasileira no conhece nem se comove por outros
interesses; mas a verdade  que o procedimento do Brasil produziu aquela
opinio.

Isto quanto ao Brasil.

Quanto ao Mxico,  sabido que os Estados Unidos
nunca viram com bons olhos a invaso francesa naquele pas e a mudana do antigo
estado de coisas. As circulares do Sr. Seward deram a entend-lo claramente;
mais tarde o congresso de Washington votou uma moo contrria ao novo governo
do Mxico. O voto do Congresso no obriga a poltica dos Estados Unidos; mas eis
que o senado americano, por proposta do Sr. Wade (do Ohio) decidiu que no
oramento dos consulados a palavra Mxico fosse substituda pelas palavras
Repblica Mexicana. H dois governos no Mxico, disse aquele senador: ns s
podemos reconhecer o da repblica; nada temos que deslindar com o imprio  A
proposta do Sr. Wade foi votada. E este voto  decisivo para a poltica dos
Estados Unidos.

Assim  que os dois imprios da Amrica,  um
repudiado pela democracia do norte, outro esquivando-se a entrar na liga da
democracia do sul,  ficariam sendo a dupla Cartago do continente, e
isolar-se-iam cada vez mais, se acaso se estabelecesse essa reciprocidade de
interesses de que falou o Sr. Escandon.

Que o Mxico mantenha o isolamento, e inspire as
desconfianas,  natural,  lgico, porque  esse o resultado da sua origem
irregular. Mas o Brasil no pode ter comunho de interesses nem de perigos, com
o Mxico, porque a sua origem  legtima, e o seu esprito , antes de tudo,
americano.

O Amigo da Verdade lembra que a frase do Sr.
Escandon nesta parte  uma aspirao, um voto; fica respondido esse reparo: o
Mxico pode ter semelhante posio, no deve t-la o Brasil.

Nem interesses recprocos, nem governo idntico. A
questo  dizia Flix da Cunha no Mercantil de Porto Alegre, a propsito
do Mxico em 1863,  no  de identidade de ttulos, ainda que divergente de
fins,  de direito e de justia,  de segurana prpria e convenincia
comum.

Isto dizia o ilustre jornalista, mostrando ao
Brasil a convenincia de no ter outros interesses que no sejam os das suas
irms americanas.

Sim, entre o Mxico e o Brasil h apenas a
identidade do ttulo, nada mais. Precisamos acaso entrar na demonstrao de que
 esse o nico ponto de semelhana? Isso nos faria saltar fora do crculo que o
Amigo da Verdade nos fecha; aguardamo-lo para depois.

Para provar as asseres da primeira carta, corre
ao nosso ilustrado amigo o dever de provar a legitimidade do imprio do Mxico.
Diz ele que prev os nossos argumentos; no diremos outro tanto a respeito dos
seus, pois que se nos afigura impossvel ach-los contra os acontecimentos
notrios de ontem. Quaisquer, porm, que sejam os argumentos do nosso ilustrado
amigo, ns s lhes oporemos fatos, contra os quais os argumentos no
prevalecem.

E agora, como mais tarde, a conversa que
entretivemos no pode sair do terreno da lealdade e do mtuo respeito; o
Amigo da Verdade faz bem em supor em ns uma opinio cordial e tolerante.
Nada mais absurdo e aborrecido que as opinies violentas e despticas; nem o
nome de opinies merecem: so puramente paixes, que por honra nossa, no
alimentaremos nunca.

H homens que da simples contradita do adversrio
concluem pela incompetncia dele. As amizades, na vida comum, os partidos, na
vida poltica, nunca deixaram de sofrer com a existncia desses homens, para os
quais s a convico prpria pode reunir a ilustrao, a verdade e a
justia.

Pois que o Amigo da Verdade  da classe dos
tolerantes e dos refletidos, e  dotado de perspiccia suficiente para
reconhecer-nos igualmente refletidos e tolerantes, a nossa conversa, isenta de
azedume, far uma diverso ao folhetim, e levar ao esprito de um de ns alguma
soma de verdade e mais um lao de afeio recproca.

15 DE MARO DE
1865.

A estrela do partido liberal desmaia. A Providncia
vai fazendo coincidir os seus arestos com os erros dos homens. Quando os homens
violam um princpio, ela arrebata-lhes um lutador, como castigo imediato. Duplo
desastre, dupla condenao!

Era um grande lutador Flix da Cunha. Era uma
inteligncia e uma conscincia, na acepo mais vasta destes dois vocbulos.
Jovem ainda, soubera criar um nome que se estendeu desde logo em todo o pas, e
tornou-se uma das estrelas da bandeira liberal. Tinha a estima dos amigos, o
respeito dos adversrios  e a admirao de todos. Na imprensa, como na tribuna,
a sua palavra era dotada de robustez e brilho, de audcia e
convico.

Foi poeta nos seus primeiros anos; cedo, porm,
abandonou o lar das musas, como tantos outros, para sacrificar  fada
prestigiosa de todos os tempos, que atrai com tanta fascinao e que prepara s
almas cndidas as decepes mais cruis. No sabemos se ele as teve; devia
t-las. Felizes, porm, os que, como ele, seguem o conselho de Ulisses, e salvam
da mo de Circe o pudor da conscincia e o melindre das iluses. Andar no meio
dos homens, sem ver os homens,  preciso ter a cabea muito acima do nvel da
humanidade. Foi o que lhe valeu a ele.

A imprensa rio-grandense e a fluminense j deram 
memria de Flix da Cunha a homenagem devida de venerao e de saudade. E,
breve, todo o Brasil ter prestado esse ltimo dever  memria do ilustre
patriota.

Para todos  e todos o admiravam - era Flix da
Cunha um grande talento, um combatente leal, um enrgico tribuno. Mas para os
que o conheciam de perto, era mais: era o bom Flix. Aliava a uma inteligncia
superior um corao generoso; rara aliana que os povos devem ter diante dos
olhos como lies eternas.

A maior parte dos semideuses polticos de que
trasborda o nosso Olimpo no se podem ornar com essa dupla coroa.  certo que a
histria tem o capricho singular de mudar os papis; quando um Tcito futuro
escrever o nome do patriota que acaba de sucumbir, os semi-deuses sero apeados
ao papel de comparsas. Desforra tardia, mas eterna.

A provncia do Rio Grande perdeu um filho querido,
o Brasil um patriota denodado, o partido liberal um dos seus mais valentes
atletas, a humanidade um homem justo e bom.

Para cmulo de males, o Brasil no perde s isso,
lamenta outras perdas to preciosas, e lamentar ainda apesar de todos os
manejos de partido.

Falemos do clebre convnio.

A semana ocupou-se quase exclusivamente com ele. O
convnio foi o assunto obrigado dos jornais e das conversas, das ruas e das
casas, dos teatros, e dos cafs; falavam dele todos, desde o ministro de Estado
at o caixeiro de cobranas, se todavia, os caixeiros de cobranas e os
ministros de Estado se ocupam com estas coisas.

O convnio adubava o jantar, entrava como parte
componente do sorvete, amenizava os intervalos dos atos de uma pea, repousava
os olhos cansados dos anncios, era a primeira saudao e a ltima palavra de
despedida, substitua, finalmente, o modo de iniciar a conversao. Quando duas
pessoas se encontravam, no diziam, como at aqui:  Que calor! - diziam: Que
convnio!

Que convnio! Mas esta expresso supunha um
adjetivo oculto, o qual mudava conforme a opinio do interlocutor; para uns era
o convnio magnfico; para outros detestvel. A discusso comeava logo, e havia
assunto para duas horas de conversa.

Como estava previsto, cada qual ficou com a sua
opinio. Mas essa pea deve ser uma obra-prima diplomtica, visto que se presta
assim a duas interpretaes, e pode ser, a um tempo, glria e ignomnia. Se os
da primeira opinio esto convencidos, confessemos que o convnio prova, ao
menos, a habilidade do negociador.

Falta-nos espao para resumir os debates. Devemos
confessar, por amor da verdade, que as opinies escritas favorveis ao convnio
foram em maior nmero. Isto  um fato e nada mais. Mas isto no prova ainda a
maioria, e se provasse era a mesma coisa.

Correu h dias na cidade um boato que nos
entristeceu: era o de um plano de insulto  casa do conselheiro Paranhos.
Entristece-nos o boato, sem todavia acreditar nele. No, o povo brasileiro no
praticaria um ato semelhante. Mas praticar outro ato, de que tambm se fala, o
de uma ovao ao negociador, no dia em que ele chegar a esta corte? Tambm no
cremos; as vozes que anunciam essa ovao so vozes partidrias, revelam a
inteno e a origem desse triunfo.

Dando notcias destes rumores, no s mencionamos
um fato da semana, como manifestamos um sentimento de mgoa. Cabe-nos ento,
como aos blancos, a frase de D. Andr Lamas:  Sempre o partido acima da
ptria!

O terreno  inclinado, e a nossa pena vai
naturalmente curando da poltica torva, de que juramos abster-nos.

Melhor  mencionarmos uma vitria que tivemos esta
semana, to incruenta como a paz de 20 de Fevereiro, e mais honrosa que ela. Foi
a visita que fizeram a esta corte os Srs. Juan Sa e Nin Reys. Pouco valem os
visitantes; mas quando homens da natureza daqueles, dos quais o primeiro se
adorna com uma sanguinolenta celebridade, depois de uma luta em que acabam de
fugir, deixam a cena de suas faanhas, e vo confiantes e tranqilos pisar a
terra do inimigo,  uma vitria isso,  a homenagem da barbaria  civilizao,
da traio  generosidade, da perfdia  boa f.

Juan Sa, trocados os papis, daria ao mundo o
segundo ato das lanadas de D. Juan; mas tal  a convico de que, na guerra que
acaba de findar, a civilizao era a sua inimiga, que o heri de sangue residiu
entre ns alguns dias, passeou nas ruas, chegou a perlustrar, segundo nos
consta, as alamedas da quinta da Boa Vista, com tanta segurana como se
estivesse pisando o soalho de sua casa.

Deus os conserve por l.

Uma folha desta corte anunciou h dias um novo
orador sagrado, o Sr. padre Guaraciaba, cremos. No tivemos a honra de ouvi-lo,
no sabemos at que ponto merece S. Rvma. os elogios daquela folha; iremos
ouvi-lo na primeira ocasio. Um orador sagrado neste tempo  um presente do cu,
uma fortuna para a religio, uma consolao para o plpito.

De h muito tempo que a palavra sagrada serve de
instrumento aos incapazes e aos medocres. H, sem dvida, excees, mas raras;
h alguns talentos mais ou menos provados, mais ou menos legtimos; mas o
plpito vive sobretudo da sombra luminosa dos Sampaios e Mont'Alvernes.
Fecharam-se as bocas de ouro e abriram-se as bocas de lato.

E neste ponto a palavra representa o corpo. O clero
 medocre, a eloqncia sagrada abateu-se at o nvel do clero. Para ser orador
sagrado basta hoje uma coisa nica: abrir a boca e soltar um discurso. Ningum
hoje se recusa a pregar; embora v produzir um efeito negativo. Entende-se que
para falar do alto do plpito basta alinhavar meia dzia de perodos fofos que
suas Reverendssimas fazem revezar entre si.

No h muitos anos, vieram dizer-nos que um jovem
sacerdote comeava a carreira de orador sagrado, dando esperanas de um Bossuet
futuro. Estava ainda nas suas estrias. Um Bossuet, mesmo em expectativa, no 
coisa que se desdenhe, mormente quando a tribuna sagrada  semelhante a Calipso:
no se consola na saudade e na viuvez. No nos queiram mal pela comparao:
Calipso  a filha querida de um arcebispo.

Fomos ouvir o pregador. O verbo ouvir  de rigorosa
verdade. A igreja estava s escuras, era sexta-feira santa: o sermo dessa noite
tem a denominao pretensiosa de sermo das lgrimas. No tivemos, pois, a honra
de ver o rosto do padre, mas ouvimo-lo. Ser preciso acrescentar que no fim do
sermo tnhamos um sentimento contrrio ao da raposa da fbula, preferindo ter
visto antes, ao sagrado corvo, son plumage que son ramage?

O pregador comeou, como todos os outros, por um
tom lamentoso, de efeito puramente teatral. Entende-se que, para comover os
fiis ante a tragdia do calvrio,  preciso modular a voz, com o fim de fingir
uma dor, que s  eloqente quando  verdadeira.

Dali calculamos o que seria o resto do
discurso.

No nos enganamos.

Cuidais que ele exortou os fiis a ter no corao a
lio tremenda da morte de Cristo? que fez, com as cores prprias, a pintura do
bem e do mal? que exortou os homens a evitar o segundo e a seguir o primeiro?
Nada disso: o reverendo sacerdote demorou-se em fazer o inventrio do velho
arsenal do inferno; pintou, com cores vivas, as chamas, as tenazes, as
caldeiras, as trevas; descreveu a figura do inimigo da luz; no atraiu,
assustou; no convenceu, aturdiu; em uma palavra, no infundiu a contrio,
provocou a atrio.

Quando samos da igreja, estvamos convencidos de
que o jovem Bossuet poderia ser um dia cnego da capela, e at bispo de alguma
diocese, mas nunca inscreveria o seu nome no livro dos oradores.

E assim se foram as nossas esperanas.

Bem vindo seja, portanto, o novo orador que to bem
se anuncia.

Estamos certos de que o clero, se estas linhas lhe
chegam aos olhos, perdoaro ao pecador que assim fala, mesmo em tempo de
penitncia.

O tempo da penitncia no impede tambm que se fale
em teatros. Ambas as coisas podem existir sem prejuzos para a religio.
Prejuzos havia no tempo em que o gnero sacro estava em voga, e escolhia-se
cada ano uma pgina do Flos Sanctorum para divertir o pblico pagante das
platias. Nunca entendemos que semelhante espetculo, onde o maquinista  o
santo milagroso, pudesse influir melhor sentimento que uma boa pea
profana.

Tivemos ultimamente o Gaiato de Lisboa, no
Ginsio, fazendo o Sr. Furtado Coelho o papel do general. Este papel, como se
sabe, era a coroa de glria do finado Victorino. No conservamos memria deste
artista naquele papel em que s o vimos uma vez; assim, no seremos levados a
confronto de natureza alguma.

O Sr. Furtado Coelho, que outrora aplaudimos nos
papis de gal, e especialmente no gnero novo dos Desgenais, fez-se aplaudir
com justia no papel de general. Foi excelente; revelou que no perdeu o tempo
das suas peregrinaes, e que soube compreender a superioridade do estudo calmo
e refletido sobre os lampejos inconscientes do talento.

Dando-lhe os nossos parabns, fazemos um ato de
franca justia.

 fora acabar. F-lo-emos com a transcrio de um
soneto de Bruno Seabra. O soneto j vai sendo coisa rara, depois de ter sido a
forma harmnica de Petrarcha, Cames, Bocage e Barbier. Hoje ningum quer
sentar-se neste leito de Procusto, e fazem bem. No diremos o mesmo a Bruno
Seabra, cujo trabalho transcrevemos e recomendamos aos leitores. Todos conhecem
a musa do autor das Flores e frutos: estes belos versos sero lidos com
interesse:

Nas margens do Uruguai nossa bandeira
J leva de vencida a gente ignava;
J ovante tremula e a afronta lava
De uma selvagem raa traioeira!

Eia!... mais esta vez entre em fileira,
E, destroando a corte  vil escrava,
s mais bravas naes mostre que  brava,

E fique ilesa a honra brasileira!

Brasileiros! marchar!... no se difama
Impunemente de um pas a histria!
Marchai... a Ptria, a me,  quem vos
chama.

Ide os louros colher d'alta memria,
O ptrio pundonor que vos inflama
 que faz cidados,   que d glria!

Bruno Seabra

28 DE MARO DE
1865.

Sbado passado fez anos a Constituio. A ilustre
enferma teve as honras oficiais, o cerimonial prescrito, o Te Deum, o
cortejo, o jantar no pao, e o espetculo de gala. Afora isso, nada mais: o dia
vinte e cinco de Maro teve a festa da indiferena pblica.

 a guerra, dir-nos-o em resposta, e teriam razo
se antes da guerra, a festa constitucional fosse diversa da deste ano. Mas no 
assim, o que se observou agora  o que se observa sempre  nem mais uma vrgula,
nem menos uma vrgula.

Por que?

Aqui seria o lugar prprio de entrar em certas
consideraes, mas elas no teriam outro efeito mais que o de aumentar a aflio
ao aflito. No vale  ilustre enferma receber da mo do criador um flanco
robusto e msculo: nem por isso escapa  navalha desptica. Mas para que contar
os golpes e pesar o sangue que ainda verte? Melhor  correr as cortinas do leito
da enferma, e deix-la ver se concilia o sono,  espera de uma junta de
facultativos que lhe cicatrize as feridas e lhe restaure a sade.

No dia seguinte da Constituio partiu para o Rio
da Prata o Sr. Conselheiro Otaviano, terceiro enviado especial. O Sr.
Conselheiro Otaviano tem por si legtimas simpatias; o seu talento e a sua
ilustrao despertam as sinceras esperanas do pas. A misso , sem dvida,
espinhosa; agravou-se, sobretudo, com as ocorrncias do desenlace da guerra; mas
o novo enviado tem a seu favor as habilitaes prprias e o exemplo do desastre
alheio.

Os que estimam sinceramente o sistema de liberdade
de que gozamos, no deixam de doer-se do modo por que se vai abusando entre ns
da liberdade de imprensa.

Se esta liberdade for em progresso crescente, no
faltar um dia quem suspire por outro sistema que, encadeando o pensamento,
impea ao mesmo tempo a desenvoltura da palavra, o reinado da calnia, o entrudo
da injria, todas essas armas da covardia e da impotncia, assestadas contra a
honestidade, a independncia e a coragem cvica.

Esta observao no  nova, mas ela tem agora uma
triste oportunidade.

Que um homem sincero, convencido, patriota, tome a
pena e entre na arena poltica, - se ele quiser pr  conscincia acima dos
interesses privados, a razo acima das convenincias pessoais, ver erguer-se
contra si toda a frandulagem poltica desta terra, e mais de uma vez a idia do
dever e o sentimento de pesar lutaro na conscincia do escritor.

Se os exemplos acumulados forem aproveitando, quem
querer um dia, cheio de verdadeiro amor ao pas, afrontar os ataques da
vaidade, dos interesses, da ignorncia, despenhar-se, enfim,

...de chute en chute aux affaires
publiques?

Mas neste caso o dever e a caridade mandam perdoar
aos que no sabem o que fazem.

A caridade abre-nos a porta para uma transio
natural.

H verdadeira luta de caridade no leilo da
Sociedade Portuguesa de Beneficncia. Os objetos oferecidos quela sociedade
pelas senhoras portuguesas tm sido vendidos por elevados preos; mas o que
sobretudo chama a ateno  a venda de algumas prendas, tais como flores e
frutas. Uma pra, uma dlia, uma saudade alcanaram lances fabulosos. Como se
v, essas prendas insignificantes tm por si o valor da inteno de quem as
oferece, e o valor do fim a que se prope o leilo:  um delicado pretexto para
exercer a caridade.

Diz-se que o resultado do leilo ser avultado.
Como no, se ele trouxe a virtude desde o princpio? Bastou que a varinha mgica
da mulher houvesse tocado essa idia para ela produzir todos os seus bons
efeitos. No  ela quem tudo move, quem tudo decide, quem tudo ampara?
Queime-se, pois, o incenso da orao ao belo sexo lusitano, como ao belo sexo
fluminense, que h dois anos contribuiu para o leilo da mesma
sociedade.

Os livros no so da nossa exclusiva competncia;
isso, porm, no impede que faamos, uma vez por outra, meno de algumas obras
valiosas. Temos sobretudo esse dever quando no se trata de um livro, mas do
livro dos livros, do livro por excelncia.

Era ansiosamente esperado o 2. volume da Bblia,
ricamente editada pela livraria Garnier. O ltimo paquete trouxe o 2. volume.
Uma encadernao rica e de gosto, uma impresso ntida, um papel excelente,
gravuras finssimas, copiadas das melhores telas, tais so as qualidades deste
como do 1. volume.

O vaso  digno do leo.

Os leitores nos dispensam de dizer por que a Bblia
 o livro por excelncia. Melhor que ningum j o disse Lamartine; o grande
poeta pergunta o que no haver nessa obra universal, desde a histria, a poesia
pica, a tragdia e a filosofia, at o idlio, a poesia lrica,  a elegia 
desde o Deuteronmio, Isaas e o Eclesistico, at Ruth, Jeremias e o Cntico
dos Cnticos. Reuni todas estas formas do esprito humano em uma encadernao de
luxo, e dizei se h livro mais precioso e mais digno de figurar no gabinete,
entre Milton e Homero.

A nossa revista tinha entre as suas obrigaes o
captulo dos teatros. Pena mais capaz se encarregou agora dessa matria e nos
liberta da obrigao. Aplaudindo com os leitores a substituio, cumpre-nos,
observar que no estamos inteiramente inibidos de falar uma vez por outra dos
assuntos teatrais. Assim, para comear o exerccio desta exceo, mencionaremos
aqui a apario da nossa primeira artista dramtica, a Sra. D. Gabriela da
Cunha, que h longos meses se achava fora da corte.

Vimo-la em dois papis e em dois teatros. No
Ginsio representou, com o Sr. Simes, um entreato cmico, denominado Amor
londrino, que se no deve confundir com o queijo do mesmo nome, produto de
incontestvel superioridade.

O papel da Sra. Gabriela era sem importncia,
requeria ser dito com muita graa e muita inteno, e nessas condies ningum o
diria melhor. Isto valeu metade da cena, pois que da outra metade se encarregou
o Sr. Simes no papel do amante londrino. Os aplausos que recebeu o Sr. Simes,
e que ns lhe reiteramos aqui, foi devido  naturalidade e observao com que
produziu o ingls, o ingls srio, o ingls que declara o amor por gramtica,
canta couplets como se discutisse na cmara dos comuns, dana um solo com
a cara de quem recebe uma m notcia da praa de Londres.

Depois de representar pela segunda vez, na Dama
de S. Tropez, no teatro de S. Pedro, onde foi com justia aplaudida, a Sra.
Gabriela aparecer hoje, pela terceira vez, em terceiro teatro. Anuncia-se o
Trabalho e Honra e as Proezas de Richelieu, em S. Janurio.  em
benefcio do Sr. Lopes Cardoso, artista de talento que ali comeou a sua
carreira.

Esta peregrinao de teatro em teatro admirar de
certo o pblico, que estima e reconhece o talento da Sra. Gabriela.

Era para desejar a ilustre artista, como todos os
bons e distintos companheiros, se reunissem sob um s pensamento, e procurassem
aviventar o teatro, que ainda est longe dos seus dias prsperos. At que ponto
ser lcito nutrir este desejo? O Teatro nos oferece hoje um espetculo nico:
os artistas dispersos correm da provncia para a corte, da corte para a
provncia, de uma cena para outra, sem possibilidade de se conservarem fixos.
Mais de uma vez assinalamos estas circunstncias precrias do teatro; apontamos
ento o meio de remover essas circunstncias; mas o conselho no passou do papel
em que escrevamos, e o mal, em vez de melhorar, agravou.

No voltaremos agora s consideraes anteriores.
Levamos nisso um pouco de convenincia prpria. Um dos defeitos mais gerais,
entre ns,  achar srio o que  ridculo, e ridculo o que  srio, pois o tato
para acertar nestas coisas  tambm uma virtude do povo.

Assinalemos, pois, o fato e nada mais. No; faamos
mais alguma coisa: lamentemos que os que se destinam a interpretar as obras dos
poetas, os que lhes do a vida e o movimento, os que pem em comunicao a alma
do poeta com a alma do pblico, os instrumentos valiosos daquele operrio da
civilizao, sejam obrigados a arrastar uma vida precria e espinhosa, uns sem
futuro garantido ao verdadeiro talento e ao trabalho sincero, outros sem escola
onde adquiram o jus ao fruto do trabalho e do talento.

Houve em Roma um ator, Clodis Esopus, que em uma
ceia que deu a muitos convivas, fez engolir a cada um, dentro da taa de Chipre,
uma prola de grande valor. Foi em Roma, nos tempos de infncia da arte. O
capricho do ator romano era de certo excepcional. Mas no se conhecem artistas
de hoje que, em vez de prolas de Esopus, daria aos seus convidados apenas uma
taa de tristezas?

4 DE ABRIL DE
1865.

O Correio Mercantil publicou h dias um
artigo em que se indicava os meios de dissolver as ordens religiosas do
imprio.

Involuntariamente lembrou-nos aquele clebre soneto
de Bocage:

Se quereis, grande rei, ter bons soldados,

Mandai desalojar esses conventos.

O autor, que assinou o artigo por iniciais,
declarou que, se as idias que emitia fossem discutidas por outro comunicante,
voltaria ele  imprensa e desceria a fatos e minuciosidades.

Adivinhamos logo que o artigo ficaria sem
resposta.

S o Cruzeiro do Brasil impugnou domingo a
medida do Correio Mercantil, confessando, porm, que o estado das
corporaes religiosas no  to perfeito como devia ser.

Ns dizemos, como o Correio Mercantil, que 
o mais deplorvel deste mundo.

O projeto formulado pelo autor do artigo no 
completo,  mesmo falho e inaceitvel em alguns pontos; mas encerra uma idia de
evidente utilidade e clamorosa urgncia. O corpo legislativo, que deve abrir-se
daqui a dias, devia encarregar o governo dos exames necessrios, se acaso ele j
os no fez, de modo a encaminhar uma medida completa em to melindroso
assunto.

Os abusos indicados pelo artigo a que nos referimos
bastam para abrir lugar  interveno do Estado. Mas, no h, alm dessas
razes, e antes dessas razes, outras de ordem superior, filhas do tempo e
oriundas da histria?

No  ao folhetim que cabe o desenvolver essas
razes; cabe-lhe indic-las. Os conventos perderam a razo de ser. A idia, to
santamente respeitvel ao princpio, degenerou, diminuiu, transformou-se, fez-se
coisa vulgar.

De certo ningum pede hoje aos conventos uma
reproduo da Thebaida. A contemplao asctica, as penitncias, as fomes, os
suplcios daqueles pios cenobitas, nem so do nosso tempo, nem so dos nossos
homens. Mas no sabemos porque, entre dois extremos, no haver um meio
prefervel, mais prximo da gravidade monstica e da grandeza da
religio.

S. Bento e Santo Antnio nunca sonharam com
fazendas e escravos; nunca administraram terras, nem assinaram contratos; foram
uns pios solitrios, que recebiam por milagre o po negro de cada dia, e
passavam muitos dias sem levar  boca nem uma migalha de po, nem uma bilha
d'gua.

As virtudes monsticas de hoje esto longe daqueles
modelos primitivos; mas, se no se lhes pede sacrifcio igual, tambm no se
lhes pode conceder uma existncia anacrnica, sem objeto nem utilidade
prtica.

 a sorte de todas as instituies humanas trazerem
em si o grmen da sua destruio.

Estas palavras do membro da assemblia constituinte
da Revoluo francesa, que deu parecer sobre a supresso dos conventos, so a
mais resumida sentena das instituies monsticas. O primeiro motivo para
suprimi-las  o de serem inteis.

Sentimos que nem a natureza nem as dimenses destes
escritos nos permitam outras consideraes a este respeito. Tambm  quanto
basta para definir o nosso pensamento e incorrer nas censuras dos reverendos
padres e monges.

Uma circunstncia inesperada no nos permitiu ir
assistir  ltima representao particular dada pelo Clube do Catete, no Caminho
Novo de Botafogo.

O Clube do Catete  uma associao de pessoas
distintas, organizada h pouco tempo, e que j tem dado cinco representaes,
todas muito freqentadas e muito aplaudidas.

Vai-se desenvolvendo o gosto pelas representaes
particulares por amadores da arte. Ou em salo, ou em cena preparada,  sempre a
comdia que faz uma diverso, e deixa o camarim para entrar na toilette.
Pela nossa parte conhecemos alguns artistas amadores de vocao pronunciada e
apurado gosto. No Clube do Catete asseveram-nos que tm aparecido outros
igualmente notveis. Aguardamos ocasio propcia de ir apreci-los com os nossos
prprios olhos e dizer aos leitores as nossas impresses.

No h mal em confessar predilees. Por que motivo
ocultaramos o nosso gosto pelas representaes deste gnero? O que nos parece 
que a no se deve sair do domnio da comdia e do provrbio. As paixes e as
tempestades da vida no divertem o esprito; e o que se quer, nesse caso,  dar
ao esprito um pasto de nova espcie, ligeiro, suave, delicado.

Vamos da sala para o teatro.

Houve tera-feira passada um espetculo no teatro
de S. Janurio em benefcio do Sr. Lopes Cardoso, com o concurso de alguns
artistas distintos.

Representou-se o Trabalho e Honra, drama
comovente, mas que tem o defeito de arregimentar umas quatro situaes velhas e
esfarrapadas, sem mrito algum literrio.

O pblico fluminense conhece este drama, onde o
ator Moutinho representava o pescador Cristvo com uma incontestvel
superioridade. Nesta rcita encarregou-se do papel o Sr. Simes, de cujo talento
fazemos boa opinio e ainda na ltima revista tivemos ocasio de louv-la. Mas a
minha admirao no  to absoluta como a liberdade da minha opinio. No papel
de Cristvo o Sr. Simes pareceu-nos inferior ao Sr. Moutinho; este sabia
interpretar muito melhor a fisionomia franca do papel: era mais natural e mais
verdadeiro; o Sr. Simes, cuja arte estamos longe de contestar, e a quem
aplaudimos em alguns pontos, pe s vezes um tom falso e afetado onde o Sr.
Moutinho dava a mais perfeita e serena naturalidade.

Ainda assim, apesar das reminiscncias vivas do
pblico, o Sr. Simes foi aplaudido, nem ns lhe negamos naquele papel certo
mrito relativo.

Em geral o desempenho mereceu os aplausos do
pblico. Excetuaremos o Sr. Pinheiro, no papel do velho agiota, que, apesar de
no ser um papel importante, no est, todavia, nos recursos limitados daquele
artista.

Dos outros citaremos a Sra. D. Gabriela em primeiro
lugar, no papel de me, onde se houve com a superioridade do seu belo talento.
Era esse mesmo talento que sabia fazer-se admirar no papel de Suzana d'Ange, no
de Margarida Gauthier, no de Cecilia Caussade, e que no menos despertou os
aplausos no da velha mulher do pescador. O Sr. Cardoso fez o papel do filho
prdigo com a mesma habilidade com que o desempenhara, e a mesma proporo nos
resultados, isto , merecendo mais em todo o papel do que nos lances das grandes
paixes.  que o seu talento  mais da comdia que do drama, sem que por isso
seja menos aprecivel, ao contrrio.

Tivemos ainda ocasio de ver a Sra. Gabriela no
papel de Madame Patin, uma das suas mais belas criaes, e que h muito tempo
no representava.

No Ginsio no tem havido pea nova. Estamos em
plena quaresma e a semana santa est  porta. Naturalmente rareiam os dias
prprios de representao dramtica. Devemos neste ponto fazer uma pergunta 
polcia; no compreendemos muito a necessidade de proibir os espetculos em
certos dias de quaresma, ao passo que achamos indispensvel que se proba em
outros por serem de recordaes solenes da Igreja. Mas uma vez que a polcia
probe os teatros em todas as sextas-feiras, e no domingo da Paixo, como
consente o Alcazar Lrico? H nisto uma contradio manifesta. No se
suponha que pedimos a proibio para o Alcazar, pedimos a concesso para
os outros teatros, pedimos a igualdade para todos. No h nada mais
justo.

Alguns leitores talvez achem estranho que no nos
ocupemos de outros acontecimentos da semana, como o conflito de tropa e a
eleio de senador.

O conflito de tropa foi um sucesso lamentvel, que
algumas pessoas predisseram, com maior ou menor certeza. Achamos, porm, que no
seria pertinente falar dele neste lugar.  assunto que no pede apreciao, pede
conselhos.

Quanto  eleio de senador, as reflexes que nos
sugeriu esse fato so demasiado srias para o folhetim. Isto no quer dizer que
no reconheamos a capacidade dos cavalheiros que compem a lista trplice. No
seria ocasio de pensar na mudana do sistema eleitoral, isto , na supresso do
eleitorado? No  tempo de iniciar francamente a idia da eleio direta, e no
censitria (porque seria injusta e odiosa) de maneira a tornar efetiva a
soberania popular? No  este um grande dever e uma bela ao de um partido
liberal sincero e convencido?

Vejam os leitores se estas reflexes e outras so
prprias do folhetim, e onde iramos ns se dssemos ao nosso pensamento a
necessria extenso.

No diramos coisa nova,  exato. Neste ponto, se
alguns leitores esto sorrindo, recolham o sorriso, para usar da expresso do
Sr. Visconde de Jequitinhonha. Mas, como entre ns, no  comum dizer coisas
novas, ns nos contentvamos com repetir verdades velhas, mas triunfantes do
tempo.

11 DE ABRIL DE
1865.

Damos todo o espao da
revista
 seguinte carta que
nos dirige o Amigo
 da
Verdade.  a segunda
serie que o
nosso amigo nos
prometeu escrever a
 propsito do
Mxico.

AO ILUSTRADO REDATOR DO AO ACASO

CARTA II

Rio de Janeiro, em 2 de Abril de 1865.

Meu caro amigo.  Para provar-vos que o povo
mexicano procedeu, nas derradeiras circunstncias polticas que atravessa, com
vontade refletida e de prprio moto e no por imposio de ningum, torna-se
necessrio que me concedais espao para recordar alguns dos muitos fatos
histricos que caracterizam o esprito monrquico desses enrgicos e robustos
mexicanos, cujo orgulho nacional no consentiria nunca na imposio de um
estrangeiro.

No podemos negar, depois de um estudo srio e
consciencioso dos nossos povos, que o carter da raa latina, em geral, e da
ibera, em particular,  devotado  monarquia; porque crena religiosa, tradio
e costumes seculares segundam essa tendncia poltica.

Os descendentes dos Csares romanos preferem, em
geral, a prpura  casaca preta do burgus.

Os primeiros chefes da independncia
hispano-americana bem convencidos estavam desta verdade.

Se eu desejasse divagar pelos pases norte e sul
americanos, embora no latinos os primeiros na sua totalidade, fcil me seria
trazer  vossa erudita lembrana a coroa dos Incas, oferecida pelos peruanos ao
bravo militar San-Martin nos alvores da independncia sul-americana; nada
dificultoso ser-me-ia apresentar-vos documentos preciosos pela leitura dos quais
vereis que os argentinos ofereceram oficialmente, em 16 de Maio de 1815, cinco
anos depois de se declararem independentes, o cetro argentino a um infante da
Espanha, ao Sr. D. Francisco de Paula, pai do atual consorte da Sra. D. Isabel
II, que ainda vive. Nem custar-me-ia muito trabalho fazer-vos ver que eram
numerosas e importantes as sociedades monarquistas, cujo fim era coroar um rei.
A casa do Dr. Tagles era o principal ponto de reunio dos realistas e a estas
assemblias noturnas assistiam os homens mais prestigiosos da cidade de Buenos
Aires, figurando entre eles os mesmos que dirigiam, em 1820, o carro vacilante
da revoluo. E que necessidade h de mencionar a chegada a Buenos Aires, em
Dezembro de 1820, do brigue de guerra espanhol Aquiles, conduzindo a bordo,
por causa das repetidas instncias dos membros das sociedades monarquistas
argentinas, uma comisso enviada pela corte de Madrid? Nem julgo conveniente
manifestar neste lugar a razo por que os espanhis no assentiram s
proposies dos monarquistas argentinos.

Tambm no quero lembrar outras tentativas da
mesma ordem feitas no Estado Oriental do Uruguai em duas pocas; nem quero
falar-vos da viagem de Flores, do Equador  Europa, h cerca de 20 anos, para
colocar no trono de Quito um rei; nem  meu intento fazer-vos ver que Paez e um
poderoso partido de Venezuela tiveram em 1842 ou 43, a mesma idia; nem vos
repetirei que os inimigos das glrias do Gro Capito Simon Bolvar viam no
fundador de cinco repblicas um futuro prncipe; nem por fim vos direi com a
histria na mo que os cidados norte-americanos ofereceram em diversas pocas,
a Washington, a Jferson e a Adams a coroa dos Estados Unidos, que eles, 
prudentssimos,  no aceitaram, porque se lhes no ocultava que careciam do
prestgio que d a realeza herdada de sculos.

Estas e outras muitas citaes, que fcil me seria
relatar-vos, provariam e provam que os neolatinos, que os filhos dos gloriosos
aventureiros europeus, vindo s Amricas no sculo XV e seguintes, preferem a
prpura dos Csares  casaca preta do burgus. Nem me digais que a existncia
das repblicas hispano-americanas fala alto e bom som contra estes fatos
histricos isolados; porque forar-me-eis a sair do crculo que, por valiosas
razes, devemos percorrer, vs e eu, sem traspassarmos os seus limites.
Lembrai-vos que vs e eu somos tolerantes e eminentemente americanos.

At agora no proferi uma palavra sobre o imprio
mexicano; mas foi de propsito; porque devo lanar um olhar retrospectivo sobre
esse vasto, belo, rico e populoso pas, para chegar vagarosamente dos Montezumas
aos Maximilianos.

No se pode negar que a tradio  uma segunda
natureza nos povos: o tempo, de envolta com a civilizao, que  conseqncia
lgica da tendncia do homem  perfectibilidade, pode modificar os sulcos
profundos da tradio; nunca, porm, apag-los.

Antes de entrarmos nos pormenores dos
acontecimentos que motivam estas cartas,  necessrio que digamos os elementos
de que compe-se a massa nacional mexicana; pois, estes so dados
importantssimos para estabelecermos a opinio nacional, o esprito pblico do
povo e as suas tendncias naturais.

No pertencemos ao nmero dos estadistas que olham
s para o presente das naes; professamos outra f: estudamos o passado, que 
sempre bom guia do futuro.

A populao do vasto e delicioso imprio mexicano
 composta  1., dos descendentes dos espanhis e dos europeus, particularmente
dos primeiros, dos quais, apesar dos banimentos de 1828 e 1829, existe ainda
naquele pas um nmero avultadssimo; - 2., de indgenas que so mais da metade
de toda a populao; e 3.,  de um nmero muito acanhado de leperos  mestios
 mulatos e negros, que habitam, especialmente, no litoral, sendo alis mui
pouco considerados pela maioria nacional.

A populao mexicana est orada por Ackerman,
Ilint, Ward, Brigham, Morse, Lesage, Torrente, von Humboldt, Montenegro,
Prescott, Alaman,  o correto historiador mexicano,  em 8 milhes, pouco mais
ou menos; mas estes clculos foram feitos, h meio sculo; e, segundo os dados
mais recentes e fidedignos, o Mxico atual contm 11 milhes de habitantes.
Destes onze milhes, sete so de indgenas; trs de descendentes de espanhis e
um milho de mestios, pardos e negros.

Desnecessrio me parece repetir-vos que os filhos
dos espanhis so, no Mxico, mais adictos ao sistema monrquico do que ao
republicano,  posto que descendem de famlias fidalgas da antiga nobreza
espanhola, os quais, mesmo nos dias da repblica, conservavam os ttulos dos
seus ascendentes, sendo conhecidas muitas famlias pelos nomes de marqus,
conde, etc., etc., ou membros do clero  numeroso de per si e monrquico por
convico.

Os indgenas mexicanos so realistas ou
imperialistas por tradio, natureza e costumes; a duras penas, ajustaram-se,
durante os ltimos 40 anos,  ao sistema republicano. E como podiam esquecer os
descendentes dos Montezumas os seus imperadores? Imaginai que os livros sagrados
dos mexicanos fazem remontar a sua antiguidade monrquica a mais de 50 sculos
antes da era crist, e a monarquia dos Tultecas ao sculo 5. do cristianismo,
com cuja data concorda Humboldt. E como podem esquecer os indgenas mexicanos os
seus imperadores, quando olham para a pirmide de Choluta, cuja base quadrada 
o dobro da maior do Egito, e  para a vastssima cidade Tula,  da qual so
arremedos Pompia e Herculano? E como podem esquecer os mexicanos os nove reis
Tultecas, os treze reis Chichimecas e os onze imperadores mexicanos, fundadores
da mais bela e suntuosa nao do novo mundo?

A glria, o esplendor, a grandeza dos antigos
mexicanos obumbra ainda hoje os olhos dos seus descendentes, e lembram-se com
profunda saudade dos tempos magnficos dos Montezumas, rezando as suas tradies
e livros sagrados a profecia de que com o correr dos tempos, depois de muitas
calamidades e terrveis dissabores nacionais, havia de chegar dos pases remotos
do oriente um prncipe que elev-los-ia da prostrao ao auge da prosperidade,
da grandeza, ressuscitando o imprio que, prfida e desumanamente fez
desaparecer o conquistador com a morte de Guatimoezin, seu ltimo
imperador.

Estas so reminiscncias tradicionais to
profundamente religiosas e sagradas para aqueles povos de aspecto grave,
melanclico e misterioso em tudo, que a forma republicana lhes foi sempre
antiptica, embora a tolerassem por ser-lhes imposta pela fora que residia nos
descendentes dos seus primeiros conquistadores.

Antes de chegarmos a falar do pronunciamento do
presbtero D. Miguel Hidalgo, proco da vila Dolores, precedido da perseguio
feita ao vice-rei Ituarrigaray, acusado pelos espanhis de afeto aos mexicanos;
antes de falarmos do brado da independncia, da revoluo continuada por
Morelos; antes de falarmos da constituio de Chilpaneingo e de Apatzingan;
antes de mencionarmos o plano de Iguala, o tratado de Cordova e a reunio do
primeiro congresso mexicano; antes de vermos elevado ao trono do imprio, em
1822, a D. Agostinho I  Iturbide  e de lermos em algumas moedas o nome de
Antnio I  Lopes de Santana, etc., etc.,  necessrio que digamos que, depois
de terem desaparecido os antigos imperadores mexicanos, durante 300 anos
governaram aquele vasto imprio sob a denominao da Nova Espanha os vice-reis
espanhis que, para serem reis, unicamente lhes faltava o ttulo e a coroa,
porque as mais prerrogativas,- incluindo o sistema absoluto,  residiam nas suas
mos.

Ora bem meu caro e ilustrado redator do Ao
acaso, um povo, cujas tradies so as supramencionadas; um povo, que
lembra-se com saudade pungente de trs dinastias gloriosas, pelos estrondosos
feitos de armas, pela prosperidade fabulosa de que gozou, pela riqueza imensa
que o distinguiu em tempos imperiais, pela opulncia em que o embalaram no bero
do seu esplendor monrquico, pelo renome que o tornou notvel desde os sculos
mais remotos at os nossos dias, pela civilizao de que tantos e to
prodigiosos vestgios nos legou, no pode deixar de ser monarquista por
tradio, por natureza, por gratido, por dever, particularmente comparando as
antigas glrias com o estado miservel da repblica, durante quarenta anos, em
que no puderam gozar um dia de paz, em que viram-se ameaados de serem
absorvidos por uma raa inteiramente contrria  sua religio,  sua lngua, aos
seus costumes, ao seu carter, em que olhavam para os seus bens como para coisas
fortuitas, em que tinham tantos tiranos quantos caudilhos, e tantas desgraas
quantas espadas faziam lampejar a ambio e a instabilidade do
sistema.

Povos nutridos com essas tradies, e fustigados
por essa amargosa experincia, almejam pelo momento da sua felicidade, que 
para eles o das tradies gloriosas e caras ao santo orgulho
nacional.

Estes so os alicerces mais antigos desta
monarquia que observais, levantando-se majestosa das runas da repblica no
hemisfrio setentrional; esperai pelas pedras angulares e pela concluso do
edifcio.

No estranheis, meu caro, que no responda
imediatamente s vossas observaes; porque no ignorais que sou homem muito
ocupado; circundam-me diversas atenes, s quais devo consagrar o meu trabalho,
as minhas viglias, o tempo talvez do meu sono, e, por conseguinte, serei
demorado nesta agradvel tarefa, como o sou em outras da mesma natureza, que me
servem de descanso no meio da afanosa vida que leva, h j alguns
anos,

Este vosso deveras,

O Amigo da Verdade.

Como se v no temos que responder s apreciaes
histricas que o Amigo da Verdade faz nestas pginas. Em nossa opinio
elas nada podem influir na seqncia dos fatos que deram em terra com a
repblica mexicana.

Aguardamos, entretanto, o desenvolvimento da idia
do Amigo da Verdade, para dar-lhe uma resposta completa e
definitiva.

At tera-feira, leitores.

25 DE ABRIL DE
1865.

Os povos devem ter os seus santos. Aquele que os
tem merece o respeito da histria, e est armado para a batalha do
futuro.

Tambm o Brasil os tem e os venera; mas, para que a
gratido nacional assuma um carter justo e solene,  preciso que no esquea
uns em proveito de outros;  preciso que todo aquele que tiver direito 
santificao da histria no se perca nas sombras da memria do povo.

 uma grande data 7 de setembro; a nao
entusiasma-se com razo quando chega esse aniversrio da nossa independncia.
Mas a justia e a gratido pedem que, ao lado do dia 7 de setembro, se venere o
dia 1 de abril. E quem se lembra do dia 21 de abril? Qual  a cerimnia, a
manifestao pblica?

Entretanto, foi nesse dia que, por sentena
acordada entre os da alada, o carrasco enforcou no Rocio, junto  rua dos
Ciganos, o patriota Joaquim Jos da Silva Xavier, alcunhado o
Tiradentes.

A sentena que o condenou dizia que, uma vez
enforcado, lhe fosse cortada a cabea e levada a Vila Rica, onde seria pregada
em um poste alto, at que o tempo a consumisse; e que o corpo, dividido em
quatro pedaos, fosse pregado em postes altos, pelo caminho de Minas.

Xavier foi declarado infame, e infames os seus
netos; os seus bens (pelo sistema de latrocnio legal do antigo regmen)
passaram ao fisco e  cmara real.

A casa em que morava foi arrasada e
salgada.

Ora, o crime de Tiradentes foi simplesmente o crime
de Pedro I e Jos Bonifcio. Ele apenas queria apressar o relgio do tempo;
queria que o sculo XVIII, data de tantas liberdades, no casse nos abismos do
nada, sem deixar de p a liberdade brasileira.

O desgnio era filho de alma patritica; mas
Tiradentes pagou caro a sua generosa sofreguido. A idia que devia robustecer e
enflorar da a trinta anos, no estava ainda de vez; a metrpole venceu a
colnia; Tiradentes expirou pelo barao da tirania.

Entre os vencidos de 1792, e os vencedores de 1822,
no h seno a diferena dos resultados. Mas o livro de uma nao no  o livro
de um mercieiro; ela no deve contar s os resultados prticos, os ganhos
positivos; a idia, vencida ou triunfante, cinge de uma aurola a cabea em que
ardeu. A justia real podia lavrar essa sentena digna dos tempos sombrios de
Tibrio; a justia nacional, o povo de 7 de setembro, devia resgatar a memria
dos mrtires e coloc-los no panteo dos heris.

No sentido desta reparao falou um dos nossos
ilustrados colegas, nestas mesmas colunas, h quatro anos.

As palavras dele foram lidas e no atendidas; no
ousamos esperar outra sorte s nossas palavras.

Entretanto, consignamos o fato: o dia 21 de abril
passa despercebido para os brasileiros. Nem uma pedra, nem um hino recordam a
lutuosa tragdia do Rocio. A ltima brisa que beijou os cabelos de Xavier levou
consigo a lembrana de tamanha imolao.

Pois bem, os brasileiros devem atender que este
esquecimento  uma injustia e uma ingratido. Os deuses podem aprazer-se com as
causas vencedoras; aos olhos do povo a vitria no deve ser o critrio da
homenagem.

 certo que a gerao atual tem uma desculpa na
ausncia da tradio; a gerao passada legou-lhe o esquecimento dos mrtires de
1792. Mas por que no resgata o erro de tantos anos? Por que no faz datar de si
o exemplo s geraes futuras?

Falando assim, no nos dirigimos ao povo, que
carece de iniciativa.

To pouco alimentamos a idia de uma dissenso
poltica; conservadores ou liberais, todos so filhos da terra que Tiradentes
queria tornar independente. Todavia, h razo para perguntar ao partido liberal,
ao partido dos impulsos generosos, se no era uma bela ao, tomar ele a
iniciativa de uma reparao semelhante; em vez de preocupar-se com as questes
de subdelegados de parquia e de influncias de campanrio.

Em desespero de causa, no hesitamos em volver os
olhos para o prncipe que ocupa o trono brasileiro.

Os aduladores ho de ter-lhe lembrado que
Tiradentes queria a repblica; mas o imperador  um homem ilustrado, e h de ver
como se distancia dos aduladores o herico alferes de Minas. Se os nimos recuam
diante de uma idia que julgam ofensiva  monarquia, cabe ao prncipe sufocar os
escrpulos, tomando ele prprio a iniciativa de um ato que seria uma das mais
belas pginas do seu reinado. Um prncipe esclarecido e patriota no podia fazer
uma ao mais nobre, nem dar uma lio mais severa.

Uma cerimnia anual, com a presena do chefe da
nao, com assistncia do povo e dos funcionrios do Estado,  eis uma coisa
simples de fazer-se, e necessria para desarmar a justia da
histria.

No sabemos at que ponto devemos confiar nesta
esperana; mas ao menos, deixamos consignada a idia.

Morro pela liberdade! disse Tiradentes do alto da
forca: estas palavras, se o Brasil no reparar a falta de tantos anos, sero um
aoite inexorvel para os filhos do imprio.

Havia meio de resvalar deste assunto para outro de
muita importncia, e que nos voltou  mente, com a presena da expedio
cientfica dos Estados Unidos.

Compreendemos, porm, que as dimenses e a natureza
do folhetim no se prestam a to graves explanaes.

Mencionemos somente um contraste curioso. A aliana
do Brasil com os Estados Unidos  um desses sucessos que os estadistas
perspicazes deviam provocar, e que o povo receberia com verdadeiro entusiasmo.
Mas as nossas toupeiras polticas recebem com tanto fastio as atenes solcitas
da repblica americana que no h nada a esperar neste sentido.

Por que ser?

Dizem c por baixo que  a antipatia do regmen
entre os dois pases. Triste razo  essa! mas  uma razo de Estado, o assunto
 grave, e ns nos limitamos a consignar mais esta sagacidade dos nossos
homens.

Entretanto, saudamos cordialmente a expedio
cientfica, e o Rev. Fletcher, incansvel amigo dos brasileiros e digno filho da
terra de Washington.

No tarda abrir-se o corpo legislativo. Vai,
portanto, agitar-se a vida poltica, a que d maiores propores o estado das
relaes do imprio com os vizinhos do sul.

Andam apostas sobre se o ministrio tem ou no tem
maioria na cmara. De envolta com as apostas correm os boatos mais
desencontrados.

Por exemplo, correu nos crculos diplomticos (o
folhetim escutou s portas, como Poinsinet) que o ministrio dava a demisso,
ficando para entrar no ministrio novo o Sr. Dias Vieira. Assim ficava o Sr.
Dias Vieira constitudo em casco de todos os batalhes ministeriais, espcie de
figura obrigada, como o Pasquino italiano.

Mas, logo depois deste boato, ou talvez
simultaneamente, correu que o ministrio ficava e que o Sr. Dias Vieira saa.
Isto era simplesmente reproduzir uma vez a identidade dos fenmenos polticos
entre o Brasil e Portugal. L, o Sr. duque de Loul desfez-se de um ministro
incmodo, o Sr. Lobo d'vila; aqui o Sr. Furtado desfazia-se de um ministro
impertinente, o Sr. Dias Vieira.

Ora, para ns  claro que o gabinete, sem aquele
ministro, fica sendo uma charada sem conceito, um enigma sem chave; no se
compreende o ministrio sem o remate do edifcio; o Sr. Dias Vieira  para ele
uma espcie de mal necessrio, como a guerra, como o duelo.

A propsito de duelo, eis-nos outra vez com o Sr.
Marqus de Lavradio.

Ocupamo-nos h meses com S. Excia., a propsito de
uma carta que o ilustre legitimista publicou na Nao, de Lisboa. A mesma
folha traz-nos uma nova pgina de S.Excia.

O nobre marqus, anunciando a publicao prxima do
jubileu de 8 de dezembro, escreve algumas linhas contra o duelo, e exorta os
duelistas a arrepiarem carreira. Algumas citaes pontifcias fundamentam as
razes de S. Excia.

No somos amigos do sangue, nem temos em pouco a
humildade evanglica. Mas, sem expor outras razes, confessamos que no nos
quadra a opinio do nobre marqus.

O duelo tem as seguintes vantagens:

1. Substitui a brutalidade do soco e do cachao;

2. Iguala as chances entre as foras
desiguais.

Como no nos embala a iluso de um completo
aperfeioamento humano,  para ns incontestvel que todos os meios que se
procurarem contra o duelo, s tero em resultado abater a dignidade e desarmar
as constituies franzinas.

O perdo s ofensas  uma grande virtude, mas 
intil pedi-la ao nosso tempo. Tambm a guerra  uma atroz calamidade, maior
ainda que o duelo, mas at hoje no se tem encontrado outra soluo para as
divergncias entre os homens.

H, porm, uma guerra legtima, a guerra da
independncia e da defesa. Quando o governo blanco, h pouco expulso de
Montevidu, encheu a medida da nossa pacincia, com as depredaes e
assassinatos dos nossos patrcios, no havia outra sada mais honrosa que a de
fazer justia por nossas mos.

Pouco depois veio o insulto do Paraguai.

Assim  que o povo brasileiro se levantou de todas
as partes, enrgico e entusiasta, para defender os seus irmos ofendidos na
campanha oriental e na provncia de Mato Grosso.

O movimento popular cresce de dia para dia. As
fileiras dos voluntrios vo enchendo de patriotas.

O assunto inspirou um jovem escritor dramtico, e
uma pea dele, com o ttulo Os Voluntrios, foi representada no teatro
Ginsio, com muito aplauso do pblico.

O crtico dos teatros j analisou demoradamente
nestas colunas a nova obra do Sr. Ernesto Cibro. Nossa simpatia pelo autor dos
Voluntrios leva-nos a reiterar aqui o julgamento do pblico e da
imprensa, dando-lhe por nossa parte os mais sinceros parabns.

Oxal que estas manifestaes de apreo devido lhe
inspirem novos cometimentos, e dem ao teatro o feliz ensejo de apresentar novas
obras suas.

Aplaudindo a pea, tambm aplaudiremos o
desempenho. Este no foi completo e irrepreensvel em todas suas partes; mas nem
por isso lhe negaremos o tributo que merecem os esforos
conscienciosos.

2 DE MAIO DE
1865.

Que dir o imperador?  amanh que Sua Majestade
deve dizer em resumo ao corpo legislativo o que se tem feito e anunciar o que se
pretende fazer na governana do pas.

Todos sabem que o discurso da coroa, na qualidade
de pea ministerial, figura ser a expresso da poltica do governo, e  o ponto
de partida dos debates parlamentares.

Temos que no ser grande ousadia redigir de
antemo o discurso da coroa. Podem faz-lo os leitores, como ns j o fizemos. O
governo, aproveitando a circunstncia de no ser ele quem pronuncia o discurso,
conquanto seja o autor, far com que Sua Majestade lhe tea um solene elogio, e
convide o pas a prestar todo o apoio  direo das coisas pblicas.

H de ser a variante de um artigo annimo dos
jornais.

Sendo assim, no podemos furtar-nos a um sentimento
de tristeza, vendo o estranho abuso que se faz da fico constitucional, em
virtude da qual o prncipe vem repetir ao parlamento uma srie de falsidades e
lugares comuns, arranjados pelos Srs. secretrios de Estado.

A coisa no  nova. E o governo nem sempre se
limita s inexatides; vai s vezes at a proposies absurdas e extravagantes.
Tivemos um exemplo na ocasio em que a coroa veio repetir ao parlamento o
programa de certo ministrio, que se definia assim: respeito da lei e economia
dos dinheiros pblicos.

A primeira vez que apareceu no parlamento to
singular programa, os homens de bom senso ficaram boquiabertos, e perguntaram se
realmente o povo devia assistir impassvel a semelhante comdia. Todavia houve
uma falange (sempre as h) que achou o programa elevado e novo, luminoso e
profundo, em vista do que  foi dando os seus votos ao ministrio.

E ficou estabelecido que o respeito s leis e a
economia dos dinheiros pblicos  deveres restritos de todo o governo moralizado
 podia ser poltica especial de um gabinete o que dava o seguinte corolrio:
Que era lcito a outro gabinete seguir uma poltica inteiramente oposta, e
esbanjar os dinheiros pblicos e desrespeitar as leis e a
Constituio.

J nos parece estar ouvindo o discurso da abertura.
H de ser uma pea cheia de promessas e de frases.  pelos domingos que se tiram
os dias santos. O parlamento h de ouvi-lo, discuti-lo e responder-lhe; mas o
parlamento, como ns, est convencido de que o discurso no passar de uma
formalidade, uma deferncia com os estilos, sem alcance nem valor
poltico.

Se isto no  novo, h muitas outras coisas que o
no so igualmente, e todas formam uma srie de sintomas desoladores.

Por exemplo,  o sistema que nos rege chegou a tal
ponto que todos se julgam capazes de ser ministro.

O governo do pas no  considerado nos seus
aspectos difceis e graves; aquilo a que s pode subir o mrito e a conscincia
dos princpios, parece em geral que pode ser dado ao primeiro organizador de
frases oratrias, como um prmio, como uma sinecura, como uma Cpua.

Tamanho fardo s podem comportar espduas robustas;
mas as coisas chegaram a tal ponto, que os indivduos chamados ao poder deixam
ficar o fardo no seu lugar, e apenas envergam a farda ornamentada e
condecorada.

Disto resulta que as pastas so apenas o incentivo
da vaidade pessoal.

E h ainda mil outras coisas que nos abstemos de
dizer para no dar ao folhetim aquele torvo aspecto de que prometemos sempre
fugir.

Aguardemos o discurso da coroa.

Falamos na ltima semana de apostas que se faziam
sobre se o ministrio ficar ou no. Quem ganhar?  difcil afianar coisa
alguma; no se pode mesmo conjeturar nada. Os ministros usam agora de uma arma,
que j foi aparada nas colunas superiores do Dirio, e com a qual o
folhetim s se ocupa no que ela tem de cmico.

 a arma da guerra.

O deus Marte  quem recebe agora os incensos e os
votos do ministrio. A linguagem deste  que o deixem viver por amor do bem
comum  do perigo nacional.

Conhecem os nossos leitores o Gastibelza de Victor
Hugo, aquela balada que comea por estes versos:

Gastibelza, l'homme  la carabine,
Chntait ainsi:
Quelqu'un de vous a vu dona Sabine,
Quelqu'un d'ici?

 uma das coisas mais preciosas da
poesia francesa; mas, no sabemos porque, ao lembrarmo-nos daqueles versos,
parece-nos ouvir as lamentaes do ministrio. A iluso  sobretudo completa
quando se chega ao estribilho :

Le vent qui vient  travers la montagne

Me rendra fou!

Ora, vejamos se se pode traduzir para
outras palavras, mesmo francesas, as lamentaes de Gastibelza :

Monsieur Furtado et ses nobles confrres

Chntaient ainsi:
"  Faut-il tomber la fleur des ministres

Et du pays?
Nous avons eu une croix d'Allemagne,

Rubans... et tout.
Le vent qui vient  travers la montagne

Nous rendra fous!

Pour vous calmer,  terrible cohorte,

Non sans regret,
Nous avons mis Beaurepaire  la porte

Par un decret.

Et maintenant qui done nos
acompagne?
C'est Camam.
Le vent qui vient  travers la montagne

Nous rendra fous!

Quand nous avons une guerre trangre

Qui va s'ouvrir,
Faut-il, messieurs, changer le ministre?

Faut-il mourir?
Le vieux snat va nous ouvrir campagne,

Veillez sur vous.
Le vent qui vient  travers la montagne

Nous rendra fous!

Ainsi chantait le fameux ministre;
Mais le pays,
Que paie, lui seul, tous le frais de la guerre,

Lui rpondit :
 Allez, allez, vous battez la campagne,

Commme un vieux soul.
Le vent qui vient  travers la
montagne
Vous rendra fous!

Allez-vous-en, messieurs et compagnie ;

Il faut tomber;
Je ne veux plus une ple bougie
Pour m'eclairer.
Quittez la chaise, o le sommeil vous
gagne,
Et couchez-vous;
Le vent qui vient  travers la montagne
Vous rendra fous!"

Que a sombra de Boileau nos perdoe a ousadia; a
lngua e o verso podem no ser puros, mas a nossa inteno de reproduzir a
verdade est salva.

E depois disto, demos de mo  poltica para passar
a coisas literrias.

Os que procuram resgatar a pureza da lngua,
trazendo  luz de uma constante publicidade as obras clssicas dos velhos
autores, sempre nos tiveram entre os seus aplaudidores mais
entusiastas.

 essa uma espcie de reao, cujos resultados ho
de ser benficos e duradouros.

Os autores da Livraria clssica, a cuja
reimpresso est procedendo o editor Garnier, esto no nmero dos que merecem os
nossos sufrgios.

Todos sabem com que solicitude e proficincia os
Srs. Castilhos se entregam ao estudo da lngua materna, matria em que
alcanaram ser juzes competentes.

A Livraria clssica, obra que mereceu desde
a sua apario merecidos aplausos,  uma coleo dos melhores fragmentos de
autores clssicos. Os Srs. Castilhos procuraram sobretudo reunir aqueles
escritos que pudessem mais facilmente insinuar-se no esprito do
pblico.

Era j rara a Livraria. E demais uma obra
to importante carecia uma edio melhor que a primitiva.  isso o que vai fazer
o Sr. Garnier. Os dois primeiros volumes publicados so os dos Excertos
do padre Manuel Bernardes.

O padre Bernardes  um dos escritores de mais
elevado conceito literrio. Nada acrescentaremos ao que dele diz o Sr. A. F. de
Castilho no estudo que acompanha os Excertos. Demais, ningum que tenha
misso escrever a lngua portuguesa, pode deixar de conhecer o autor da
Floresta e dos Exerccios morais.

A edio feita pelo Sr. Garnier  das melhores que
tm sado das oficinas de Paris.

Aguardamos ansiosamente os volumes
seguintes.

E com isto conclumos a parte literria da
semana.

 coisa verificada: enquanto se esperam
acontecimentos de certa espcie, falham todos os outros; a providncia e os
homens se encarregam de no produzir coisa alguma estranha quilo que se
espera.

No  de certo um acontecimento novo a declarao
da guerra do Paraguai  Confederao Argentina; j se esperava, segundo as
ltimas notcias. Tambm no  novidade a maneira por que Lopez fez essa
declarao; no se esperava outra coisa.

Que quer o marechalito?

Quer perder-se. Perdido estava ele. Bastavam as
foras do imprio para mandai-o passear. As armas do Brasil no carecem de dar
novas provas do seu valor e do seu poder. Mas, como se lhe no bastara a honra
de morrer s mos dos brasileiros, o matamouros conjura contra si todas as
foras organizadas da vizinhana.

As palavras do general Mitre: em trs dias nos
quartis, em quinze dias na campanha, em trs meses em Assuno,  se forem
seguidas de uma execuo imediata, marcam o caminho de todo o governo enrgico e
ativo em circunstncias to graves.

E l iamos escorregando. Pinguemos o ponto
final.

16 DE MAIO DE
1865.

Corre-nos o dever de explicar aos leitores a nossa
ausncia de tera-feira passada.

Os leitores, se estas coisas lhes causam reparo,
ho de atribuir a ausncia ao fato da crise ministerial, visto que tudo ficou
suspenso. Foi e no foi: para isso  preciso remontar  semana antepassada e
recorrer s coisas desde o comeo.

Ab Jove principium.

No ltimo folhetim fizemos algumas consideraes
sobre o que seria o discurso da coroa, e acrescentamos  parte poltica uns
versos em mau francs, alusivos  situao do ministrio do Sr.
Furtado.

Logo no dia seguinte (3 do corrente) apareceu nas
colunas do Correio Mercantil um artigo annimo em que, de envolta com o
Dirio, ramos ns atacados pessoalmente, a propsito do folhetim da
vspera.

Em casos destes temos uma regra feita: atribumos
as defesas aos defendidos, embora uma pessoa estranha as escreva.

Era necessrio responder, e quisemos faz-lo com
todas as atenes devidas; pusemos de parte a prosa, e travamos do ltego de
Juvenal e Barthlemy. O ministrio e seus defensores annimos foram objeto de
uns duzentos versos que no pecavam por excessivamente carinhosos. Feito isso,
aguardamos o dia de tera-feira. Mas, logo na vspera, produziu-se a crise, e o
ministrio de 31 de agosto retirou-se da cena.

Foi opinio de alguns amigos e colegas, e tambm
nossa, que a publicao dos versos se tornava inoportuna e tardia.

Importava-nos, sobretudo, no parecer que
mostrvamos uma fcil coragem agredindo homens cados do poder. Alm de que, os
versos referiam-se a ministros, que tinham deixado de s-lo.

Esta explicao  necessria por dois
motivos:

1. - Os leitores benvolos e simpticos, desses
que chegam a identificar-se com o escritor e a interessar-se por ele, ficam
sabendo que o nosso silncio no deve ser atribudo a um sentimento menos
confessvel.

2.- Ficam avisados todos os arlequins polticos de
que nos achamos na boa disposio de no admitir faccias e insultos annimos,
sob pretexto de defender um ministrio. Se uma circunstncia estranha  nossa
vontade privou os leitores do Dirio de alguns versos aguados, fica-nos
o caso por emenda, a fim de que em outra ocasio empreguemos uma til
celeridade.

Suponham os leitores que h depois disto uma linha
de reticncias.

Uma grande parte da semana  de assuntos
literrios: um poema e dois dramas. O poema no  novo,  uma nova edio que
acaba de chegar de Viena. J daqui ficam os leitores sabendo que se trata da
Confederao dos Tamoios do Sr. Dr. D. J. Gonalves de
Magalhes.

 uma edio revista, correta e aumentada pelo
autor.

No sabemos at que ponto o poeta atendeu s
criticas de que o seu poema foi objeto quando apareceu. No tivemos tempo de
cotejar a crtica com as duas edies. Mas o poeta declara que fez
acrescentamentos e modificaes, e corrigiu muitos versos que, ou no saram
perfeitos da primeira vez, ou deveram as suas imperfeies  m
cpia.

Lemos algumas pginas soltas, e reconhecemos, mesmo
sem comparar as edies, que o verso est mais trabalhado e limado, e mais
atendidas as leis da harmonia. Aqui receamos fazer crtica de detalhe lembrando
que alguns versos escaparam ao cuidado do autor nesta nova edio; o autor
declara que esta edio  a definitiva, mas, como no h de ser a ltima, pois
que muitas mais merece o poema, tomamos a liberdade de recordar ao poeta que uma
nova reviso tornaria a obra mais aperfeioada ainda.

No prefcio trata o autor dos motivos que o levaram
a preferir o verso solto  oitava rima. So excelentes as suas razes em favor
do alvitre que tomou; mas l nos parece que o poeta adianta algumas idias pouco
aceitveis.

No se nega ao endecasslabo a energia, a harmonia
e a gravidade; mas, concluir contra a rima em tudo e por tudo, parece-nos que 
ousar demais. Tal , entretanto, o pensamento do Sr. Dr. Magalhes nas seguintes
palavras: No h pensamento sublime, nem lance pattico, nem grito de dor que
toque o corao com a graa atenuante do consoante. E, embora o Sr. Dr.
Magalhes, para mostrar que at na prosa o consoante  mau, tenha rematado to
dissonantemente o seu perodo, julgamos que a rima pode reproduzir um pensamento
sublime e um lance pattico, sem que isto tire ao verso solto a superioridade
que lhe reconhecem os mestres.

Feito este reparo, mencionemos a nova edio da
Confederao dos Tamoios, como uma notcia literria. Parece que hoje a
vida intelectual  menor que no tempo em que apareceu o poema do Sr. Dr.
Magalhes; se o no fosse, teramos esperana de ver o poema sujeito a uma nova
anlise, onde os seus esforos seriam reconhecidos, os seus descuidos, se alguns
existem, corrigidos a tempo, com o que ganhariam o poeta e a literatura, que se
honra em dar-lhe um lugar distinto.

Dissemos acima que houve na semana dois dramas
novos de pena brasileira: so Os Cancros Sociais, pela Sra. D. Maria
Ribeiro; e as Agonias do Padre, do Sr. Dr. Reis Montenegro. Anuncia-se
ainda terceiro drama original, A Negao da famlia, do inteligente ator
Pimentel, que deve subir hoje  cena no teatro de S. Janurio.

Representam os trs teatros dramticos, ao mesmo
tempo, peas originais;  um verdadeiro milagre, que merece ser notado e
memorado.

Embora o crtico dramtico tenha de ocupar-se com
as peas em questo, consintam os leitores que consagremos duas linhas a
respeito dos dois j representados.

Mesmo em literatura, as damas devem ter a
precedncia.

0 nome da Sra. D. Maria Ribeiro no  desconhecido
do pblico. Representou-se h tempos no Ginsio um drama de sua composio
intitulado Gabriela e oferecido  nossa primeira artista
dramtica.

O longo tempo que mediou entre a sua primeira pea
e a ltima, prova uma coisa em favor da autora:  que ela no se atira 
composio sfrega e precipitada; julga melhor para o seu nome caminhar devagar
e refletidamente. Para ns  j um motivo de simpatia.

H, com efeito, entre Gabriela e os
Cancros Sociais, uma notvel diferena, um incontestvel progresso. A mo
incerta no primeiro tentmen, agora mais segura, mais conscienciosa; a autora
desenha melhor os caracteres, pinta melhor os sentimentos; a ao aqui  mais
natural, mais dramtica, mais sustentada; as situaes mais bem concebidas e os
dilogos mais fluentes.

O novo drama  ainda um protesto contra a
escravido. Apraz-nos ver uma senhora tratar do assunto que outra senhora de
nomeada universal, Mrs. Beecher Stowe, iniciou com mo de mestre.

A ao, como a imaginou a Sra. D. Maria Ribeiro,
tem um ponto de contato com o Me, drama do Sr. conselheiro Jos de
Alencar:  uma escrava, cujo filho ocupa uma posio social, sem conhecer de
quem procede. E se notamos esta analogia,  apenas para mostrar que, na guerra
feita ao flagelo da escravido, a literatura dramtica entra por grande
parte.

A luta que se trava no esprito de S. Salvador,
entre o dever do filho e os preconceitos do homem,  estudada com muita
observao; a ltima cena do 2. ato, entre o filho e a me, parece-nos a mais
bela cena da pea.

Louvamos com franqueza, criticaremos com franqueza.
A ao que interessa e prende, de ato para ato, desfalece um pouco no ltimo; o
estilo ressente-se de falta de unidade; o dilogo, em geral fluente e natural,
peca s vezes pela interveno demasiada de metforas e imagens; h algumas
cenas, mas poucas, que nos parecem inteis; e a autora deve ter presente este
preceito de arte:  toda a cena que no adianta  ao  uma
superfluidade.

Feitos estes raros ligeiros, resta-nos aplaudir do
ntimo d'alma a nova obra da autora de Gabriela, cujo talento est
recebendo do pblico legtimos sufrgios.

Resta-nos mais. Resta-nos mencionar o desempenho
igual que deram  pea os artistas do Ginsio. V-se que estes foram
ensaiados a capricho.

0 papel confiado ao Sr. Furtado Coelho foi
desempenhado de maneira a no deixar nada a desejar. Dotado de verdadeiro
talento e qualidades apreciveis para a arte a que to lucidamente serve, o Sr.
Furtado Coelho soube reproduzir com as cores da verdade os sentimentos diversos
que agitam Eugenio, e que fazem dele o centro das atenes.  na alta comdia e
no drama de sala que aquele artista tem feito a sua brilhante reputao; se
alguma coisa faltasse para firmar-lha, bastaria para isso o seu ltimo
papel.

Os Srs. Graa, Areas e Heler foram aplaudidos e o
mereceram; o primeiro pouco tinha a fazer e f-lo conscienciosamente; os ltimos
mostraram-se com toda a distino. A Sra. Cllia, no papel da escrava, e a Sra.
Julia, no da filha de S. Salvador, houveram-se igualmente bem.

Estreou nesta pea a Sra. Antonina Marquelou. No 
a Sra. Marquelou uma artista desconhecida. Foi no teatro de S. Pedro que ela
encetou h tempos a sua carreira dramtica. Ento faltou-lhe estudo proveitoso.
 provvel que agora o tenha, e j na sua estria revelou sensveis progressos.
No lhe falta nem figura, nem inteligncia; resta-lhe utilizar cuidadosamente
todos esses predicados.

Disse bem o papel de Paulina, mas faltou-lhe uma
coisa, para a qual chamo a sua ateno: faltou-lhe sentimento. O olhar, o gesto
podem fazer muita coisa: mas s a alma pode comover. Que a Sra. Marquelou no
esquea nunca esta condio essencial.

Vamos de corrida ao teatro de S. Pedro.

O nome do Sr. Dr. Montenegro  conhecido por
algumas composies representadas em diversos teatros. J mais de uma vez temos
falado nele, fazendo-lhe os elogios e as criticas que merece, com franqueza e
lealdade.

A sua nova pea, Agonias do Pobre, peca
principalmente pelo defeito que j notamos nas outras composies: encerra
algumas inverossimilhanas. Mas, posto de parte este defeito, Montenegro, a sua
pea  de todas a que mais parece ter sido cuidada, at no estilo, que alis
ainda no est aperfeioado. Abundam as situaes dramticas, cheias de vida e
de interesse, ao ponto de disfarar s vezes uma ou outra inverosimilhana, e de
granjear para o autor aplausos bem merecidos e bem proveitosos, queremos
cr-lo.

A Sra. Gabriela, encarregada do papel da
protagonista, deu s suas cenas e situaes aquele relevo que se espera sempre
do seu talento robusto e completo.

Citaremos mais dois artistas: um para louvar, o Sr.
Cardoso; outro para censurar, o Sr. Costa. O primeiro, no papel de gal,
agradou-nos tanto quanto nos desagradou o segundo no papel do usurrio.
Convidamos o Sr. Costa a recordar-se dos seus triunfos de outro tempo. Preencha
o abismo que o separa hoje desse tempo, procurando no estudo uma correo que
no lhe  impossvel.
