Conto, O Astrlogo, 1876

O Astrlogo

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, 1876.

Nunca houve
talvez nesta boa cidade quem melhor empunhasse a vara de almotac que o ativo e
sagaz Custdio Marques, morador defronte da sacristia da S durante o curto
vice-reinado do conde de Azambuja. Era homem de seus quarenta e cinco anos,
cheio de corpo e de alma  a julgar pela ateno e fervor com que desempenhava
o cargo, imposto pela vereana da terra e pelas leis do Estado. Os mercadores
no tinham mais figadal inimigo do que esse olho da autoridade pblica. As ruas
no conheciam maior vigilante. Assim como uns nascem pastores e outros
prncipes, Custdio Marques nascera almotac; era a sua vocao e apostolado.

Infelizmente,
como todo o excesso  vicioso, Custdio Marques, ou por natureza, ou por
hbito, transps a fronteira de suas atribuies, e passou do exame das medidas
ao das vidas alheias, e tanto curava de pesos como de costumes. Dentro de
poucos meses, tornou-se o maior indagador e sabedor do que se passava nas casas
particulares com tanta exao e individuao, que, uma sua comadre, assdua devota
do Rosrio, apesar da fama longamente adquirida, teve de lhe ceder a primazia.

 Mas, senhor
compadre  dizia ela trespassando no alvo seio volumoso o seu leno de algodo
do tear de Jos Lus,  Rua da Vala; no, senhor compadre, justia, justia. Eu
tinha presuno de me no escapar nada ou pouca coisa; mas confesso que voc 
muito mais fino do que eu.

 E ainda no sei
tudo o que queria, comadre Engrcia, replicou ele com modstia; h, por
exemplo, uma coisa que me quebra a cabea h quinze dias. Pois olhe que no
tenho perdido tempo!

 O que ,
compadre?  disse ela piscando-lhe os olhos de curiosidade e impacincia. No 
certamente o namoro do sargento-mor Fagundes com a irm daquele mercador da Rua
da Quitanda...

 Isso  coisa
velha e re-velha, respondeu Custdio levantando os ombros com desdm. Se at o
irmo da sujeita j deu pela coisa, e mandou dizer ao Fagundes que fosse cuidar
dos filhos, se no queria apanhar uma sova de pau. Afinal, so lrias do
mercador. Quem no sabe que a irm vivia, ainda h pouco tempo... Cala-te,
boca!

 Diga, compadre!

 Nada, no digo.
 quase meio-dia, e o feijo l est a minha espera.

A razo dada pelo
almotac tinha s de verdadeira a coincidncia cronolgica. Era exato estar
prxima a hora do jantar. Mas o verdadeiro motivo de interromper a conversa,
que se passava  porta da casa da Sra. Engrcia foi ter visto o nosso almotac,
ao longe, a esbelta figura do juiz de fora. Custdio Marques despediu-se da
comadre e seguiu no encalo do juiz. Logo que se achou a umas oito braas dele,
afrouxou o passo e assumiu o ar distrado que at ento ningum pudera imitar.
Olhava para o cho, para o interior das lojas, para trs, para todos os lados,
menos para a pessoa que era objeto da espionagem e contudo no a perdia de
vista, no lhe escapava um nico movimento.

O juiz,
entretanto, dirigia-se pela Rua da Me dos Homens abaixo at  Rua Direita, que
era onde morava. Custdio Marques viu-o entrar em casa e retrocedeu para a rua.

 Diabo! dizia
ele consigo. Naturalmente, vinha de l... se  que l vai de dia... Mas onde
?... Ficar para outra vez.

O almotac seguiu
a passo rpido para casa, no sem parar alguns minutos nas esquinas, a varrer a
rua transversal com o seu par de olhos de lince. Ali chegando, achou
efetivamente o jantar na mesa, um jantar corretamente nacional, puro dos
deliciosos galicismos que nos trouxe a civilizao.

Vieram para a
mesa D. Esperana, filha do almotac, e D. Joana da Purificao, sua irm, a
quem, por morte da mulher de Custdio Marques, coube a honra de reger a casa.
Esperana possua os mais belos olhos negros da cidade. Haveria cabelos mais
lindos, boca mais graciosa, tez mais pura. Olhos, no; nesse particular, podia
Esperana medir-se com os mais afamados da colnia. Eram pretos, grandes,
rasgados; sobretudo tinham um certo jeito de despedir as setas, capaz de deitar
abaixo o mais destro guerreiro. A tia, que a amava em extremo, trazia-a muito
abenoada e coberta de mimos; servia-lhe de me, camareira e mestra; levava-a
s igrejas e procisses, a todas as festas, quando porventura o irmo, por
motivo do cargo oficial ou do cargo oficioso, no as podia acompanhar.

Esperana beijou
a mo ao pai, que a contemplou com olhos cheios de ternura e projetos. Eram
estes cas-la, e cas-la nada menos que com um sobrinho do juiz de fora, homem
da nobreza da terra, e noivo muito ambicionado de solteiras e vivas. O
almotac no alcanara at ento enredar o moo nas graas da filha; mas
forcejava por isso. Uma coisa o tranqilizava:  que de suas pesquisas no
colhera notcia de nenhuma pretenso amorosa da parte do rapaz. Era j muito
no ter adversrios que combater.

Esperana,
entretanto, fazia clculos muito diferentes, e tratava igualmente de os pr em execuo. Seu corao, ao passo que se no rendia  nobreza do sobrinho do juiz, sentia
notvel inclinao para o filho do boticrio Jos Mendes  o jovem Gervsio
Mendes, com quem se carteava e palestrava  noite,  janela, quando o pai
andava em suas indagaes por fora, e a tia jogava a bisca com o sacristo da
S. Esse namoro de uns quatro meses no tinha ares de ceder aos planos de
Custdio Marques.

Abenoada a
filha, e comido o jantar, foi Custdio Marques cochilar a sesta durante meia
hora. A tarde gastou-a ao gamo, na botica vizinha, cujo dono, mais insigne
naquele jogo que no preparo das drogas, estatelava igualmente os parceiros e os
fregueses. A diferena entre os dois  que para o boticrio o gamo era um fim,
e para o almotac um meio. Os dedos corriam e o almotac ia misturando os
remoques prprios do jogo com mil perguntas, ora claras, ora disfaradas,
acerca das coisas que lhe convinha saber; o boticrio no hesitava em lhe dar
conta das novidades.

Naquela tarde no
havia nenhuma. Em compensao, havia um pedido.

 Voc, Sr.
Custdio,  que me podia fazer um grande favor, disse o boticrio.

 Qual?

 Aquele negcio
dos chos da Lagoa. Sabe que o senado da Cmara embirra em os tomar para si,
quando  positivo que pertencem a meu filho Jos. Se o juiz de fora quisesse,
podia fazer muito neste negcio; e voc que  to ntimo dele...

 Homem, amigo
sou, disse Custdio Marques lisonjeado com as palavras do boticrio; mas seu
filho, deixe-me que lhe diga... sei tudo.

 Tudo o qu?

 Ora! Sei que
quando o conde da Cunha tinha de organizar os teros de infantaria auxiliar,
seu filho Jos, no alcanando a nomeao de oficial que desejava, e vendo-se
ameaado de ser alistado na tropa, foi lanar-se aos ps daquela mulher
espanhola, que morou na Rua dos Ourives... Pois deveras no sabe?

 Diga, diga, Sr.
Custdio.

 Lanou-se-lhe
aos ps para lhe pedir proteo. A sujeita namorou-se dele; e, no lhe digo
nada, foi ela quem lhe emprestou o dinheiro com que ele comprou um privilgio
da redeno dos cativos, mediante o qual seu filho livrou-se da farda.

 Que peralta! A
mim disse-me ele que o cnego Vargas...

 Isto, Sr. Jos
Mendes, foi muito malvisto pelos poucos que o souberam. Um deles  o juiz de
fora, que  homem severo, apesar...

Custdio Marques
engoliu o resto da frase, concluiu-a por outro modo, e saiu prometendo que, em
todo caso, iria falar ao juiz. Efetivamente ao anoitecer l estava em casa
deste. O juiz de fora tratava o almotac com particular distino. Era ele o melhor
remdio das suas melancolias, o mais servial sujeito para tudo quanto fosse de
seu agrado. Logo que ele entrou, disse-lhe o dono da casa:

 Ora, venha c,
Sr. espio, porque me andou voc hoje a acompanhar um longo pedao de tempo?

Custdio Marques
empalideceu; mas foi rpida a impresso.

 O que havia de
ser? disse ele sorrindo. Aquilo... aquilo que eu lhe disse uma vez, h dias..

 H dias?

 Sim, senhor.
Ando a ver se descubro uma coisa. Vossa Senhoria, que sempre gostou tanto de
moas,  impossvel que no tenha por a alguma aventura...

 Deveras?
perguntou rindo o juiz de fora.

 H de haver
alguma coisa; e eu hei de descobri-la. Vossa Senhoria sabe se eu tenho faro
para tais empresas. S se me jurar que...

 No juro, que
no  caso disso; mas posso tirar-te o trabalho da pesquisa. Vivo com recato,
como todos sabem; tenho deveres de famlia...

 Qual! tudo isso
 nada quando um rosto bonito... que ele h de ser bonito por fora; nem Vossa
Senhoria  pessoa que se deixe a levar por qualquer figura... Eu verei o que
h. Olhe, o que eu posso afianar  que o que descobrir c vai comigo para a
sepultura. Nunca fui homem de dar com a lngua nos dentes.

O juiz de fora
riu muito, e Custdio Marques passou daquele assunto para o do filho do
boticrio, mais por descargo de conscincia que por verdadeiro interesse.
Contudo,  fora confessar que a vaidade de mostrar ao vizinho Jos Mendes que
ele podia influir alguma coisa, sempre lhe afiou a lngua um pouco mais do que
queria. A conversa foi interrompida por um oficial que trazia ao juiz de fora
um recado do conde de Azambuja. O magistrado leu a cartinha do vice-rei e
empalideceu um pouco. No escapou esta circunstncia ao almotac, cuja ateno
encarapitou-se toda nos seus olhinhos vivos e perspicazes, enquanto o juiz
dizia ao oficial que no tardaria em obedecer s ordens de S. Ex.

 Alguma
importunao, naturalmente, disse Custdio Marques com ar de quem queria ser
discreto. So as obrigaes do cargo; ningum foge a elas. Vossa Senhoria
precisa de mim?

 No, Sr.
Custdio.

 Se precisa, no
tenha cerimnia. Bem sabe que eu nunca estou melhor do que ao seu servio. Se
quiser um recado qualquer...

 Um recado?
repetiu o magistrado como quem efetivamente precisava de mandar algum.

 O que quiser;
fale Vossa Senhoria, que h de ser logo obedecido.

O juiz de fora
refletiu um instante, e recusou. O almotac no teve outro remdio seno deixar
a companhia de seu amigo e protetor. Eram nove horas dadas. O juiz de fora
preparou-se para acudir ao chamado do vice-rei; dois escravos, com lanternas, o
precederam na rua, enquanto Custdio Marques volvia para casa, sem lanterna,
apesar das instncias do magistrado para que aceitasse uma.

A lanterna era um
obstculo para o funcionrio municipal. Se a iluminao pblica, que s comeou
no vice-reinado do conde de Resende, fosse naquele tempo sujeita ao voto do
povo, pode-se afirmar que o almotac lhe seria contrrio. A escurido era uma
das vantagens de Custdio Marques. Ele a aproveitava em escutar s portas ou
surpreender as entrevistas dos namorados s janelas. Naquela noite, porm, mais
que tudo o preocupava o chamado do vice-rei e a impresso que ele fez ao juiz
de fora. Que seria? Custdio Marques ia cogitando nisso e pouco no resto da
cidade. Ainda assim, pde ouvir alguma coisa da conspirao de vrios devotos
do Rosrio, em casa do barbeiro Matos, para derribar a atual mesa da Irmandade,
e viu sair cinco ou seis indivduos da casa de D. Emerenciana,  Rua da Quitanda,
onde ele j havia descoberto que se jogava todas as noites. Um deles, pela
fala, pareceu-lhe que era o filho de Jos Mendes.

 Nisso  que se
ocupa aquele peralta! dizia ele consigo.

Mas enganava-se o
almotac. Justamente  hora em que da casa de D. Emerenciana saam os tais
sujeitos, despedia-se Gervsio Mendes da formosa Esperana, com quem conversara
 janela, desde as sete horas e meia. Gervsio queria prolongar a conversa, mas
a filha do almotac pediu-lhe instantemente que fosse, visto ser hora de voltar
o pai. Alm disso, a tia de Esperana, irritada com cinco ou seis capotes que
lhe dera o sacristo, jurava pelas bentas setas do mrtir padroeiro nunca mais
pegar em cartas. Verdade  que o sacristo, filsofo e prtico, baralhava as
cartas com exemplar modstia, e vencia o despeito de D. Joana,  fora de lhe
dizer que a fortuna anda e desanda, e que a partida seguinte bem lhe podia ser
adversa. D. Joana entre as cartas e as setas escolheu o que lhe parecia ser
menos mortfero.

Gervsio cedeu
tambm s rogativas de Esperana.

 Sobretudo,
dizia esta, no fiques zangado com papai por ele haver dito...

 Oh! se tu
souberes o que foi! interrompeu o filho do boticrio. Foi uma calnia, mas to
torpe que no te posso repetir. Estou certo de que o Sr. Custdio Marques no a
inventou; repetiu-a somente e fez mal. E foi por culpa dele que meu pai me
ameaou hoje com uma sova de pau. Pau, a mim! E por causa do Sr. Custdio
Marques!

 Mas ele no te
quer mal...

 Eu sei l!

 No quer, no,
insistiu a moa com meiguice.

 Pode ser que
no; mas com os projetos que tem a teu respeito, se vier a saber que tu gostas
de mim... E da pode ser que tu mesma cedas e cases com o...

 Eu! Nunca!
Antes meter-me freira.

 Juras?

 Gervsio!

Estalou um beijo
que fez levantar a cabea  tia Joana, e o sacristo explicou dizendo que lhe
parecia o chiar de um grilo. O grilo arrancou-se, enfim,  companhia da gentil
Esperana, e tinha j tempo de estar acomodado na sua alcova, quando Custdio
Marques chegou a casa. Achou tudo em paz. D. Joana levantava a banca do jogo, o sacristo despedia-se, Esperana recolhera-se ao seu quarto. O almotac
encomendou-se aos santos de sua devoo, e dormiu na paz do Senhor.

A palidez do juiz
de fora no saiu, talvez, da cabea do leitor; e, tanto como o almotac, est
ele curioso de saber a causa do fenmeno. A carta do vice-rei dizia respeito a
negcio do Estado. Era lacnica; mas terminava com uma frase mortal para o
magistrado: Pode ser que o servio de S. Majestade exija de Vossa Senhoria uma
jornada de algumas semanas. Venha ter comigo imediatamente. Se o juiz de fora
fosse obrigado ao servio extraordinrio de que lhe falava o conde de Azambuja,
interrompia-se um romance, comeado cerca de dois meses antes, em que era
protagonista uma interessante viuvinha de vinte e seis estios. Esta viuvinha
era da provncia de Minas Gerais; descera da terra natal para entregar em mo
do vice-rei uns papis que queria submeter a Sua Majestade, e ficou presa nas
maneiras obsequiosas do juiz de fora.

Alugou casa perto
do convento da Ajuda, e ali estava morando, a ttulo de ver a Capital. O
romance assumiu propores grandes, complicou-se o enredo, avultaram as descries
e as peripcias, e a obra ameaava estender-se a muitos volumes. Nestas
circunstncias exigir do magistrado que se alongasse da Capital algumas
semanas, era exigir o mais difcil e asprrimo. Imagine-se com que alma saiu
dali o magistrado.

Qual fosse o
negcio de Estado que obrigou aquele chamado noturno, no o sei eu, nem importa
sab-lo. O essencial  que durante trs dias ningum arrancou um sorriso aos
lbios do magistrado, e que no terceiro dia volveu-lhe a alegria mais
espontnea e viva, que at ali tivera. Adivinha-se que a necessidade da jornada
desapareceu e que o romance no ficava truncado.

O almotac foi
dos primeiros que viram esta mudana. Preocupado com a tristeza do juiz de
fora, no menos o ficou ao v-lo novamente satisfeito.

 No sei qual
foi o motivo da tristeza de Vossa Senhoria, disse ele, mas espero mostrar-lhe
quanto me alegro com v-lo tornado s suas usuais venturas.

Efetivamente, o
almotac tinha dito  filha que era necessrio dar um mimo qualquer, de suas
mos, ao juiz de fora, com quem, se a fortuna a ajudasse, viria a ser
aparentada. Custdio Marques no viu o golpe que a filha recebeu com esta
palavra; exigia o cargo municipal que ele fosse dali a servio, e foi, deixando
a alma da menina doente de maior aflio.

Entretanto, a
alegria do juiz de fora era tal, e to agudo se ia tornando o romance, que j o
feliz magistrado observava menos as costumadas cautelas. Um dia, cerca das seis
horas da tarde, passando o almotac pela Rua da Ajuda, viu sair de uma casa, de
nobre aparncia, a venturosa figura do magistrado. Sua ateno encrespou as
orelhas; e os olhos perspicazes faiscaram de contentamento. Haveria ali um fio?
Logo que viu longe o juiz de fora, aproximou-se da casa, como farejando; dali
foi  loja mais prxima, onde soube que na dita casa morava a interessante
viva mineira. A eleio de vereador ou um presente de quatrocentos africanos,
no o contentaria mais.

 Tenho o fio!
dizia ele consigo. Resta-me ir ao fundo do labirinto.

Da em diante,
no houve assunto que distrasse o esprito investigador do almotac. De dia e
de noite, vigiava a casa da Rua da Ajuda, com pertincia e dissimulao raras;
e to feliz foi que, no fim de cinco dias, tinha certeza de tudo. Auxiliou-o
nisso a indiscrio de alguns escravos. Uma vez sabedor da aventura, deu-se
pressa em correr  casa do juiz de fora.

 Ainda agora
aparece! exclamou este logo que o viu entrar.

 Vossa Senhoria
fez-me a honra de mandar chamar?

 H meia hora
que andam dois emissrios em sua procura.

 Eu estava em
servio de Vossa Senhoria.

 Como?

 No lhe dizia
eu que havia de descobrir alguma coisa? perguntou o almotac piscando os olhos.

 Alguma coisa!

 Sim, aquilo...
Vossa Senhoria sabe a que me refiro... Meteu-se-me em cabea que Vossa Senhoria
no podia escapar-me.

 No compreendo.

 No compreende
Vossa Senhoria outra coisa, disse Custdio Marques deliciando-se com o repassar
do ferro na curiosidade do protetor.

 Mas, Sr.
Custdio, trata-se...

Trate-se do que se tratar; declaro
a Vossa Senhoria que sou de segredo, e por isso nada direi a ningum. Que havia
de haver algum bico dobra, era verdade; andei  espreita, e afinal descobri a
moa... a moa da Rua da Ajuda.

 Sim?

  verdade. Fiz a descoberta h dias;
mas no vim logo porque queria certificar-me bem. Agora, posso dizer-lhe que...
sim, senhor... aprovo.  muito bonita.

 Andou ento na investigao dos
meus passos?

 Vossa Senhoria compreende que
no h outra inteno...

Pois, Sr. Custodio Marques,
mandei-o chamar por toda a parte, visto que h cerca de trs quartos de hora
tive notcia de que sua filha fugiu de casa...

O almotac deu um pulo; seus dois
olhinhos cresceram desmesuradamente; a   boca, aberta, no ousava
proferir uma s palavra.

 Fugiu de casa, continuou o
magistrado, segundo notcia que tenho, e creio que...

 Mas com quem? para onde?
articulou enfim o almotac.

 Fugiu com o Gervsio Mendes. Vo
na direo da Lagoa da Sentinela...

 Sr. Dr.... Peo-lhe perdo, mas,
bem sabe... bem sabe...

 V, v...

Custdio Marques no atinava com o
chapu. Deu-lho o juiz de fora.

 Corra...

 Olhe a bengala!

O almotac
recebeu a bengala.

 Obrigado! Quem
tal diria! Ah! nunca pensei... que minha filha, e aquele peralta... Deixe-os comigo...

 No perca
tempo.

 Vou... vou.

 Mas, olhe c,
antes de ir. Um astrlogo contemplava os astros, com tamanha ateno, que caiu
num poo. Uma velha da Trcia, vendo-o cair, soltou esta exclamao: Se ele
no via o que lhe estava aos ps, para que havia de investigar o que l fica
to em cima!

O almotac
compreenderia o aplogo, se pudesse ouvi-lo. Mas no ouviu nada. Desceu as
escadas a quatro e quatro bufando como um touro.

Il
court encore.
