Conto, Curta Histria, 1886

Curta histria

Texto Fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.
II, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, 31
de maio de 1886.

A leitora ainda h de lembrar-se
do Rossi, o ator Rossi, que aqui nos deu tantas obras-primas do teatro ingls,
francs e italiano. Era um homenzarro, que uma noite era terrvel como Otelo,
outra noite meigo como Romeu. No havia duas opinies, quaisquer que fossem as
restries, assim pensava a leitora, assim pensava uma D. Ceclia, que est
hoje casada e com filhos.

Naquele tempo esta Ceclia tinha dezoito
anos e um namorado. A desproporo era grande; mas explica-se pelo ardor com
que ela amava aquele nico namorado, Juvncio de Tal. Note-se que ele no era
bonito, nem afvel, era seco, andava com as pernas muito juntas, e com a cara
no cho, procurando alguma coisa. A linguagem dele era tal qual a pessoa,
tambm seca, e tambm andando com os olhos no cho, uma linguagem que, para ser
de cozinheiro, s lhe faltava sal. No tinha idias, no apanhava mesmo as dos
outros; abria a boca, dizia isto ou aquilo, tornava a fech-la, para abrir e
repetir a operao.

Muitas amigas de Ceclia
admiravam-se da paixo que este Juvncio lhe inspirava; todas contavam que era
um passatempo, e que o arcanjo que devia vir busc-la para lev-la ao paraso,
estava ainda pregando as asas; acabando de as pregar, descia, tomava-a nos
braos e sumia-se pelo cu acima.

Apareceu Rossi, revolucionou toda
a cidade. O pai de Ceclia prometeu  famlia que a levaria a ver o grande
trgico. Ceclia lia sempre os anncios, e o resumo das peas que alguns
jornais davam. Julieta e Romeu encantou-a, j pela notcia vaga que
tinha da pea, j pelo resumo que leu em uma folha, e que a deixou curiosa e
ansiosa. Pediu ao pai que comprasse bilhete, ele comprou-o e foram.

Juvncio, que j tinha ido a uma
representao, e que a achou insuportvel (era Hamlet) iria a esta outra
por causa de estar ao p de Ceclia, a quem ele amava deveras; mas por desgraa
apanhou uma constipao, e ficou em casa para tomar um suadouro, disse ele. E
aqui se v a singeleza deste homem, que podia dizer enfaticamente  um
sudorfico;  mas disse como a me lhe ensinou, como ele ouvia  gente de casa.
No sendo coisa de cuidado, no entristeceu muito a moa; mas sempre lhe ficou
algum pesar de o no ver ao p de si. Era melhor ouvir Romeu e olhar para
ele...

Ceclia era romanesca, e
consolou-se depressa. Olhava para o pano, ansiosa de o ver erguer-se. Uma
prima, que ia com ela, chamava-lhe a ateno para as toilettes
elegantes, ou para as pessoas que iam entrando; mas Ceclia dava a tudo isso um
olhar distrado. Toda ela estava impaciente de ver subir o pano.

 Quando sobe o pano? perguntava
ela ao pai.

 Descansa, que no tarda.

Subiu afinal o pano, e comeou a
pea. Ceclia no sabia ingls nem italiano. Lera uma traduo da pea cinco
vezes, e, apesar disso, levou-a para o teatro. Assistiu s primeiras cenas
ansiosa. Entrou Romeu, elegante e belo, e toda ela comoveu-se; viu depois
entrar a divina Julieta, mas as cenas eram diferentes, os dois no se falavam
logo; ouviu-os, porm, falar no baile de mscaras, adivinhou o que sabia, bebeu
de longe as palavras eternamente belas, que iam cair dos lbios de ambos.

Foi o segundo ato que as trouxe;
foi aquela cena imortal da janela que comoveu at s entranhas a pessoa de
Ceclia. Ela ouvia as de Julieta, como se ela prpria as dissesse; ouvia as de
Romeu, como se Romeu falasse a ela prpria. Era Romeu que a amava. Ela era
Ceclia ou Julieta, ou qualquer outro nome, que aqui importava menos que na pea.
'Que importa um nome?' perguntava Julieta no drama; e Ceclia com os
olhos em Romeu parecia perguntar-lhe a mesma coisa. 'Que importa que eu
no seja a tua Julieta? Sou a tua Ceclia; seria a tua Amlia, a tua Mariana;
tu  que serias sempre e sers o meu Romeu.'

A comoo foi grande. No fim do
ato, a me notou-lhe que ela estivera muito agitada durante algumas cenas.

 Mas os artistas so bons!
explicava ela.

 Isso  verdade, acudiu o pai,
so bons a valer. Eu, que no entendo nada, parece que estou entendendo tudo...

Toda a pea foi para Ceclia um
sonho. Ela viveu, amou, morreu com os namorados de Verona. E a figura de Romeu
vinha com ela, viva e suspirando as mesmas palavras deliciosas. A prima, 
sada, cuidava s da sada. Olhava para os moos. Ceclia no olhava para
ningum, deixara os olhos no teatro, os olhos e o corao...

No carro, em casa, ao despir-se
para dormir, era Romeu que estava com ela; era Romeu que deixou a eternidade
para vir encher-lhe os sonhos. Com efeito, ela sonhou as mais lindas cenas do
mundo, uma paisagem, uma baa, uma missa, um pedao daqui, outro dali, tudo com
Romeu, nenhuma vez com Juvncio.

Nenhuma vez pobre Juvncio!
Nenhuma vez. A manh veio com as suas cores vivas; o prestgio da noite passara
um pouco, mas a comoo ficara ainda, a comoo da palavra divina. Nem se
lembrou de mandar saber de Juvncio; a me  que mandou l, como boa me,
porque este Juvncio tinha certo nmero de aplices, que... Mandou saber; o
rapaz estava bom; l iria logo.

E veio, veio  tarde, sem as
palavras de Romeu, sem as idias, ao menos de toda a gente, vulgar, casmurro,
quase sem maneiras; veio, e Ceclia, que almoara e jantara com Romeu, lera a
pea ainda uma vez durante o dia, para saborear a msica da vspera. Ceclia
apertou-lhe a mo comovida, to-somente porque o amava. Isto quer dizer que
todo amado vale um Romeu. Casaram-se meses depois; tm agora dois filhos,
parece que muito bonitos e inteligentes. Saem a ela.
