Conto, Possvel e impossvel, 1867

Possvel e impossvel

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1867.

 um lugar-comum em quase todos os
poetas novis maldizer do destino e tecer elogios ao desnimo aos vinte anos de
idade.

Resulta daqui que as verdadeiras
dores, caindo no descrdito comum, no podem achar indulgncia da parte de
ningum; e quando um poeta, na aurora da vida e nos primeiros movimentos da
inspirao, lembra-se de traduzir, em um hino de sua lira, uma dor que o
consome ou um desnimo que o abate, a multido recebe o hino e o poeta com o
mesmo sorriso de incredulidade reservado para todos.

Ser entretanto impossvel esta
situao? A mocidade  o tempo das iluses; a mocidade dos poetas ainda mais. A
imaginao mais viva d maior corpo e maior luz aos sonhos e s quimeras. Tanto
mais vivas so, tanto maior  a dor de os ver desvanecidos. Ora, figure-se um
corao ardente, uma imaginao exaltada, um esprito veemente, abrindo os
olhos ao mundo fantstico das quimeras e dos sonhos. Figure-se tudo isto, e
veja-se se, ao primeiro desencanto, ao primeiro obstculo, esta criatura
sensvel no deve manifestar as suas dores e os seus desprazeres na linguagem
veemente e franca que Deus lhe deu.

 certo que so comuns os poetas
desiludidos aos vinte anos; mas entre uns e outros h a diferena do falso ao
verdadeiro. H nas dores sinceras um tom de verdade singela e pura ingenuidade
que se no confunde com os arrebiques mal aplicados da poesia chorona por
conveno.

Tinha vinte e dois anos o heri
desta narrativa. Era poeta desde os dezesseis. Era-o mesmo desde antes. Aos
doze anos, estando a passear, com a famlia, em uma campina junto  cidade em
que nascera, foi surpreendido pelo espetculo que oferecia o lugar na hora do
pr-do-sol. Era uma estrofe de poesia rstica, uma lauda das Gergicas. O meu
poeta, deixando a famlia e os rapazes com quem ia, parou exttico a contemplar
o espetculo. S muito adiante a famlia reparou na ausncia do pequeno;
voltaram busc-lo. Da em diante o pequeno caminhou maquinalmente.

Isto foi aos doze anos. Aos
dezesseis metrificou a sua primeira inspirao. Eram umas quadras singelas
tomando por assunto uma cena da natureza: duas rolas que se beijavam  margem
de um riacho que atravessava o fundo da chcara em que morava.  noite leu a
sua obra  famlia; mas ningum lha entendeu,  exceo de um tio padre que
sabia entremear as oraes do brevirio com os cantos de Virglio e Petrarca. O
jovem poeta, descontente com o mau efeito da obra, quis rasg-la; mas o tio
padre interveio a tempo e convidou o rapaz, no s a conservar as suas
primeiras estrofes, como ainda a metrificar outras, quando lhe fosse de vez a
inspirao.

Tefilo chamava-se o nosso poeta.
Era filho de uma das provncias do Sul. O pai, major reformado, vivia da penso
que o Estado lhe dava e de alguns haveres que lhe deixara um parente. Era
quanto bastava para sustentar modicamente a famlia. Esta era numerosa; constava
da mulher, um filho, das duas filhas, um irmo cego, dois sobrinhos rfos e
uma agregada. O irmo padre era pobre e mal concorria com o estritamente
necessrio para a sua subsistncia.

A educao que Tefilo recebeu foi
proporcionada aos meios de seus pais. Aprendeu primeiras letras, rudimentos de
latim e de francs. O latim e o francs aprendeu-os do tio padre. Findo isto, o
pai entrou a cogitar em que havia de empregar o rapaz e no achou. Ento, como
que se arrependeu do que lhe havia feito aprender. O talento natural de
Tefilo, desenvolvido pelos primeiros estudos, impunha-lhe a obrigao de
destin-lo a alguma carreira em que pudesse ser aproveitado, estando na esfera
que lhe competia. O bom do velho nada encontrava neste sentido.

No caso de morte do pai, quem
sustentaria a famlia? Esta era a questo capital no esprito do pai de
Tefilo.

Entretanto, Tefilo, que tomara
gosto s letras, ia aproveitando as lies do padre e aumentava o cabedal da
instruo. Desenvolveu-se no latim e no francs; estudou o ingls e o italiano.
Quis conhecer a histria e disse-o ao tio.

 Aprende primeiro geografia,
respondeu-lhe o padre.

  preciso, no?

 Sem dvida. Como hs de tu saber
do que houve na casa, sem conhecer antes das disposies da casa?

  verdade.

E o rapaz atirou-se ao estudo da
geografia, e depois ao de histria, e depois ao de filosofia.

No convm  nossa histria
acompanhar os passos da vida de Tefilo, nem os de sua famlia. Basta saber que
na poca em que esta narrao comea Tefilo conta vinte e dois anos; est sem
pai; as irms e os primos esto casados; o tio padre alcanou uma vigararia no
Norte; resta-lhe a velha me e a agregada, moa de dezoito anos. Vivem no Rio
de Janeiro.

Tefilo ensina histria e
geografia em alguns colgios particulares:  a sua fonte de renda. Nas horas
vagas faz versos que ningum l, porque ele os guarda cuidadosamente no fundo
da gaveta.

Quando  mesa do almoo D. Teresa
( o nome da me do poeta) pergunta a seu filho que trabalho leva a fazer s
vezes alta noite, Tefilo responde sorrindo:

 Estou fazendo um ponto de
admirao.

D. Teresa no entende a metfora,
e seria de crer que a agregada tambm no entendesse, se um sorriso sonso e
inteligente no lhe roasse nos lbios a esta resposta de Tefilo.

 que o ponto de admirao que
Tefilo preparava para a posteridade, guardando-lhe um poeta incgnito, no era
mistrio para a moa. Seria ela a musa dos versos? No era. Tefilo no
reparava no sorriso, e a mesma cena repetia-se dias depois.

Esta agregada era rf. Os pais
morreram pobrssimos e deixaram a filha aos cuidados da famlia do major, onde
viveu no mais perfeito p de igualdade com as filhas deste. Recebera a mesma
educao, tinha as mesmas qualidades e sentimentos, e se era mais bonita que
elas nem por isso se desvanecia, antes parecia afligir-se de uma superioridade
que de algum modo humilhava as suas protetoras.

Imagine-se uma beleza suave e
anglica, fazendo adivinhar a singeleza e a pureza do corao atravs das linhas
puras e suaves do rosto e do brilho sereno e sincero dos olhos claros. Modesta
no trajar, no gesto e nos sentimentos, Helena (tal era o seu nome) era admirada
por todos, invejada por muitos, ambicionada... por ningum.

Helena era a filha de corao de
D. Teresa. Era a ltima que lhe restava, depois do casamento das suas prprias.
A boa senhora estimava-a como estimava Tefilo; Helena, por seu lado,
consagrava a D. Teresa um amor de filha, alm do reconhecimento que lhe devia
pelos benefcios que recebera dela. Tefilo amava Helena como irm. Eram uma s
famlia.

Como disse acima, Tefilo escrevia
versos que guardava no cioso fundo da gaveta. Ningum, nem sua me, nem Helena,
nem os amigos mais ntimos, mereciam a confiana do poeta. Era um verdadeiro Harpago,
mas um Harpago sublime, que levava a avareza intelectual ao ponto de no
confiar, nem dos mais insuspeitos, as impresses, as palpitaes, as
inspiraes, os sonhos, as quimeras, isto , toda a sua alma.

Era respeitvel este sentimento.
De que serve, muitas vezes, confiar  multido o sentimento que nos domina, a
aspirao que nos impele, a comoo que nos abala? Tefilo sentia-se puro no
meio do silncio e da obscuridade; parecia-lhe que, do momento em que abrisse a
todos o ntimo do seu corao, murchava-lhe a flor do sentimento e a sua alma
ficava menos pura.

Mas a que vinha o sorriso de
Helena? Aqui vai a explicao.

Havia uma escrava que servia 
famlia de D. Teresa. Todavia, Helena no consentia que os arranjos de certa
natureza estivessem a cargo dessa escrava, e tomava a si a obrigao de cuidar
deles. Assim, por exemplo, era Helena quem se encarregava de pr em ordem o
gabinete de Tefilo. Foi em uma dessas ocasies, estando ausente o poeta, que
Helena achou em cima de uma mesa um quarto de papel onde estavam escritas
algumas linhas paralelas e de tamanho desigual. So versos, pensou a moa.
Picada de curiosidade, pegou no papel e leu o que estava ali. Reconheceu a
letra de Tefilo, e, mais ainda, reconheceu a alma dele. A moa tinha os olhos
midos quando acabou de ler o papel; beijou-o e tornou a deix-lo no mesmo
lugar.

Quando o poeta voltou, reparou no
esquecimento em que cara de no guardar os versos; mas de modo algum suspeitou
que os tivessem lido. Guardou-os onde guardava os outros.

Helena, uma vez descoberto o
mistrio, no parou a. No dia seguinte cresceu-lhe a curiosidade.

  impossvel, pensava ela, que
ele s tenha escrito estes versos; eu bem me lembro que ele fez alguns quando
eu era criana e os leu; l h de haver outros.

E deitou-se a procurar.

Tanto procurou, que encontrou em
uma das gavetas uma pequena pasta cheia de autgrafos. Eram as inspiraes do
poeta traduzidas na linguagem de Petrarca, e ali deixadas sem que ainda o poeta
as polisse da primitiva aspereza.

A moa leu e releu os versos;
muitas vezes enxugou os olhos. Havia nas composies de Tefilo um eco s
secretas aspiraes da alma dela. Era que a situao de ambos era quase a
mesma.

A moa, quando acabou de ler todos
aqueles escritos poticos, restituiu-os  pasta e colocou esta na gaveta de
modo que no deixasse suspeitar a violao inocente que acabava de cometer.

Depois saiu.

Tefilo no reparou em nada.

Tal  a explicao do riso da
moa, que, depois de ouvir muitas vezes a resposta misteriosa do poeta, chegou
a compreender-lhe o alcance e ria-se  socapa, como quem dizia que o ponto de
admirao de que falava o moo no o era para ela.

Estavam as coisas neste p, quando
uma tarde, ao voltar para casa, Tefilo encontrou no caminho um amigo que se
chegou a ele e perguntou-lhe:

 Tens que fazer sbado?

 No muito; por qu?

 Ento d-me a tua palavra de
honra que aceitas um convite meu.

 Convite para qu?

 Convite para uma partida.

 No posso.

 Por qu?

 Porque no quero ir s a
divertimento algum...

 Mas...

 E minha famlia no pode ir.

 Que singularidade!

  a coisa mais que natural do
mundo. O que  talvez singularidade  a franqueza com que te digo que minha
famlia no pode ir por lhe faltarem os meios de ostentar o rigor que essas
coisas requerem.

 Ora!

Tefilo sorriu-se.

Depois perguntou:

 Achas esquisito?

 Acho.  a tua ltima palavra?

 Bem.

E como o outro se afastasse
tristemente, Tefilo deu um passo para ele e perguntou-lhe se esta escusa o magoava.

 Sim, respondeu o amigo. Vou ser
indiscreto. Eu e alguns outros imaginamos convidar-te para esta partida a ver
se te distraas e saas da tristeza em que andas. Era um servio de amigo.
Convencionamos nada dizer-te, mas eu sou forado a isto. No queres? Dou por
finda a minha misso.

 Espera, disse Tefilo.

O moo deteve o passo.

Tefilo refletiu um bocado e
respondeu:

 Pois sim, vou. Agradeo a vocs
o cuidado que tomaram por mim.

 Muito bem.

 Onde  a partida?

  em casa do comendador N...
Conheces?

 Falamo-nos duas vezes.

  quanto basta. Alm de que ele
prprio insta para que tu vs. A partida  sbado.

 At sbado.

Separaram-se os dois.

Tefilo gastou uma noite inteira
em construir as expresses com que devia dar parte  me de que ia  partida do
comendador N... Parecia-lhe crime ir divertir-se e deixar em casa aquelas duas
pessoas que estremecia.

D. Teresa, quando soube da
resoluo arrancada a seu filho pelas instncias dos amigos, respondeu-lhe com
palavras de verdadeira alegria.

 Ainda bem, dizia ela, que vais
sair da vida montona em que andas. Que mocidade a tua! Nem uma distrao,
nada!  preciso no estragar os melhores anos, Tefilo!

Quanto a Helena, se Tefilo
reparasse melhor, viria que atrs do sorriso de prazer que a moa procurava
desfolhar dos lbios vermelhos, havia outro sorriso de mgoa e de pesar. Seria
mgoa e pesar de moa por no ir tomar parte igualmente no sarau?

Chegou o sbado aprazado.

Tefilo tinha pouco que fazer
nesse dia. Voltou para casa cedo, a fim de aproveitar, na companhia da famlia,
as horas que ia perder no baile do comendador.

 hora marcada vestiu-se e saiu.

Em casa do comendador estavam
reunidas algumas entidades polticas, outras literrias, outras elegantes,
outras sem definio. Estes eram em maior nmero. Augusto, o amigo que
convidara Tefilo, apresentou-o  famlia do comendador e a algumas das pessoas
mais notveis da reunio.

Tefilo tinha um ar modesto e
discreto que no podia ajud-lo nas relaes com os outros. O grande talento da
conversao  saber calar-se, diz A. Karr; Tefilo tinha esse talento, mas em
excesso; no podia fazer fortuna.

Era a primeira vez que o poeta se
achava em uma reunio de certa ordem. Tudo ali contribua para fascin-lo. O
esplendor das mulheres, a abundncia das luzes e das flores, as condecoraes,
os nomes ilustres que se pronunciava de cada lado, o bulcio, o perfume, tudo
se acumulava para dar ao rapaz a idia de um mundo novo e imaginrio.

Augusto, como bom amigo, serviu a
Tefilo de cicerone. Apresentou-o a algumas mulheres em quem fizeram impresso
o ar tmido e recatado do poeta. Augusto obrigou-o mesmo a danar uma
quadrilha.

No fim de uma hora, Augusto,
Tefilo e alguns outros amigos estavam em uma sala contgua ao salo do baile,
mas perfeitamente deserta naquela ocasio.

 Como achas o baile? perguntou um
dos rapazes a Tefilo.

 Esplndido!

 Bem, disse Augusto. Vamos agora
 eleio. Ns somos os grandes eleitores da rainha do baile. Fao de
presidente com um voto na matria. Digam l vocs quem lhes parece que seja a
rainha.

 Mas falta uma que s vem s onze
horas, disse um.

 Quem?

 A Slvia.

 Venha ou no, disse outro, eu j
achei a rainha.

 Quem ?

  a Leocdia Martins.

 No digas isso, exclamaram
alguns rapazes.

 Por qu?

 Porque  uma tolice!

 Tolice!

 At o nome, disse Augusto. Ora
vejam l: a rainha Leocdia.

 So gostos.

Augusto voltou-se para Tefilo e
perguntou-lhe:

 Mas independente de no estar
completo este Olimpo, quem  Juno na tua opinio?

 No sei: acho-as todas
igualmente belas.

 No reparaste bem. H algumas
superiores.

 Ser por no reparar bem; mas
at aqui pareceu-me que eram todas igualmente belas.

 Esperemos pela Slvia. Que horas
so?

 Falta um quarto para as onze.

 Esperemos.

Os rapazes conversaram sobre
coisas diversas, apreciando minuciosamente as belezas do baile, e apreciando
no menos minuciosamente alguns ridculos j observados durante a noite.

Tefilo no tomava grande parte na
conversa. Estava absorto em reflexes. Recordava-lhe sua me e sua irm de corao, talvez acordadas quela hora trabalhando  roda da modesta mesa de famlia.
Comparava aqueles esplendores do sarau com a simplicidade e a nudez da casa em
que deixara as duas criaturas cuja felicidade buscava. Uma espcie de remorso
doa-lhe na conscincia e um peso lhe apertava o corao.

De repente estremeceu. Augusto
reparou nisso e dirigiu-se ao poeta:

 Que tens?

Tefilo no respondeu. Tinha os
olhos cravados na direo da sala de dana.

Todos olharam para l.

  Slvia! exclamaram.

Com efeito, uma moa alta acabava
de entrar e atravessava o salo, com a majestade com que Juno devia atravessar
o Olimpo, nos tempos em que havia Olimpo e Juno.

  a rainha, exclamaram todos,
menos o eleitor da rainha Leocdia.

Tefilo tambm nada disse, mas
tinha os olhos cravados na moa.

Quando Slvia, continuando no
caminho, desapareceu por trs da parede divisria das duas salas, Augusto
voltou-se para o poeta e perguntou-lhe:

  ou no a rainha?

 , respondeu Tefilo.

Aqui comeou um cntico com
estrofes e epodos em louvor da beleza de Slvia.

Tefilo voltou ao habitual
silncio.

Depois saram da sala.

Augusto deu o brao a Tefilo.

 Queres que te apresente a
Slvia? perguntou-lhe.

 Quero.

Os dois moos dirigiram-se para o
salo.

A recm-chegada estava ento
sentada junto  dona da casa, senhora de trinta e seis anos, ainda bela, mas
dessa beleza do outono e do crepsculo que ainda rene elementos para
impressionar.

Uma turba de adoradores tinha-se
j reunido  roda de Slvia. Ela respondia a todos com volubilidade e graa
inefvel. De todos os lados da sala os olhos estavam voltados para ela, e um
observador sagaz podia apreciar a diferena da expresso que ia em todos esses
olhares. Da parte dos homens era, admirao em uns, despeito de vencidos em
outros; da parte das mulheres era certa vaidade mal contida e certa inveja mal
disfarada.

Slvia sabia que era singularmente
bela e tinha vaidade disso; era elegante por natureza e por educao; os homens
a requestavam e repetiam-lhe a cada momento aquilo que o espelho lhe dizia
durante o dia a cada hora.

Tefilo parou  porta vendo a
turba que cercava a moa.

 Iremos depois, disse ele.

 Por qu?

 Tanta gente...

 No sejas tolo. Anda c.

Tefilo deixou-se arrastar.

Augusto aproximou-se do grupo.

A moa apenas o viu fez-lhe um
sinal com o olhar. O moo obedeceu aproximando-se.

 No me acha um ar de filsofo?
disse ele sem largar o brao de Tefilo.

 Talvez, disse ela.

 Sou um peripattico que v
correr as horas, olhando para o cu,  espera do momento em que deve aparecer
Diana para vir empalidecer as estrelas...

 Deveras? disse ela movendo voluptuosamente
o leque.

Augusto fez a apresentao de
Tefilo.

Slvia inclinou ligeiramente a
cabea  saudao de Tefilo. Os seus olhos puros e grandes fitaram-se no moo.
Este no pde desviar os seus.

A conversa continuou animada pelos
ditos joviais e de algum modo familiares de Augusto. Tefilo tomava parte na
conversao quanto lhe permitia o xtase em que estava diante da singular
beleza de Slvia.

Slvia era realmente bela no
sentido amplo e elevado da palavra. Vinha  mente a idia de Clepatra, era um
duplo efeito que o aspecto da moa produzira no esprito e nos sentidos. Quem
amasse aquela moa desejaria que, como a Antnio, fosse trasladado para a campa
o leito nupcial da vida; ela devia inspirar uma como que voluptuosidade ainda
depois da morte.

Devo dizer, em honra de Tefilo,
que a impresso produzida no moo no tinha esse carter. O esprito do poeta
s via e sentia o que havia de puro e adorvel na mulher.

Slvia era um tanto plida, no
dessa fria palidez de cera que no comove. Tinha a testa arredondada e polida,
os olhos negros, profundos, rasgados, desferindo um olhar penetrante; um nariz
ligeiramente aquilino, servindo de base a duas sobrancelhas arcadas, bastas e
negras; a boca, graciosa e pequena, abria-se em dois lbios demasiadamente
rosados, midos, voluptuosos; um pescoo perfeitamente contornado ligava a
cabea aos ombros e fazia descer o olhar fascinado para o colo e para as
espduas, nus at onde consentiam a vaidade e o decoro. Sobre aquele colo ideal
fulgia uma pequena cruz de brilhantes em completa oscilao pelo arfar do seio.

Slvia vestia com simplicidade e
gosto, mas via-se nos maiores enfeites, como nos menores gestos, a conscincia
da beleza que procurava realar o que recebeu do cu com o auxlio do que se
inventou na terra.

Tefilo no podia desviar os olhos
de Slvia. O esprito do poeta sentia-se tomado de uma ebriedade celeste diante
daquela beleza fascinante. Era o filtro mgico do amor que se lhe entornava nos
olhos.

At ento o poeta conhecera a
beleza pelo que a imaginao lhe figurava. Esta beleza estava ali, diante dele,
palpvel, visvel, deslumbrante.

Slvia conheceu o efeito que
causara em Tefilo, ou antes sups que ele no podia fugir  lei comum dos
outros homens que a cercavam. Fitou um olhar fascinante no poeta, e depois
retirou os olhos para dirigir a palavra  dona da casa.

Augusto esperou que a moa
acabasse de falar, para interpor uma petio. Era a petio de ser contemplado
entre os cavalheiros que deviam merecer a honra de acompanh-la  dana. Slvia
deu-lhe uma quadrilha. Augusto intercedeu por Tefilo, e Tefilo obteve uma
valsa.

Depois os dois moos separaram-se.

  bela, no? perguntou ao poeta.

 Esplndida! murmurou este.

Tefilo sentiu-se outro. Parecia-lhe
que estava prximo a entrar na estncia da felicidade. Era simples: amava. O
amor nasceu-lhe de sbito, como acontece quando  verdadeiro.

Quando chegou a vez da sua valsa,
o nosso poeta estremeceu. Dirigiu-se para a moa. Sentia-se estranhamente
comovido, e por duas vezes esteve para recuar e sair. Enfim Slvia deu com os
olhos no poeta, e era impossvel escapar.

Slvia era valsista consumada.
Quando Tefilo sentiu palpitar junto a si aquele seio, e respirou o ambiente
estranho que cercava aquela singular criatura, o corao palpitou-lhe mais
forte; parecia-lhe um sonho. Que valsa foi aquela? No foi valsa, foi delrio,
delrio de poeta, delrio de fantasia escaldada.

Augusto acompanhou o par com os
olhos e reparou na mudana que se operava em Tefilo. Quando pde conversar com este interrogou-o acerca da impresso que lhe causava
Slvia.

 Aposto que ests apaixonado?

Tefilo olhou para ele
silenciosamente e respondeu:

 No!

Augusto insistiu.

 Queres conhecer o pai?  o
conselheiro C...

Augusto apresentou Tefilo ao pai
de Slvia. Uma conversa de poucos minutos decidiu as simpatias do conselheiro
pelo poeta. Tefilo sara dos seus hbitos de extrema reserva e mostrou-se to
discreto quanto agradvel. O conselheiro ofereceu os seus servios a Tefilo.

Esta noite fez uma revoluo na
vida e no esprito de Tefilo. O poeta encontrara o seu ideal. Mas por que foi
ach-lo to alto? Esta pergunta foi feita ao poeta quando se achou a ss no
gabinete de trabalho. S ento medira a distncia que existia entre ele e
Slvia. Se o amor, a natureza, a lei divina, podiam aproxim-los, o preconceito
social e a lei humana separavam-nos.

O poeta dormiu pouco e tarde.
Antes, porm, de procurar o leito, traduziu na linguagem das musas as
impresses de que estava possudo. Foi uma das suas poesias mais veementes. Era
a um tempo um cntico e uma elegia. No cntico dizia como a encontrara e amara
a beleza; na elegia chorava o infortnio de t-la visto to elevada e ser
impossvel subir at ela.

 Impossvel? pensava Tefilo na
manh seguinte relendo os versos. No. Basta que ela me ame para que tudo
desaparea. Que nos importar o resto?

Tefilo freqentou a casa do
conselheiro. Augusto, a quem Tefilo fez apenas meia confidncia, servia de
cicerone ao tmido amador.

Slvia, com esse tato delicado das
mulheres, reconheceu que era amada pelo poeta, e, longe de procurar
dissuadi-lo, animou-o. Esta animao levou ao esprito do poeta a esperana de
ser amado.

Todavia os meios empregados por
Slvia no comprometiam nada no futuro. Podiam dar esperanas, no podiam
obrigar. Tefilo no reconheceu essa diferena; amava; tomava o mais
insignificante olhar como um jubileu de venturas. Vivia dela, por ela, para
ela.

Um dia Tefilo sentiu que no
podia mais conter no corao o segredo do seu amor. Na amizade confia-se um
segredo, diz La Bruyre, mas no amor o segredo escapa.  o que sucedeu a
Tefilo.

Achava-se a ss com Slvia. O
conselheiro estava no gabinete em consulta de poltica, no de poltica
militante, mas de poltica observadora; entendia o conselheiro que a situao
caminhava mal; o amigo entendia que no. Sabe-se como estas discusses consomem
tempo. Tefilo estava seguro de no ser perturbado.

Slvia cantava ao piano a cavatina
do 1 ato do Trovador. Tefilo a dois passos ouvia enlevado aquelas notas que
Slvia reproduzia como sadas da alma. Tudo lhe esquecia: receios, temores,
desconfianas do mundo. Parecia-lhe que era o senhor daquela mulher e daquele
corao, e deixava-se embalar na doce iluso da sua fantasia e do seu amor.

Slvia, quando acabou, voltou o
rosto e deu com os olhos em Tefilo. Depois, tomando de sobre o piano o leque
de penas que ali depusera, levantou-se e dirigiu-se para o sof onde estava
Tefilo.

 Gostou? perguntou ela.

 Muito, disse o poeta adoando a
voz como se respondesse a um anjo.

Slvia sentou-se em uma cadeira
que ficava ao p do sof.

Tefilo fitou os olhos em Slvia.

Tudo ali conspirava para a
declarao do poeta. Estava diante de uma mulher esplndida de beleza, de
elegncia e de graa. A luz, nem muita nem pouca, era suficiente para dar ao
quadro um fundo vago e ideal.

Slvia suportou o olhar amoroso do
moo. Depois, abrindo os olhos em um sorriso divino, pronunciou estas palavras
com um tom de curiosidade infantil:

 Por que me olha assim?

 Porque... disse o poeta.

E calou-se.

 Por qu? disse a moa.

 Porque...; ah! perdo!... no
poderei guardar este segredo... Eu... amo-a...

Dizendo estas palavras Tefilo
levantou-se e esperou de p a resposta de Slvia.

Slvia baixou os olhos, deu uma
volta ao leque, bateu com ele sobre o joelho, e olhou silenciosa para Tefilo.

O moo estava embaraado. Que
fazer diante daquele silncio? Entretanto a sua felicidade dependia de uma
palavra de afirmao da moa. Ela persistia calada. Enfim fez um esforo e
murmurou:

 Diga-me...

 No lhe digo nada, disse Slvia
levantando-se.

 Por qu?

 Porque... no sei.

 Ah!

Esta simples exclamao foi surda,
e Slvia mal pde perceb-la.

A resposta da moa era dbia.
Podia afirmar, podia negar. Tefilo reparou nisto e sentiu um raio de
esperana. Slvia tinha dado alguns passos at a janela. Tefilo ia  janela
quando a moa voltava.

 Prefiro a verdade, cruel embora,
 dvida, disse ele. Se no me pode amar  melhor que o diga francamente.
Entretanto atenda bem para o estado do meu corao:  amor que eu sinto, amor
puro, ardente, elevado. Sinto...

 Basta, disse Slvia; serei
franca: no o amo!

 Ah!

Tefilo encostou-se a um mvel.

 No o amo. Talvez viesse a
am-lo. Mas como? Mal o conheo... Demais, este amor levaria a algum ato
definitivo, e eu no estou disposta a casar-me...

Dizendo estas palavras, a moa foi
sentar-se no sof.

Tefilo estava atnito. No eram
as palavras de Slvia que lhe pareceram estranhas; a moa podia no am-lo. Mas
o que lhe parecia estranho era o tom frio e indiferente com que elas foram
ditas. Nem uma comoo, nem um pesar. E havia debaixo daquela frieza um desdm
mal encoberto, talvez destinado a cortar de uma vez as esperanas do poeta.

A este curto dilogo dos dois
seguiu-se um profundo silncio, mal interrompido pelo leve rudo do leque com
que Slvia se abanava indolentemente.

Ouviu-se a voz do conselheiro que
despedia o aliado poltico depois de assentar com ele em que a situao
poltica no podia ser pior.

O conselheiro apareceu na sala
pouco depois.

A presena do conselheiro era
necessria na situao esquerda em que se achavam os dois. Slvia levantou-se e
foi ao pai, com um sorriso.

 Ento, meu pai, j acabou as
suas prticas de poltica?

 J, j... E tu? Oh! no cuidei
ter o prazer de encontr-lo ainda aqui... sr. Tefilo...

Tefilo, que se achava de p,
adiantou-se:

  verdade, ainda aqui estava.

 Ora bem, h de tomar ch
conosco.

 Desculpe, no posso... J me ia
embora...

 J? Mas se no  negcio
importante. No tem mulher ciumenta...

 Tenho me, sr. conselheiro, me
e irm... ciumentas ambas... que me amam e a quem correspondo a estima e o amor
que me tm.

Slvia sorriu-se, batendo com o
cabo do leque nos lbios...

Tefilo no reparou neste sorriso.

 Enfim, disse o conselheiro, se 
assim, no quero ser a causa de dano algum a essas senhoras... Mas, at amanh,
no?

 At... amanh.

Tefilo apertou a mo ao
conselheiro. Depois estendeu a sua a Slvia, que lhe deu apenas as pontas dos
dedos fazendo um leve sinal de cabea... Mas quando retirou os seus dedos,
Slvia no pde deixar de estremecer. Sentira que a mo de Tefilo estava fria
de gelo.

O caminho entre a casa de Slvia e
a de Tefilo era longo. Tefilo venceu esse espao absorto em amargos e
dolorosos pensamentos. Palpitava-lhe o corao de dor, e, no meio das torturas
por que passava ento, tinha grande parte do seu amor-prprio ofendido.

Ao aproximar-se de casa viu um
vulto  janela. Era Helena. O poeta no se admirou. Helena esperava-o sempre
at ele chegar. Tefilo, que demorava sempre em trocar algumas palavras com a
moa, nessa noite mal a cumprimentou, retirando-se logo para o quarto.

Helena estranhou isto, mas nada
disse. Ficou na sala algum tempo e depois retirou-se para o seu quarto. Ao
passar pela porta do quarto de Tefilo, Helena ouviu o som abafado de uns
soluos. Parou e colou o ouvido  porta. A moa no se pde conter: sentiu
carem-lhe as lgrimas e retirou-se apressadamente.

Com efeito, Tefilo apenas se viu
s soltou livremente as suas lgrimas. Eram naturais estas lgrimas em uma
natureza to delicada e to sensvel. As lgrimas no so somente o apangio da
fraqueza, so tambm o sintoma da elevao e da delicadeza dos sentimentos.
Tefilo chorava, como cantava: era uma maneira de exprimir as suas comoes.

Ora, estas comoes naquela
ocasio eram das mais poderosas que podia sofrer o corao do poeta. Levara a
construir um castelo de quimeras para v-lo decado com algumas palavras frias
e desdenhosas de uma mulher. Reunira naquele amor todas as foras vivas da sua
mocidade e do seu corao; e quando na plena confiana do amor em que ardia
julgou receber a sentena da felicidade, ouvira pura e simplesmente a sentena
de morte.

Mais ainda. No era s o amor que
ficara burlado: era o objeto do seu amor que se desonrava a seus olhos. Em sua
fantasia de poeta e sua ignorncia das coisas do mundo tinha imaginado na
mulher que amava uma alma to pura como era pura a beleza fsica. At esta
iluso se desvanecia. Aquela perfeio fsica era uma vulgaridade moral.

Quando se recebe uma dupla
desiluso desta ordem, os olhos no tm vergonha de chorar sobre os sonhos
desvanecidos. Os olhos do poeta choravam loucamente.

Mas a primeira exploso passou.
Veio no a calma, mas o cansao. Tefilo reuniu algumas idias e pde medir o
horror da situao. De tal modo a viu que chegou a culpar-se de tudo o que
ocorrera.

 No vi eu, dizia ele consigo,
que distncia imensa me separava daquela mulher? Quem me levou a levantar olhos
para to alto? Era bem pensada a minha esquivana de outrora, e se eu nunca
aceitasse o convite que me abriu as portas do mundo estaria agora to calmo e
to tranqilo como dantes. Volto agora com uma iluso de menos e um remorso de
mais. Eu devia ver desde logo que se ela me abria as portas de sua sala, no
estava obrigada a abrir-me as do seu corao.

Tefilo resumiu estes sentimentos
e estas reflexes em uma elegia que escreveu nessa mesma noite; soluo potico,
solto no meio do devaneio da dor e na situao sombria do seu corao.

No dia seguinte a velha Teresa
reparou no ar triste do filho e nos olhos pisados com que ele se levantou.
Tefilo respondeu s solicitaes da me, que esta ltima circunstncia
provinha de se ter deitado tarde; e quanto  tristeza, disse que nunca se
achara de nimo mais alegre.

Dizendo isto procurou sorrir.

D. Teresa acreditou.

Helena apareceu ento apresentando
o mesmo aspecto. As perguntas da me de Tefilo tiveram a mesma resposta.

Apesar de estranhar isto, D.
Teresa no deu ao caso maior importncia.

O almoo foi silencioso e triste.

Passaram-se alguns dias.

Tefilo continuou triste do mesmo
modo, mas como no aparecia em casa seno tarde, no tinha ocasio de ser
observado. As circunstncias de Helena eram piores.

Helena no dia seguinte  noite em
que ouvira soluar Tefilo foi ao gabinete deste apenas o viu sair. A deu com
os versos escritos na vspera.

No eram os primeiros em que o
nome de Slvia aparecia a Helena. J em poesias anteriores o mesmo nome
deixava-lhe perceber no corao do poeta um amor desconhecido. A linguagem da
ltima elegia deu a conhecer a Helena a situao do corao de Tefilo.

Helena deixou o gabinete enxugando
as lgrimas.

Que sentia esta menina pelo poeta?
Era simples amor de irm ou amor de mulher? No era o primeiro, e no se podia
absolutamente dizer que fosse o segundo. O amor, dizem os moralistas, nasce de
sbito. O que Helena tinha por Tefilo no era um sentimento de carter
semelhante.

Educados juntos, chegaram ambos 
idade da adolescncia e da mocidade sem que ela sentisse por ele mais do que
uma simples afeio fraternal.

Essa afeio mudou de natureza com
o andar dos tempos e a mudana das circunstncias.

Quando o crculo das afeies de
Helena se foi estreitando com a morte e a separao, a moa concentrava os
sentimentos do seu corao at chegar a no ter para estima mais do que as duas
criaturas com que a achamos agora: a velha Teresa e Tefilo.

Concorreu outra circunstncia para
a mudana dos sentimentos de Helena relativamente ao filho de D. Teresa.
Helena, no desenvolvimento completo da sua mocidade, no amara ainda. Ela olhou
para o futuro e em redor de si. No viu nenhum corao disposto a receber as
primcias do seu.

Um dia, sem reparar, sentiu que se
tivesse de escolher entre todos os homens um marido, era Tefilo aquele a quem
daria a palma. A inteligncia do moo, as suas qualidades, a estima que lhe
tinha, tudo se reunia para traz-lo  memria de Helena.

Desde ento os seus pensamentos se
voltaram para ele e uma revoluo operou-se no esprito da moa. O que sentia
era ento mais terno que o afeto de irm e menos ardente que o amor de mulher.
Se este amor no era o resultado de uma simpatia ntima e sbita, tinha ao
menos a qualidade de ter por fundamento a estima e o respeito, dois sentimentos
bastantes para dar a felicidade a um casal.

Tal  a explicao da curiosidade
de Helena relativamente s obras poticas de Tefilo. A pobre moa compreendia
que ali estava a alma do seu escolhido. Um dia, porm, no viu s a alma; viu a
alma e viu uma pgina escrita da vida do poeta, pgina cor-de-rosa ao
princpio, negra e sombria no fim.

Esta revelao trouxe o luto ao
esprito de Helena.

Era outra que ele amava. Se essa
ao menos correspondesse ao amor de Tefilo, talvez a moa chorando o destino
no amaldioasse aquela que concorria com ela na escolha do mesmo homem. Mas
no era assim. A amada do poeta no correspondia aos afetos dele.

D. Teresa notou a tristeza de
ambos, como dissemos acima. Sups ao princpio simples coincidncia; mas afinal
caiu-lhe uma suspeita no esprito. Talvez se amem de muito, talvez se arrufassem
de pouco. Quis observar, mas nada conseguiu saber. Lembrou-lhe interrogar
diretamente Helena; mas essa resoluo no passou ao princpio de uma simples
idia. A questo era delicada.

Entretanto, uma noite em que Tefilo se achava em casa e procurava no estudo uma hora de distrao, batem palmas 
porta.

Era Augusto.

Tefilo recebeu-o no gabinete.

 Que me queres? perguntou ele ao
amigo.

 Ouvem-nos? disse Augusto
acendendo um charuto.

 No.

 Bem.

 Que me queres?

 Sei tudo.

 O qu?

 Sei que amaste Slvia, sei que
lho disseste, sei que ela recusou o afeto do teu corao.

Tefilo empalideceu.

 Por que empalideces? perguntou
Augusto.

 Por dois motivos: o primeiro  a
recordao desse amor infeliz; o segundo  que esta derrota  para mim uma
vergonha tal que eu quisera encobrir at aos meus mais ntimos amigos.

 Aceito o primeiro; quanto ao
segundo...

 O segundo  igualmente
aceitvel.

 No . Seria a primeira derrota,
mesmo com Slvia?

 Creio que no  a primeira; mas
no  derrota propriamente o que me di e me envergonha;  que ela mostra o meu
erro e a minha loucura em ter procurado vitria em terreno to alto e to
difcil.

 No digas isso...

 Por que no? Desejei o
impossvel; tive a paga do meu arrojo. Mas quem te disse tudo? Foi ela?

 Foi.

 Ah!

 Digo-to francamente para que
avalies a namoradeira em cujos olhos puseste a estrela das tuas ambies
amorosas. Contou-me ela ontem tudo o que se passou, isto entre um movimento de
leque e uma escala do piano. No te vingas isso?

 No. Embora no aceitasse o meu
corao, eu desejara que ela ficasse sendo a mulher nobre e elevada que eu
sonhei nas minhas noites de febre.

 Vim dizer-to para que mais
depressa esquecesses aquela mulher. Se o teu amor ficasse ofendido, era mau
para ti e para ns: sucumbias. Mas se deste naufrgio s o teu amor-prprio
houver sofrido,  certo que vivers.

  a primeira hiptese: eu j no
vivo.

 Tenho a esperana de que h de
ser a segunda.

 Desejos de amigo! disse Tefilo
suspirando.

 Adeus, disse Augusto
levantando-se e abraando o poeta.

O poeta acompanhou Augusto at a
porta.

Quando voltou para o quarto,
Tefilo encontrou Helena na sala de jantar.

Ao princpio no reparou, mas
depois viu que a moa tinha os olhos rasos de lgrimas.

 Que tem, Helena? perguntou ele.

 Nada: dor de cabea.

Tefilo olhou silenciosamente para
a moa e retirou-se.

Causou-lhe estranheza aquilo. Que
motivos tero aquelas lgrimas? perguntou ele consigo.

Procurou, e a sua primeira idia
foi que Helena amasse Augusto. Qualquer que fosse a singularidade desta
explicao, todavia ela pareceu a Tefilo mais plausvel do que a de que ele
fosse o amado daquele jovem corao.

Dois dias passaram-se depois
disto. No fim desses dois dias D. Teresa foi a primeira a romper o silncio e a
perguntar afoitamente a Tefilo a causa da tristeza de ambos.

Apanhado de surpresa, Tefilo no
teve que responder. No s esta pergunta recordou-lhe diretamente o triste amor
por Slvia, como aproximava em uma s causa a tristeza dele e a tristeza de
Helena.

Esta ltima circunstncia
calou-lhe no esprito.

 Eu nada tenho, disse ele depois
de algum tempo. Quanto a Helena, no sei.

 Amam-se, talvez? perguntou D.
Teresa.

E como Tefilo no respondesse, a
boa velha acrescentou:

 Pois  o que podiam fazer de
melhor. Eis o que me daria a mais completa felicidade.

Tefilo retirou-se pensativo.

Seria ele amado por Helena? Teria
ele roado cem vezes aquele amor ingnuo, respeitoso, sem dar por ele? Sofreria
ela a dor que ele sentiu quando a indiferena de Slvia cortou em flor as suas
esperanas?

Estas perguntas foram feitas por
Tefilo a si prprio sem que ele pudesse dar-lhes uma resposta completa.

Uma circunstncia trouxe toda a
luz  situao. Tendo sado de manh voltou imediatamente em busca de um livro
que esquecera e que lhe era necessrio  lio que ia dar naquele dia.

Entrou sem ser sentido e foi ao
gabinete. Ali estava Helena, diante da porta aberta, tendo na mo uma folha de
papel.

Eram versos.

Helena quando o sentiu ficou sem
saber o que fazia. Olhou para ele e conservou na mo o papel.

Tinha o semblante triste, mas
procurou alegr-lo com um sorriso. No pde. Era um sorriso que a traiu.

Tefilo encaminhou-se para ali e
pegou na mo de Helena.

 Amas-me, Helena?

A moa abaixou os olhos.

Tefilo repetiu a pergunta.

 Sim; murmurou a moa.

 Quer ser minha mulher?

Helena fugiu sem dizer palavra.

Tefilo viu-a desaparecer e disse
consigo:

 Sei o que so estes sofrimentos.
Padeci; no quero que ela padea. Serei dela. Este amor curar-me-.

No dia seguinte Augusto recebia
esta carta de Tefilo:

Meu amigo.  Fui buscar o
impossvel, tendo o possvel  mo. V como andava errado. Queres ser meu
padrinho de casamento? Helena vai ser minha mulher.
