Conto, Filosofia de um Par de Botas, 1878

Filosofia
de um par de botas

Texto Fonte:

Obra Completa de
Machado de Assis,Vol. III

Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1994.

Publicado
originalmente em O Cruzeiro, 23 de abril de 1878.

Uma destas tardes, como eu acabasse
de jantar, e muito, lembrou-me dar um passeio  Praia de Santa Luzia, cuja
solido  propcia a todo homem que ama digerir em paz. Ali fui, e com tal fortuna que achei uma pedra lisa para me sentar, e nenhum flego vivo nem
morto.  Nem morto, felizmente. Sentei-me, alonguei os olhos, espreguicei a
alma, respirei  larga, e disse ao estmago:  Digere a teu gosto, meu velho
companheiro. Deus nobis haec otia fecit.

Digeria o estmago, enquanto o
crebro ia remoendo, to certo , que tudo neste mundo se resolve na
mastigao. E digerindo, e remoendo, no reparei logo que havia, a poucos
passos de mim, um par de coturnos velhos e imprestveis. Um e outro tinham a
sola rota, o taco comido do longo uso, e tortos, porque  de notar que a
generalidade dos homens camba, ou para um ou para outro lado. Um dos coturnos
(digamos botas, que no lembra tanto a tragdia), uma das botas tinha um rasgo
de calo. Ambas estavam maculadas de lama velha e seca; tinham o couro ruo,
pudo, encarquilhado.

Olhando casualmente para as botas,
entrei a considerar as vicissitudes humanas, e a conjeturar qual teria sido a
vida daquele produto social. Eis seno quando, ouo um rumor de vozes surdas;
em seguida, ouvi slabas, palavras, frases, perodos; e no havendo ningum, imaginei
que era eu, que eu era ventrloquo; e j podem ver se fiquei consternado. Mas
no, no era eu; eram as botas que falavam entre si, suspiravam e riam,
mostrando em vez de dentes, umas pontas de tachas enferrujadas. Prestei o
ouvido; eis o que diziam as botas:

BOTA ESQUERDA.- Ora, pois, mana,
respiremos e filosofemos um pouco.

BOTA DIREITA.- Um pouco? Todo o
resto da nossa vida, que no h de ser muito grande; mas enfim, algum descanso
nos trouxe a velhice. Que destino! Uma praia! Lembras-te do tempo em que
brilhvamos na vidraa da Rua do Ouvidor?

BOTA ESQUERDA.- Se me lembro!
Quero at crer que ramos as mais bonitas de todas. Ao menos na elegncia...

BOTA DIREITA.- Na elegncia,
ningum nos vencia.

BOTA ESQUERDA.- Pois olha que
havia muitas outras, e presumidas, sem contar aquelas botinas cor de
chocolate... aquele par...

BOTA DIREITA.- O dos botes de
madreprola?

BOTA ESQUERDA.- Esse.

BOTA DIREITA.- O daquela viva?

BOTA ESQUERDA.- O da viva.

BOTA DIREITA.- Que tempo! ramos
novas, bonitas, asseadas; de quando em quando, uma passadela de pano de linho,
que era uma consolao. No mais, plena ociosidade. Bom tempo, mana, bom tempo!
Mas, bem dizem os homens: no h bem que sempre dure, nem mal que se no acabe.

BOTA ESQUERDA.- O certo  que
ningum nos inventou para vivermos novas toda vida. Mais de uma pessoa ali foi
experimentar-nos; ramos caladas com cuidado, postas sobre um tapete, at que
um dia, o Dr. Crispim passou, viu-nos, entrou e calou-nos. Eu, de raivosa,
apertei-lhe um pouco os dois calos.

BOTA DIREITA.- Sempre te conheci
pirracenta.

BOTA ESQUERDA.- Pirracenta, mas
infeliz. Apesar do aperto, o Dr. Crispim levou-nos.

BOTA DIREITA.- Era bom homem, o
Dr. Crispim; muito nosso amigo. No dava caminhadas largas, no danava. S
jogava o voltarete, at tarde, duas e trs horas da madrugada; mas, como o
divertimento era parado, no nos incomodava muito. E depois, entrava em casa,
na pontinha dos ps, para no acordar a mulher. Lembras-te?

BOTA ESQUERDA.- Ora! por sinal que
a mulher fingia dormir para lhe no tirar as iluses. No dia seguinte ele
contava que estivera na maonaria. Santa senhora!

BOTA DIREITA.- Santo casal!
Naquela casa fomos sempre felizes, sempre! E a gente que eles freqentavam?
Quando no havia tapetes, havia palhinha; pisvamos o macio, o limpo, o
asseado. Andvamos de carro muita vez, e eu gosto tanto de carro! Estivemos ali
uns quarenta dias, no?

BOTA ESQUERDA.- Pois ento! Ele
gastava mais sapatos do que a Bolvia gasta constituies.

BOTA DIREITA.- Deixemo-nos de
poltica.

BOTA ESQUERDA.- Apoiado.

BOTA DIREITA (com fora).-
Deixemo-nos de poltica, j disse!

BOTA ESQUERDA (sorrindo).-
Mas um pouco de poltica debaixo da mesa?... Nunca te contei... contei, sim...
o caso das botinas cor de chocolate... as da viva...

BOTA DIREITA.- Da viva, para quem
o Dr. Crispim quebrava muito os olhos? Lembra-me que estivemos juntas, num
jantar do Comendador Plcido. As botinas viram-nos logo, e ns da a pouco as
vimos tambm, porque a viva, como tinha o p pequeno, andava a mostr-lo a
cada passo. Lembra-me tambm que,  mesa, conversei muito com uma das botinas.
O Dr. Crispim sentara-se ao p do comendador e defronte da viva; ento, eu fui
direita a uma delas, e falamos, falamos pelas tripas de Judas... A princpio,
no; a princpio ela fez-se de boa; e toquei-lhe no bico, respondeu-me zangada:
V-se, me deixe! Mas eu insisti, perguntei-lhe por onde tinha andado,
disse-lhe que estava ainda muito bonita, muito conservada; ela foi-se
amansando, buliu com o bico, depois com o taco, pisou em mim, eu pisei nela e
no te digo mais...

BOTA ESQUERDA.- Pois  justamente
o que eu queria contar...

BOTA DIREITA.- Tambm conversaste?

BOTA ESQUERDA.- No; ia conversar
com a outra. Escorreguei devagarinho, muito devagarinho, com cautela, por causa
da bota do comendador.

BOTA DIREITA.- Agora me lembro:
pisaste a bota do comendador.

BOTA ESQUERDA.- A bota? Pisei o
calo. O comendador: Ui! As senhoras: Ai! Os homens: Hein? E eu recuei; e o Dr.
Crispim ficou muito vermelho, muito vermelho...

BOTA DIREITA.- Parece que foi
castigo. No dia seguinte o Dr. Crispim deu-nos de presente a um procurador de
poucas causas.

BOTA ESQUERDA.- No me fales! Isso
foi a nossa desgraa! Um procurador! Era o mesmo que dizer: mata-me estas
botas; esfrangalha-me estas botas!

BOTA DIREITA.- Dizes bem. Que roda
viva! Era da Relao para os escrives, dos escrives para os juzes, dos
juzes para os advogados, dos advogados para as partes (embora poucas), das
partes para a Relao, da Relao para os escrives...

BOTA ESQUERDA.- Et coetera.
E as chuvas! e as lamas! Foi o procurador quem primeiro me deu este corte para
desabafar um calo. Fiquei asseada com esta janela  banda.

BOTA DIREITA.- Durou pouco;
passamos ento para o fiel de feitos, que no fim de trs semanas nos transferiu
ao remendo. O remendo (ah! j no era a Rua do Ouvidor!) deu-nos alguns
pontos, tapou-nos este buraco, e impingiu-nos ao aprendiz de barbeiro do Beco
dos Aflitos.

BOTA DIREITA.- Com esse havia
pouco que fazer de dia, mas de noite...

BOTA ESQUERDA.- No curso de dana;
lembra-me. O diabo do rapaz valsava como quem se despede da vida. Nem nos
comprou para outra coisa, porque para os passeios tinha um par de botas novas,
de verniz e bico fino. Mas para as noites... Ns ramos as botas do curso...

BOTA DIREITA.- Que abismo entre o
curso e os tapetes do Dr. Crispim...

BOTA ESQUERDA.- Coisas!

BOTA DIREITA.- Justia, justia; o
aprendiz no nos escovava; no tnhamos o suplcio da escova. Ao menos, por
esse lado, a nossa vida era tranqila.

BOTA ESQUERDA.- Relativamente,
creio. Agora, que era alegre no h dvida; em todo caso, era muito melhor que
a outra que nos esperava.

BOTA DIREITA.- Quando fomos parar
s mos...

BOTA ESQUERDA.- Aos ps.

BOTA DIREITA.- Aos ps daquele
servente das obras pblicas. Da fomos atiradas  rua, onde nos apanhou um
preto padeiro, que nos reduziu enfim a este ltimo estado! Triste! triste!

BOTA ESQUERDA.- Tu queixas-te,
mana?

BOTA DIREITA.- Se te parece!

BOTA ESQUERDA.- No sei; se na
verdade  triste acabar assim to miseravelmente, numa praia, esburacadas e
rotas, sem taces nem iluses,  por outro lado, ganhamos a paz, e a
experincia.

BOTA DIREITA.- A paz? Aquele mar
pode lamber-nos de um relance.

BOTA ESQUERDA.- Trazer-nos- outra
vez  praia. Demais, est longe.

BOTA DIREITA.- Que eu, na verdade,
quisera descansar agora estes ltimos dias; mas descansar sem saudades, sem a
lembrana do que foi. Viver to afagadas, to admiradas na vidraa do autor dos
nossos dias; passar uma vida feliz em casa do nosso primeiro dono, suportvel
na casa dos outros; e agora...

BOTA ESQUERDA.- Agora qu?

BOTA DIREITA.- A vergonha, mana.

BOTA ESQUERDA.- Vergonha, no.
Podes crer, que fizemos felizes aqueles a quem calamos; ao menos, na nossa
mocidade. Tu que pensas? Mais de um no olha para suas idias com a mesma
satisfao com que olha para suas botas. Mana, a bota  a metade da
circunspeco; em todo o caso  a base da sociedade civil...

BOTA DIREITA.- Que estilo! Bem se
v que nos calou um advogado.

BOTA ESQUERDA.- No reparaste que,
 medida que amos envelhecendo, ramos menos cumprimentadas?

BOTA DIREITA.- Talvez.

BOTA ESQUERDA.- ramos, e o chapu
no se engana. O chapu fareja a bota... Ora, pois! Viva a liberdade! viva a
paz! viva a velhice! (A Bota Direita abana tristemente o cano). Que
tens?

BOTA DIREITA.- No posso; por mais
que queira, no posso afazer-me a isto. Pensava que sim, mas era iluso... Viva
a paz e a velhice, concordo; mas h de ser sem as recordaes do passado...

BOTA ESQUERDA.- Qual passado? O de
ontem ou de anteontem? O do advogado ou o do servente?

BOTA DIREITA.- Qualquer; contanto
que nos calassem. O mais reles p de homem  sempre um p de homem.

BOTA ESQUERDA.- Deixa-te disso;
faamos da nossa velhice uma coisa til e respeitvel.

BOTA DIREITA.- Respeitvel, um par
de botas velhas! til, um par de botas velhas! Que utilidade? que respeito? No
vs que os homens tiraram de ns o que podiam, e quando no valamos um caracol
mandaram deitar-nos  margem? Quem  que nos h de respeitar?  aqueles
mariscos? (olhando para mim) Aquele sujeito que est ali com os olhos
assombrados?

BOTA ESQUERDA.- Vanitas!
Vanitas!

BOTA DIREITA.- Que dizes tu?

BOTA ESQUERDA.- Quero dizer que s
vaidosa, apesar de muito acalcanhada, e que devemos dar-nos por felizes com
esta aposentadoria, lardeada de algumas recordaes.

BOTA DIREITA.- Onde estaro a esta
hora as botinas da viva?

BOTA ESQUERDA.- Quem sabe l!
Talvez outras botas conversem com outras botinas... Talvez:  a lei do mundo;
assim caem os Estados e as instituies. Assim perece a beleza e a mocidade.
Tudo botas, mana; tudo botas, com taces ou sem taces, novas ou velhas;
direita ou acalcanhadas, lustrosas ou ruas, mas botas, botas botas!

Neste ponto calaram-se as duas
interlocutoras, e eu fiquei a olhar para uma e outra, a esperar se diziam
alguma coisa mais. Nada; estavam pensativas.

Deixei-me ficar assim algum tempo,
disposto a lanar mo delas, e lev-las para casa com o fim de as estudar,
interrogar, e depois escrever uma memria, que remeteria a todas as academias
do mundo. Pensava tambm em as apresentar nos circos de cavalinhos, ou ir
vend-las a Nova Iorque. Depois, abri mo de todos esses projetos. Se elas
queriam a paz, uma velhice sossegada, por que motivo iria eu arranc-las a essa
justa paga de uma vida cansada e laboriosa? Tinham servido tanto! tinham rolado
todos os degraus da escala social; chegavam ao ltimo, a praia, a triste Praia
de Santa Luzia... No, velhas botas! Melhor  que fiqueis a no derradeiro
descanso.

Nisto vi chegar um sujeito
maltrapilho; era um mendigo. Pediu-me uma esmola; dei-lhe um nquel.

MENDIGO.- Deus lhe pague, meu
senhor! (Vendo as botas) Um par de botas! Foi um anjo que as ps aqui...

EU (ao mendigo).- Mas,
espere...

MENDIGO.- Espere o qu? Se lhe
digo que estou descalo! (Pegando nas botas) Esto bem boas! Cosendo-se
isto aqui, com um barbante...

BOTA DIREITA.- Que  isto, mana?
que  isto? Algum pega em ns... Eu sinto-me no ar...

BOTA ESQUERDA.-  um mendigo.

BOTA DIREITA.- Um mendigo? Que
querer ele?

BOTA DIREITA (alvoroada).-
Ser possvel?

BOTA ESQUERDA.- Vaidosa!

BOTA DIREITA.- Ah! mana! esta  a
filosofia verdadeira:  No h bota velha que no encontre um p cambaio.
