Poesia, O Almada, 1910

O Almada

Texto-fonte:

Poesias Completas, Machado de Assis,

W. M. Jackson, Rio de Janeiro,
1938.

Publicado originalmente em Outras Relquias, Rio de Janeiro, Garnier, 1910.

NDICE

ADVERTNCIA

CANTO PRIMEIRO

CANTO II

CANTO III

CANTO IV

CANTO V

CANTO VI

CANTO VII

CANTO VIII

O ALMADA

Poema heri-cmico em 8 cantos

(Fragmentos)

ADVERTNCIA

O assunto deste poema  rigorosamente histrico. Em
1659, era prelado administrador do Rio de Janeiro o Dr. Manuel de Sousa Almada,
presbtero do hbito de So Pedro. Um tabelio, por nome Sebastio Ferreira
Freire, foi vtima de uma assuada, em certa noite, na ocasio em que se
recolhia para casa. Queixando-se ao ouvidor-geral Pedro de Mustre Portugal,
abriu este devassa, vindo a saber-se que eram autores do delito alguns fmulos
do prelado. O prelado, apenas teve notcia do procedimento do ouvidor, mandou
intim-lo para que lhe fizesse entrega da devassa no prazo de trs dias, sob
pena de excomunho. No obedecendo o ouvidor, foi excomungado na ocasio em que
embarcava para a capitania do Esprito Santo. Pedro de Mustre suspendeu a
viagem e foi  Cmara apresentar um protesto em nome do rei. Os vereadores
comunicaram a notcia do caso ao governador da cidade, Tom de Alvarenga; por
ordem deste foram convocados alguns telogos, licenciados, o reitor do Colgio,
o dom Abade, o prior dos Carmelitas, o guardio dos Franciscanos, e todos
unanimemente resolveram suspender a excomunho do ouvidor e remeter todo o
processo ao rei.

Tal  o episdio histrico que me propus celebrar e
que os leitores podem ver no tomo III dos Anais do Rio de Janeiro, de Baltasar da Silva
Lisboa.

No poema esto os principais elementos da histria,
com as modificaes e acrscimos que  de regra e direito fazer numa obra de
imaginao. Busquei o cmico onde ele estava: no contraste da causa com os seus
efeitos, to graves, to solenes, to fora de proporo. Dos personagens que
entram no poema, uns achei-os na crnica (Almada, o tabelio, o ouvidor, o
Padre Cardoso e o Vigrio Vilalobos), outros so de pura inveno. Aos
primeiros (excetuo Almada) no encontrando vestgios de seus caracteres e
feies morais, foroso me foi dar-lhes a fisionomia mais adequada ao gnero e
 ao. Os outros foram desenhados conforme me pareceram necessrios e
interessantes.

No  exagerada a pintura que fao do prelado
administrador. Era ele, na verdade, homem irritadio e violento, conquanto
Monsenhor Pizarro no-lo d por vtima de perseguio. Inimigos teria, decerto,
e de tais entranhas, que uma noite lhe disparam contra a casa uma pea de
artilharia. Verdade  que da devassa que ento se fez resultou ter sido aquele
ataque noturno preparado por ele mesmo com o fim de se dar por vtima do dio
popular. O juiz assim o entendeu e sentenciou, e o prelado foi compelido a
pagar as custas da alada e do processo. Monsenhor Pizarro pensa que isto foi
ainda um lance feliz dos seus perseguidores. Pode ser; mas capaz de grandes
coisas era certamente o Almada. No tardou que recebesse ordem da corte para
desistir do cargo, como se colhe de um documento do tempo citado nas Memrias Histricas, tomo VII.

Observei quanto pude o estatuto do gnero, que 
parodiar o tom, o jeito e as propores da poesia pica. No canto IV atrevi-me
a imitar uma das mais belas pginas da antiguidade, o episdio de Heitor e
Andrmaca, na
Ilada. Homero e Virglio tm servido mais de uma vez aos poetas
heri-cmicos. No falemos agora de Ariosto e Tassoni. Parodiou Boileau, no
Lutrin, o episdio de Dido e Enias; Dinis seguiu-lhe as pisadas no dilogo
do escrivo Gonalves e sua esposa, e ambos o fizeram em situao anloga ao do
episdio em que imitei a imortal cena de Homero.

No se limitou Dinis  nica imitao citada.
Muitas fez ele da Ilada, as quais no vi at hoje apontadas por ningum,
talvez por se no ter advertido nelas. Indic-las-ei sumariamente.

Um dos mais engraados episdios do Hissope, o da cerca dos
capuchos, parece-me discretamente imitado do dilogo de Helena e Pramo, quando
este, no alto de seus paos, interroga a esposa de Menelau a respeito dos
guerreiros gregos que v diante de Tria. O vaticnio do galo assado  nada
menos que o vaticnio Xanto. A pintura do escudo de Aquiles inspirou certamente
a do machete do Vidigal. Dinis faz a resenha dos convidados do deo, como
Homero a dos guerreiros de Agamenon. No ltimo canto do Hissope o gnio
das Bagatelas pesa na balana as razes do deo e do bispo, como Jpiter pesa
os destinos de Aquiles e Heitor.

Com tais exemplos, e outros que a instruo do
leitor me dispensa apontar, e, porque  foro deste ramo da poesia, fiz a
imitao indicada acima.

Agora direi que no  sem acanhamento que publico
este livro. Do gnero dele h principalmente duas composies clebres que me
serviram de modelo, mas que so verdadeiramente inimitveis, o Lutrin e o Hissope. Um
pouco de ambio me levou, contudo, a meter mos  obra e perseverar nela. No
foi a de competir com Dinis e Boileau; to presunoso no sou eu. Foi a ambio
de dar s letras ptrias um primeiro ensaio neste gnero difcil. Primeiro
digo, porque os raros escritos que com a mesma designao se conhecem so
apenas stiras de ocasio, sem nenhumas intenes literrias. As deste so
exclusivamente literrias.

Posto que o assunto entenda com pessoas da Igreja,
nada h neste livro que de perto ou de longe falte ao respeito devido ao clero
e s coisas da religio. Sem dvida, os personagens que aqui figuram no so
dignos de imitao; mas alm de que o assunto pedia que eles fossem assim, 
sabido que o clero do tempo, salvas as devidas excees, no podia ser tomado
por modelo. So do Padre Manuel da Nbrega, da Companhia de Jesus, estas
palavras textuais: 'Os clrigos desta terra tm mais ofcio de demnios
que de clrigos; porque, alm do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar
a doutrina de Cristo e dizem publicamente aos homens que lhes  lcito estar em
pecado... e outras coisas semelhantes por escusar seus pecados e abominaes.
De maneira que nenhum demnio temos agora que nos persiga seno estes.
Querem-nos mal porque lhes somos contrrios aos seus maus costumes, e no podem
sofrer que digamos as missas de graa em detrimento de seu interesse'.

Numa obra deste gnero pode-se e deve-se alterar a
realidade dos fatos, quando assim convenha ao plano da composio; mas as
feies gerais do tempo e da sociedade, a essas  necessria a fidelidade
histrica. Foi o que eu fiz neste livro, convindo dizer que tudo aqui se refere
ao clero do lugar e do tempo; nada generalizei, como Boileau, nos dois versos
do seu Lutrin:

La desse, en entrant, qui voit la
nappe mise,

Admire un si bel ordre, et reconnait
l'Eglise.

Por causa destes e outros versos, um comentador
aplicou ao poeta aquilo que ele mesmo dissera do presidente de Lamoignon, que o
convidara a escrever o Lutrin: Comme sa pit tait sincre, aussi elle tait fort gaie
et n'avait rien d'embarrassant.

Dada esta explicao, necessria para uns, ociosa
para outros, deposito o meu livro nas mos da crtica, pedindo-lhe que
francamente me aponte o que merecer correo.

CANTO PRIMEIRO

I

Musa, celebra a clera do Almada

Que a fluminense igreja encheu de assombro.

E se ao douto Boileau, se ao grave Elpino

Os cantos inspiraste, e lhes teceste

Com dceis mos as imortais capelas,

Perdoa se me atrevo de afront-la

Esta empresa tamanha. Tu me ensina

A magna causa e a temerosa guerra

Que viu desatinado um povo inteiro,

Homens do foro, almotacs, Senado, [1]

Oficiais do exrcito e do fisco,

Provinciais, abades e priores,

E quantos mais,  uma, defendiam

O povo, a Igreja e a rgia autoridade.

........................................

II

E tu, cidade minha, airosa e grata,

Que ufana miras o faceiro gesto [2]

Nessas guas tranqilas, namorada

De remotos, magnficos destinos,

Deixa que o vu dos sculos rompendo

A minha voz ressurja a infncia tua.

Viveremos um dia aquele tempo

De original rudez, quando a primeira

Cor que se te mudou do muito afago

De mos estranhas e de alheias tintas,

A tosca, ingnua fronte te adornava,

No de jias pesada, mas viosa

De folhagens agrestes. Quo mudada

Minha volvel terra! Que da infncia

Te poliu a rudez pura e singela?

Obra do tempo foi que tudo acaba,

Que as cidades transforma como os homens.

Agora a flor da juventude o seio,

Que as mantilhas despira de outra idade,

Graciosa enfeita; cresceras com ela

At que vejas descambar no espao

O ltimo sol, e ao desmaiado lume

Alvejarem-te as cs. Ento, sentada

Sobre as runas ltimas da vida,

Velha embora, ouvirs nas longas noites

A teus ps os soluos amorosos

Destas perptuas guas, sempre moas,

Que o tamoio escutou brbaro e livre...

Mas, quo longe o crepsculo branqueia

Desse sol derradeiro! A asa dos sculos

Muita vez roar teu seio amado

Sem desbotar-lhe a cor. Inda esses ecos

Das montanhas, que invade o passo do homem,

Ho de contar aos sucessivos tempos

Muito feito de glria. Estrnua, grande,

Guanabara sers... Oh! no encubras

O gesto de ambio e de vaidade,

De travessa, agitada garridice,

To amvel, decerto, mas to outro

Do acolhimento, do roceiro modo

Dos teus dias de infncia. Justo  ele;

Varia com a idade o gosto; s moa,

E moa do teu sculo.

III

Reinava

Afonso VI. Da coroa em nome

Governava Alvarenga, incorruptvel

No servio do rei, astuto e manso,

Alcaide-mor e protetor das armas [3];

No mais, amigo deste povo infante,

Em cujo seio plcido vivia,

At que uma revolta misteriosa

Na cadeia o meteu. O douto Mustre [4]

A vara de ouvidor nas mos sustinha. [5]

........................................

Do forte e grande Almada que regia

A infante igreja. [6]

........................................

........................................

Tal o vate cristo que os heris mrtires

Cantou piedoso, passeando um dia

Na velha terra grega, alar-se em bando

As mesmas aves contemplou, que outrora,

Rasgando como ento o azul espao,

Iam do Ilisso s ribas africanas. [7]

........................................

CANTO II

I

........................................

II

Em doce paz agora refazendo

Tantas foras h pouco despendidas

Na crua guerra contra o vo Senado

Que, sobre ser desprimoroso e bronco,

Era um grande atrevido, e imaginava

Atar-lhe as bentas mos, vedar-lhe o passo,

Se da antiga capela  vrzea humilde

(Para poupar s reverendas plantas

A subida da ngreme ladeira)

O mrtir Sebastio mudar quisesse, [8]

s sombras se acolheu da casa sua

O regedor da fluminense igreja.

No de outra sorte o rspido pampeiro,

Depois que os campos e revoltos mares

Desabrido varreu, as asas frouxas

De novo enrola, o mpeto refreia

E  morada dos Andes se recolhe.

III

Ento a Gula, que jamais lograra

De todo triunfar na infante igreja,

A vil Preguia revoando busca

E vai ach-la cochilando  porta

De um amvel garo, que os bens houvera

E o nome dos avs,  custa ganhos

De muita cutilada e muita lana

Em frica metida. Ali com ela

Descem Indigestes e Apoplexias,

Sua querida e diligente prole;

Umas plidas so, outras vermelhas,

E todas ofegantes e cansadas,

De esvaziar boticas sem descanso

E encher continuamente os cemitrios.

Com a pesada planta a Gula toca

O peito da Preguia, que estremece,

Abre os olhos a custo, a custo a lngua

A mastigar comea alguma frase;

Quando a Irm, nestas vozes prorrompendo,

A palavra lhe corta: 'Ser crvel

Que do nosso poder sempre mofando

S a Ira governe h tanto tempo

A fluminense igreja, e que o prelado,

Das nossas armas em desdouro eterno,

Num perptuo lidar empregue os dias,

Que nem cios, nem jogos, nem banquetes

A raiva lhe moderem? Mana amiga,

Dentro em breve prostradas ficaremos.

Que o poder usurpando a pouco e pouco

Ela s reinar no mundo inteiro'.

IV

Deste jeito falando a voraz Gula,

Os brios da Preguia abala e acorda,

E a lembrana lhe traz desconsolada

De quantas vezes a terrvel Ira

As obras malogrou das artes suas.

'Vamos (lhe diz) a cercear-lhe o gosto

Do triunfo. Propcio ensejo  este

Mais que nenhum; esse revolto oceano

Que dous mundos divide, a acender guerras,

A rebelar o corao dos homens

A brbara transps'. Isto dizendo,

Toma nos braos a Preguia e voa,

Com certa frouxido cortando os ares,

E a Guanabara descem. Entre a ermida

Que ao nazareno artfice votara

A piedade crist, e esse edifcio

Que albergue foi de mseros culpados,

E onde hoje troa o popular Congresso,

A casa do prelado aos olhos surge. [9]

Ali descendo a Gula e a Preguia

Invisveis penetram, e nos braos

O fogoso pastor e seus amigos

Sem muito esforo ao corao apertam.

V

Adeus, guerras! Adeus frvidas brigas!

Os banquetes agora e as fofas camas,

Os sonos regalados e compridos,

As merendas, as ceias, os licores

De toda a casta, as frutas, as compotas

Com intervalos de palestra e jogo,

A vida so do jovial prelado.

Ele a queda no v do grande nome,

Inda h pouco temido; nem as chufas

Lhe do abalo no abatido peito.

Em vo algum adulador sacrist

Os ditos da cidade lhe levava,

As dentadas annimas da gente

Maliciosa e vadia; o grande Almada

s denncias do amigo vigilante

Os ndios ombros encolhia apenas,

Fleumtico sorria, e um bocejo

E cum arroto respondia a tudo.

VI

Com ele os dias docemente passam

Dez ou doze ilustrssimos amigos,

Entre os quais a figura majestosa

Campeava do profundo Vilalobos,

Que era a flor dos doutores da cidade,

Vigrio do prelado, e a mais
robusta [10]

Das colunas da igreja fluminense.

O pregador Veloso ali brilhava

Pelas risadas com que ouvia as chufas

Do nclito prelado, de quem era

Convencido capacho, e que esperava[11]

A posio haver de Vilalobos

Que a tribo lhe empregou dos seus parentes.

Esse era o pregador das grandes festas,

De tal quilate e to profunda vista,

Que quando orava em dias de quaresma

Analisava os textos, e exprimia

A doutrina evanglica de modo

Que a no reconhecera o prprio Cristo.

VII

Segue-se o impvido escrivo Cardoso, [12]

Que mede nove palmos de estatura,

E tem fora no pulso como gente,

E inda  mais destemido que foroso.

O Lucas, com quem foi ingrata e avara,

Ao dar-lhe entendimento, a natureza,

Tambm ali com eles palestrava.

E, sem nada entender, de tudo ria;

Mas, sendo sempre igual, a madre nossa

Em estmago o crebro compensa

Ao gordo comilo, que no contente

De devastar as nobres iguarias

Quando na casa do prelado come,

Com os olhos devora, inda faminto,

A tamina dos pretos da cozinha.

Vinha depois o Nunes, o Duarte,

E quatro ou cinco mais; porm faltava

Meia dzia de padres venerandos,

Em quem poder no teve a Gula nunca,

Nem a mole Preguia, e que enjoados

Da vida solta que viviam esses,

As sandlias  porta sacudindo,

Da aborrecvel casa se alongaram

Levando n'alma a austeridade antiga

E a pureza imortal da santa igreja.

VIII

Os mais deles em frvola conversa,

Os sucessos do dia comentavam.

Ali o alcaide-mor e o seu governo,

Entre contnuas mofas e risadas,

Dos amveis ferres picados eram,

E bem assim o temerrio Mustre

Que de si mesmo cheio, presumia

Ter o rei na barriga, e na cabea

Toda a cincia humana concentrada.

Vinha depois algum picante caso

De monacal discrdia, ou de profana

Namorao que o Nunes abelhudo,

Para o bao espraiar do grande Almada, [13]

E fazer jus s boas graas dele,

Pelas ruas colhia, e temperava

De combinadas pausas e trejeitos.

IX

Finalmente falavam da aventura

Do almotac Fagundes, que, danando

Na Rua do Alecrim com suma graa,

To derretido contemplava as moas

Que de ventas caiu no p da sala.

Ao v-lo na ridcula postura,

Desataram a rir as cruis damas,

Os gemidos cessaram das rebecas

E ps-se toda a casa em rebulio;

At que o triste e plido gamenho,

O corpo levantando e mais o ramo

De flores que no peito atado havia,

Foi na cama chorar o seu desastre.

X

Iam assim as horas desfiando

Os mandries sagrados quando a nova

Da vitria das duas gordas culpas

Troa s orelhas da terrvel Ira.

Sobre um campo voando de batalha

Ela os olhos pascia; ela no sangue

Satisfeita mirava o duro rosto;

Sbito estaca; as rspidas melenas

Impetuosa sacode; e sufocando

Um rugido feroz dentro do peito,

Rompe, como um tufo, da terra s nuvens,

Os ares corta e  bela terra desce

Que houve de Santa Cruz a lei e o nome.

Enfim assoma ao spero penedo

Que a jovem Niteri, como atalaia,

Eternamente guarda. Alguns instantes

Dali contempla os tetos da cidade,

E, outra vez devolvendo impetuosa

As rubras asas, atravessa o golfo,

E firma os ps na desejada praia.

XI

Tudo jazia em paz. Eis que um barbeiro

Que de um vizinho escanhoava o rosto,

De mil alheios casos discursando,

Irrita-se de sbito, e de um golpe

Acaba no fregus a barba e a vida.

No distante, no clebre Colgio,

Dous enxadristas de primeira plana

Uma grave batalha pelejavam

Assentados na cerca. O Doutor Lopes,

No sei se com razo, se por descuido,

Come um cavalo ou torre ao Padre Incio.

Este reclama; aquele encolhe os ombros;

Encaram-se com gesto de desprezo,

Passam do gesto  voz, da voz ao pulso,

Engalfinham-se, rolam pela terra,

Bufam, rasgam-se, mordem-se, desunham-se,

E assim mordidos e rasgados ambos

No cho sem vida longo tempo jazem.

XII

E tambm ela  fresca sombra posta

Do copado arvoredo, reclinada

Sobre a urna gentil das guas suas,

A Carioca estremeceu. Nas veias

Sente pular-lhe o sangue. Rubras flores

De cajueiro e parasitas que ela,

Para toucar-se, coos mimosos dedos

Entretecia, desparzidas todas

As lanou na corrente. Qual outrora

Quando por essas praias ressoava

O som da inbia, palpitar-lhe sente

Mais forte o corao. Sbito irada

Os negros fios speros sacode

Que ao longo da trigueira espdua caem,

E veloz arrojando-se nas ondas,

Sublev-las intenta; encher com elas

Campos e montes... Infeliz! Cansada,

Arquejante e chorosa se recolhe;

No ficou Natureza de seus braos

Tamanha empresa; e a linfa que murmura,

Como sentida dos maternos males,

Lnguida volve as preguiosas ondas.

XIII

De tais sucessos desdenhando a Ira

 casa se encaminha do prelado.

J no arde o furor nos olhos dela;

Pensativos os leva; um meio busca,

Um decisivo golpe com que abale

A adormecida igreja, quando a tunda

Ocorre do tabelio pacato

Freire, amador de moas e aventuras.

Quem as armas brandiu daquele crime?

As mos dos servos do prelado foram.

Este caso em seu ntimo revolve

A fera culpa; os olhos fita; pensa...

Repentino sorriso os lbios lhe abre;

Arreganho dissreis de faminto

Jaguaruu; achado  o grande golpe.

As asas bate a Ira e revoando

 casa vai do esmorecido Freire.

CANTO III

I

........................................

........................................

II

Que lance h hi nessa comdia humana,

Em que no entrem moas? Descorada,

Como herona de romance de hoje,

Alva, como as mais alvas deste mundo,

Tal, que disseras lhe negara o sangue

A madre natureza, Margarida

Tinha o suave, delicado aspecto

De uma santa de cera, antes que a tinta

O matiz beatfico lhe ponha.

Era alta e fina, senhoril e bela.

Olhos, tinha-os da cor incerta e vaga

Que no  puro azul nem alvo puro,

Antes combinao de ambas as cores.

Mas to sutil no entanto e to perfeita

Que no h decidir. Garos lhes chamam,

E, se no mentem fbulas gentias,

Minerva os tinha assim. Nunca mais vivo

Transparecera em rosto de donzela

Vergonhoso pudor, agreste e rude,

Que at de uns simples olhos se ofendia,

E chegava a corar, se o pensamento

Lhe adivinhava annimo suspiro

Ou remota ambio de amante ousado.

Era v-la, ao domingo, caminhando

 missa, coos parentes e os escravos,

A um de fundo, em grave e compassada

Procisso; era ver-lhe a compostura,

A devoo com que escutava o padre,

E no agnus dei levava a mo ao peito,

Mo que enchia de fogos e desejos

Dez ou doze amadores respeitosos

De suas graas, vrios na figura,

Na posio, na idade e no juzo,

E que ali mesmo,  luz dos bentos crios,

(To de longe vm j os maus costumes!)

Ousavam inda suspirar por ela. [14]

III

Entre esses figurava o moo Vasco.

Vasco, a flor dos vadios da cidade,

Namorador dos adros das igrejas,

Taful de cavalhadas, consumado

Nas hpicas faanhas, era o nome

Que mais na baila andava. Moa havia

Que por ele trocara (erro de moa!)

O seu lugar no cu; e este pecado,

Inda que todo interior e mudo,

Dous teros lhe custou de penitncia

Que o confessor lhe imps. Era sabido

Que nas salas da casa do governo,

Certa noite, de mgoa desmaiaram

Duas damas rivais, porque o magano

As cartas confundira do namoro.

Estas proezas tais, que o frtil vulgo

Com aumentos de casa encarecia,

E a bem lanada perna, e o luzidio

Dos sapatos, e as sedas e os veludos,

E o franco aplauso de uns, e a inveja de outros,

O cetro lhe doaram dos peraltas.

IV

E contudo, era em vo que  ingnua dama

A flor do esquivo corao pedia;

Inteis os suspiros lhe brotavam

Do ntimo do peito; nem da esperta

Mucama,  natural cmplice amiga

Desta sorte de crimes, lhe valiam

Os recados de boca;  nem as longas,

Maviosas letras em papel bordado,

Atadas com a simblica fitinha

Cor de esperana,  e olhares derretidos,

Se a topava  janela,  raro evento,

Que o pai, varo de bolsa e qualidade,

Que repousava das fadigas longas

Havidas no mercado de africanos,

Era um tipo de slidas virtudes

E muita experincia. Poucas vezes

Ia  rua. Nas horas de fastio,

A jogar o gamo, ou recostado,

Com um vizinho, a tasquinhar nos outros,

Sem trabalho maior, passava o tempo.

V

Ora, em certo domingo, houve luzida

Festa de cavalhadas e argolinhas,

Com danas ao ar livre e outros folgares,

Recreios do bom tempo, infncia darte,

Que o progresso apagou, e ns trocamos

Por brincos mais da nossa juventude

E melhores decerto; to ingnuos,

To simples, no. Vo longe aquelas festas,

Usos, costumes so que se perderam,

Como se ho de perder os nossos de hoje,

Nesse rio caudal que tudo leva

Impetuoso ao vasto mar dos sculos.

VI

Abalada a cidade quase tanto

Como nos dias de solene festa

Da grande aclamao, de que inda
falam [15]

Com saudade os muchachos de outro tempo,

Vares agora de medida e peso,

Todo o povo deixara as casas suas.

Grato ensejo era aquele. Resoluto

A correr desta vez uma argolinha,

O intrpido mancebo empunha a lana

Dos combates, na fronte um capacete

De longa, verde, flutuante pluma,

Escancha-se no dorso de um cavalo

E armado vai para a festiva guerra.

VII

Ia a passo o corcel, como ia a passo

Seu pensamento, certo da conquista,

Se ela visse o brilhante cavaleiro

Que, por amor daqueles belos olhos,

Derrotar prometia na estacada

Um cento de rivais. Subitamente

V apontar a rspida figura

Do rspido negreiro; a esposa o segue

E logo atrs a suspirada moa,

Que lentamente e plcida caminha

Com os olhos no cho. Corpilho a veste

De azul veludo; a manga arregaada

At  doce curva, o brao amostra

Delicioso e nu. A indiana seda

Que a linha mo da moa arregaava,

Com aquela sagaz indiferena,

Que o demo ensina s mais singelas damas,

A furto lhe mostrou, breve e apertado

No sapatinho fino, o mais gracioso,

O mais galante p que inda h nascido

Nestas terras:  taco alto e forrado

De cetim rubro lhe alteava o corpo,

E airoso modo lhe imprimia ao passo...

VIII

Ao brioso corcel encurta as rdeas

Vasco, e detm-se. A bela ia caminho

E iam com ela seus perdidos olhos,

Quando (viso terrvel!) a figura

Plida e comovida lhe aparece

Do Freire, que, como ele namorado,

Contempla a dama, a suspirar por ela.

Era um varo distinto o honrado Freire,

Tabelio da terra, no metido

Nas arengas do bairro. Pouco amante

Dessa glria que tantas vezes fulge

Quando os mortais merecedores dela

Jazem no eterno p, no se ilustrara

Com atos de bravura ou de grandeza,

Nem cobiara as distines do mando.

Confidente supremo dos que  vida

Dizem o ltimo adeus, s lhe importava

Deitar em amplo in folio as derradeiras

Vontades do homem, repartir coa pena

Pingue ou magra fazenda, j cercada

De farejantes corvos,  grato emprego

A um corao filsofo, e remdio

Para matar as iluses no peito.

Certo, ver o usurio, que a riqueza

Obteve  custa dos vintns do prximo,

Comprar a eterna paz na eterna vida

Com biocos de pstumas virtudes;

Em torno dele contemplar ansiados

Os que, durante longo-ridos anos,

De lisonjas e afagos o cercaram;

Depois alegres uns, sombrios outros,

Conforme foi silencioso ou grato

O abastado defunto,  emprego  esse

Pouco adequado a jovens e a poetas.

IX

Jovem no era nem poeta o Freire;

Tinha oito lustros e falava em prosa;

Mas que s tu, mocidade? e tu, poesia?

Um auto de batismo? quatro versos?

Ou brancas asas da sensvel pomba

Que arrulha em peito humano?

nico as perde,

Quem o lume do amor nos seios d'alma

Apagar-se-lhe sente. A nvoa pode

Qual turbante mourisco, a cumeada

Das montanhas cingir da nossa terra,

Que muito, se ao redor viceja ainda

Primavera imortal?

Um dia, ao v-la

De tantos requestada a esquiva moa,

Sente o Freire bater-lhe as adormidas

Asas o corao. Que no desdoura,

Antes lhe d realce e lhe desvinca

A nobre fronte a um homem da justia,

Como os outros mortais, morrer de amores;

E amar e ser amado , neste mundo,

A tarefa melhor da nossa espcie,

To cheia de outras que no valem nada.

X

Margarida no entanto ia caminho.

E, ou fosse inteno, ou fosse acaso,

A linda moa um ramo que trazia

De alvas saudades entre os lindo dedos,

Deixa-lho aos ps cair. Quem vos pudera

Pintar o regozijo, o espanto, a glria

Que transluziu de sbito no rosto

................ J trmulo se curva,

A apanhar satisfeito a odiosa prenda...

.....................................................

Quando rubro de clera e despeito

Pica as esporas, galga de um s lance

O pequeno intervalo, e mais depressa

Do que cruza um fuzil nos turvos ares,

Ou muda de lugar vadia estrela,

Coa pata do ginete o ramo abafa

E estas palavras furiosas solta:

Vilo! suspende ou morres! Amarelo

Como lauda de pblica escritura

Que envelheceu, e trmulo de medo,

O Freire recuou. Desmonta e apanha

As pobres flores; respeitoso as beija,

E com elas adorna as plumas do elmo.

Depois fitando com desprezo o triste

Tabelio, lhe brada: 'Se inda ousares

Os olhos levantar quela dama,

O castigo hs de ter da audcia tua;

No brbaro, decerto, que no vale

Tua pessoa a pena de um delito;

Mas ridculo, sim; um tal castigo

Que na memria fique da cidade,

Que as mes contem s filhas casadeiras,

E de eterna irriso teu nome cubra'.

Disse, e montando no corcel que estava

Impaciente de voar  lia,

Dali se foi a largo trote, enquanto

Oposto rumo furioso segue

O abatido rival.

X

Ora, uma noite, aps conversa longa,

Freire encostado ao muro, ela  janela,

Naquele doce olvido de si mesmos

Em que toda se envolve a alma encantada,

Aps ardentes e trocados beijos,

Trocados... mas de longe,  a bela moa:

'Adeus! (murmura)  tarde; vai-te embora.

Se papai nos descobre, estou perdida.

Foge, meu doce amor; olha, no percas,

Por um instante mais, toda a ventura

Que nos aguarda em breve. Tanta gente

Tem inveja de ti! No sei, receio;

Fala-me o corao...'  Com voz macia,

Replica o namorado: 'Importa pouco,

 minha bela Margarida, a inveja

De to frouxos rivais. Se for preciso,

Eu, que sou to pacato, a todos eles

Darei uma lio de tanto peso

Que inda depois de mortos e enterrados,

Lhes doer nas abatidas costas.

Que queres? Minha fora s tu; teus olhos

Para mim valem mais que cem espadas.

Com eles na memria, amada minha,

Nada temo na terra; um regimento,

Um touro bravo, cem medonhas cobras,

Uma horda guerreira de tapuias,

Tranqilo afrontarei, se a tua vida,

Se o nosso amor, de os afrontar dependem'.

XII

Assim falou o Freire; e despedidos

Um do outro com juras e protestos,

Depois de muitas e bonitas cousas,

Desapareceu a bela Margarida,

Enquanto o resoluto namorado

Para os lares inclina a ousada proa.

No cuides tu, taful do tempo de hoje,

Que ao toque da alvorada  casa tornas,

Cantarolando uma ria que a Lagrange

Nos desvos da memria te h deixado,

Que era fcil ento, nas horas mortas,

Andar desertas ruas. Treva espessa

O caminho escondia. Gs nem leo

Os passos alumiava ao caminhante

Que no trouxesse a clssica lanterna. [16]

E lanterna traria um namorado

Que andava s aventuras? Bom piloto

Da cidade natal, l ia o Freire

Sem muito tropear buscando os lares.

Cem quimeras, batendo as asas leves,

Lhe revoam na mente. Ele imagina

Que o velho pai da moa, perdoando

A secreta paixo, lhe entrega a filha

E seu genro o nomeia; que a cidade

De outro assunto no fala uma semana.

J o casto vu de noiva lhe arrancava

Com as sfregas mos...

XIII

Confusas vozes

Ouve subitamente a poucos passos;

Dez vultos surgem, vinte braos se erguem,

E dez golpes de junco lhe desdouram

A descuidada espdua. O pobre Freire,

Para ameigar ou convencer os brbaros,

Um discurso comea; mas sentindo

A cada frase dez protestos juntos,

A tangente procura das canelas,

E a correr deita pelas ruas fora.

Ento, comea a tenebrosa e longa

Odissia de voltas e revoltas,

Que em suas vastas regies etreas

As lcidas estrelas contemplaram

A rir  solta, a rir de tal maneira

Que todo o espao foi sulcado logo

De lgrimas brilhantes,  meteoros

Lhes chama a veneranda astronomia.

Ei-lo que volta rpido as esquinas,

Os passos negaceia, aqui descansa,

Ali tenta ameaar os seus algozes,

Vinte vezes tropea e cai por terra,

Vinte vezes ligeiro se levanta,

Grita, voa, murmura, implora e geme,

T que, ofegante de cansao e medo,

Na lagoa parou da Sentinela.

XIV

Com os ossos modos, e vexado

Da triste posio em que se vira,

O miservel amador na cama

Foi lastimar os brios e as costelas;

E j nas mos de um benfazejo sono

O esprito entregava, quando a Ira

Com asas de cor de fogo, lhe aparece,

E deste modo fala: Que sossego,

Que covardia  essa que te embarga

A voz para punir tamanha injria

De um rival?... Sim, rival, que em seu desforo,

Dez homens apostou? Pois sabe,  msero,

Que o teu futuro do castigo pende;

A sentena que houver punido o infame,

Caminho te abrir para as venturas

ntimas, conjugais. Fortuna  dama

Que os coraes medrosos aborrece.

Despe a modstia que te peia os braos;

Vai ao Mustre falar; expe-lhe a queixa,

E vinga de um s lance o amor e o brio!

XV

Disse, o teto rompeu, voou no espao.

Era sonho ou viso? Por largo tempo,

Entre um grupo de plidas estrelas,

A figura agitara as rubras asas,

T que se ouviu um singular estrondo

Remoto e prolongado. Ningum soube

A causa disto, mas afirma um cabo

De ordenanas ter visto alguns minutos

Sobre a Gvea chover enxofre e cinzas.

CANTO IV

I

J sobre os tetos da cidade infante

Novembro as asas clidas abria,

Que mil speros ventos intumescem

E outras tantas famosas trovoadas

Clssicas, infalveis dos bons tempos,

Quando o leito buscando o forte Almada

A sesta foi dormir como costuma.

Cheio ainda dos gabos do Veloso,

Que num longo sermo daquele dia,

Com arte e jeito o nome seu alara

Muito acima das ntidas estrelas;

Estende-se na cama; e a fantasia,

Naquele bruxulear em que no vela

Nem dorme ainda a humanidade nossa,

Comea de pintar-lhe um vasto quadro

De grandezas futuras. V as guas

De Niteri rasgando a nau famosa

Que o levaria s guas da Ulissia,

Para o bago empunhar do arcebispado.

Nem s isso, que o papa, desejando

De tal sujeito coroar os mritos,

Cede  insinuao da Companhia,

E lhe manda o chapu cardinalcio

Com mais duas fivelas de esmeralda.

II

J mais dormido que acordado estava,

E na regio das lcidas quimeras

Todo se lhe engolfava o nimo ardente,

Quando uma voz subitamente o acorda.

Era a terrvel Ira, que tomando

A figura de Vasco, seu sobrinho,

Na alcova entrou bradando desta sorte:

Oh que afronta, meu tio! que desonra!

Quem tal dissera? O tresloucado Mustre,

O ouvidor atreveu-se... Isto dizendo

Numa cadeira cai; salta da cama

Aturdido o prelado e lhe pergunta

Que afronta, que ousadia, que mistrio

Anunciar-lhe vem daquele modo.

Ento a Ira, revolvendo os olhos,

Com voz surda lhe diz que o fero Mustre

Atrevera-se a abrir uma devassa

Entre os servos da Sua Senhoria.

III

Como a galinha, que travesso infante

De alguns queridos pintos despojara,

Na defesa da prole irada avana,

Tal rugindo de clera descreve

Em quatro passos a comprida alcova

O grande Almada. Sbito estacando,

A vista crava no vazio espao.

Ali (milagre s da roaz clera!)

V a figura do atrevido Mustre;

E com olhos, com gestos, com palavras

O ameaa de morte e lhe anuncia

Que h de eterna vergonha os ossos dele

Insepulto levar de idade a idade.

To incrvel (diz ele), enorme audcia

De vir meter as mos no que pertence

 minha eminentssima pessoa

Um castigo h de ter,  exemplo raro,

Que servir de pblico escarmento,

E de algum pasmo aos sculos futuros!

IV

Disse; e, tomado de furor estranho,

Gesticulando sai; e enquanto a tarde

Pela morena espdua o vu devolve

Com que baixa a montanha e  vrzea desce,

Concentrado vagou de sala em sala.

V

Longa a noite lhe foi; spero catre

Os macios colches lhe pareciam

Ao pastor fluminense, que cem vezes,

Que cem vezes fechara os tristes olhos,

Sem conseguir dormir a noite inteira.

No crebro agitado lhe traava

A mo da Ira mil diversos planos

Contra o fero ouvidor. Ora imagina,

Em saco estreito atado na cintura,

Mandar deit-lo aos peixes; longos anos

Encerr-lo em medonho, escuro crcere;

Ou j numa fogueira, concertava

Pelas discretas mos do Santo Ofcio,

Esmero d'arte e punio de hereges,

Como um simples judeu, torr-lo aos poucos.

VI

Mas, de baldados sonhos fatigado,

O prelado da cama se levanta.

Enfia as cuecas, os pantufos cala

E manda ali chamar o seu copeiro.

Corre Anselmo trazendo respeitoso

De alvo grosso mingau ampla tigela

Com que o prelado consolar costuma,

Antes de se voltar para outro lado,

O laborioso estmago, e ao v-lo

De p, meio vestido e to esperto,

Os olhos espantados arregala

E exclama: 'Santo Deus! a estas horas!

Que milagre, senhor, ou que promessa

Fez Vossa Senhoria que o obrigue

A to cedo deixar sua cama?'

 'Anselmo, nem milagre, nem promessa

(Responde o grande e valoroso Almada).

Se eu fiz hoje uma cousa nunca vista,

Se eu precedi o sol nesta cidade,

Causa nica foi um grave assunto

Que o sono me tolheu a noite inteira.

Ao cozinheiro vai da minha parte,

Dize-lhe que um jantar de dez talheres,

Sem olhar a despesas me prepare,

Que hoje quero brindar por certa causa

Alguns amigos meus. Do teu antigo

Zelo confio, como sempre, a mesa;

Deita os cristais abaixo; na de Holanda

Toalha que mais fina houver na casa,

Com arte me dispe, com simetria,

A baixela melhor.'

VII

Isto dizendo,

A matutina refeio despacha;

Murmurando de clera se veste,

E roxo como a renascente aurora,

Chama um lacaio e um bilhetinho manda

s colunas da igreja fluminense.

Tal o prudente capito, se as armas,

Que at ali defendeu, vexadas foram,

A conselho convoca os demais cabos,

E do ousado inimigo prontamente

Decretam juntos a vergonha e a morte.

VIII

Quando veio o jantar, sombrio e mudo,

Sentou-se o grande Almada e, mastigando,

Com distrado gesto, alguns bocados,

Nenhuma frase de seus lbios solta.

Debalde o Vilalobos, seu vigrio,

Todo se remexia na cadeira;

Debalde o mdio Lucas consultava

Os seus colegas, desejosos todos

De irem dormir a costumada sesta;

A misteriosa causa do silncio

Em que o prelado jaz ningum descobre.

Enfim, o grande Almada se levanta,

E para a ceia diferindo o caso

(Tanto nele inda a clera rugia!)

Sem a bno e as rezas de costume

Tornou da mesa extinta ao fofo leito;

Doce exemplo que os outros imitaram,

E em desconto de algum perdido tempo,

Dormiram muito alm de ave-marias.

IX

Mas o Veloso, adulador e astuto,

No conseguiu dormir. Em vo na cama

As posies mudava; o pensamento

Velava inteiro e afugentava o sono.

Maravilha era essa, e grande, e rara,

Pois entre os dorminhocos desse tempo

Tinha lugar conspcuo; antes das nove,

Sem embargo da sesta, era defunto,

E nunca ouvira o despertar do galo.

X

Quando, ao sinal da ceia, aparelhados

Correram todos  pejada mesa,

Antes de se sentar, silncio pede

O Veloso e, trs vezes a cabea

Curvando, fala: Se partis conosco

Magnnimo prelado, as alegrias,

Por que as mgoas furtais aos nossos olhos?

Ah! dizei que importuna, estranha causa

Melanclico vu no amado rosto

Desde o jantar vos ps! Debalde busco

A razo descobrir de tal mudana.

Dar-se- que, por descuido da cozinha,

Na sopa entrasse o fumo? Eu, se no erro,

Vestgios dele achei, posto que a pressa

Com que a sopa comi me disfarasse

De algum modo o sabor. Ou, no trajeto

Daqui  S, algum clrigo novo

Vos faltou coa devida reverncia?

Contai, senhor, contai a amigos velhos

Males que deles so!

XI

A tais palavras,

Com o punho cerrado sobre a mesa,

O prelado despede um grande golpe

Que faz tremer terrinas e garrafas

E apaga a cor nos lbios do Veloso.

Logo mais sossegado, e perpassando

Pela douta assemblia um olhar grave,

Encara o pregador; e dando  fala

Menos rude expresso, assim responde:

 No, amigo, a razo da minha clera

Nenhuma dessas foi. A baixa inveja

Do presumido Mustre, a quem basbaques

Tecem descompassados elogios

E cujo nome nas tabernas brilha,

Isto s me acendeu dentro do peito

Desusado furor. Vs do meu cargo

Companheiros fiis, que com diurna,

Noturna mo versais minha alma inteira,

Uma parte tomai da funda mgoa

E ajudai-me a punir tamanha afronta!

XII

Aqui refere o caso da devassa

Que aos figadais, solcitos amigos,

Lhes arrepia as carnes e o cabelo,

E desta sorte acaba o seu discurso:

'Eu merecera arder no eterno fogo

Que o co tinhoso aos pecadores guarda,

Viver de bacalhau toda a quaresma,

Dormir trs horas numa noite inteira,

Se esse infame ouvidor, parto do inferno,

Triunfasse de mim, e ao riso e s chufas

Me expusesse da plebe e dos lacaios.

Que diriam de mim nesses conventos,

Focos de luz, onde o meu nome h muito

De to ilustre ofusca os outros nomes,

Qual a um raio se v do sol brilhante

Da noite os claros lumes desmaiarem?

Eia! a afronta comum igual esforo

De todos ns exige. As vossas luzes

Me ajudaro neste difcil caso,

E se inda o mundo no perdeu de todo

O lume da justia, aquele biltre,

Que to cheio de si anda na terra,

Tamanho tombo levar do cargo

Que estalar de espanto e de vergonha.

XIII

Assim falou Almada, e toda a mesa

Lhe aprovou o discurso. O Vilalobos,

Em quem os olhos fita o gro prelado,

Algum tempo medita um bom alvitre,

E ia j comear a sua arenga

Quando o astuto Veloso a vez lhe toma:

Minha idia, senhor,  que esse infame

Nem alma, nem vigor, nem bizarria

Houve do cu, e que abater-lhe a proa

O mesmo vale que esmagar brincando

Uma pulga, um mosquito, uma formiga.

Mas porque seja bom tapar a boca

Aos vadios da terra, e porque vale,

Em certos casos, afetar nas formas

Tal ou qual mansido, que no existe,

Cuido que em lhe mandando uma embaixada

A exigir-lhe a devassa...

XIV

Nunca! Nunca!

(Interrompe o vigrio). Uma embaixada!

Tratar de igual a igual a um bigorrilhas!

E tal cousa, senhor, nascer-lhe pde

No claro entendimento? Todo o lustre,

Valor e autoridade a igreja perde

Se no falar de cima ao tal pedante,

Com desprezo, com asco. Em boa regra,

Cortesia demanda cortesia;

Mas um vilo que a processar se atreve

Os criados da casa do prelado,

Em vez de uma embaixada, merecia

Nas costas uma dose de cacete.

No, senhor;  meu voto que se mande

Uma singela, e seca, e rasa, e nua

Citao para a entrega da devassa

No prazo de trs dias. Desta sorte

No se abate o prelado, nem as nobres

Insgnias enlameia do seu cargo,

Que eles e ns todos conservar devemos

Puras de vil contato.

XV

 Mas a pena?

(Triunfante o Veloso lhe pergunta).

Uma pena h de haver com que se obrigue

A cumprir o mandado? Suponhamos

Que entregar a devassa ele recuse,

Que recurso nos dais para sairmos

Deste apertado lance? H de o prelado

Ver mofar do poder que lhe compete?

A derrota assistir da causa sua?

Humilhar-se? Eu jamais aprovaria

To singular idia. Uma embaixada,

Sem da igreja abater os sacros foros,

Com jeito e mancha alcanaria tudo,

E se nada alcanasse,  to brilhante

A fama do prelado, que bastava

A causa remeter para Lisboa,

Que em seu favor viria o rgio voto.

XVI

Acabou de falar. Ento a Gula,

Que presente ali estava, enquanto a Ira

O belicoso esprito lhes sopra

Aos duros capites, lhes vai roendo

As famintas entranhas, qual nos contam

Do filho de Climene, que primeiro

Ao cu roubara o lume, antes que o tempo,

Longo volvendo sculos e sculos,

Real tornasse a fbula do homens

E nos desse o teu gnio, imortal Franklin.

XVII

E depois que a discreta companhia,

Por no perder o precioso tempo,

Foi comendo e falando sobre o caso,

Fazendo a lngua dous ofcios juntos,

Esta sentena lavra o grande Almada:

Acho muito cabida e boa a idia

Do pregador Veloso; mas no menos

Razovel a idia me parece

Do profundo vigrio. Aceito-as ambas

E pratic-las vou. Desta maneira

Ostento mansido, e com mais fora

O golpe lhe darei se me recusa

A devassa entregar. Ao mesmo tempo

Alterada no vejo a paz gostosa

Em que de outras fadigas descansamos.

Entretanto convm que armado e pronto

V logo o embaixador. A vs incumbo

(O forte Almada ao Vilalobos disse)

Da solene feitura de um mandado

Coo prazo de trs dias, e com pena

De... excomunho!

XVIII

Aqui um alto grito

De espanto, de terror, de entusiasmo

Rompe do peito aos venerveis scios.

Como nas horas da calada noite

Uma pndula bate solitria,

Depois outra, mais outra, e muitas outras

Montonas o mesmo som repetem,

Assim de boca em boca os reverendos

Excomunho! excomunho! murmuram,

Porventura algum deles duvidoso

Se aquela vencedora espada antiga

Que as heresias combateu da Igreja

Empregar-se num caso deveria

De to pequena monta; mas, guardando

Essa idia consigo, que no rende

Os risos do prelado nem os fartos

Jantares que amide lhe oferece,

Com todo o gosto a excomunho aplaude

Do insolente juiz.

XIX

Ento o Lucas

Que, desde que estreara a lauta mesa,

Come com quantos dentes tem na boca,

Que uma assada cutia despachara,

Quatro pombos, e de uma grande torta

Ia j caminhando em mais de meio,

A boca levantou do eterno pasto

E falou desta sorte: Bem humilde

 meu brao, senhor; mas se a defesa

Dos sacros foros meu esforo pede,

Contar podeis comigo neste lance,

E certo estou que em deciso e zelo

Ningum me h de exceder. Proponho agora

Que nesta ocasio grave e solene

Juramento faamos de puni-lo

Ao ouvidor, e no deixar o campo

Sem a honra lavar do nobre Almada.

Isto dizendo, da cadeira a custo

A barriga levanta o reverendo;

Todos o imitam logo, e sobre a mesa

Alam as mos e juram de vingar-se

Do presumido Mustre; e porque a empresa

Novos brios pedia, em pouco tempo,

Com raro esforo, toda a mesa varrem.

XX

Entretanto, afiando  porta o ouvido,

Longo tempo escutara o moo Vasco

As deliberaes do gro conselho,

E receoso da tremenda guerra

Que dali certamente nasceria,

Pondo em risco talvez sua pessoa,

Entra plido e trmulo na sala.

XXI

Ao v-lo demudado, os circunstantes

Estremecem de susto. Qual receia

Que o Mustre, sabedor do que se passa,

A suas Reverncias um processo

Instaurara de pronto. Qual cogita

Que cem homens de tropa os tm cercados

E ouve j, na escaldada fantasia

Ranger nos gonzos a medonha porta

Do crcere perptuo. Tu somente,

Vilalobos, e tu, Cardoso forte,

O corao pacfico tivestes,

E a frieza imitastes do prelado.

XXII

Ruins novas trazeis, ao que parece,

Vasco! (o tio lhe diz); e suspirando

O moo lhe responde: Novas trago

E penosas, senhor. Sabei que o monstro,

A causa principal do triste oprbrio,

O autor de tantos e tamanhos males,

nico eu sou. Meu atrevido brao

Armou os vossos servos;  seu crime

Verdadeiro, e fui eu... Calara o resto,

Algum tanto vexado, mas o tio,

Contraindo as grisalhas sobrancelhas

Com que faz abalar toda a famlia,

Nestas speras vozes logo rompe:

 Que! um crime! Houve um crime! E qual? e quando?

E por que causa?  A causa era a mais pura:

Amor...

XXIII

A tais palavras o auditrio

De boca aberta fica, mal ousando

Acreditar em tanto atrevimento

E curioso de saber o resto.

Mais que todos os outros, o Veloso

Interrogar quisera o moo Vasco;

Contudo nada diz, que  regra sua

Sondar primeiro ao nimo ao prelado,

De quem copia sempre a catadura

E  turvo se ele  turvo; alegre, alegre.

XXIV

Ora pois! fosse a causa amor ou dio

(O tio diz) importa nada ao caso.

Nem por isso uma linha s recuo

Do meu procedimento. Desejara,

No entanto, a histria ouvir do teu delito.

Esta grave assemblia certamente

Preferira entreter-se de outras cousas

Mais chegadas  nossa dignidade

E santa condio; mas no importa;

Um dia no so dias, e  de jeito

Que instruamos de todo este processo.

Isto dizendo, a uma cadeira vaga

Que defronte lhe fica, estende o dedo.

Vasco obedece. A douta companhia,

Que ansiosa esperava aquele instante,

As cadeiras arrasta procurando

Idnea posio para escut-lo.

Enche os copos Anselmo e se retira.

XXV

Prontos  escuta, emudeceram todos*

E o moo comeou: 'Mandais-me,  tio,

Que a lembrana renove do namoro

Infeliz, e a ridcula aventura

Em que fui grande parte. Ora vos conto

O misterioso caso da assuada.

Que essas estrelas curiosas viram,

Certa noite de amores encobertos

Em que um rival do amargo seu triunfo

A pena teve, e causa foi da afronta

Que hoje padece Vossa Senhoria.

........................................

........................................

Neste ponto o prelado, desejoso

De disfarar o natural vexame

Que a narrao mundana lhe fazia,

Da profunda algibeira a caixa arranca

Do tabaco, abre-a, tosse, esfrega os dedos,

E uma grossa pitada apanha e funga.

O perspicaz conselho o imita logo;

Aventam-se as bocetas; os obsquios

Trocam-se mutuamente os convidados;

Qual de uma vez na larga venta insere

O precioso p; qual o divide

Benvolo entre as duas; e coos lenos

Os reverendos... sacudidas,

Deste modo prossegue o moo Vasco:

........................................

........................................

........................................

CANTO V

I

J nas macias, preguiosas camas

Santamente roncava o gro conclave,

Quando, em frente da mesa, carregada

De volumes, papel, e tinta e penas,

O douto Vilalobos se assentava.

Isto vendo, a Preguia, que o mais dcil

Dos seus alunos no vigrio tinha,

As formas adelgaa, o colo estica,

Afila os dedos, o nariz alonga,

E as feies copiando do escrevente,

Busca o vigrio, e do mago do peito

Molemente esta fala arranca e solta:

Senhor, que grande novidade  esta?

Pela primeira vez, depois das nove,

Esquece-vos colcho e travesseiro,

Que essas valentes e cevadas formas

Com tanto amor criaram? Que motivo

Apartado vos traz da vossa cama?

Porventura esse cargo precioso

Que to alto vos ps nesta cidade

No vos d jus a regalar o corpo

Coas delcias do sono? Que seria

Dos empregos mais altos deste mundo

Se no fossem razo de boa vida?

E que lucrais, senhor, com essa guerra?

A vaidade abater de um insensato,

Todo cheio de ventos e fanfrrias?

Mais do que ele valia Mitridates

Que Lculo bateu; mas quem se lembra

Do forte vencedor do rei do Ponto,

Quando nele contempla o mais conspcuo

Dos grandes mandries da antiguidade,

Que mais soube comer que Roma inteira?

Deixai l que se esbofe a inculta plebe

No vil trabalho com que compra a ceia;

Um homem como vs no se afadiga,

Come e ronca, senhor, que o mais  nada.

II

No, amigo (responde-lhe o vigrio

Com benvolo gesto, e todo cheio

Dos elogios); no, esta campanha

To mesquinha no , nem to mofino

O insolente rival. Tolo , decerto,

E presunoso; acresce-lhe mord-lo

Uma inveja cruel do nosso Almada.

Dbil no  quem vcios tais rene.

Derrub-lo  preciso. O grande nome,

O poder que me d este meu cargo,

E do prelado a nobre confiana,

Exigem que ao trabalho hoje me entregue

Algum tempo sequer. Nem tu receies

Que eu desperdice as minhas bentas horas

De descanso. Uma s que nisto empenhe,

To fecunda h de ser, to esticada,

Que dar quatro ou cinco em muitas noites,

E tudo se repe no estado antigo.

III

Insta a Preguia; afrouxa, afrouxa quase

O vigrio; na mente se lhe pinta

O alto, fofo colcho de fina pluma,

Em que as noites repousa, em que na sesta

A sua reverenda inrcia espraia.

Os olhos com fastio aos livros lana;

A descair os membros lhe comeam

De languidez; mas a cruel idia

De ver perdida a posio brilhante

Que na igreja lhe cabe, o brio esperta

Ao gro doutor e lhe dissipa o sono.

Em vo tenta a Preguia convid-lo

Com palavras de mel; sacode o corpo,

Encolhe os ombros, os ouvidos cerra,

E rspido a despede o reverendo.

IV

Apenas se achou s na grande sala,

Com o leno o papel sacode e a mesa,

E num velho tinteiro mergulhando

A branca pena de um comido pato,

Lana as primeiras regras. Dez autores

Largamente consulta; um trecho saca

Dez tomos diversos e massudos

Com que as velas enfune ao seco estilo.

A cada rasgo da tardia pena,

Que a suada expresso goteja a custo,

A cabea levanta o reverendo,

Todo o escrito rel com grande pausa,

As paredes consulta, e novamente

Ao trabalho com nimo arremete.

Enfim, ao cabo de uma hora longa.

A tarefa acabou. Contente salta

Da cadeira, repete a torva prosa,

E vaidoso de si, como dos versos

Que primeiro comps infantil vate,

As mos esfrega, os olhos arregala,

Pela sala passeia, e de memria

Algum trecho repete, alguma frase

Que mais arrebicada lhe sara.

O espanto do ouvidor, o entusiasmo

Do prelado, os pomposos elogios

Da cidade, na mente lhe descreve

Com destra mo e delicadas tintas

A fantasia... Mas aqui comeam

De lhe pesar as plpebras; a custo,

Trpego e bocejando, deixa a sala,

Entra na alcova, a trancos se despede

Das roupas, e na cama continua

O delicioso sonho interrompido.

V

Lepidamente abrindo o alvo regao,

E o cho juncando de purpreas flores,

Do pastor fluminense  casa torna

A travessa alegria, e ao seu aspecto,

Plida mgoa, lutuosa foges.

Sobre os moles colches inda estendido,

O lbrego papel ouve o prelado,

Que o douto Vilalobos lhe recita,

E com exclamaes e com palmadas,

Lhe aplaude a erudio e o duro estilo,

E a infalvel vitria lhe agradece.

VI

Um a um, vm chegando os reverendos,

E a todos, um por um, de cabo a cabo,

A intimao lhes l, que eles escutam,

Com muitos e rasgados elogios,

Maiormente os da boca do Veloso,

Que mal sofre ao rival este triunfo.

Mas como o fruto que seduz no rosto

E o verme esconde no corrupto seio,

Assim o pregador das grandes festas

Alegrar-se parece, enquanto a inveja

O punge, e mil idias lhe insinua

De adular o prelado, e ao Vilalobos

Arrebatar os louros, que lhe impedem,

 O sono no,  mas o sossego dalma.

VII

Ao ver-se to cercado de zumbaias,

Em si mesmo no cabe de contente

O profundo doutor, em cujos lbios

A vaidade sorri, velada a meio

Dessas vs cortesias de aparato,

E desse No, senhor! Oh! no! Oh! nunca!

Nunca esta prosa minha ambicionara

A to alto subir como pretende

A bondade de Vossa Senhoria.

 um trabalhozinho feito  pressa

S por obedecer s ordens suas.

E outras tais mogigangas de modstia,

De humildade, que so naqueles transes

Usual expresso.

VIII

Mas tu, Cardoso,

mulo foste do feliz vigrio,

Quando para intimar o austero Mustre

Te ofereceste ousado. Havia fama,

Temerrio escrivo, que a natureza

Para servo do altar te no fizera,

Que nasceras com balda de meirinho

Ou capito-do-mato. Eu mesmo
quero [17]

(Diz o forte escrivo) dar-lhe este golpe,

E certo estou de que a fatal devassa

Das mos vir do arrependido Mustre

A vossos ps cair. Cheio de gosto,

Almada esta faanha lhe elogia,

E copiada a intimao famosa,

Rubricada e selada, prontamente

A recebe o Cardoso. Dous abraos

O prelado lhe d, e mais a bno

Que o livrar das tentaes do diabo.

D-lhe inda mais. De uma gaveta saca

Um tremendo chapu pomposo e feio,

Que lhe mandara um monge italiano,

E que ele a sete chaves escondia.

Tomai (lhe diz) este chapu, que h anos

De alheias vistas guardo; ele s vale

Mais que vinte oraes; tomai-o,  vosso'.

IX

Era um chapu de trs enormes bicos.

Respeitoso o escrivo lhe imprime um beijo

E na cabea o pe, e assim de casa

Para intimar o Mustre se encaminha.

Vaidoso e cheio da misso que leva,

As ruas atravessa da cidade,

O pavor antevendo e os calafrios

Do mesquinho ouvidor, quando o mandado

De seus lbios ouvir, e na cabea

Sentir descarregar o grande golpe.

A notcia entretanto ia correndo

Pela cidade toda, e a cada passo

Nas esquinas, nas lojas se detinha

A gente curiosa e os olhos punha

No famoso escrivo; mas, sobranceiro,

Impvido calcando a dura terra,

Sem fazer caso do mido povo,

No caminho prossegue. J chegava

Aos edifcios ltimos, e a planta

O despovoado cho pisava afoito,

Quando em frente lhe surge, lacrimosa,

Brgida, mocetona de mo cheia,

Caseira sem rival, mescla robusta

De frico sangue e sangue dalva Europa.

X

Nos braos dela uma gentil criana

Dorme placidamente. Ento sorrindo,

Ao ver o belo infante, e o brando sono

Que essa alma em flor, no machucada ainda

De speras mos humanas, sobre as asas

 doce regio dos anjos leva,

Pra o Cardoso. Brgida chegando

Da mo lhe trava, os olhos ergue a medo,

E estas palavras trmula suspira:

Revendo senhor, coragem tanta,

Cega destimidez, prendas to raras

(Perdoai da caseira o atrevimento)

Fatais vos ho de ser. De boca em boca,

Corre que ides citar a toda a pressa

O brbaro ouvidor. Ai, mais que nunca

A idia de perder-vos me acobarda.

Que ser desta msera criana,

Se o padrinho lhe falta, e sem
conforto, [18]

Nem amparo, nem mo experiente

Houver de caminhar do bero  campa?

Convosco iro, senhor, os dias dela,

E os meus dias tambm, to bafejados

Daquelas auras que a fortuna sopra

Por que seja maior nossa desdita.

Quem mais irei servir? Que mesa estranha

Me ver preparar toalha e copos,

Se esse monstro infernal, que a liberdade

E a vida guarda em suas mos de ferro,

Ousar tirar-vos ambas? No me resta

Pai nem me; tive irmos; soldados foram,

Morreram todos na holandesa guerra.

Todos acho eu em vs; vs, meu amparo

T hoje heis  sido. Oh! por quem sois, vos peo,

No me deixeis, senhor, sozinha e triste

Semear de amargas lgrimas a terra,

A dura terra em que pousar meu corpo,

Deslembrada, talvez escarnecida.

 tempo ainda; arremessai ao longe

O mandado fatal;  casa vinde,

Escondei-vos dos olhos do prelado,

Que em paz ficando vos comete o risco,

E duas vidas salvareis de um lance.

XI

 Brgida (o Cardoso lhe responde)

Justos receios so do teu afeto.

Mas se eu agora depusesse as armas,

Que seria da honra desta igreja?

Onde iria parar o nosso Almada?

Eu conheo o rancor do feroz Mustre,

Eu sei que o brao da justia pode

Mil afrontas fazer aos nossos cargos,

E a cada passo encher-nos de vergonha.

Mas quo pior seria a raiva sua

Se levasse a melhor neste conflito,

Se castigando esta mortal injria,

No logrssemos ns ao mesmo tempo

Aterr-lo, humilh-lo, escangalh-lo.

V que terrveis males, que desastres

Sobre ns cairo, se inda a vitria

Couber ao mpio. O temerrio brao

Quem poder deter-lho? Quem, se um dia

Ousar da minha casa arrebatar-te,

O golpe desviar do seu capricho?

Servi-lo irs ento, msera escrava!

Ao sol ardente cavars a terra,

Sem gozar um minuto de descanso;

E se acaso na estrada, junto  cerca,

Um clrigo passar dos que me mordem,

Ao ver-te exclamar: L serve ao Mustre

A famosa caseira do Cardoso!

Triste suspiro de saudade e pena

Me mandars em vo... Oh! antes, antes

(Se tal desgraa me prepara a sorte)

Num crcere fechado  luz do dia

Viver perpetuamente, condenado

A perptuo jejum de po e gua!

XII

Disse, e do tenro infante os lindos braos

Docemente puxou. Logo desperta

Do sono a criancinha, os olhos volve

Ao herico escrivo; porm, ao ver-lhe

O gigante chapu de trs pancadas,

Grita, recua e no rolio colo

Da me esconde o apavorado rosto.

Leve sorriso ento assoma aos lbios

Da tenra me, do intrpido padrinho.

Descobre-se o Cardoso, e pondo em terra

O tremendo chapu, toma nos braos

A criancinha, um sculo lhe imprime,

E aos cus envia estas ardentes vozes:

Cus que me ouvis, fazei que ilustre e grande

Este menino seja; igual audcia,

Igual fora lhe dai, com que ele assombre

A raa toda de ouvidores novos.

Que diga o mundo ao v-lo: Ali renasce

Do valente padrinho o brio e o sangue!

E  doce me console esta homenagem.

XIII

Cala, e nos ndios braos da caseira

A criana deps; do cho levanta

O chapu; na cabea o pe de chofre.

Vai da casa cuidar (lhe diz), eu parto;

Corro a citar o brbaro inimigo.

Venc-lo cumpre ou perecer com honra.

Brgida comovida se despede

Do impvido Cardoso, e lentamente

Para casa dirige os passos trmulos,

No sem voltar de quando em quando o rosto,

Que o medo enfia e que umedecem lgrimas.

CANTO VI

I

Naquele tempo, a mo da arte engenhosa

Os elegantes bairros no abrira,

Refgio da abastana deste sculo,

E passeio obrigado dos peraltas.

Por essas praias ermas e saudosas

Inda guardava o eco o som terrvel

Do falco, do arcabuz que a vez primeira

Despertou Guanabara, e o silvo agudo

Da frecha do Tamoio. Ainda o eco

As rudes cantilenas repetia

Do trovador selvagem de outro tempo,

Que viu perdida a ptria, e viu com ela

Perdida a longa histria de seus feitos

E os ritos de Tup, perdida a raa

Que as frteis margens... Musa, onde me levas?

Filosofias vs, quimeras, sonhos,

Flores,  apenas flores,  que no valem

Tantos gozos reais dos nossos dias,

Em paz os deixa, e do ouvidor famoso

 rstica morada me encaminha.

II

No longe do tumulto da cidade,

Entre a verdura de copado bosque,

Tinha o Mustre uma casa de recreio.

Ali nos dias da estao calmosa,

Depois que  porta sacudia o tdio,

Tranqilo descansava algumas horas

Da inrcia do regao. Ali gozando

Por olhos, boca, ouvidos e narizes,

Da frtil natureza os dons mais belos,

Correr deixava o mundo, sem que a fronte

O mnimo receio lha ensombrasse.

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III

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O terrvel Cardoso. Traz fechado

Na esquerda mo o singular decreto;

Com um gesto solene o desenrola,

Tosse, escarra, compe a voz e o rosto,

E o venerando antema lhe lana.

IV

Do longo espanto o fulminado Mustre

Enfim voltou; os olhos pela estrada

Desvairados estende;  casa torna

Apressado; braceja, grita, ordena

Que o padre chamem; quatro escravos correm

E voltam sem mais novas do Cardoso

Que veloz se tornara ao grande Almada

Da triunfante misso a dar-lhe conta.

V

J trmulo de raiva, j de susto,

O magistrado fica; ora, calado

Algum tempo rumina; ora, soltando

Descompassadas vozes e suspiros,

Atnito percorre a casa inteira.

Vagamente cogita uma vingana

Contra o duro rival; mas logo a triste

Realidade o corao lhe afrouxa.

A fantasia pinta-lhe o desprezo

Dos devotos sinceros, a medonha,

A dura solido da vida sua,

O fugir dos amigos, os estranhos

Que por trs uma cruz fazendo nele,

Mais sozinho na terra vo deix-lo

Do que em praia deserta ingrato dono

Deixa um triste cavalo moribundo.

Ora pensa em fugir; ora em prostrar-se

Do sagrado pastor aos ps, rendido...

Enleia-se, vacila, nada escolhe,

E nesta triste, miservel vida,

Entre sonhos, vises, medos e angstias,

Passa o duro ouvidor trs horas longas.

VI

Enfim ceder a Almada determina,

A devassa entregar-lhe, assentar pazes,

Comprar com pouco a salvao eterna,

Uma esperana ao menos. Manda logo

 casa do escrivo que ali lhe traga

A famosa devassa, que enviada

De vspera lhe fora, e todo aflito

De sala em sala passeando espera.

VII

Mas a terrvel Ira que perdia

Deste modo a campanha comeada,

Pois no seio da paz de novo entrando,

Todo seria da Preguia e Gula

O gro pastor da igreja fluminense,

Entra na pele do escrivo Ramalho

E  casa vai do esmorecido Mustre.

Este, apenas lobriga da janela

O fiel serventurio, e nenhum rolo

Lhe descobre nas mos, trmulo fica

E outra vez assustado ao porto desce;

A tempo que o Ramalho, mais risonho

Que um cu azul, que um dia de noivado,

Apressado chegava e lhe dizia:

 Senhor, matai-me embora! No vos trago

A devassa pedida, que acho injria

Ao finssimo sangue que vos corre

Nessas honradas veias, ao respeito

Em que h muito vos tem el-rei e a corte,

Abaixar-vos aos ps de um vo prelado,

E rojar-vos no p da sacristia.

VIII

Disse, e nas amplas ventas inserindo

Do recente rap duas pitadas,

Foi por este teor desenrolando

Mil razes, mil inchados argumentos,

Com que em todas as eras deste mundo

Um naire ilustre convencer se deixa.

IX

Eu bem sei (convencido lhe responde

O ouvidor), eu bem sei que fora triste

Que um preclaro varo da minha estofa,

Cujo nome no ouve o delinqente

Sem desmaiar de susto, e que este povo

Respeitoso contempla, na baixeza

Casse de ir ao ps de um vo prelado

E rojar-se no p da sacristia.

Mas, meu caro Ramalho, que recurso

Nesta vida me resta? Tu no sabes

Que de mim vai fugir a gente toda?

Que eu vou ser o leproso da cidade?

Que meirinhos, beatas, algibebes,

E quem sabe se at os ces vadios,

Que  sumida barriga andam de noite

Pelas ruas catando algum sustento,

Tudo vai desprezar-me? Bom aviso

Quando falha a vitria na batalha,

 ceder s falanges do inimigo,

E preparar uma futura guerra.

X

O mofino ouvidor assim falando,

Com apuro a vestir-se principia,

Uma arenga compondo de cabea

Em que do seu pecado arrependido

Claramente se mostre, quando a Ira

Ao Ramalho sugere este conselho:

Salvo, salvo senhor!  salvo tudo!

Conhecido vos  como o Senado,

Em luta com o pastor da nossa igreja,

Dele tem recebido tanta injria,

E em risco est de semelhante pena.

Procurai-o, senhor, e com protesto,

Em nome da coroa e da justia,

O negcio deponde. Deste modo

A muitos caber toda essa afronta

E mais certa ser nossa vitria.

XI

Aceita foi a salvadora idia.

Saem ambos os dous no mesmo instante,

Voam, chegam  casa do Senado,

E na sala penetram. Conversavam

Justamente do caso os camaristas.

E, na pele mordendo do prelado,

Receavam talvez igual destino

Ao do fero ouvidor, se no conflito,

Que h muito trazem com o grande Almada,

O jus do povo defender quiserem;

Quando na sala entrando furioso

A sua excomunho refere o Mustre,

E lhes pede em defesa da coroa

O brao popular. Todo o congresso

Gelado fica. Sbito as cadeiras

Pela terra deitando, s portas correm

Os graves camaristas, e fugindo

Ao msero ouvidor excomungado,

Para casa se lanam. Da pedreira,

Lanado o fogo  mina, a toda a pressa

Da mesma sorte os cavouqueiros fogem

Receosos de avulsos estilhaos.

XII

Em vo a Ira, com diversas formas,

A todos busca, e amaciando a fala,

A lembrana do afeto lhes desperta,

Os jantares comidos noutro tempo,

Os festivos saraus, cartas de empenho,

Mil finezas, em suma, sepultadas

No vasto cemitrio da memria...

A filha do diabo ento sacode

Irritada a cabea, e do mais fundo

Das entranhas um grito de ameaa

E frio escrnio solta: Homens! (exclama)

Lacaios da fortuna! Eu terei armas

Com que de ingratos coraes triunfe!

XIII

Isto dizendo, mais ligeira voa

Que o soberbo condor, quando do cimo

Dos Andes rompe o assustado espao,

E vai surgir alm das altas nuvens.

Voa, e chega aos domnios da Lisonja.

Os flridos umbrais transpe de um salto.

Logo em frente lhe surge extensa e bela

Uma alameda de rvores copadas,

Que, para a terra os galhos recurvando,

Com singular donaire e afvel gesto

Cortej-la parecem respeitosas.

Caminha, e fina relva os ps lhe afaga;

Respira, e um doce aroma o peito lhe enche.

A to brando contato, a tais delcias,

 milagre! um sorriso prazenteiro

Logo vem desbrochar-lhe  flor dos lbios

Que eterna raiva aperta. Segue avante,

A branca e longa escadaria sobe,

A varanda atravessa alcatifada

De brancas flores e cheirosa murta.

J rendida de gosto, entra na sala,

D dous passos, e a receb-la chegam

Vinte ou trinta Zumbaias, que vergando

Pela cintura o corpo delicado,

Beijar o cho parecem; aps delas,

Com dourados turbulos acesos,

Vm quatro Rapaps; fechando tudo

Extensa procisso de Cortesias.

XIV

De tais recebimentos namorada,

O primeiro salo transpe a culpa,

Entra no camarim, forrado todo

De flores, de arabescos, laarias,

Que enche contnuo, tpido perfume

De seis grandes caoulas de alabastro.

Entra, e defronte de um pomposo espelho

A Lisonja descobre, que risonha

Mil cumprimentos novos ensaiava

E mil versos rasteiros repetia.

Ao ver a feroz culpa a dona amvel

Uma grande mesura em quatro tempos

Graciosa faz, e diz: A que milagre

Devo eu esta visita? Acaso o orbe,

Que ao peso treme de tuas nobres armas,

Estreito campo  j para teus feitos?

Vens o peito acender da serva tua?

Bem cruel me h de ser esse desastre,

Mas se  teu gosto, sofrerei contente,

A terra beijarei que tu pisares

E acharei na desgraa a glria minha.

A ardilosa Lisonja assim falando

Toda se curva, e a orla do vestido

Da culpa chega aos lbios; mas a Ira

Prontamente a levanta, e nos seus braos,

Com meneios benvolos, a aperta,

E logo fala: A tua paz respeito:

Turvar no venho a deliciosa corte

Donde o mundo governas; mas auxlio

Do teu engenho quero. Aqui lhe conta

A famosa aventura do prelado,

A angstia do ouvidor, e a covardia

Dos ingratos amigos de outro tempo,

E pede que a Lisonja as armas suas

Contra estes empregue. Que mesquinho

Servio exiges! (a Lisonja exclama);

Eu podia mandar quatro Zumbaias;

Tanto bastava por vencer o nimo

Dos rebeldes; mas sendo a vez primeira

Que vens honrar estes quietos paos,

Abater-lhes o colo irei eu mesma

E lev-los de rojo aos ps do Mustre.

XV

Com diligente mo os filtros busca,

E seguida da hspede no espao

Voa ligeira  plaga fluminense.

 casa dos rebeldes se encaminha,

E a todos, um por um, pela alma dentro,

O seu doce veneno lhes entorna.

De baixa adulao logo tomados,

Vestem-se a toda a pressa, e no podendo

Conter o intenso fogo que os devora,

Aos criados de casa e s quitandeiras

Vo fazendo profundas barretadas.

Tanto a Lisonja v governa os homens!

XVI

Abre a sesso de novo o presidente,

E deste modo fala: Grave caso

Este , senhores; mas as vossas luzes

Tudo podem vencer. Em meu conceito

Recusar no podemos o protesto,

E muito embora formidvel seja

O prelado, no creio que devamos

Sem amparo deixar as leis do Estado.

Nem poupar desta vez um grande golpe

No atrevido pastor. Com todo o zelo

Examinado o singular assunto,

O Senado resolve em pouco tempo

Que ao regedor supremo da cidade

Os papis se remetam com protesto

Do povo, e petio em nome dele

Por que anulada seja sem demora

A excomunho, e feito este decreto

Voam dali aos paos do Alvarenga.

XVII

O alcaide-mor, que os meios estudava

De praticar no esmorecido povo,

Com a aguda lanceta do Senado,

Uma sangria nova, cortesmente

Os faz sentar e prazenteiro os ouve,

E depois de os ouvir com grande pausa,

A petio da Cmara recebe

Sem muita hesitao; mas porque seja

O caso novo, e caminhar convenha

Sem da igreja ferir os santos foros,

Manda o governador que se convidem

Os diversos telogos da terra,

O reitor do Colgio, o Dom Abade,

O guardio dos filhos de Francisco,

Frei Baslio, prior dos Carmelitas,

E alguns licenciados de mo cheia,

Que o n desfaam deste ponto escuro.

CANTO VII

I

A Preguia, no entanto, conduzira

Aos macios colches o grande Almada,

E um sono amigo lhe fechara os olhos,

Enquanto os ilustrssimos amigos,

Todos em volta do escrivo Cardoso,

Pela dcima vez, na sala prxima,

Da excomunho a narrativa escutam,

E com ditos de mofa, e com risadas,

A vitria celebram, na esperana

De que o prelado os oua e lhes aceite

Agradecido esta homenagem nova.

II

Eis que um sonho, agitando as asas brancas

Leve espalha no crebro do Almada [19]

Como gotas de chuva rara e fina,

Um s sutil de mgicas patranhas.

Sonha... Em que h de sonhar o gro prelado?

V no espao um ginete alto e possante

 solta galopando, e logo nele,

Elmo de ouro, armadura de ao fino,

A briosa figura de um guerreiro.

Tenta irritado o indmito cavalo

O cavaleiro sacudir na terra,

Mastiga o freio, empina-se, escoiceia,

Voa de norte a sul, de leste a oeste,

Ora, a pata veloz roa nos mares,

Ora, igual ao tufo, descose as nuvens,

Mas o galhardo cavaleiro as rdeas

Coas fortes mos encurta, e pouco a pouco

O rspido quadrpede sossega

E pra no ar. No rosto do guerreiro

V as prprias feies o grande Almada,

Olhos, cabelos, boca, faces, tudo,

Tudo  dele.  prodgio! Voz solene

Do ponto mais recndito do espao,

Onde estrela no h, no h planeta,

Estas palavras singulares solta:

O bravo cavaleiro s tu, prelado,

E o domado corcel  o teu rebanho,

Que embalde morde o freio e se rebela

Contra ti que hs vencido el-rei e o povo,

Tornando em cinzas o atrevido Mustre.

III

Deste agradvel sonho consolado,

Abre o pastor os olhos, vira o corpo,

E outra vez adormece. Novo quadro

E diverso lhe pinta a fantasia.

V-se diante de provida mesa,

 direita do papa, e come e bebe

De cem bispos servido. Entusiasmado

Com as finezas de Alexandre Stimo,

O prelado um discurso principia

Depois de haver tossido quatro vezes.

Os olhos fita num painel que estava

Na fronteira parede; a mo do artista

O belo e forte arcanjo debuxara

Que a Satans venceu; s plantas suas

Jaz o eterno rebelde. Entrava apenas

No magnfico exrdio do discurso

O valoroso Almada, quando a tela

A tremer comeou; subitamente

O brilhante Miguel desaparece,

E o diabo que ali prostrado fora

Toma a figura do execrando Mustre,

Levanta-se do cho; e com desprezo,

E com gesto de escrnio e de ameaa,

Os turvos olhos no prelado fita

E a devassa fatal nas mos sustenta.

Pasmam do caso os circunstantes todos,

Enquanto o forte Almada tropeando

Nas cadeiras, nos vasos, nas cortinas,

Foge aterrado, uma janela busca,

Dela, sem ver a altura, se despenha,

E de abismo em abismo vai rolando

At cair da prpria cama abaixo.

IV

Ao som da triste queda acorrem todos.

O msero pastor, aos ps do leito,

Vagos olhos estende aos seus amigos,

Como se inda na mente abraseada

As asas agitara o negro sonho.

A ergu-lo corre o pregador Veloso;

Traz-lhe o douto vigrio um copo d'gua;

Um as janelas abre, outro da cama

Os lenis revolvidos lhe concerta,

At que Almada, a fala recobrando,

Do sonho as peripcias e o desfecho,

Entre assustado e galhofeiro conta.

V

Ai, prelado infeliz! Verdade amarga,

Verdade, que no sonho passageiro,

Esbaforido o Lucas te anuncia.

Terrvel golpe foi! Largos minutos

Atnito e cado sobre o leito

O prelado ficou, como se vira,

Por efeito de imenso terremoto,

A seus olhos cair toda a cidade.

No era sonho ento! Vencia a causa

O prfido inimigo! Vai com ele

O imprudente Senado, e sem vergonha

Nem receio o governo ambos protege!

Tais idias no crebro do Almada

Confusamente rolam. Vinte vezes

Quer falar, vinte vezes abre a boca

Donde no saem mais que vos suspiros

VI

Porm a Ira, a quem blasfmias prazem,

A tempo chega e lhe desata a lngua.

Qual da feia carranca de um cu negro,

De guas, coriscos, furaces pejado,

Se v subitamente sobre a terra

Grossa chuva cair, e em pouco tempo

Encher amplas campinas, praas, ruas,

Tal da boca com mpetos lhe saem

Injrias, gritos, ameaas, mortes,

Em borbotes de corao subindo;

E as atentas orelhas alagando:

Guerra declaro  gente do Senado!

Guerra ao governador! a todos guerra!

E se o cu no tem raios que os fulminem,

Nem abismos a terra que os engulam,

Eu cavo abismos, eu tempero raios,

E essa baixa ral da espcie humana

Ver que, inda vencido, eu sou Almada!

VII

Disse, e enfiando as mangas da batina

Que o corteso Veloso lhe entregava,

Precipitadamente deixa a alcova,

E durante uma hora ou pouco menos

Meditou na desforra. Ona bravia

Numa jaula fechada no se move,

No fareja com mais impacincia,

Mais aflita no busca uma sada,

Do que o grande prelado pela sala

Cogitando vagava. Certamente

(Desta sorte o pastor consigo pensa)

O Senado, o Governo e o tolo Mustre

De mos dadas esto; talvez o caso

Maquinado j fosse h muitos dias

Para me derrubar? Mas que outro golpe

Devo agora empregar naqueles biltres

A no ser enforc-los? Que remdio,

Se a triunfar de mim eles alcanam,

A grande posio e o grande nome

Desta triste misria ho de salvar-me?

VIII

Nisto, o msero Lucas, que no teve

Jamais o gosto de uma idia sua,

Pela primeira vez sente brotar-lhe

Na solido do crebro vazio

Um alvitre. Ansioso corre a Almada,

Que ao ter notcia deste caso novo,

Com sincera alegria o cinge ao peito

E dos lbios lhe pende inquieto e sfrego.

Assim no meio das revoltas guas

Do oceano que o vento sacudira,

J sem foras um miserando nufrago

Olhos e mos estende  derradeira

Tbua que lhe ficou. Muito vos deve

(Diz o Lucas) a egrgia companhia

Dos padres de Jesus, e esse colgio

Que ali daquele outeiro vos contempla.

Uma mo lava outra, com finezas

As finezas se pagam. Se do voto

Depender do reitor a vossa causa

(Que  certamente voto de mo cheia

E trunfo superior aos demais trunfos) [20]

V sem demora Vossa Senhoria

Dos favores cobrar-lhe o pagamento,

Que a vitria final  toda nossa.

IX

A tais palavras o prelado sente

Pelas veias coar-lhe um sangue novo,

E toda reviver-lhe a derradeira

Quase extinta esperana. Ento nos braos

O salvador amigo recolhendo,

Com lgrimas de gosto assim lhe fala:

Oh! trs e quatro vezes mais ditoso

Que o destemido Aquiles, que da boca

Do divino cavalo ouvia apenas

Anunciar-lhe a sua morte prxima,

Ouo da tua o prximo triunfo!

X

Disse, e  pressa engolindo alguns bocados

Do j frio jantar que h muito o espera,

Das insgnias do cargo se reveste,

Entra na cadeirinha e aos pajens manda

Que ao colgio o conduzam sem demora.

Velozes partem, e suando em bica,

Vo trepando a ladeira, e  casa chegam

Que ali, no viso da colina, encerra

Em seu discreto seio um garfo ilustre

Da vasta, onipotente companhia.

Desce a certa distncia o grande Almada,

Encara a porta, e trmulo de susto

Alguns minutos fica; mas vencendo

O natural terror que lhe infundiam

A casa e seus famosos moradores,

Com nimo atravessa o curto espao

E vai bater  porta do convento.

No de outra sorte o resoluto Csar,

Chegando  margem do vedado rio,

Algum tempo hesitou se contra a ptria,

Se contra si lanar devera a sorte;

Mas logo, ao gnio seu abrindo as asas,

O Rubicon transpe, e afoitamente

Tudo fiando da propcia estrela,

Contra a ptria marchou e a liberdade.

XI

Vinham do refeitrio, que era farto

E prprio de to nobre companhia, [21]

Os venerveis padres, quando a nova

Correu de que chegara o gro prelado.

Com alvoroo desce logo a v-lo

Toda a comunidade; as cortesias

Respeitosas lhe faz, os cumprimentos,

Os elogios vos com que lhe enfuna

De tmidas vaidades a cabea.

Dali  livraria o levam logo

Com grandes cerimnias, e ao pedido

De falar coo reitor secretamente,

Todos os padres do aos calcanhares.

XII

Fechada a porta e junto da janela

Ambos os dous sentados gravemente,

Estende os olhos o prelado e abrange

Todo esse plaino de guas, no pejado

De tantssimas velas, e bandeiras

Que hoje s brisas do mar de Guanabara

Molemente flutuam. Longa serra

V cortar o horizonte, e alm galgando

Com os vos da leve fantasia,

Campos descobre, caudalosos rios,

Matas que humano p no profanara,

E cheio de um sincero entusiasmo

Faz um breve discurso, cujo tema

A bela terra foi e o seu futuro;

Discurso em que (por que melhor atasse

O seu entusiasmo  causa sua)

De alto louvar encheu a companhia,

Em cujas reverendas mos se acolhe

(Diz ele ao concluir) o miserando

Prelado contra quem governo e povo

Implacveis as armas do dio assestam.

XIII

Com lastimosa voz logo refere

Miudamente o caso da devassa,

O perigo da igreja, a eterna mancha,

E ao reitor pede, cara a cara, o voto.

Sua Paternidade alguns minutos

Calado esteve, e o trmulo prelado,

Sem os olhos tirar de cima dele,

ltimo e frouxo lume de esperana,

As unhas vai roendo impaciente

E vinte vezes na cadeira muda

A posio do corpo. Enfim, o grave

Regedor do colgio aos ares solta

Um profundo suspiro, e levantando

Os olhos para o teto, assim lhe fala:

Vtima sois, no nica, do torpe,

Estlido Senado; este colgio

Alvo h sido tambm das frechas suas

No conflito dos mangues, a que o povo

Quer ter antigo jus, e que h muito

Pertencem claramente  companhia.

Se eu vos narrasse esta comprida guerra,

As ciladas do prfido inimigo,

Os golpes encobertos, toda a raiva

Com que ele afronta a pacincia nossa,

Inteira gastaria uma semana.

Esperana no temos do triunfo.

Quem nos defender? Que brao forte

s frias se opor do vo Senado?

Quem as mos cortar do inculto povo?

XIV

Aqui o grande Almada da cadeira

Zeloso se levanta: No conhece

Vossa Paternidade um brao forte?

Vale pouco, senhor, este prelado,

Mas longe est de apodrecer na terra,

E enquanto um sopro lhe restar de vida,

Todo s ordens ser da grande casa

De que  vossa pessoa ornato e lustre.

Descansai, descansai; eu tenho um meio

De os chamar  razo. Contra o Senado,

Se teimar em falar no jus do povo,

E contra o povo, se gritar com ele,

Excomunho darei, se for preciso.

XV

Tais palavras ouvindo, sobre o peito

Cruza as mos o reitor e lhe agradece

Ao prelado este rasgo de pujana

E grandeza sem-par: Eu no ousava

Tanto esperar de Vossa Senhoria,

A quem muito j deve a casa nossa,

E que to espontneo hoje me estende

A generosa mo. Na vossa causa

Sabeis que eu nunca deitaria um voto

Que contrrio vos fosse. Ide tranqilo,

Que a defender-vos sairei armado

Com as melhores peas. O conselho

H de a voz escutar deste colgio,

E confirmar a excomunho do Mustre,

E compeli-lo  entrega da devassa.

XVI

Um doce abrao estas palavras fecha;

E mais alegre o nclito prelado

Que o mancebo amoroso, se dos lbios

Colheu da amante o suspirado beijo,

Do reitor se despede, e velozmente

Na cadeira se encaixa em que viera

E alegrar vai os nimos aflitos

Das colunas da igreja fluminense.

XVII

As rolias colunas, entretanto,

Sobre o caso fatal deliberavam,

Quando Almada chegou. Em volta dele

Ansiosos todos a conversa escutam

E as promessas do astuto jesuta,

Em cuja honra o adulador Veloso

Um acrstico lembra, e lembraria

Igualmente um jantar, se o nscio Lucas,

Que outra cousa no tem nos ermos cascos,

Primeiro no lanasse a grande idia.

CANTO VIII

I

Era alto dia, e todo alvoroado

Corria o povo de uma banda a outra,

A sentena aguardando do conselho

Que ia da excomunho julgar o caso.

A tranqila cidade que inda h pouco

No regao da paz adormecia,

Em dous opostos campos se divide,

Como os que a bela terra, em cuja fala

A musa antiga suspirar parece,

Um tempo viu terar sangrentas armas

Em favor da tiara e da coroa.

II  III  IV  V

........................................

........................................

VI

........................................

........................................

Das doutas expresses com que alindara

O libelo da Cmara, nos olhos

Dos conselheiros curioso busca

O gosto interpretar que lhes deixara,

O pasmo, a admirao; e tantas vezes

No nimo revolve o seu discurso,

Que o debate no ouve do Congresso,

E ali com gente solidrio fica.

VII

Na sua sala, entanto, passeando

O prelado aguardava a boa nova,

E certo do triunfo, j na mente,

Em obsquio ao reitor, delineava

Um pomposo jantar. De quando em quando

 janela chegava; mas no vendo

O mensageiro seu, de impaciente

Mordia o lbio e a causa da demora

Entre si perguntava e respondia.

Conjeturava ento que o Dom Abade,

Por afeio do Mustre, e desejoso

De dar no seu poder um grande golpe,

Um discurso fazia entremeado

De longas citaes e perdigotos.

Mas o agudo reitor, que pelejava

Ao lado da justia, e traz consigo

Autores que estudara a noite inteira,

Trovejando vermelho se levanta,

E com amplas razes, iradas vozes,

Entre o frvido aplauso do conselho,

Ponto por ponto lhe desfaz na cara

Toda a argumentao beneditina.

VIII

A tais cousas alheio, o sol brilhante,

Esse eterno filsofo que os raios

Com desdenhosa placidez desfere

Iguais sobre ouvidores e prelados,

J do znite ao rbido ocidente

Inclinava a carreira. Examinados

A causa do conflito e os seus efeitos,

Pesadas as razes de parte a parte,

Unnime o conselho determina

A excomunho sustar do austero Mustre

E a causa sujeitar ao rgio voto.

Em vo na mente decorado tinha

O reitor um discurso em que provava

A justia do Almada; mas a Ira,

Que tomando a figura de um porteiro,

Assiste  discusso, que o triunfo

Busca evitar do intrpido prelado,

De tais artes se serve, de tais manhas,

Que o crebro transtorna ao jesuta,

A opinio lhe muda, e o nome dele

Entre os nomes reluz do torvo acrdo.

IX

Copiada a sentena, ali se escolhe

Para a Almada lev-la prontamente

O escrivo do Senado; mas o triste,

Que do prelado conhecia a fama,

Umas dores alega na cabea,

E, por que seja acreditado o caso,

A meter-se na cama logo corre.

Ento, o alcaide-mor, que presidia

O governo da terra e o gro conselho,

Um franciscano elege e um carmelita,

E desta expedio confia o mando

Ao reitor do colgio. Bem quiseram

Aqueles atrevidos comissrios

Antes do golpe manducar um pouco,

Mas o fino Alvarenga, que previa

Um estrago fatal  sua copa,

Que era de urgncia o caso lhes declara,

E delicadamente os pe na rua.

X

Estavas, grande Almada, repousando

De um ligeiro jantar, comido  pressa,

E rodeado dos fiis amigos,

Antegostavas o terror do Mustre

E a triste humilhao com que viria

De rojo s tuas venerveis plantas

A remisso pedir dos seus pecados,

Quando  porta assomou da vasta sala

A grande comisso. Correram todos

A receber com muitas cortesias

Os no previstos hspedes. Alegre,

Nas suas mos aperta as mos do Almada

O prfido reitor, e olhando em roda

Levemente aos demais a fronte inclina.

Depois, fitando no prelado os olhos,

Concertada a garganta, assim comea:

Se entre os louros, senhor, com que a fortuna,

No menos que o saber e que a piedade,

A tua fronte majestosa adorna,

Inveja e desespero de almas baixas,

Que em vo se esforam por lutar contigo,

Inda um louvor faltava, ensejo  este

De o colher vicejante, e de um s golpe

A turba confundir dos teus contrrios.

Em que lhe pese ao venenoso dente

Que te morde na sombra, a histria tua

Em lminas escreve de ouro fino,

Com refulgentes letras de diamante,

A justia do tempo. Eu vejo, eu vejo

Os sculos passando respeitosos

Ante o nome do heri, que resoluto

Os raios empenhou do seu ofcio

Para o orgulho abater, a audcia, a inveja,

E entre as bnos de um povo amado e amante

Ir no seio pousar da eternidade.

XI

Aqui chegando, o orador estaca;

E o vo prelado, que escutara alegre

To pomposas e amveis esperanas,

Os braos, que j tinha levantados,

Ao orador estende; este os recebe,

E apertados os peitos contra os peitos,

Alguns minutos ficam; mas, cessando

Esta doce efuso de ambos os cabos,

O reitor do discurso o fio toma:

Depois de um srio, dilatado exame

Do intrincado conflito, em que empenhaste

Contra um duro rival todas as foras

Que a natureza, que o saber te deram,

O congresso teolgico resolve,

Para servir-te, uma sentena justa.

E por que tenhas o propcio ensejo

De exercer a vitria mais brilhante

Que a um guerreiro cristo jamais foi dada,

Por que venas melhor o teu contrrio

Lanando-lhe o perdo da culpa sua,

Suspender manda a excomunho lanada

E a causa sujeitar ao rgio voto.

XII

A tal nova, o prelado empalidece,

A vista perde, as pernas lhe bambeiam,

No regelado lbio a voz lhe expira,

E caiu como cai um corpo morto.

Desenlace fatal! Ao v-lo, um grito

Magoado foge dos amigos peitos;

E enquanto a comisso, entre o sussurro,

Sorrateira vai dando aos calcanhares,

A desforrar-se do perdido tempo

No tardio jantar, os reverendos

O prelado conduzem para a cama

E um fsico chamar mandam  pressa.

XIII

V a Gula a vitria da inimiga,

E, a figura do fsico tomando,

 casa voa do abatido Almada,

E depois de operar um breve exame,

Aos aflitos amigos afiana

A vida do prelado; e sem deter-se

Com escrever fantsticas receitas,

Nem pedir chochas drogas de botica,

Manda que o cozinheiro sem demora

Uma gorda galinha ponha ao fogo,

E a tempere, segundo as regras darte.

Prontamente obedece o fiel servo,

E pouco tarda que um guloso aroma

A casa toda invada, e sutilmente

Na atmosfera da alcova se derrame.

Prodgio foi! Nos lbios do doente,

Como alvejar costuma no horizonte

Dentre as sombras noturnas a alvorada,

Um sorriso desponta; e pouco a pouco

As plpebras se vo arregaando,

Quais as cortinas de nublado inverno

Que,  criadora luz do sol nascente,

A verdura da serra e da campanha,

E enfim o rosto da azulada esfera,

Lentamente esvaindo-se descobrem.

XIV

Neste ponto na alcova entra o copeiro

A galinha trazendo e o grosso caldo;

E o prelado sentando-se na cama,

A convite de todos logo bebe

O caldo em quatro goles, e trincava

O tenro peito da ave, quando a idia

Do congresso fatal lhe sobe  mente;

Do peito arranca um lnguido suspiro,

E, reprimindo as lgrimas exclama:

Ah! se eu de todos esperar devia

To cruel deciso, reitor ingrato,

Tu s me espantas, nico me feres,

Que eu tinha o voto teu e o teu abrao,

E nisso confiado me entretinha

Em saborear a prxima vingana.

Agora, que mortal salvar-me pode

De to grande vergonha? Oh! quem dissera

Que o destemido Almada, cujo nome

Nas asas voa da ligeira fama,

Os mares assustados atravessa,

Lisboa assombra e desnorteia o mundo,

A tamanha baixeza chegaria

Que os alheios esforos mendigasse?

XV

Um profundo suspiro a voz lhe embarga;

E enfim rompendo dos fulmneos olhos

Precipitadas lgrimas lhe banham,

Pela primeira vez, as faces plidas,

Que inda nessa manh vermelhas eram.

Correm todos ao leito a consol-lo,

E ali lhe juram que a final vitria,

Ou eles morrero naquela empresa,

Ou ela h de caber ao grande Almada.

Estavam neste ponto, quando a Ira

Invisvel entrando, e vendo a Gula,

Tenta roubar-lhe o infeliz prelado,

Em cujo peito uma fasca lana.

J vermelho, j trmulo, no leito

Ele a agitar-se todo principia.

Mas a astuta rival da feroz culpa,

Para o golpe atalhar, subitamente

Do msero prelado se aproxima

E toda a raiva lhe converte em fome.

XVI

As recatadas sombras, entretanto,

O espao tomam, que o brilhante globo

De vida e luz encheu. Raros luziam

No firmamento os pregos de diamante

Com que a mo criadora do universo

Fixou a tela azul da larga tenda

Em que apenas um dia nos sentamos,

Os que viemos do nada, os que apressados

Vamos em busca da encoberta terra

Da eternidade. Nem acesa fora

A saudosa lmpada da noite,

To buscada das musas que suspiram

Suas quimeras, seus afetos castos,

E amam dizer aos solitrios ecos [22]

De que mgoas teceu mpia fortuna

O viver que os afronta. Rijo vento

Empuxava de longe opacas nuvens

Que a tempestade prxima traziam,

Como se nessa tenebrosa noite

Em perturbar a doce paz da vida,

Coos homens apostasse a natureza.

XVII

Livre do abalo grande que o prostrara,

O prelado cogita uma vingana.

Os amigos convoca, e todos juntos,

Com aquela energia e vivo empenho

Que aos seus alunos a Lisonja inspira,

Um meio buscam de vingar o Almada.

Com gnio de gua, o douto Vilalobos

Os olhos deita a Roma, e quer que ao papa

Se faa apelao; mas o Cardoso,

De cuja intrepidez e sangue frio

Nem o prprio diabo se livrara,

A excomunho prope dos santos frades,

Governador, Senado e povo inteiro.

Timidamente o abelhudo Nunes

Insinua o perdo; assaz punido

Lhe parece o ouvidor; toda a cidade

A fora do prelado conhecera

Indomvel, terrvel; era tempo

De regressar  santa paz antiga.

Tais idias o adulador Veloso

Com escrnio refuta; d'almas fracas

Foi sempre a mole paz recosto amigo

No das que o fogo endureceu na guerra,

Como a dele, que as iras arrostara

De todos os senados do universo

A exigir-lho o prelado. Convencido,

Estes conceitos tais escuta Almada

E tendo meditado longo tempo,

Um recurso lhe lembra decisivo,

A garganta concerta, e desta sorte

A falar principia: Companheiros...

XVIII

Neste ponto um trovo estala e troa;

E do conselho aos olhos aparece,

Sem do teto cair nem vir do solo,

Uma torva e magnssima figura

De longas barbas e encovados olhos,

Que a rigidez marmrea traz na face,

E o trmulo Congresso encara e exclama:

Basta j de lutar! Se tu, prelado,

E vs, teimosos servidores dele,

Na guerra prosseguirdes que ameaa

A doce paz quebrar deste bom povo,

Sabei que a mo severa do destino

Nos volumes de bronze uma sentena

Contra vs escreveu. Dos vossos cargos

Perdereis o exerccio, e sem demora

Ireis pregar a f entre os gentios,

As tribos afrontar e as frechas suas,

Fomes, sedes curtir, viglias longas,

Que o castigo sero da vossa teima.

XIX

Isto dizendo, desaparece o vulto

(Que era nem mais nem menos a Preguia).

Ento os reverendos assustados

Pela terra se lanam, e batendo

Nove vezes nos peitos, nove vezes

O duro cho, em lgrimas, beijando,

Pedem ao cu que dos eternos livros

Riscado seja o brbaro decreto.

FIM

*
Verso de Odorico Mendes, na traduo da Eneida.

[1] Senado chamo eu em todo este livro ao que naquele tempo tinha o
simples ttulo de Cmara. A merc de se chamar Senado foi feita  Cmara do Rio
de Janeiro por proviso de 11 de maro de 1748, segundo monsenhor Pizarro
(Memrias Histricas, tom. VII, pg. 159). Segundo o Dr. Haddock Lobo (Tombo
das Terras Municipais, tom. 1, pg. 39) foi essa proviso datada de 11 de maro
de 1757. V-se que os dois autores combinam no dia e no ms. Para o nosso caso,
no vale a pena examinar se foi efetivamente em 1757, se em 1748.

Apesar de s ter obtido aquela
merc no meado do sculo XVIII, a Cmara do Rio de Janeiro j anteriormente
recebera a denominao de Senado em proviso rgia datada de 1712.

Mais. No sculo anterior, em 1667,
num auto de mediao nas terras do conselho, por mandado do ouvidor-geral
Manuel Dias Raposo, deu-se  Cmara do Rio de Janeiro o ttulo de Senado. (Veja
Tombo das Terras Municipais, tom. 1, pg. 88).

Finalmente, Lisboa (Anais, tom.
III, pg. 323) traz uma carta da Cmara ao prelado Almada, com a data de 1659,
que  a mesma da ao do poema, e escrita anteriormente ao episdio da devassa,
a qual carta comea assim:

'Neste Senado se fez por
parte do povo...'

Usava pois a Cmara, ainda que no
legalmente, do ttulo que lhe dou.

[2] Mais de uma vez tenho lido e ouvido que a cidade do Rio de Janeiro
nada tem de airosa e garbosa, ao menos na parte primitiva, a muitos respeitos
inferior aos arrabaldes.

No me oponho a esse juzo; mas eu
no conheo as belas cidades estrangeiras, e depois, falo da minha terra natal,
e a terra natal, mesmo que seja uma aldeia,  sempre o paraso do mundo. Em
compensao do que no lhe deram ainda os homens, possui ela o muito que lhe
deu a natureza, a sua magnfica baa, as montanhas e colinas, que a cercam, e o
seu cu de esplndido azul. Acresce que nesta dedicatria comparo eu o que 
hoje ao que era a cidade em 1569, diferena, na verdade, enorme.

[3] Tom Correia de Alvarenga, alcaide-mor do Rio de Janeiro e natural
desta cidade, exercia interinamente o cargo de governador por no ter ainda
chegado da Bahia o governador efetivo Loureno de Brito Correia, como tudo fora
ordenado na carta rgia de 27 de maro de 1657.

[4] Ocorreu esta revolta em novembro de 1660. Era ento Governador
Salvador Correia de S e Benevides; mas tendo partido para So Paulo, a fim de
visitar as minas, ficara no governo Tom de Alvarenga. A revolta foi muito
sria, como se pode ver do citado Lisboa (Anais, tomo IV, no princ.). Tom de
Alvarenga refugiara-se no convento de So Bento; foi dali arrancado e metido na
fortaleza de Santa Cruz.

[5] Ouvidor geral era o seu ttulo; chamo-lhe simplesmente ouvidor por
liberdade e convenincia potica.

[6] O Rev. Dr. Manuel de Sousa Almada, presbtero do hbito de So
Pedro, foi nomeado prelado administrador por proviso de 12 de dezembro de
1658, e tomou posse no mesmo ano em que se passa a ao do poema, 1659.

[7] Duas vezes alude Chateaubriand  emigrao das cegonhas da Grcia
para a frica. Uma, no Itinerrio, parte I, e diz assim: Vi, quando estvamos
no alto da colina do Museu, formarem-se em bando as cegonhas e abrirem vo para
a frica. Fazem elas h dois mil anos esta mesma viagem; vivem livres e felizes
na cidade de Slon como na cidade dos eunucos gregos.

Nos Mrtires, canto XV, pe na
boca de Demdoco estas palavras (trad. de F. Elsio):

Cada ano erguem seu vo, essas
cegonhas,

De abas do Ilisso e areias de
Cirene,

E aos campos de Ereteu cada ano
voltam.

Quantas vezes no acham erma a
casa

Que florente ficou, quando
partiram!

Quantas o mesmo teto em vo
buscaram

Onde no tinham de lavrar seus
ninhos!

Nada h to deveras melanclico
como esse contraste do homem com toda a mais natureza. Muita vez, subindo a
alguma das eminncias da nossa cidade, e lanando os olhos do corpo a essa
vasta aglomerao de obras que a civilizao criou e perfez, volvo os da alma a
quatro sculos antes, quando uma sociedade semibrbara dominava as margens do
golfo e as terras interiores. Nenhum vestgio h j dela; nenhum vestgio h de
haver da nossa, depois que volverem outros sculos; mas o sol que os aluminou e
nos alumia  o mesmo; e toda a natureza parece indiferente s nossas obras
caducas.

[8] O sucesso a que aludo ocorreu justamente trs meses antes do
conflito da devassa. A matriz da cidade estava ento na igreja de So
Sebastio; Almada tentou desfabric-la e mud-la para a ermida de So Jos,
mudando ao mesmo tempo o santo, padroeiro da cidade. Abalou-se por esse motivo
o povo; a Cmara, ouvidas as autoridades, dirigiu ao prelado uma carta
comunicando a resoluo em que estavam ela e o povo de deixar tudo no mesmo
estado, at vir de el-rei a resoluo que se lhe ia mandar pedir.

A resposta do prelado  um
documento do seu gnio fogoso e impaciente. Depois de repreender duramente a
Cmara, marca-lhe trs dias para revogar a resoluo tomada sob pena de a
declarar incursa na excomunho da Bula Da Ceia, e d enfim as razes que tinha
para o que intentava fazer. A concesso nica, segundo se v da carta, foi
conservar na igreja do oratrio a imagem do santo.

Melhor se conhecer do homem pelo
estilo, se todavia  exato o aforismo de Buffon. A carta do prelado terminava
assim:

'Em todo o ano no h quem v
um domingo  matriz e agora lhes chegou este zelo. Lem-se as cartas de
excomunho s paredes, correm-se banhos, fazem-se as festas da Pscoa e Natal
aos negros do vigrio, e sobretudo est o Santssimo na igreja e tem a chave
dela um secular, tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite, e
nisto se no adverte. Tudo o que h na igreja matriz hei de mudar para baixo, e
s o altar de So Sebastio com o santo, sua fbrica e confraria, e um signo,
hei de deixar na matriz; para ter cuidado da igreja hei de pr um ermito.

A Cmara resistiu; o governador
interps os seus bons ofcios, e moveu o prelado a suspender a excomunho at
resoluo de el-rei.

Na carta ento dirigida pela
Cmara a Afonso VI vejo citado um alvar rgio ordenando que os prelados, bem
como outros ministros, fossem morar no alto da cidade, o que eles no faziam,
circunstncia que me deu idia dos dois versos:

Para poupar s reverendas plantas

A subida da ngreme ladeira.

Alm da carta rgia, temos a carta
do bispo D. Francisco, no princpio do sculo seguinte (1703), dando conta 
rainha da complicada histria da mudana da S. O bispo diz: '... E
alongando-se... a residncia dos ministros da S, que privados das comodidades
necessrias s suas subsistncias, procuram a vivenda no centro da povoao,
foi mais difcil o servio da igreja, e conseqentemente pouco exata a prtica
dos deveres de cada um dos empregados nos benefcios e cargos anexos da
catedral'.

[9] No ser preciso lembrar ao leitor catlico que So Jos era
carpinteiro em Nazar. A casa do prelado (segundo leio em Pizarro, tomo III,
pg. 177, nota) ficava entre a ermida de So Jos e o edifcio, que foi cadeia
e  hoje Cmara dos Deputados.

[10] O licenciado Francisco da Silveira Vilalobos era o vigrio-geral e
exercera inteiramente a prelazia do Rio de Janeiro.

[11] Capacho no est ainda includo nos dicionrios no sentido que lhe
d o povo para exprimir um homem servil. A locuo todavia  pitoresca e merece
as honras de cidade. Penso que mais de um escritor a tem empregado neste
sentido: nos dirios  vulgar.

[12] O Padre Rafael Cardoso foi quem intimou o ouvidor-geral a entregar
a devassa.

Cardoso e Vilalobos so figuras
que a histria me ofereceu; os demais companheiros de Almada so personagens de
imaginao; a uns e outros dei as feies e o carter convenientes  ao e ao
gnero do poema.

[13] Espraiar o bao  traduo de panouir la rate, no minha,
mas de Filinto Elsio, que assim se exprime numa nota.

[14] Era este um dos mais inveterados abusos; apesar de todos os
decretos, os rapazes de todos os tempos iam namorar as moas nas igrejas. J em
1657, dois anos antes da ao do poema, D. Afonso VI ordenara que se proibisse
que os homens falassem com mulheres nas igrejas, suas portas e adros. No ano
seguinte foi estendida a proibio aos que somente as esperassem naqueles
lugares para as verem, ainda que lhes no falassem. (Vide Pizarro, tomo V, pg.
19).

Com o tempo voltou o abuso, e no
sculo seguinte o bispo D. Frei Antnio do Desterro proibiu as conversaes e
ajuntamentos nas portas e adros dos templos, 'principalmente em dias de
festa e concorrncia'; pastoral de 14 de maro de 1767. (Vide Pizarro, VI,
pg. 17).

[15] As festas a que aludo nesta estncia foram as da aclamao de D.
Joo IV, em 1641, quando aqui chegou a notcia da queda da dominao castelhana.
Foram esplndidas a ser exata a Relao que delas faz um annimo, e que o Sr.
Varnhagen comunicou ao Instituto Histrico, em cuja Revista, tomo V, foi reproduzida.

Duraram sete dias, e constaram de
alardo de tropas, touros, encamisada, canas, manilhas, mscaras e comdia. Um
trecho da aludida Relao dar idia, no s do que foi a festa, mas tambm do
estilo do narrador: 'Foi o princpio das festas uma encamisada que fizera
mostra, alegrando todas as ruas da cidade 116 cavaleiros, com tanta competncia
luzidos, to luzidamente lustrosos, e to lustrosamente custosos, que nem Milo
foi avaro nem Itlia deixou de ser prodigamente liberal... E para maior alegria
se lhe agregaram dois carros, ornados de sedas e aparatos de ramos e flores, e
to prenhados de msica, que em cada esquina de rua parecia que o coro do Cu
se havia humanado; ao do licenciado Jorge Fernandes da Fonseca, e obrada com
seus filhos nicos nesta... e que merecem o louro, no s da inveno como do
sonoro'.

No menos curioso  o que diz o
narrador acerca das luminrias:

'... se viu a cidade to
cheia de luminrias, que no fazendo falta o brilhante esplendor do planeta
monarca e substitudas as estrelas nas janelas e ruas, formavam tantos
cambiantes tornassis no vrio de intenes, que se enredava o pensamento nas
luzes e se confundia no nmero, pois o limitado do lugar parece que se dilatava
com elas nesta ocasio'.

[16] A iluminao s comeou no governo do Conde de Resende, em 1790.
At ento havia o recurso de trazer lanterna; a nica iluminao eram as
lmpadas de azeite que de longe em longe alumiavam alguns oratrios postos nas
esquinas.

[17] Os capites-do-mato tinham sido criados mui recentemente, talvez
no ano anterior, com o fim de destruir quilombos e capturar os escravos
fugidos, que eram muitos e ameaavam a vida e a propriedade dos senhores de
engenho, bem como as da populao da cidade.

[18] Ser preciso dizer que a palavra padrinho  aqui um eufemismo?

[19] Leve por levemente. So vulgares nos bons autores estes exemplos
de adjetivos empregados adverbialmente. Gonalves Dias, que versava os
clssicos, muitos exemplos traz e de bom cunho. Citarei dois, tirados de seus
admirveis Timbiras:

A nossa incria grande eterno
asselam

(Canto I).

Os olhos turvos

Levou a extrema vez o desditoso

queles cus d'azul, quelas matas

Doce cobertos de verduras e flores

(Canto III).

[20] No  preciso lembrar a influncia dos jesutas naquele sculo.
Entre ns era imensa; a sugesto do Lucas, portanto, no podia ser mais
natural. A mesma Cmara, enviado, cinco anos antes  corte, um procurador seu
para obter do rei algumas reformas, no o fez sem um atestado do reitor do
Colgio, o qual comeava por estes termos: 'Certifico que, considerando o
estado presente desta praa, freqncia e opulncia passada do seu comrcio e
grande diminuio a que tem vindo, e o geral aperto de todos os moradores da
terra, alm de muitas outras razes do servio de Deus e de S. Majestade, tm
entendido todos os religiosos deste colgio que necessita a repblica de mandar
 corte um cidado, etc. etc.'

[21] No  isto uma expresso vaga e malvola. A relao do Padre
Ferno Cardim, companheiro do Padre Cristvo de Gouveia na visita aos colgios
da Companhia no Brasil, em 1590, tratando do Rio de Janeiro, traz as seguintes
informaes:

'... Tambm tem uma vinha que
d boas uvas, os meles se do no refeitrio quase meio ano e so finos; nem
faltam couves mercianas bem duras, alfaces, rabos e outros gneros de
hortalias de Portugal em abundncia, o refeitrio  bem provido do necessrio,
a vaca na qualidade e gordura se parece com a de Entre Douro e Minho; o pescado
 vrio e muito, e so para ver as pescarias da sexta-feira, e quando se
compra, vale o arrtel a quatro ris, e se  peixe sem escama, a real e meio, e
com um tosto se farta toda a casa... Duvidava eu qual era o melhor provido, se
o refeitrio de Coimbra, se este, e no me sei determinar...

[22] Amam dizer parecer forma irregular ou galicismo a quem no
conhecer, entre outros exemplos, este de Filinto (trad. de Oberon): 'Amam
contar os velhos...'

Gonalves Dias emprega tambm, e
em mais de uma ocasio, aquela maneira de dizer. Citarei este exemplo dos
Timbiras:

Amavam contemplar-te os de Itajuba

Impvidos guerreiros

(Canto III).
