Crtica, Ea De Queirs: O Primo Baslio, 1878

Ea de Queirs: O Primo Baslio

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
em O Cruzeiro, 16 e 30/04/1878.

Um dos
bons e vivazes talentos da atual gerao portuguesa, o Sr. Ea de Queirs,
acaba de publicar o seu segundo romance, o Primo Baslio. O primeiro, O
Crime do Padre Amaro, no foi decerto a sua estria literria. De ambos os
lados do Atlntico, aprecivamos h muito o estilo vigoroso e brilhante do
colaborador do Sr. Ramalho Ortigo, naquelas agudas Farpas, em que alis
os dois notveis escritores formaram um s. Foi a estria no romance, e to
ruidosa estria, que a crtica e o pblico, de mos dadas, puseram desde logo
o nome do autor na primeira galeria dos contemporneos. Estava obrigado a
prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo.
Que , e completo e incontestvel.

Mas esse
triunfo  somente devido ao trabalho real do autor? O Crime do Padre Amaro revelou
desde logo as tendncias literrias do Sr. Ea de Queirs e a escola a que
abertamente se filiava. O Sr. Ea de Queirs  um fiel e asprrimo discpulo do
realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples copista, o
dever da crtica era deix-lo, sem defesa, nas mos do entusiasmo cego, que
acabaria por mat-lo; mas  homem de talento, transps ainda h pouco as portas
da oficina literria; e eu, que lhe no nego a minha admirao, tomo a peito
dizer-lhe francamente o que penso, j da obra em si, j das doutrinas e
prticas, cujo iniciador , na ptria de Alexandre Herculano e no idioma de
Gonalves Dias.

Que o Sr.
Ea de Queirs  discpulo do autor do Assommoir, ningum h que o no
conhea. O prprio O Crime do Padre Amaro  imitao do romance
de Zola, La Faute de l'Abb Mouret. Situao anloga, iguais tendncias;
diferena do meio; diferena do desenlace; idntico estilo; algumas
reminiscncias, como no captulo da missa, e outras; enfim, o mesmo ttulo.
Quem os leu a ambos, no contestou decerto a originalidade do Sr. Ea de
Queirs, porque ele tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio at
que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepo d' O Crime
do Padre Amaro. O Sr. Ea de Queirs alterou naturalmente as circunstncias
que rodeavam o Padre Mouret, administrador espiritual de uma parquia rstica,
flanqueado de um padre austero e rspido; o Padre Amaro vive numa cidade de
provncia, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdcio s tm a
batina e as propinas; v-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem
perderem um s tomo de influncia e considerao.

Sendo
assim, no se compreende o terror do Padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe
nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas foras que
lutam na alma do Padre Amaro, uma  real e efetiva  o sentimento da paternidade;
a outra  quimrica e impossvel  o terror da opinio, que ele tem visto
tolerante e cmplice no desvio dos seus confrades; e no obstante,  esta a
fora que triunfa. Haver a alguma verdade moral?

Ora bem,
compreende-se a ruidosa aceitao d' O Crime do Padre Amaro. Era
realismo implacvel, conseqente, lgico, levado  puerilidade e  obscuridade.
Vamos aparecer na nossa lngua um realista sem rebuo, sem atenuaes, sem
melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mrmore da outra escola, que aos
olhos do Sr. Ea de Queirs parecia uma simples runa, uma tradio acabada.
No se conhecia no nosso idioma aquela reproduo fotogrfica e servil das
coisas mnimas e ignbeis Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso
e o  digamos o prprio termo, pois tratamos de repelir a doutrina, no o
talento, e menos o homem,  em que o escuso e o torpe eram tratados com um
carinho minucioso e relacionados com uma exao de inventrio. A gente de gosto
leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Ea de
Queirs esquecia por minutos as preocupaes da escola; e, ainda nos quadros
que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expresso
verdadeira; a maioria, porm, atirou-se ao inventrio. Pois que havia de fazer
a maioria, seno admirar a fidelidade de um autor, que no esquece nada, e no
oculta nada? Porque a nova potica  isto, e s chegar  perfeio no dia em
que nos disser o nmero exato dos fios de que se compe um leno de cambraia ou
um esfrego de cozinha. Quanto  ao em si, e os episdios que a esmaltam,
foram um dos atrativos d O Crime do Padre Amaro, e o maior deles;
tinham o mrito do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mos de um homem de
talento, produziu o sucesso da obra.

Certo da
vitria, o Sr. Ea de Queirs reincidiu no gnero, e trouxe-nos O Primo
Baslio, cujo xito  evidentemente maior que o do primeiro romance,
sem que, alis, a ao seja mais intensa, mais interessante ou vivaz nem mais
perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitao deste livro? Ao prprio
fato da reincidncia, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que no
destoaram do paladar pblico. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das
passagens que maior impresso fizeram, n' O Crime do Padre Amaro, foi a
palavra de calculado cinismo, dita pelo heri. O heri d' O Primo Baslio remata
o livro com um dito anlogo; e, se no primeiro romance  ele caracterstico e
novo, no segundo  j rebuscado, tem um ar de clich; enfastia. Excludo
esse lugar, a reproduo dos lances e do estilo  feita com o artifcio
necessrio, para lhes dar novo aspecto e igual impresso.

Vejamos o
que  O Primo Baslio e comecemos por uma palavra que h nele. Um dos
personagens, Sebastio, conta a outro o caso de Baslio, que, tendo namorado
Lusa em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai, veio para o
Brasil, donde escreveu desfazendo o casamento.  Mas  a Eugnia Grandet! exclama
o outro. O Sr. Ea de Queirs incumbiu-se de nos dar o fio da sua concepo.
Disse talvez consigo:  Balzac separa os dois primos, depois de um beijo
(alis, o mais casto dos beijos). Carlos vai para a Amrica; a outra fica, e
fica solteira. Se a casssemos com outro, qual seria o resultado do encontro
dos dois na Europa?  Se tal foi a reflexo do autor, devo dizer, desde j que
de nenhum modo plagiou os personagens de Balzac. A Eugnia deste, a provinciana
singela e boa, cujo corpo, alis robusto, encerra uma alma apaixonada e
sublime, nada tem com a Lusa do Sr. Ea de Queirs.

Na
Eugnia, h uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por isso mesmo
nos interessa e prende; a Lusa  fora  diz-lo  a Lusa  um carter
negativo, e no meio da ao ideada pelo autor,  antes um ttere do que uma
pessoa moral.

Repito, 
um ttere; no quero dizer que no tenha nervos e msculos; no tem mesmo outra
coisa; no lhe peam paixes nem remorsos; menos ainda conscincia.

Casada
com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo, ficando ela sozinha em Lisboa;
aparece-lhe o primo Baslio, que a amou em solteira. Ela j o no ama; quando
leu a notcia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito
'admirada'; depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora, que o v,
comea por ficar nervosa; ele lhe fala das viagens, do patriarca de Jerusalm,
do papa, das luvas de oito botes, de um rosrio e dos namoros de outro tempo;
diz-lhe que estimara ter vindo justamente na ocasio de estar o marido ausente.

Era uma
injria: Lusa fez-se escarlate; mas  despedida d-lhe a mo a beijar, d-lhe
at entender que o espera no dia seguinte. Ele sai; Lusa sente-se
'afogueada, cansada, vai despir-se diante de um espelho, 'olhando-se
muito, gostando de se ver branca'. A tarde e a noite gasta-as a pensar ora
no primo, ora no marido. Tal  o intrito, de uma queda, que nenhuma razo
moral explica, nenhuma paixo, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum
despeito, nenhuma perverso sequer. Lusa resvala no lodo, sem vontade, sem
repulsa, sem conscincia; Baslio no faz mais do que empux-la, como matria
inerte, que . Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual a alenta,
no acha ali a saciedade das grandes paixes criminosas: rebolca-se
simplesmente.

Assim,
essa ligao de algumas semanas, que  o fato inicial e essencial da ao, no
passa de um incidente ertico, sem relevo, repugnante, vulgar. Que tem o leitor
do livro com essas duas criaturas sem ocupao nem sentimentos? Positivamente
nada.

E aqui
chegamos ao defeito capital da concepo do Sr. Ea de Queirs. A situao
tende a acabar, porque o marido est prestes a voltar do Alentejo, e Baslio
comea a enfastiar-se, e, j por isso j porque o instiga um companheiro seu,
no tardar a trasladar-se a Paris. Interveio, neste ponto, uma criada. Juliana,
o carter mais completo e verdadeiro do livro; Juliana est enfadada de servir;
espreita um meio de enriquecer depressa; logra apoderar-se de quatro cartas; 
o triunfo,  a opulncia. Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana
denuncia as armas que possui. Lusa resolve fugir com o primo; prepara um saco
de viagem, mete dentro alguns objetos, entre eles um retrato do marido. Ignoro
inteiramente a razo fisiolgica ou psicolgica desta precauo de ternura
conjugal: deve haver alguma; em todo caso, no  aparente. No se efetua a
fuga, porque o primo rejeita essa complicao; limita-se a oferecer o dinheiro
para reaver as cartas,  dinheiro que a prima recusa  despede-se e retira-se
de Lisboa. Da em diante o cordel que move a alma inerte de Lusa passa das
mos de Baslio para as da criada. Juliana, com a ameaa nas mos, obtm de
Lusa tudo, que lhe d roupa, que lhe troque a alcova, que lha forre de
palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz mais: obriga-a a varrer, a engomar,
a desempenhar outros misteres imundos. Um dia Lusa no se contm; confia tudo
a um amigo de casa, que ameaa a criada com a polcia e a priso, e obtm assim
as fatais letras. Juliana sucumbe a um aneurisma; Lusa, que j padecia com a
longa ameaa e perptua humilhao, expira alguns dias depois.

Um leitor
perspicaz ter j visto a incongruncia da concepo do Sr. Ea de Queirs, e a
inanidade do carter da herona. Suponhamos que tais cartas no eram
descobertas, ou que Juliana no tinha a malcia de as procurar, ou enfim que
no havia semelhante fmula em casa, nem outra da mesma ndole. Estava acabado
o romance, porque o primo enfastiado seguiria para Frana, e Jorge regressaria
do Alentejo; os dois esposos voltavam  vida anterior. Para obviar a esse
inconveniente, o autor inventou a criada e o episdio das cartas, as ameaas,
as humilhaes, as angstias e logo a doena, e a morte da herona. Como  que
um esprito to esclarecido, como o do autor, no viu que semelhante concepo
era a coisa menos congruente e interessante do mundo? Que temos ns com essa
luta intestina entre a ama e a criada, e em que nos pode interessar a doena de
uma e a morte de ambas? C fora, uma senhora que sucumbisse s hostilidades de
pessoas de seu servio, em conseqncia de cartas extraviadas, despertaria
certamente grande interesse, e imensa curiosidade; e, ou a condenssemos, ou
lhe perdossemos, era sempre um caso digno de lstima. No livro  outra coisa.
Para que Lusa me atraia e me prenda,  preciso que as tribulaes que a afligem
venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou
imprecaes; mas, por Deus! d-me a sua pessoa moral. Gastar o ao da pacincia
a fazer tapar a boca de uma cobia subalterna, a substitu-la nos misteres
nfimos, a defend-la dos ralhos do marido,  cortar todo o vnculo moral entre
ela e ns. J nenhum h, quando Lusa adoece e morre. Por qu? porque sabemos
que a catstrofe  o resultado de uma circunstncia fortuita, e nada mais; e
conseqentemente por esta razo capital: Lusa no tem remorsos, tem medo.

Se o
autor, visto que o Realismo tambm inculca vocao social e apostlica,
intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma
tese, fora  confessar que o no conseguiu, a menos de supor que a tese ou
ensinamento seja isto:  A boa escolha dos fmulos  uma condio de paz no
adultrio. A um escritor esclarecido e de boa f, como o Sr. Ea de Queirs,
no seria lcito contestar que, por mais singular que parea a concluso, no h
outra no seu livro. Mas o autor poderia retorquir:  No, no quis formular
nenhuma lio social ou moral; quis somente escrever uma hiptese; adoto o
realismo, porque  a verdadeira forma da arte e a nica prpria do nosso tempo
e adiantamento mental; mas no me proponho a lecionar ou curar; exero a
patologia, no a teraputica. A isso responderia eu com vantagem:  Se
escreveis uma hiptese dai-me a hiptese lgica, humana, verdadeira. Sabemos
todos que  aflitivo o espetculo de uma grande dor fsica; e, no obstante, 
mxima corrente em arte, que semelhante espetculo, no teatro, no comove a
ningum; ali vale somente a dor moral. Ora bem; aplicai esta mxima ao vosso
realismo, e sobretudo proporcionai o efeito  causa, e no exijais a minha
comoo a troco de um equvoco.

E
passemos agora ao mais grave, ao gravssimo.

Parece
que o Sr. Ea de Queirs quis dar-nos na herona um produto da educao frvola
e da vida ociosa; no obstante, h a traos que fazem supor,  primeira vista,
uma vocao sensual. A razo disso  a fatalidade das obras do Sr. Ea de
Queirs  ou, noutros termos, do seu realismo sem condescendncia:  a sensao
fsica. Os exemplos acumulam-se de pgina a pgina; apont-los, seria reuni-los
e agravar o que h neles desvendado e cru. Os que de boa f supem defender o
livro, dizendo que podia ser expurgado de algumas cenas, para s ficar o
pensamento moral ou social que o engendrou, esquecem ou no reparam que isso 
justamente a medula da composio. H episdios mais crus do que outros. Que
importa elimin-los? No poderamos eliminar o tom do livro. Ora, o tom  o
espetculo dos ardores, exigncias e perverses fsicas. Quando o fato lhe no
parece bastante caracterizado com o termo prprio, o autor acrescenta-lhe outro
imprprio. De uma carvoeira,  porta da loja, diz ele que apresentava a
'gravidez bestial'. Bestial por qu? Naturalmente, porque o adjetivo
avolume o substantivo e o autor no v ali o sinal da maternidade humana; v um
fenmeno animal, nada mais.

Com tais
preocupaes de escola, no admira que a pena do autor chegue ao extremo de
correr o reposteiro conjugal; que nos talhe as suas mulheres pelos aspectos e
trejeitos da concupiscncia; que escreva reminiscncias e aluses de um
erotismo, que Proudhon chamaria onissexual e onmodo; que no meio das
tribulaes que assaltam a herona, no lhe infunda no corao, em relao ao
esposo, as esperanas de um sentimento superior, mas somente os clculos da
sensualidade e os 'mpetos de concubina'; que nos d as cenas repugnantes
do Paraso; que no esquea sequer os desenhos torpes de um corredor de
teatro. No admira;  fatal; to fatal como a outra preocupao correlativa.
Ruim molstia  o catarro; mas por que ho de padecer dela os personagens do
Sr. Ea de Queirs? N'O Crime do Padre Amaro h bastantes afetados de
tal achaque; n'O Primo Baslio fala-se apenas de um caso: um indivduo
que morreu de catarro na bexiga. Em compensao h infinitos 'jactos
escuros de saliva'. Quanto  preocupao constante do acessrio, bastar
citar as confidncias de Sebastio a Juliana, feitas casualmente  porta e
dentro de uma confeitaria, para termos ocasio de ver reproduzidos o mostrador
e as suas pirmides de doces, os bancos, as mesas, um sujeito que l um jornal
e cospe a mido, o choque das bolas de bilhar, uma rixa interior, e outro
sujeito que sai a vociferar contra o parceiro; bastar citar o longo jantar do
Conselheiro Accio (transcrio do personagem de Henri Monier); finalmente, o
captulo do Teatro de So Carlos, quase no fim do livro. Quando todo o
interesse se concentra em casa de Lusa, onde Sebastio trata de reaver as
cartas subtradas pela criada, descreve-nos o autor uma noite inteira de
espetculos, a platia, os camarotes, a cena, uma altercao de espectadores.

Que os
trs quadros esto acabados com muita arte, sobretudo o primeiro,  coisa que a
crtica imparcial deve reconhecer; mas por que avolumar tais acessrios at o
ponto de abafar o principal?

Talvez
estes reparos sejam menos atendveis, desde que o nosso ponto de vista 
diferente. O Sr. Ea de Queirs no quer ser realista mitigado, mas intenso e
completo; e da vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele 
simplesmente o tom prprio. Dado, porm, que a doutrina do Sr. Ea de Queirs
fosse verdadeira, ainda assim cumpria no acumular tanto as cores, nem acentuar
tanto as linhas; e quem o diz  o prprio chefe da escola, de quem li, h
pouco, e no sem pasmo, que o perigo do momento realista  haver quem suponha
que o trao grosso  o trao exato. Digo isto no interesse do talento do Sr.
Ea de Queirs, no no da doutrina que lhe  adversa; porque a esta o que mais
importa  que o Sr. Ea de Queirs escreva outros livros como O Primo
Baslio. Se tal suceder, o Realismo na nossa lngua ser estrangulado no
bero; e a arte pura, apropriando-se do que ele contiver aproveitvel (porque o
h, quando se no despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno, e at no
ridculo), a arte pura, digo eu, voltar a beber aquelas guas sadias, d'O
Monge de Cister, d'O Arco de Sant' Ana e d'O Guarani.

A atual
literatura portuguesa  assaz rica de fora e talento para podermos afianar
que este resultado ser certo, e que a herana de Garrett se transmitir
intacta s mos da gerao vindoura.

H quinze
dias, escrevi nestas colunas uma apreciao crtica do segundo romance do Sr.
Ea de Queirs, O Primo Baslio, e da para c apareceram dois artigos
em resposta ao meu, e porventura algum mais em defesa do romance. Parece que a
certa poro de leitores desagradou a severidade da crtica. No admira; nem a
severidade est muito nos hbitos da terra, nem a doutrina realista  to nova
que no conte j, entre ns, mais de um frvido religionrio. Criticar o livro,
era muito; refutar a doutrina, era demais. Urgia, portanto, destruir as
objees e aquietar os nimos assustados; foi o que se pretendeu fazer e foi o
que se no fez.

Pela
minha parte, podia dispensar-me de voltar ao assunto. Volto (e pela ltima vez)
porque assim o merece a cortesia dos meus contendores; e, outrossim, porque no
fui entendido em uma das minhas objees.

E antes
de ir adiante, convm retificar um ponto. Um dos meus contendores acusa-me de
nada achar bom n'O Primo Baslio. No advertiu que, alm de proclamar o
talento do autor (seria pueril negar-lho) e de lhe reconhecer o dom da
observao, notei o esmero de algumas pginas e a perfeio de um dos seus
caracteres. No me parece que isto seja negar tudo a um livro, e a um segundo
livro. Disse comigo:  Este homem tem faculdades de artista, dispe de um
estilo de boa tmpera, tem observao; mas o seu livro traz defeitos que me
parecem graves, uns de concepo, outros da escola em que o autor  aluno, e
onde aspira a tornar-se mestre; digamos-lhe isto mesmo, com a clareza e
franqueza a que tm jus os espritos de certa esfera.  E foi o que fiz,
preferindo s generalidades do diletantismo literrio a anlise sincera e a
reflexo paciente e longa. Censurei e louvei, crendo haver assim provado duas
coisas: a lealdade da minha crtica e a sinceridade da minha admirao.

Venhamos
agora  concepo do Sr. Ea de Queirs, e tomemos a liberdade de mostrar aos
seus defensores como se deve ler e entender uma objeo. Tendo eu dito que, se
no houvesse o extravio das cartas, ou se Juliana fosse mulher de outra ndole,
acabava o romance em meio, porque Baslio, enfastiado, segue para a Frana,
Jorge volta do Alentejo, e os dois esposos tornariam  vida antiga, replicam-me
os meus contendores de um modo, na verdade, singular. Um achou a objeo ftil
e at cmica; outro evocou os manes de Judas Macabeu, de Antoco, e do elefante
de Antoco. Sobre o elefante foi construda uma srie de hipteses destinadas a
provar a futilidade do meu argumento. Por que Herculano fez Eurico um
presbtero? Se Hermengarda tem casado com o gardingo logo no comeo, haveria
romance? Se o Sr. Ea de Queirs no houvesse escrito O Primo Baslio,
estaramos agora a analis-lo? Tais so as hipteses, as perguntas, as dedues
do meu argumento; e foi-me precisa toda a confiana que tenho na boa f dos
defensores do livro, para no supor que estavam mofar de mim e do pblico.

Que no
entendessem, v; no era um desastre irreparvel. Mas uma vez que no
entendiam, podiam lanar mo de um destes dois meios: reler-me ou calar. Preferiram
atribuir-me um argumento de simplrio; involuntariamente, creio; mas, em suma,
no me atriburam outra coisa. Releiam-me; l vero que, depois de analisar o
carter de Lusa, de mostrar que ela cai sem repulsa nem vontade, que nenhum
amor nem dio a abala, que o adultrio  ali uma simples aventura passageira,
chego  concluso de que, com tais caracteres como Lusa e Baslio, uma vez
separados os dois, e regressando o marido, no h meio de continuar o romance,
porque os heris e a ao no do mais nada de si, e o erro de Lusa seria um
simples parnteses no perodo conjugal. Voltariam todos ao primeiro captulo:
Lusa tornava a pegar no Dirio de Notcias, naquela sala de jantar to
bem descrita pelo autor; Jorge ia escrever os seus relatrios, os
freqentadores da casa continuariam a ir ali encher os seres. Que
acontecimento, logicamente deduzido da situao moral dos personagens, podia
vir continuar uma ao extinta? Evidentemente nenhum. Remorsos? No h
probabilidades deles; porque, ao anunciar-se a volta do marido, Lusa, no
obstante o extravio das cartas, esquece todas as inquietaes, 'sob uma
sensao de desejo que a inunda'. Tirai o extravio das cartas, a casa de
Jorge passa a ser uma nesga do paraso; sem essa circunstncia,
inteiramente casual, acabaria o romance. Ora, a substituio do principal pelo
acessrio, a ao transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o
incidente, para o fortuito, eis o que me pareceu incongruente e contrrio s
leis da arte.

Tal foi a
minha objeo. Se algum dos meus contendores chegar a demonstrar que a objeo
no  sria, ter cometido uma ao extraordinria. At l, ser-me- lcito
conservar uma pontazinha de ceticismo.

Que o Sr.
Ea de Queirs podia lanar mo do extravio das cartas, no serei eu que o
conteste; era seu direito. No modo de exercer  que a crtica lhe toma contas.
O leno de Desdmona tem larga parte na sua morte; mas a alma ciosa e ardente
de Otelo, a perfdia de Iago e a inocncia de Desdmona, eis os elementos
principais da ao. O drama existe, porque est nos caracteres, nas paixes, na
situao moral dos personagens: o acessrio no domina o absoluto;  como a
rima de Boileau: il ne doit qu'obir. Extraviem-se as cartas,
faa uso delas Juliana;  um episdio como qualquer outro. Mas o que, a meu
ver, constitui o defeito da concepo do Sr. Ea de Queirs,  que a ao, j
despida de todo o interesse anedtico, adquire um interesse de curiosidade.
Lusa resgatar cartas? Eis o problema que o leitor tem diante de si. A vida, os
cuidados, os pensamentos da herona no tm outro objeto, seno esse. H uma
ocasio em que, no sabendo onde ir buscar o dinheiro necessrio ao resgate,
Lusa compra umas cautelas de loteria; sai branco. Suponhamos (ainda uma
suposio) que o nmero sasse premiado; as cartas eram entregues; e, visto que
Lusa no tem mais do que medo, se lhe restabelecia a paz do esprito, e com
ela a paz domstica. Indicar a possibilidade desta concluso  patentear o
valor da minha crtica.

Nem seria
para admirar o desenlace pela loteria, porque a loteria tem influncia decisiva
em certo momento da aventura. Um dia, arrufada com o amante, Lusa fica incerta
se ir v-lo ou no; atira ao ar uma moeda de cinco tostes; era cunho: devia
ir e foi. Esses traos de carter  que me levaram a dizer, quando a comparei
com a Eugnia, de Balzac, que nenhuma semelhana havia entre as duas, porque
esta tinha uma forte acentuao moral, e aquela no passava de um ttere. Parece
que a designao destoou no esprito dos meus contendores, e houve esforo
comum para demonstrar que a designao era uma calnia ou uma superfluidade.
Disseram-me que, se Lusa era um ttere, no podia ter msculos e
nervos, como no podia ter medo, porque os tteres no tm medo.

Supondo
que este trocadilho de idias veio somente para desenfadar o estilo, me
abstenho de o considerar mais tempo; mas no irei adiante sem convidar os
defensores a todo transe a que releiam, com pausa, o livro do Sr. Ea de
Queirs:  o melhor mtodo quando se procura penetrar a verdade de uma
concepo. No direi, com Buffon, que o gnio  a pacincia; mas creio poder
afirmar que a pacincia  a metade da sagacidade: ao menos, na crtica.

Nem basta
ler;  preciso comparar, deduzir, aferir a verdade do autor. Assim  que,
estando Jorge de regresso e extinta a aventura do primo, Lusa cerca o marido
de todos os cuidados  'cuidados de me e mpetos de concubina'. Que
nos diz o autor nessa pgina? Que Lusa se envergonhava um pouco da maneira
'por que amava o marido; sentia vagamente que naquela violncia amorosa
havia pouca dignidade conjugal. Parecia-lhe que tinha apenas um capricho'.

Que
horror! Um capricho por um marido! Que lhe importaria, de resto? 'Aquilo
fazia-a feliz'. No h absolutamente nenhum meio de atribuir a Lusa esse
escrpulo de dignidade conjugal; est ali porque o autor no-lo diz; mas no
basta; toda a composio do carter de Lusa  antinmica com semelhante
sentimento. A mesma coisa diria dos remorsos que o autor lhe atribui, se ele
no tivesse o cuidado de os definir (p. 440). Os remorsos de Lusa, permita-me
diz-lo, no  a vergonha da conscincia,  a vergonha dos sentidos; ou, como
diz o autor: 'um gosto infeliz em cada beijo'. Medo, sim; o que ela
tem  medo; disse-o eu e di-lo ela prpria: 'Que feliz seria, se no fosse
a infame!

Sobre a
linguagem, aluses, episdios, e outras partes do livro, notadas por mim, como
menos prprias do decoro literrio, um dos contendores confessa que os acha
excessivos, e podiam ser eliminados, ao passo que outro os aceita e justifica,
citando em defesa o exemplo de Salomo na poesia do Cntico do Cnticos:

On ne
sattendait gure

 voir la
Bible en cette-affaire;

e menos
ainda se podia esperar o que nos diz do livro bblico. Ou recebeis o livro,
como deve fazer um catlico, isto , em seu sentido mstico e superior, e em
tal caso no podeis chamar-lhe ertico; ou s o recebeis no sentido literrio,
e ento nem  poesia, nem  de Salomo;  drama e de autor annimo. Ainda,
porm, que o aceiteis como um simples produto literrio, o exemplo no serve de
nada.

Nem era
preciso ir  Palestina. Tnheis a Lisstrata; e se a Lisstrata parecesse
obscena demais, podeis argumentar com algumas frases de Shakespeare e certas
locues de Gil Vicente e Cames. Mas o argumento, se tivesse diferente origem,
no teria diferente valor. Em relao a Shakespeare, que importam algumas
frases obscenas, em uma ou outra pgina, se a explicao de muitas delas est
no tempo, e se a respeito de todas nada h sistemtico? Eliminai-as ou
modificai-as, nada tirareis ao criador das mais castas figuras do teatro, ao
pai de Imogene, de Miranda, de Viola, de Oflia, eternas figuras, sobre as
quais ho de repousar eternamente os olhos dos homens. Demais, seria mal cabido
invocar o padro do Romantismo para defender os excessos do Realismo.

Gil
Vicente usa locues que ningum hoje escreveria, e menos ainda faria repetir
no teatro; e no obstante as comdias desse grande engenho eram representadas
na corte de D. Manuel e D. Joo III. Cames, em suas comdias, tambm deixou
palavras hoje condenadas. Qualquer dos velhos cronistas portugueses emprega,
por exemplo, o verbo prprio, quando trata do ato, que hoje designamos com a
expresso dar  luz, o verbo era ento polido; tempo vir em que dar
 luz seja substituda por outra expresso; e nenhum jornal, nenhum teatro
a imprimir ou declamar como fazemos hoje.

A razo
disto, se no fosse bvia, podamos apadrinh-la com Macaulay:  que h termos
delicados num sculo e grosseiros no sculo seguinte. Acrescentarei que noutros
casos a razo pode ser simplesmente tolerncia do gosto.

Que h,
pois, comum entre exemplos dessa ordem e a escola de que tratamos? Em que pode
um drama de Israel, uma comdia de Atenas, uma locuo de Shakespeare ou de Gil
Vicente justificar a obscenidade sistemtica do Realismo? Diferente coisa  a
indecncia relativa de uma locuo, e a constncia de um sistema que, usando
alis de relativa decncia nas palavras, acumula e mescla toda a sorte de
idias e sensaes lascivas; que, no desenho e colorido de uma mulher, por
exemplo, vai direito s indicaes sensuais.

No peo,
decerto, os estafados retratos do Romantismo decadente; pelo contrrio, alguma
coisa h no Realismo que pode ser colhido, em proveito da imaginao e da arte.
Mas sair de um excesso para cair em outro, no  regenerar nada; 
trocar o agente da corrupo.

Um dos
meus contendores persuade-se que o livro podia ser expurgado de alguns traos
mais grossos; persuaso, que no primeiro artigo disse eu que era ilusria, e
por qu. H quem v adiante e creia que, no obstante as partes condenadas, o
livro tem um grande efeito moral. Essa persuaso no  menos ilusria que a
primeira; a impresso moral de um livro no se faz por silogismo, e se assim
fosse, j ficou dito tambm no outro artigo qual a concluso deste. Se eu
tivesse de julgar o livro pelo lado da influncia moral, diria que,
qualquer que seja o ensinamento, se algum tem, qualquer que seja a extenso da
catstrofe, uma e outra coisa so inteiramente destrudas pela viva pintura dos
fatos viciosos: essa pintura, esse aroma de alcova, essa descrio minuciosa,
quase tcnica, das relaes adlteras, eis o mal. A castidade inadvertida que
ler o livro chegar  ltima pgina, sem fech-lo, e tornar atrs para reler
outras.

Mas no
trato disso agora; no posso sequer tratar mais nada; foge-me o espao.
Resta-me concluir, e concluir aconselhando aos jovens talentos de ambas as
terras da nossa lngua, que no se deixem seduzir por uma doutrina caduca,
embora no verdor dos anos. Este messianismo literrio no tem a tora da
universalidade nem da vitalidade; traz consigo a decrepitude. Influi, decerto,
em bom sentido e at certo ponto, no para substituir as doutrinas aceitas, mas
corrigir o excesso de sua aplicao. Nada mais. Voltemos os olhos para a
realidade, mas excluamos o Realismo, assim no sacrificaremos a verdade
esttica.

Um dos
meus contendores louva o livro do Sr. Ea de Queirs, por dizer a verdade, e
atribui a algum hipcrita a mxima de que nem todas as verdades se dizem. Vejo
que confunde a arte com a moral; vejo mais que se combate a si prprio. Se
todas as verdades se dizem, por que excluir algumas?

Ora, o
realismo dos Srs. Zola e Ea de Queirs, apesar de tudo, ainda no esgotou
todos os aspectos da realidade. H atos ntimos e nfimos, vcios ocultos,
secrees sociais que no podem ser preteridas nessa exposio de todas as
coisas. Se so naturais para que escond-los? Ocorre-me que Voltaire, cuja
eterna mofa  a consolao de bom senso (quando no transcende o humano
limite), a Voltaire se atribui uma resposta, da qual apenas citarei metade: Trs
naturel aussi, mais je porte des culottes.

Quanto ao
Sr. Ea de Queirs e aos seus amigos deste lado do Atlntico, repetirei que o
autor dO Primo Baslio tem em mim um admirador de seus talentos,
adversrio de suas doutrinas, desejoso de o ver aplicar, por modo diferente, as
fortes qualidades que possui; que, se admiro tambm muitos dotes do seu estilo,
fao restries  linguagem; que o seu dom de observao, alis pujante, 
complacente em demasia; sobretudo,  exterior,  superficial. O fervor dos
amigos pode estranhar este modo de sentir e a franqueza de o dizer. Mas ento o
que seria a crtica?


