Conto, Historias da Meia-Noite, 1873

    Histrias da Meia-Noite

    Texto-fonte:
    Obra Completa, de Machado de Assis,
      vol. II,
    Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

    Publicado originalmente por Editora
      Garnier, Rio de Janeiro, 1873

    NDICE

    Advertncia

    A Parasita Azul

    As Bodas de Lus Duarte

    Ernesto de Tal

    Aurora sem dia

    O Relgio de Ouro

    Ponto de Vista

    ADVERTNCIA

    Vo aqui reunidas algumas narrativas, escritas ao
      correr da pena, sem outra pretenso que no seja a de ocupar alguma sobra do precioso
      tempo do leitor. No digo com isto que o gnero seja menos digno da ateno
      dele, nem que deixe de exigir predicados de observao e de estilo. O que digo
       que estas pginas, reunidas por um editor benvolo, so as mais desambiciosas
      do mundo.

    Aproveito a ocasio que se me oferece para
      agradecer  crtica e ao pblico a generosidade com que receberam o meu
      primeiro romance, h tempos dado  luz. Trabalhos de gnero diverso me
      impediram at agora de concluir outro, que aparecer a seu tempo.

    10 de novembro de 1873.

    M. A.

    A
      Parasita Azul

    NDICE

    Captulo Primeiro

    Captulo II

    Captulo iii

    Captulo iv

    Captulo v

    Captulo vI

    Captulo vII

    CAPTULO PRIMEIRO
    VOLTA AO BRASIL

    H cerca de dezesseis anos, desembarcava no Rio de
      Janeiro, vindo da Europa, o Sr. Camilo Seabra, goiano de nascimento, que ali
      fora estudar medicina e voltava agora com o diploma na algibeira e umas
      saudades no corao. Voltava depois de uma ausncia de oito anos, tendo visto e
      admirado as principais coisas que um homem pode ver e admirar por l, quando
      no lhe falta gosto nem meios. Ambas as coisas possua, e se tivesse tambm,
      no digo muito, mas um pouco mais de juzo, houvera gozado melhor do que gozou,
      e com justia poderia dizer que vivera.

    No abonava muito os seus sentimentos patriticos o rosto
      com que entrou a barra da capital brasileira. Trazia-o fechado e merencrio,
      como quem abafa em si alguma coisa que no  exatamente a bem-aventurana terrestre.
      Arrastou um olhar aborrecido pela cidade, que se ia desenrolando  proporo
      que o navio se dirigia ao ancoradouro. Quando veio a hora de desembarcar f-lo
      com a mesma alegria com que o ru transpe os umbrais do crcere. O escaler
      afastou-se do navio em cujo mastro flutuava uma bandeira tricolor; Camilo
      murmurou consigo:

    -- Adeus, Frana!

    Depois envolveu-se num magnfico silncio e deixou-se
      levar para terra.

    O espetculo da cidade, que ele no via h tanto tempo,
      sempre lhe prendeu um pouco a ateno. No tinha, porm, dentro da alma o
      alvoroo de Ulisses ao ver a terra da sua ptria. Era antes pasmo e tdio.
      Comparava o que via agora com o que vira durante longos anos, e sentia a mais e
      mais apertar-lhe o corao a dolorosa saudade que o minava. Encaminhou-se para
      o primeiro hotel que lhe pareceu conveniente, e ali determinou passar alguns
      dias, antes de seguir para Gois. Jantou solitrio e triste com a mente cheia
      de mil recordaes do mundo que acabava de deixar, e para dar ainda maior desafogo
       memria, apenas acabado o jantar, estendeu-se num canap, e comeou a desfiar
      consigo mesmo um rosrio de cruis desventuras.

    Na opinio dele, nunca houvera mortal que mais
      dolorosamente experimentasse a hostilidade do destino. Nem no martirolgio
      cristo, nem nos trgicos gregos, nem no Livro de J havia sequer um plido
      esboo dos seus infortnios. Vejamos alguns traos patticos da existncia do
      nosso heri.

    Nascera rico, filho de um proprietrio de Gois, que nunca
      vira outra terra alm da sua provncia natal. Em 1828 estivera ali um
      naturalista francs, com quem o comendador Seabra travou relaes, e de quem se
      fez to amigo, que no quis outro padrinho para o seu nico filho, que ento
      contava um ano de idade. O naturalista, muito antes de o ser, cometera umas
      venialidades poticas que mereceram alguns elogios em 1810, mas que o tempo --
      velho trapeiro da eternidade -- levou consigo para o infinito depsito das
      coisas inteis. Tudo lhe perdoara o ex-poeta, menos o esquecimento de um poema
      em que ele metrificara a vida de Frio Camilo, poema que ainda ento lia com
      sincero entusiasmo. Como lembrana desta obra da juventude, chamou ele ao
      afilhado Camilo, e com esse nome o batizou o padre Maciel, a grande aprazimento
      da famlia e seus amigos.

    -- Compadre, disse o comendador ao naturalista, se este
      pequeno vingar, hei de mand-lo para sua terra, a aprender medicina ou qualquer
      outra coisa em que se faa homem. No caso de lhe achar jeito para andar com
      plantas e minerais, como o senhor, no se acanhe; d-lhe o destino que lhe
      parecer como se fora seu pai, que o , espiritualmente falando.

    -- Quem sabe se eu viverei nesse tempo? disse o
      naturalista.

    -- Oh! h de viver! protestou Seabra. Esse corpo no engana;
      a sua tmpera  de ferro. No o vejo eu andar todos os dias por esses matos e
      campos, indiferente a sis e a chuvas, sem nunca ter a mais leve dor de cabea?
      Com metade dos seus trabalhos j eu estava defunto. H de viver e cuidar do meu
      rapaz, apenas ele tiver concludo c os seus primeiros estudos.

    A promessa de Seabra foi pontualmente cumprida. Camilo
      seguiu para Paris, logo depois de alguns preparatrios, e ali o padrinho cuidou
      dele como se realmente fora seu pai. O comendador no poupava dinheiro para que
      nada faltasse ao filho; a mesada que lhe mandava podia bem servir para duas ou
      trs pessoas em iguais circunstncias. Alm da mesada, recebia ele por ocasio
      da Pscoa e do Natal amndoas e festas que a me lhe mandava, e que lhe
      chegavam s mos debaixo da forma de alguns excelentes mil francos.

    At aqui o nico ponto negro na existncia de Camilo era o
      padrinho, que o trazia peado, com receio de que o rapaz viesse a perder-se nos
      precipcios da grande cidade. Quis, porm, a sua boa estrela que o ex-poeta de
      1810 fosse repousar no nada ao lado das suas produes extintas, deixando na
      cincia alguns vestgios da sua passagem por ela. Camilo apressou-se a escrever
      ao pai uma carta cheia de reflexes filosficas.

    O perodo final dizia assim:

    Em suma, meu pai, se lhe parece que eu tenho o necessrio
      juzo para concluir aqui os meus estudos, e se tem confiana na boa inspirao
      que me h de dar a alma daquele que l se foi deste vale de lgrimas para gozar
      a infinita bem-aventurana, deixe-me c ficar at que eu possa regressar ao meu
      pas como um cidado esclarecido e apto para o servir, como  do meu dever.
      Caso a sua vontade seja contrria a isto que lhe peo, diga-o com franqueza,
      meu pai, porque ento no me demorarei um instante mais nesta terra, que j foi
      meia ptria para mim, e que hoje (hlas!)  apenas uma terra de exlio.

    O bom velho no era homem que pudesse ver por entre as
      linhas desta lacrimosa epstola o verdadeiro sentimento que a ditara. Chorou de
      alegria ao ler as palavras do filho, mostrou a carta a todos os seus amigos, e
      apressou-se a responder ao rapaz que podia ficar em Paris todo o tempo
      necessrio para completar os seus estudos, e que, alm da mesada que lhe dava,
      nunca recusaria tudo quanto lhe fosse indispensvel em circunstncias
      imprevistas. Alm disto, aprovava de corao os sentimentos que ele manifestava
      em relao  sua ptria e  memria do padrinho. Transmitia-lhe muitas
      recomendaes do tio Jorge, do Padre Maciel, do Coronel Veiga, de todos os
      parentes e amigos, e conclua deitando-lhe a bno.

    A resposta paterna chegou s mos de Camilo no meio de um
      almoo, que ele dava no Caf de Madri a dois ou trs estrinas de primeira
      qualidade. Esperava aquilo mesmo, mas no resistiu ao desejo de beber  sade
      do pai, ato em que foi acompanhado pelos elegantes milhafres seus amigos. Nesse
      mesmo dia planeou Camilo algumas circunstncias imprevistas (para o comendador)
      e o prximo correio trouxe para o Brasil uma extensa carta em que ele agradecia
      as boas expresses do pai, dizia-lhe as suas saudades, confiava-lhe as suas
      esperanas, e pedia-lhe respeitosamente, em post scriptum, a remessa de
      uma pequena quantia de dinheiro.

    Graas a estas facilidades atirou-se o nosso Camilo a uma
      vida solta e dispendiosa, no tanto, porm, que lhe sacrificasse os estudos. A
      inteligncia que possua, e certo amor-prprio que no perdera, muito o
      ajudaram neste lance; concludo o curso, foi examinado, aprovado e doutorado.

    A notcia do acontecimento foi transmitida ao pai com o
      pedido de uma licena para ir ver outras terras da Europa. Obteve a licena, e
      saiu de Paris para visitar a Itlia, a Sua, a Alemanha e a Inglaterra. No fim
      de alguns meses estava outra vez na grande capital, e a reatou o fio da sua
      antiga existncia, j livre ento de cuidados estranhos e aborrecidos. A escala
      toda dos prazeres sensuais e frvolos foi percorrida por este esperanoso
      mancebo com uma sofreguido que parecia antes suicdio. Seus amigos eram
      numerosos, solcitos e constantes: alguns no duvidavam dar-lhe a honra de o
      constituir seu credor. Entre as moas de Corinto era o seu nome verdadeiramente
      popular; no poucas o tinham amado at o delrio. No havia pateada clebre em
      que a chave dos seus aposentos no figurasse, nem corrida, nem ceata, nem
      passeio, em que no ocupasse um dos primeiros lugares cet aimable brsilien.

    Desejoso de o ver, escreveu-lhe o comendador pedindo que
      regressasse ao Brasil; mas o filho, parisiense at  medula dos ossos, no
      compreendia que um homem pudesse sair do crebro da Frana para vir internar-se
      em Gois. Respondeu com evasivas e deixou-se ficar. O velho fez vista grossa a
      esta primeira desobedincia. Tempos depois insistiu em cham-lo; novas evasivas
      da parte de Camilo. Irritou-se o pai e a terceira carta que lhe mandou foi j
      de amargas censuras. Camilo caiu em si e disps-se com grande mgoa a regressar
       ptria, no sem esperanas de voltar e acabar os seus dias no Boulevard dos Italianos ou  porta do Caf Helder.

    Um incidente, porm, demorou ainda desta vez o regresso do
      jovem mdico. Ele, que at ali vivera de amores fceis e paixes de uma hora,
      veio a enamorar-se repentinamente de uma linda princesa russa. No se assustem;
      a princesa russa de quem falo, afirmavam algumas pessoas que era filha da Rua
      do Bac e trabalhara numa casa de modas, at a revoluo de 1848. No meio da
      revoluo apaixonou-se por ela um major polaco, que a levou para Varsvia,
      donde acabava de chegar transformada em princesa, com um nome acabado em ine ou em off, no sei bem. Vivia misteriosamente, zombando de todos os seus
      adoradores, exceto de Camilo, dizia ela, por quem sentia que era capaz de
      aposentar as suas roupas de viva. To depressa, porm, soltava estas
      expresses irrefletidas, como logo protestava com os olhos no cu:

    -- Oh! no! nunca, meu caro Alexis, nunca desonrarei a tua
      memria unindo-me a outro.

    Isto eram punhais que dilaceravam o corao de Camilo. O
      jovem mdico jurava por todos os santos do calendrio latino e grego que nunca amara
      a ningum como a formosa princesa. A brbara senhora parecia s vezes disposta
      a crer nos protestos de Camilo; outras vezes porm abanava a cabea e pedia
      perdo  sombra do venerando prncipe Alexis. Neste meio tempo chegou uma carta
      decisiva do comendador. O velho goiano intimava pela ltima vez ao filho que
      voltasse, sob pena de lhe suspender todos os recursos e trancar-lhe a porta.

    No era possvel tergiversar mais. Imaginou ainda uma
      grave molstia; mas a idia de que o pai podia no acreditar nela e
      suspender-lhe realmente os meios, aluiu de todo este projeto. Camilo nem nimo
      teve de ir confessar a sua posio  bela princesa; receava alm disso que ela,
      por um rasgo de generosidade, -- natural em quem ama, -- quisesse dividir com ele
      as suas terras de Novogorod. Aceit-las seria humilhao, recus-las poderia
      ser ofensa. Camilo preferiu sair de Paris deixando  princesa uma carta em que
      lhe contava singelamente os acontecimentos e prometia voltar algum dia.

    Tais eram as calamidades com que o destino quisera abater
      o nimo de Camilo. Todas elas repassou na memria o infeliz viajante, at que
      ouviu bater oito horas da noite. Saiu um pouco para tomar ar, e ainda mais se
      lhe acenderam as saudades de Paris. Tudo lhe parecia lgubre, acanhado, mesquinho.
      Olhou com desdm olmpico para todas as lojas da Rua do Ouvidor, que lhe
      pareceu apenas um beco muito comprido e muito iluminado. Achava os homens
      deselegantes, as senhoras desgraciosas. Lembrou-se, porm, que Santa Luzia, sua
      cidade natal, era ainda menos parisiense que o Rio de Janeiro, e ento, abatido
      com esta importuna idia correu para o hotel e deitou-se a dormir.

    No dia seguinte, logo depois do almoo, foi  casa do
      correspondente de seu pai. Declarou-lhe que tencionava seguir dentro de quatro
      ou cinco dias para Gois, e recebeu dele os necessrios recursos, segundo as
      ordens j dadas pelo comendador. O correspondente acrescentou que estava
      incumbido de lhe facilitar tudo o que quisesse no caso de desejar passar
      algumas semanas na corte.

    -- No, respondeu Camilo; nada me prende  corte, e estou
      ansioso por me ver a caminho.

    -- Imagino as saudades que h de ter. H quantos anos?

    -- Oito.

    -- Oito! J  uma ausncia longa.

    Camilo ia-se dispondo a sair, quando viu entrar um sujeito
      alto, magro, com alguma barba embaixo do queixo e bigode, vestido com um palet
      de brim pardo e trazendo na cabea um chapu-de-chile. O sujeito olhou para
      Camilo, estacou, recuou um passo, e depois de uma razovel hesitao, exclamou:

    -- No me engano!  o Sr. Camilo!

    -- Camilo Seabra, com efeito, respondeu o filho do
      comendador, lanando um olhar interrogativo ao dono da casa.

    -- Este senhor, disse o correspondente,  o Sr. Soares,
      filho do negociante do mesmo nome, da cidade de Santa Luzia.

    -- Qu!  o Leandro que eu deixei apenas com um buo...

    -- Em carne e osso, interrompeu Soares;  o mesmo Leandro
      que lhe aparece agora todo barbado, como o senhor, que tambm est com uns
      bigodes bonitos!

    -- Pois no o conhecia...

    -- Conheci-o eu apenas o vi, apesar de o achar muito mudado
      do que era. Est agora um moo apurado. Eu  que estou velho. J c esto vinte
      e seis... No se ria: estou velho. Quando chegou?

    -- Ontem.

    -- E quando segue viagem para Gois?

    -- Espero o primeiro vapor de Santos.

    -- Nem de propsito! Iremos juntos.

    -- Como est seu pai? Como vai toda aquela gente? O Padre
      Maciel? O Veiga? D-me notcias de todos e de tudo.

    -- Temos tempo para conversar  vontade. Por agora s lhe
      digo que todos vo bem. O vigrio  que esteve dois meses doente de uma febre
      maligna e ningum pensava que arribasse; mas arribou. Deus nos livre que o
      homem adoea, agora que estamos com o Esprito Santo  porta.

    -- Ainda se fazem aquelas festas?

    -- Pois ento! O imperador este ano,  o Coronel Veiga; e
      diz que quer fazer as coisas com todo o brilho. J prometeu que daria um baile.
      Mas ns temos tempo de conversar, ou aqui ou em caminho. Onde est morando?

    Camilo indicou o hotel em que se achava, e despediu-se do
      comprovinciano, satisfeito de haver encontrado um companheiro que de algum modo
      lhe diminusse os tdios de to longa viagem. Soares chegou  porta e
      acompanhou com os olhos o filho do comendador at perd-lo de vista.

    -- Veja o senhor o que  andar por essas terras estrangeiras,
      disse ele ao correspondente, que tambm chegava  porta. Que mudana fez aquele
      rapaz, que era pouco mais ou menos como eu!

    CAPTULO II
    PARA GOIS

    Da a dias seguiam ambos para Santos, de l para S. Paulo
      e tomavam a estrada de Gois.

    Soares,  medida que ia reavendo a antiga intimidade com o
      filho do comendador, contava-lhe as memrias da sua vida, durante os oito anos
      de separao, e,  falta de coisa melhor, era isto o que entretinha o mdico
      nas ocasies e lugares em que a natureza lhe no oferecia algum espetculo dos
      seus. Ao cabo de umas quantas lguas de marcha estava Camilo informado das
      rixas eleitorais de Soares, das suas aventuras na caa, das suas proezas
      amorosas, e de muitas coisas mais, umas graves, outras fteis, que Soares
      narrava com igual entusiasmo e interesse.

    Camilo no era esprito observador, mas a alma de Soares
      andava-lhe to patente nas mos, que era impossvel deixar de a ver e examinar.
      No lhe pareceu mau rapaz; notou-lhe porm, certa fanfarronice, em todo o
      gnero de coisas, na poltica, na caa, no jogo, e at nos amores. Neste ltimo
      captulo havia um pargrafo srio; era o que dizia respeito a uma moa que ele
      amava loucamente, de tal modo que prometia aniquilar a quem quer que ousasse
      levantar olhos para ela.

    --  o que lhe digo, Camilo, confessava o filho do
      comerciante, se algum tiver o atrevimento de pretender essa moa pode contar
      que h no mundo mais dois desgraados, ele e eu. No h de acontecer assim
      felizmente; l todos me conhecem; sabem que no cochilo para executar o que
      prometo. H poucos meses o Major Valente perdeu a eleio s porque teve o
      atrevimento de dizer que ia arranjar a demisso do juiz municipal. No arranjou
      a demisso, e por castigo tomou taboca; saiu na lista dos suplentes. Quem lhe
      deu o golpe fui eu. A coisa foi...

    -- Mas por que no se casa com essa moa? perguntou Camilo
      desviando cautelosamente a narrao da ltima vitria eleitoral de Soares.

    -- No me caso porque... tem muita curiosidade de o saber?

    -- Curiosidade... de amigo e nada mais.

    -- No me caso porque ela no quer.

    Camilo estacou o cavalo.

    -- No quer? disse ele espantado. Ento por que motivo
      pretende impedir que ela...

    -- Isso  uma histria muito comprida. A Isabel...

    -- Isabel?... interrompeu Camilo. Ora espere, ser a filha
      do Dr. Matos, que foi juiz de direito h dez anos?

    -- Essa mesma.

    -- Deve estar uma moa?

    -- Tem seus vinte anos bem contados.

    -- Lembra-me que era bonitinha aos doze.

    -- Oh! mudou muito... para melhor! Ningum a v que no
      fique logo com a cabea voltada. Tem rejeitado j uns poucos de casamentos. O
      ltimo noivo recusado fui eu. A causa por que me recusou foi ela mesma que me
      veio dizer.

    -- E que causa era?

    -- "Olhe, Sr. Soares, disse-me ela. O senhor merece bem que
      uma moa o aceite por marido; eu era capaz disso, mas no o fao porque nunca
      seramos felizes."

    -- Que mais?

    -- Mais nada. Respondeu-me apenas isto que lhe acabo de
      contar.

    -- Nunca mais se falaram?

    -- Pelo contrrio, falamo-nos muitas vezes. No mudou
      comigo; trata-me como dantes. A no serem aquelas palavras que ela me disse, e
      que ainda me doem c dentro, eu podia ter esperanas. Vejo, porm, que seriam
      inteis; ela no gosta de mim.

    -- Quer que lhe diga uma coisa com franqueza?

    -- Diga.

    -- Parece-me um grande egosta.

    -- Pode ser; mas sou assim. Tenho cimes de tudo, at do ar
      que ela respira. Eu, se a visse gostar de outro, e no pudesse impedir o casamento,
      mudava de terra. O que me vale  a convico que tenho de que ela no h de
      gostar nunca de outro, e assim pensam todos os mais.

    -- No admira que no saiba amar, reflexionou Camilo pondo
      os olhos no horizonte como se estivesse ali a imagem da formosa sdita do tzar.
      Nem todas receberam do cu esse dom, que  o verdadeiro distintivo dos
      espritos seletos. Algumas h porm, que sabem dar a vida e a alma a um ente
      querido, que lhe enchem o corao de profundos afetos, e deste modo fazem jus a
      uma perptua adorao. So raras, bem sei, as mulheres desta casta; mas
      existem...

    Camilo terminou esta homenagem  dama dos seus pensamentos
      abrindo as asas a um suspiro que, se no chegou ao seu destino, no foi por
      culpa do autor. O companheiro no compreendeu a inteno do discurso, e
      insistiu em dizer que a formosa goiana estava longe de gostar de ningum, e ele
      ainda mais longe de lho consentir.

    O assunto agradava aos dois comprovincianos; falaram dele
      longamente at o aproximar da tarde. Pouco depois chegaram a um pouso onde
      deviam pernoitar.

    Tirada a carga dos animais, cuidaram os criados
      primeiramente do caf, e depois do jantar. Nessas ocasies ainda mais pungiam
      ao nosso heri as saudades de Paris. Que diferena entre os seus jantares dos restaurants dos boulevards e aquela refeio ligeira e tosca, num miservel pouso de
      estrada, sem os acepipes da cozinha francesa, sem a leitura do Figaro ou
      da Gazette des Tribunaux!

    Camilo suspirava consigo mesmo; tornava-se ento ainda menos
      comunicativo. No se perdia nada porque o seu companheiro falava por dois.

    Acabada a refeio, acendeu Camilo um charuto e Soares um
      cigarro de palha. Era j noite. A fogueira do jantar alumiava um pequeno espao
      em roda; mas nem era precisa, porque a lua comeava a surgir de trs de um
      morro; plida e luminosa, brincando nas folhas do arvoredo e nas guas
      tranqilas do rio que serpeava ali ao p.

    Um dos tropeiros sacou a viola e comeou a gargantear uma
      cantiga que a qualquer outro encantaria pela rude singeleza dos versos e da
      toada, mas que ao filho do comendador apenas fez lembrar com tristeza as
      volatas da pera. Lembrou-lhe mais; lembrou-lhe uma noite em que a bela
      moscovita, molemente sentada num camarote dos Italianos, deixava de ouvir as ternuras
      do tenor, para contempl-lo de longe cheirando um raminho de violetas.

    Soares atirou-se  rede e adormeceu.

    O tropeiro cessou de cantar, e dentro de pouco tempo tudo
      era silncio no pouso.

    Camilo ficou sozinho diante da noite, que estava realmente
      formosa e solene. No faltava ao jovem goiano a inteligncia do belo; e a quase
      novidade daquele espetculo que uma longa ausncia lhe fizera esquecer, no
      deixava de o impressionar imensamente.

    De quando em quando chegavam aos seus ouvidos urros longnquos,
      de alguma fera que vagueava na solido. Outras vezes eram aves noturnas, que
      soltavam ao perto os seus pios tristonhos. Os grilos, e tambm as rs e os
      sapos formavam o coro daquela pera do serto, que o nosso heri admirava
      decerto, mas  qual preferia indubitavelmente a pera cmica.

    Assim esteve longo tempo, cerca de duas horas, deixando
      vagar o seu esprito ao sabor das saudades, e levantando e desfazendo mil
      castelos no ar. De repente foi chamado a si pela voz do Soares, que parecia vtima
      de um pesadelo. Afiou o ouvido e escutou estas palavras soltas e abafadas que o
      seu companheiro murmurava:

    -- Isabel... querida Isabel... Que  isso?... Ah! meu Deus!
      Acudam!

    As ltimas slabas eram j mais aflitas que as primeiras.
      Camilo correu ao companheiro e fortemente o sacudiu. Soares acordou espantado,
      sentou-se, olhou em roda de si e murmurou:

    -- Que ?

    -- Um pesadelo.

    -- Sim, foi um pesadelo. Ainda bem! Que horas so?

    -- Ainda  noite.

    -- J est levantado?

    -- Agora  que me vou deitar. Durmamos que  tempo.

    -- Amanh lhe contarei o sonho.

    No dia seguinte efetivamente, logo depois das primeiras
      vinte braas de marcha, referiu Soares o terrvel sonho da vspera.

    -- Estava eu ao p de um rio, disse ele, com a espingarda
      na mo, espiando as capivaras. Olho casualmente para a ribanceira que ficava
      muito acima, do lado oposto, e vejo uma moa montada num cavalo preto, vestida
      de preto, e com os cabelos, que tambm eram pretos, cados sobre os ombros...

    -- Era tudo uma escurido, interrompeu Camilo.

    -- Espere; admirei-me de ver ali, e por aquele modo, uma
      moa que me parecia franzina e delicada. Quem pensava o senhor que era?

    -- A Isabel.

    -- A Isabel. Corri pela margem adiante, trepei acima de uma
      pedra fronteira ao lugar onde ela estava, e perguntei-lhe o que fazia ali. Ela
      esteve algum tempo calada. Depois, apontando para o fundo do groto, disse:

    -- O meu chapu caiu l embaixo.

    -- Ah!

    -- O senhor ama-me? disse ela passados alguns minutos.

    -- Mais que a vida!

    -- Far o que eu lhe pedir?

    -- Tudo.

    -- Bem, v buscar o meu chapu.

    -- Olhei para baixo. Era um imenso groto em cujo fundo
      fervia e roncava uma gua barrenta e grossa. O chapu, em vez de ir com a
      corrente por ali abaixo at perder-se de todo, ficara espetado na ponta de uma
      rocha, e l do fundo parecia convidar-me a descer. Mas era impossvel. Olhei
      para todos os lados, a ver se achava algum recurso. Nenhum havia...

    -- Veja o que  imaginao escaldada! observou Camilo.

    -- J eu procurava algumas palavras com que dissuadisse
      Isabel da sua terrvel idia, quando senti pousar-me uma mo no ombro.
      Voltei-me; era um homem, era o senhor.

    -- Eu?

    --  verdade. O senhor olhou para mim com um ar de desprezo,
      sorriu para ela e depois olhou para o abismo. Repentinamente, sem que eu possa
      dizer como, estava o senhor embaixo e estendia a mo para tirar o chapelinho
      fatal.

    -- Ah!

    -- A gua porm, engrossando subitamente, ameaava
      submergi-lo. Ento Isabel, soltando um grito de angstia, esporeou o cavalo e
      atirou-se pela ribanceira abaixo. Gritei... chamei por socorro; tudo foi
      intil. J a gua os enrolava em suas dobras... quando fui acordado pelo
      senhor.

    Leandro Soares concluiu esta narrao do seu pesadelo
      parecendo ainda assustado do que lhe acontecera... imaginariamente. Convm
      dizer que ele acreditava nos sonhos.

    -- Veja o que  uma digesto mal feita! exclamou Camilo
      quando o comprovinciano terminou a narrao. Que poro de tolices! O chapu, a
      ribanceira, o cavalo, e mais que tudo a minha presena nesse melodrama
      fantstico, tudo isso  obra de quem digeriu mal o jantar. Em Paris h teatros
      que representam pesadelos assim, -- piores do que o seu porque so mais
      compridos. Mas o que eu vejo tambm  que essa moa no o deixa nem dormindo.

    -- Nem dormindo!

    Soares disse estas duas palavras quase como um eco, sem
      conscincia. Desde que conclura a narrao, e logo depois das primeiras
      palavras de Camilo, entrara a fazer consigo uma srie de reflexes que no
      chegaram ao conhecimento do autor desta narrativa. O mais que lhes posso dizer
       que no eram alegres, porque a fronte lhe descaiu, enrugou-se-lhe a testa, e
      ele, cravando os olhos nas orelhas do animal, recolheu-se a um inviolvel
      silncio.

    A viagem, daquele dia em diante, foi menos suportvel para
      Camilo de que at ali. Alm de uma leve melancolia que se apoderara do
      companheiro, ia-se-lhe tornando enfadonho aquele andar lguas e lguas que
      pareciam no acabar mais. Afinal voltou Soares  sua habitual verbosidade, mas
      j ento no podia vencer o tdio mortal que se apoderara do msero Camilo.

    Quando porm avistou a cidade, perto da qual estava a
      fazenda, onde vivera as primeiras auroras da sua mocidade, Camilo sentiu
      abalar-se-lhe fortemente o corao. Um sentimento srio o dominava. Por algum
      tempo, ao menos, Paris com os seus esplendores cedia o lugar  pequena e
      honesta ptria dos Seabras.

    Captulo III
    O ENCONTRO

    Foi um verdadeiro dia de festa aquele em que o comendador cingiu
      ao peito o filho que oito anos antes mandara a terras estranhas. No pde reter
      as lgrimas o bom velho, -- no pde, que elas vinham de um corao ainda vioso
      de afetos e exuberante de ternura. No menos intensa e sincera foi a alegria de
      Camilo. Beijou repetidamente as mos e a fronte do pai, abraou os parentes, os
      amigos de outro tempo, e durante alguns dias, -- no muitos, -- parecia
      completamente curado dos seus desejos de regressar  Europa.

    Na cidade e seus arredores no se falava em outra coisa. O
      assunto, no principal, mas exclusivo das palestras e comentrios era o filho
      do comendador. Ningum se fartava de o elogiar. Admiravam-lhes as maneiras e a
      elegncia. A mesma superioridade com que ele falava a todos achava entusiastas
      sinceros. Durante muitos dias foi totalmente impossvel que o rapaz pensasse em
      outra coisa que no fosse contar as suas viagens aos amveis conterrneos. Mas
      pagavam-lhe a maada, porque a menor coisa que ele dissesse tinha aos olhos dos
      outros uma graa indefinvel. O Padre Maciel, que o batizara vinte e sete anos
      antes, e que o via j homem completo, era o primeiro pregoeiro da sua
      transformao.

    -- Pode gabar-se, Sr. comendador, dizia ele ao pai de
      Camilo, pode gabar-se de que o cu lhe deu um rapaz de truz! Santa Luzia vai
      ter um mdico de primeira ordem, se me no engana o afeto que tenho a esse que
      era ainda ontem um pirralho. E no s mdico, mas at bom filsofo;  verdade,
      parece-me bom filsofo. Sondei-o ontem nesse particular, e no lhe achei ponto
      fraco ou duvidoso.

    O tio Jorge andava a perguntar a todos o que pensavam do
      sobrinho Camilo. O Tenente-coronel Veiga agradecia  Providncia a chegada do
      Dr. Camilo nas proximidades do Esprito Santo.

    -- Sem ele, o meu baile seria incompleto.

    O Dr. Matos no foi o ltimo que visitou o filho do
      comendador. Era um velho alto e bem feito, ainda que um tanto quebrado pelos
      anos.

    -- Venha, doutor, disse o velho Seabra apenas o viu assomar
       porta: venha ver o meu homem.

    -- Homem, com efeito, respondeu Matos contemplando o rapaz.
      Est mais homem do que eu supunha. Tambm j l vo oito anos! Venha de l esse
      abrao!

    O moo abriu os braos ao velho. Depois, como era costume
      fazer a quantos o iam ver, contou-lhe alguma coisa das suas viagens e estudos.
       perfeitamente intil dizer que o nosso heri omitiu sempre tudo quanto
      pudesse abalar o bom conceito em que estava no nimo de todos. A dar-lhe
      crdito, vivera quase como um anacoreta; e ningum ousava pensar o contrrio.

    Tudo eram pois alegrias na boa cidade e seus arredores; e
      o jovem mdico, lisonjeado com a inesperada recepo que teve, continuou a no
      pensar muito em Paris. Mas o tempo corre, e as nossas sensaes com ele se
      modificam. No fim de quinze dias tinha Camilo esgotado a novidade das suas
      impresses; a fazenda comeou a mudar de aspecto; os campos ficaram montonos,
      as rvores montonas, os rios montonos, a cidade montona, ele prprio
      montono. Invadiu-o ento uma coisa a que podemos chamar -- nostalgia do exlio.

    "No, dizia ele consigo, no posso ficar aqui mais trs
      meses. Paris ou o cemitrio, tal  o dilema que se me oferece. Daqui a trs
      meses, estarei morto ou em caminho da Europa."

    O aborrecimento de Camilo no escapou aos olhos do pai, que
      quase vivia a olhar para ele.

    "Tem razo, pensava o comendador. Quem viveu por essas
      terras que dizem ser to bonitas e animadas, no pode estar aqui muito alegre.
       preciso dar-lhe alguma ocupao... a poltica, por exemplo."

    -- Poltica! exclamou Camilo, quando o pai lhe falou nesse
      assunto. De que me serve a poltica, meu pai?

    -- De muito. Sers primeiro deputado provincial; podes ir
      depois para a Cmara no Rio de Janeiro. Um dia interpelas o ministrio, e se
      ele cair, podes subir ao governo. Nunca tiveste ambio de ser ministro?

    -- Nunca.

    --  pena!

    -- Por qu?

    -- Porque  bom ser ministro.

    -- Governar os homens, no ? disse Camilo rindo;  um sexo
      ingovernvel; prefiro o outro.

    Seabra riu-se do repente, mas no perdeu a esperana de convencer
      o herdeiro.

    Havia j vinte dias que o mdico estava em casa do pai,
      quando se lembrou da histria que lhe contara Soares e do sonho que este tivera
      no pouso. A primeira vez que foi  cidade e esteve com o filho do negociante,
      perguntou-lhe:

    -- Diga-me, como vai sua Isabel, que ainda a no vi?

    -- Soares olhou para ele com o sobrolho carregado e
      levantou os ombros resmungando um seco:

    -- No sei.

    Camilo no insistiu.

    "A molstia ainda est no perodo agudo", disse ele
      consigo.

    Teve porm curiosidade de ver a formosa Isabelinha, que
      to por terra deitara aquele verboso cabo eleitoral. A todas as moas da
      localidade, em dez lguas em redor, havia j falado o jovem mdico. Isabel era
      a nica esquiva at ento. Esquiva no digo bem. Camilo fora uma vez  fazenda
      do Dr. Matos; mas a filha estava doente. Pelo menos foi isso o que lhe
      disseram.

    -- Descanse, dizia-lhe um vizinho a quem ele mostrara
      impacincia de conhecer a amada de Leandro Soares; h de v-la no baile do Coronel
      Veiga, ou na festa do Esprito Santo, ou em outra qualquer ocasio.

    A beleza da moa, que ele no julgava pudesse ser superior
      nem sequer igual  da viva do prncipe Alexis, a paixo incurvel de Soares, e
      o tal ou qual mistrio com que se falava de Isabel, tudo isso excitou ao ltimo
      ponto a curiosidade do filho do comendador.

    No domingo prximo, oito dias antes do Esprito Santo,
      saiu Camilo da fazenda para ir  missa na igreja da cidade, como j fizera nos
      domingos anteriores. O cavalo ia a passo lento, a compasso com o pensamento do
      cavaleiro, que se espreguiava pelo campo fora em busca de sensaes que j no
      tinha e que ansiava ter de novo.

    Mil singulares idias atravessavam o crebro de Camilo.
      Ora, almejava alar-se com cavalo e tudo, rasgar os ares e ir cair defronte do
      Palais-Royal, ou em outro qualquer ponto da capital do mundo. Logo depois fazia
      a si mesmo a descrio de um cataclismo tal, que ele viesse a achar-se
      almoando no Caf Tortoni, dois minutos depois de chegar ao altar o Padre
      Maciel.

    De repente, ao quebrar uma volta da estrada, descobriu ao
      longe duas senhoras a cavalo acompanhadas por um pajem. Picou de esporas e
      dentro de pouco tempo estava junto dos trs cavaleiros. Uma das senhoras voltou
      a cabea, sorriu e parou. Camilo aproximou-se, com a cabea descoberta, e
      estendeu-lhe a mo, que ela apertou.

    A senhora a quem cumprimentara era a esposa do
      Tenente-coronel Veiga. Representava ter quarenta e cinco anos, mas estava assaz
      conservada. A outra senhora, sentindo o movimento da companheira, fez parar
      tambm o cavalo, e voltou igualmente a cabea. Camilo no olhava ento para
      ela. Estava ocupado em ouvir D. Gertrudes, que lhe dava notcias do
      tenente-coronel.

    -- Agora s pensa na festa, dizia ela; j deve estar na
      igreja. Vai  missa, no?

    -- Vou.

    -- Vamos juntos.

    Trocadas estas palavras, que foram rpidas, Camilo
      procurou com os olhos a outra cavaleira. Ela porm ia j alguns passos adiante.
      O mdico colocou-se ao lado de D. Gertrudes, e a comitiva continuou a andar.
      Iam assim conversando havia j uns dez minutos, quando o cavalo da senhora que
      ia adiante estacou.

    -- Que , Isabel? perguntou D. Gertrudes.

    -- Isabel! exclamou Camilo, sem dar ateno ao incidente
      que provocara a pergunta da esposa do coronel.

    A moa voltou a cabea e levantou os ombros respondendo
      secamente:

    -- No sei.

    A causa era um rumor que o cavalo sentira por trs de uma
      espessa moita de taquaras que ficava  esquerda do caminho. Antes porm que o pajem
      ou Camilo fosse examinar a causa da relutncia do animal, a moa fez um esforo
      supremo, e chicoteando vigorosamente o cavalo, conseguiu que este vencesse o
      terror, e deitasse a correr a galope adiante dos companheiros.

    -- Isabel! disse Camilo a D. Gertrudes. Aquela moa ser a
      filha do Dr. Matos?

    --  verdade. No a conhecia.

    -- H oito anos que no a vejo. Est uma flor! J no me
      admira que se fale aqui tanto na sua beleza. Disseram-me que estava doente...

    -- Esteve; mas as suas doenas so coisas de pequena monta.
      So nervos; assim se diz, creio eu, quando se no sabe do que uma pessoa
      padece...

    Isabel parara ao longe, e voltada para a esquerda da
      estrada, parecia admirar o espetculo da natureza. Da a alguns minutos estavam
      perto dela os seus companheiros. A moa ia prosseguir a marcha, quando D.
      Gertrudes lhe disse:

    -- Isabel!

    A moa voltou o rosto. D. Gertrudes aproximou-se dela.

    -- No te lembras do Dr. Camilo Seabra?

    -- Talvez no se lembre, disse Camilo. Tinha doze anos
      quando eu sa daqui, e j l vo oito!

    -- Lembro-me, respondeu Isabel curvando levemente a cabea,
      mas sem olhar para o mdico.

    E chicoteando de mansinho o cavalo, seguiu para diante.
      Por mais singular que fosse aquela maneira de reatar conhecimento antigo, o que
      mais impressionou ento o filho do comendador foi a beleza de Isabel, que lhe
      pareceu estar na altura da reputao.

    Tanto quanto se podia julgar  primeira vista, a esbelta
      cavaleira devia ser mais alta que baixa. Era morena, -- mas de um moreno
      acetinado e macio, com uns delicadssimos longes cor-de-rosa, -- o que seria
      efeito da agitao, visto que afirmavam ser extremamente plida. Os olhos, --
      no lhes pde Camilo ver a cor, mas sentiu-lhes a luz que valia mais talvez,
      apesar de o no terem fitado, e compreendeu logo que com olhos tais a formosa
      goiana houvesse fascinado o msero Soares.

    No averiguou, -- nem pde, as restantes feies da moa; mas
      o que pde contemplar  vontade, o que j vinha admirando de longe, era a
      elegncia nativa do busto e o gracioso desgarro com que ela montava. Vira
      muitas amazonas elegantes e destras. Aquela porm tinha alguma coisa em que se
      avantajava s outras; era talvez o desalinho do gesto, talvez a espontaneidade
      dos movimentos, outra coisa talvez, ou todas juntas que davam  interessante
      goiana incontestvel supremacia.

    Isabel parava de quando em quando o cavalo e dirigia a
      palavra  esposa do coronel, a respeito de qualquer acidente, -- de um efeito de
      luz, de um pssaro que passava, de um som que se ouvia, -- mas em nenhuma
      ocasio encarava ou sequer olhava de esguelha o filho do comendador. Absorvido
      na contemplao da moa, Camilo deixou cair a conversa, e havia j alguns
      minutos que ele e D. Gertrudes iam cavalgando, sem dizer palavra, ao lado um do
      outro. Foram interrompidos em sua marcha silenciosa por um cavaleiro que vinha
      atrs da comitiva a trote largo.

    Era Soares.

    O filho do negociante vinha bem diferente do que at ali
      andava. Cumprimentou-os sorrindo e jovial como estivera nos primeiros dias de
      viagem do mdico. No era porm difcil conhecer que a alegria de Soares era um
      artifcio. O pobre namorado fechava o rosto de quando em quando, ou fazia um
      gesto de desespero que felizmente escapava aos outros. Ele receava o triunfo de
      um homem que, fsica e intelectualmente lhe era superior; que, alm disso,
      gozava naquela ocasio a grande vantagem de dominar a ateno pblica, que era
      o urso da aldeia, o acontecimento do dia, o homem da situao. Tudo conspirava
      para derrubar a ltima esperana de Soares, que era a esperana de ver morrer a
      moa isenta de todo o vnculo conjugal! O infeliz namorado tinha o sestro,
      alis comum, de querer ver quebrada ou intil a taa que ele no podia levar
      aos lbios.

    Cresceu porm seu receio quando, estando escondido no
      taquaral de que falei acima, para ver passar Isabel, como costumava fazer
      muitas vezes, descobriu a pessoa de Camilo na comitiva. No pde reter uma exclamao
      de surpresa, e chegou a dar um passo na direo da estrada. Deteve-se a tempo.
      Os cavaleiros, como vimos, passaram adiante, deixando o cioso pretendente a
      jurar aos cus e  terra que tomaria desforra do seu atrevido rival, se o
      fosse.

    No era rival, bem sabemos; o corao de Camilo guardava
      ainda fresca a memria da Artemisa moscovita, cujas lgrimas, apesar da
      distncia, o rapaz sentia que eram ardentes e aflitivas. Mas quem poderia
      convencer a Leandro Soares que o elegante moo da Europa, como lhe
      chamavam, no ficaria enamorado da esquiva goiana?

    Isabel, entretanto, apenas vira o infeliz pretendente,
      deteve o cavalo e estendeu-lhe afetuosamente a mo. Um adorvel sorriso
      acompanhou esse movimento. No era bastante para dissipar as dvidas do pobre
      moo. Diversa foi porm a impresso de Camilo.

    "Ama-o, ou  uma grande velhaca," pensou ele.

    Casualmente, -- e pela primeira vez, olhava Isabel para o
      filho do comendador. Perspiccia ou adivinhao, leu-lhe no rosto esse
      pensamento oculto; franziu levemente a testa com uma expresso to viva de
      estranheza, que o mdico ficou perplexo e no pde deixar de acrescentar, j
      ento com os lbios,  meia voz falando para si:

    -- Ou fala com o diabo.

    -- Talvez, murmurou a moa com os olhos fitos no cho.

    Isto foi dito assim, sem que os outros dois percebessem.
      Camilo no podia desviar os olhos da formosa Isabel, meio espantado, meio
      curioso, depois da palavra murmurada por ela em to singulares condies. Soares
      olhava para Camilo com a mesma ternura com que um gavio espreita uma pomba.
      Isabel brincava com o chicotinho. D. Gertrudes, que temia perder a missa do
      padre Maciel e receber um reparo amigvel do marido, deu voz de marcha, e a
      comitiva seguiu imediatamente.

    Captulo IV
    A FESTA

    No sbado seguinte a cidade revestira desusado aspecto. De
      toda a parte correra uma chusma de povo que ia assistir  festa anual do
      Esprito Santo.

    Vo rareando os lugares em que de todo se no apagou o gosto
      dessas festas clssicas, resto de outras eras que os escritores do sculo
      futuro ho de estudar com curiosidade, para pintar aos seus contemporneos um
      Brasil que eles j no ho de conhecer. No tempo em que esta histria se passa,
      uma das mais genunas festas do Esprito Santo era a da cidade de Santa Luzia.

    O Tenente-coronel Veiga, que era ento o imperador do
      Divino, estava em uma casa que possua na cidade. Na noite de sbado foi ali
      ter o bando dos pastores, composto de homens e mulheres, com o seu pitoresco
      vesturio, e acompanhado pelo clssico velho, que era um sujeito de
      calo e meia, sapato raso, casaca esguia, colete comprido e grande bengala na
      mo.

    Camilo estava em casa do coronel, quando ali apareceu o
      bando dos pastores, com alguns msicos  frente, e muita gente atrs. Formaram
      logo, ali mesmo na rua, um crculo; um pastor e uma pastora iniciaram a dana
      clssica. Danaram, cantaram e tocaram todos,  porta e na sala do coronel, que
      estava literalmente a lamber-se de gosto.  ponto duvidoso, e provavelmente
      nunca ser liquidado, se o Tenente-coronel Veiga preferia naquela ocasio ser
      ministro de Estado a ser imperador do Esprito Santo.

    E todavia aquilo era apenas uma amostra da grandeza do
      tenente-coronel. O sol do domingo devia alumiar maiores coisas. Parece que esta
      razo determinou o rei da luz a trazer nesse dia os seus melhores raios. O cu
      nunca se mostrara mais limpidamente azul. Algumas nuvens grossas, durante a
      noite, chegaram a emurchecer as esperanas dos festeiros; felizmente, sobre a
      madrugada soprara um vento rijo que varreu o cu e purificou a atmosfera.

    A populao correspondeu  solicitude da natureza. Logo
      cedo apareceu ela com os seus vestidos domingueiros, -- jovial, risonha,
      palreira, -- nada menos que feliz.

    O ar atroava com foguetes; os sinos convidavam alegremente
      o povo  cerimnia religiosa.

    Camilo passara a noite na cidade em casa do Padre Maciel,
      e foi acordado, mais cedo do que supusera, com os repiques e foguetada e mais
      demonstraes da cidade alegre. Em casa do pai continuara o moo os seus
      hbitos de Paris, em que o comendador julgou no dever perturb-lo. Acordava
      portanto s 11 horas da manh, exceto os domingos, em que ia  missa, para de
      todo em todo no ofender os hbitos da terra.

    -- Que diabo  isto, padre? gritou Camilo do quarto onde
      estava, e no momento em que uma girndola lhe abria definitivamente os olhos.

    -- Que h de ser? respondeu o Padre Maciel, metendo a
      cabea pela porta:  a festa.

    -- Ento a festa comea de noite?

    -- De noite? exclamou o padre.  dia claro.

    Camilo no pde conciliar o sono, e viu-se obrigado a
      levantar-se. Almoou com o padre, contou duas anedotas, confessou ao hspede
      que Paris era o ideal das cidades, e saiu para ir ter  casa do imperador do
      Divino. O padre saiu com ele. Em caminho viram de longe Leandro Soares.

    -- No me dir, padre, perguntou Camilo, por que razo a
      filha do Dr. Matos no atende quele pobre rapaz que gosta tanto dela?

    Maciel consertou os culos e exps a seguinte reflexo:

    -- Voc parece tolo.

    -- No tanto, como lhe pareo, replicou o filho do
      comendador, porque mais de uma pessoa tem feito a mesma pergunta.

    -- Assim , na verdade, disse o padre; mas h coisas que outros
      dizem e a gente no repete. A Isabelinha no gosta do Soares simplesmente
      porque no gosta.

    -- No lhe parece que essa moa  um tanto esquisita?

    -- No, disse o padre, parece-me uma grande finria.

    -- Ah! por qu?

    -- Suspeito que tem muita ambio; no aceita o amor do
      Soares, a ver se pilha algum casamento que lhe abra a porta das grandezas
      polticas.

    -- Ora, disse Camilo levantando os ombros.

    -- No acredita?

    -- No.

    -- Pode ser que me engane; mas creio que  isto mesmo. Aqui
      cada qual d uma explicao  iseno de Isabel; todas as explicaes porm me
      parecem absurdas; a minha  a melhor.

    Camilo fez algumas objees  explicao do padre, e
      despediu-se dele para ir  casa do tenente-coronel.

    O festivo imperador estava literalmente fora de si. Era a
      primeira vez que exercia aquele cargo honorfico e timbrava em faz-lo
      brilhantemente, e at melhor que os seus predecessores. Ao natural desejo de
      no ficar por baixo, acrescia o elemento da inveja poltica. Alguns adversrios
      seus diziam pela boca pequena que o brioso coronel no era capaz de dar conta
      da mo.

    -- Pois vero se sou capaz, foi o que ele disse ao ouvir de
      alguns amigos a malcia dos adversrios.

    Quando Camilo entrou na sala, acabava o tenente-coronel de
      explicar umas ordens relativas ao jantar que se devia seguir  festa, e ouvia
      algumas informaes que lhe dava um irmo definidor acerca de uma cerimnia da
      sacristia.

    -- No ouso falar-lhe, coronel, disse o filho do
      comendador, quando o Veiga ficou s com ele; no ouso interromp-lo.

    -- No interrompe, acudiu o imperador do divino; agora deve
      tudo estar acabado. O comendador vem?

    -- J c deve estar.

    -- J viu a igreja?

    -- Ainda no.

    -- Est muito bonita. No  por me gabar; creio que a festa
      no desmerecer das outras, e at em algumas coisas h de ir melhor.

    Era absolutamente impossvel no concordar com esta
      opinio, quando aquele que a exprimia fazia assim o seu prprio louvor. Camilo
      encareceu ainda mais o mrito da festa. O coronel ouvia-o com um riso de
      satisfao ntima, e dispunha-se a provar que o seu jovem amigo ainda no
      apreciava bem a situao, quando este desviou a conversa, perguntando:

    -- Ainda no veio o Dr. Matos?

    -- J.

    -- Com a famlia?

    -- Sim, com a famlia.

    Neste momento foram interrompidos pelo som de muitos
      foguetes e de uma msica que se aproximava.

    -- So eles! disse Veiga; vm buscar-me. H de dar-me
      licena.

    O coronel estava at ento de cala preta e rodaque de
      brim. Correu a preparar-se com o traje e as insgnias do seu elevado cargo.
      Camilo chegou  janela para ver o cortejo. No tardou que este aparecesse
      composto de uma banda de msica, da irmandade do Esprito Santo e dos pastores
      da vspera. Os irmos vestiam as suas opas encarnadas, e vinham a passo grave,
      cercados do povo que enchia a rua e se aglomerava  porta do tenente-coronel
      para v-lo sair.

    Quando o cortejo parou em frente da casa do
      tenente-coronel cessou a msica de tocar e todos os olhos se voltaram
      curiosamente para as janelas. Mas o imperador estreante estava ainda por
      completar a sua edio, e os curiosos tiveram de contentar-se com a pessoa do
      Dr. Camilo. Entretanto, quatro ou seis irmos mais graduados destacaram-se do
      grupo e subiram as escadas do tenente-coronel.

    Minutos depois cumprimentava Camilo os ditos irmos
      graduados, um dos quais, mais graduado que os outros, no o era s no cargo,
      mas tambm, e sobretudo, no tamanho. E a estatura do Major Brs seria a coisa
      mais notvel da sua pessoa, se lhe no pedisse meas a magreza do prprio
      major. A opa do major, apesar disto, ficava-lhe bem, porque nem ia at abaixo
      da curva da perna como a dos outros, nem lhe ficava na cintura, como devera, no
      caso de ter sido feita pela mesma medida. Era uma opa termo-mdio. Ficava-lhe
      entre a cintura e a curva, e foi feita assim de propsito para conciliar os
      princpios da elegncia com a estatura do major.

    Todos os irmos graduados estenderam a mo ao filho do
      comendador e perguntaram ansiosamente pelo tenente-coronel.

    --   No tarda; foi vestir-se, respondeu Camilo.

    -- A igreja est cheia, disse um dos irmos graduados; s
      se espera por ele.

    --  justo esperar, opinou o Major Brs.

    -- Apoiado, disse o coro dos irmos.

    -- Demais, continuou o imenso oficial, temos tempo; e no
      vamos para longe.

    Os outros irmos apoiaram com o gesto esta opinio do
      major, que, ato contnuo, comeou a dizer a Camilo os mil trabalhos que a festa
      lhes dera, a ele e aos cavalheiros que o acompanhavam naquela ocasio, no
      menos que ao tenente-coronel.

    -- Como recompensa dos nossos dbeis esforos (Camilo fez
      um sinal negativo a estas palavras do Major Brs), temos conscincia de que a
      coisa no sair de todo mal.

    Ainda estas palavras no tinham bem sado dos lbios do
      digno oficial, quando assomou  porta da sala o tenente-coronel em todo o
      esplendor da sua transformao.

    Camilo perdera de todo as noes que tinha a respeito do
      traje e insgnias de um imperador do Esprito Santo. No foi pois sem grande
      pasmo que viu assomar  porta da sala a figura do tenente-coronel.

    Alm da cala preta que j tinha no corpo quando ali
      chegou Camilo, o tenente-coronel envergara uma casaca, que pela regularidade e
      elegncia do corte podia rivalizar com as dos mais apurados membros do Cassino
      Fluminense. At a tudo ia bem. Ao peito rutilava uma vasta comenda da Ordem da
      Rosa, que lhe no ficava mal. Mas o que excedeu a toda a expectao, o que
      pintou no rosto do nosso Camilo a mais completa expresso de assombro, foi uma
      brilhante e vistosa coroa de papelo forrado de papel dourado que o
      tenente-coronel trazia na cabea.

    Camilo recuou um passo e cravou os olhos na insgnia
      imperial do tenente-coronel. J lhe no lembrava aquele acessrio indispensvel
      em ocasies semelhantes, e tendo vivido oito anos no meio de uma civilizao
      diversa, no imaginava que ainda existissem costumes que ele julgava
      enterrados.

    O tenente-coronel apertou a mo a todos os amigos e
      declarou que estava pronto a acompanh-los.

    -- No faamos esperar o povo, disse ele.

    Imediatamente, desceram  rua. Houve no povo um movimento
      de curiosidade, quando viu aparecer  porta a opa encarnada de um dos irmos
      que haviam subido. Logo atrs apareceu outra opa, e no tardou que as restantes
      opas aparecessem tambm flanqueando o vistoso imperador. A coroa dourada,
      apenas o sol lhe bateu de chapa, entrou a despedir fascas quase inverossmeis.
      O tenente-coronel olhou a um lado e outro, fez algumas inclinaes leves de
      cabea a uma ou outra pessoa da multido, e foi ocupar o seu lugar de honra no
      cortejo. A msica rompeu logo uma marcha, que foi executada pelo
      tenente-coronel, a irmandade e os pastores, na direo da igreja.

    Apenas da igreja avistaram o cortejo, o sineiro que j
      estava  espreita, ps em obra as lies mais complicadas do seu ofcio, enquanto
      uma girndola, entremeada de alguns foguetes soltos, anunciava s nuvens do cu
      que o imperador do Divino era chegado. Na igreja houve um rebulio geral apenas
      se anunciou que era chegado o imperador. Um mestre-de-cerimnias ativo e
      desempenado ia abrindo alas, com grande dificuldade, porque o povo, ansioso por
      ver a figura do tenente-coronel, aglomerava-se desordenadamente e desfazia a
      obra do mestre-de-cerimnias. Afinal aconteceu o que sempre acontece nessas
      ocasies; as alas foram-se abrindo por si mesmas, e ainda que com algum custo,
      o tenente-coronel atravessou a multido, precedido e acompanhado pela
      irmandade, at chegar ao trono que se levantava ao lado do altar-mor. Subiu com
      firmeza os degraus do trono, e sentou-se nele, to orgulhoso como se governasse
      dali todos os imprios juntos do mundo.

    Quando Camilo chegou  igreja, j a festa havia comeado.
      Achou um lugar sofrvel, ou antes inteiramente bom, porque dali podia dominar
      um grande grupo de senhoras, entre as quais descobriu a formosa Isabel.

    Camilo estava ansioso por falar outra vez a Isabel. O
      encontro na estrada e a singular perspiccia de que a moa dera prova nessa
      ocasio no lhe haviam sado da cabea. A moa pareceu no dar por ele; mas
      Camilo era to versado em tratar com o belo sexo, que no lhe foi difcil
      perceber que ela o tinha visto e intencionalmente no voltava os olhos para o
      lado dele. Esta circunstncia, ligada aos incidentes do domingo anterior,
      fez-lhe nascer no esprito a seguinte pergunta:

    -- Mas que tem ela contra mim?

    A festa prosseguiu sem novidade. Camilo no tirava os
      olhos de sua bela charada, nome que j lhe dava, mas a charada parecia
      refratria a todo o sentimento de curiosidade. Uma vez porm, quase no fim, encontraram-se
      os olhos de ambos. Pede a verdade que se diga que o rapaz surpreendeu a moa a
      olhar para ele. Cumprimentou-a; foi correspondido; nada mais. Acabada a festa
      foi a irmandade levar o tenente-coronel at a casa. No meio da lufa-lufa da
      sada, Camilo, que estava embebido a olhar para Isabel, ouviu uma voz
      desconhecida que lhe dizia ao ouvido:

    -- Veja o que faz!

    Camilo voltou-se e deu com um homem baixinho e magro, de
      olhos midos e vivos, pobre mas asseadamente trajado. Encararam-se alguns segundos
      sem dizer palavra. Camilo no conhecia aquela cara e no se atrevia a pedir a
      explicao das palavras que ouvira, conquanto ardesse por saber o resto.

    -- H um mistrio, continuou o desconhecido. Quer
      descobri-lo?

    Houve algum tempo de silncio.

    -- O lugar no  prprio, disse Camilo; mas se tem alguma
      coisa que me dizer...

    -- No; descubra o senhor mesmo.

    E dizendo isto desapareceu no meio do povo o homem
      baixinho e magro, de olhos vivos e midos. Camilo acotovelou umas dez ou doze
      pessoas, pisou uns quinze ou vinte calos, pediu outras tantas vezes perdo da
      sua imprudncia, at que se achou na rua sem ver nada que se parecesse com o
      desconhecido.

    -- Um romance! disse ele; estou em pleno romance.

    Nisto saam da igreja Isabel, D. Gertrudes e o Dr. Matos.
      Camilo aproximou-se do grupo e cumprimentou-os. Matos deu o brao a D.
      Gertrudes; Camilo ofereceu timidamente o seu a Isabel. A moa hesitou; mas no
      era possvel recusar. Passou o brao no do jovem mdico e o grupo dirigiu-se
      para a casa onde o tenente-coronel j estava e mais algumas pessoas importantes
      da localidade. No meio do povo havia um homem que tambm se dirigia para a casa
      do coronel e que no tirava os olhos de Camilo e de Isabel. Esse homem mordia o
      lbio at fazer sangue. Ser preciso dizer que era Leandro Soares?

    Captulo V
    PAIXO

    A distncia da igreja  casa era pequena, e a conversa
      entre Isabel e Camilo no foi longa nem seguida. E todavia, leitor, se alguma simpatia
      te merece a princesa moscovita, deves sinceramente lastim-la. A aurora de um
      novo sentimento comeava a dourar as cumeadas do corao de Camilo; ao subir as
      escadas, confessava o filho do comendador de si para si, que a interessante
      patrcia tinha qualidades superiores s da bela princesa russa. Hora e meia
      depois, isto , quase no fim do jantar, o corao de Camilo confirmava
      plenamente esta descoberta do seu investigador esprito.

    A conversa, entretanto, no passou de coisas totalmente
      indiferentes; mas Isabel falava com tanta doura e graa, posto no alterasse
      nunca a sua habitual reserva; os olhos eram to bonitos de ver ao perto, e os
      cabelos tambm, e a boca igualmente, e as mos do mesmo modo, que o nosso
      ardente mancebo, s mudando de natureza, poderia resistir ao influxo de tantas
      graas juntas.

    O jantar correu sem novidade aprecivel. Reuniram-se 
      mesa do tenente-coronel todas as notabilidades do lugar, o vigrio, o juiz
      municipal, o negociante, o fazendeiro, reinando sempre de uma ponta  outra da
      mesa a maior cordialidade e harmonia. O imperador do Divino, j ento
      restitudo ao seu vesturio comum, fazia as honras da mesa com verdadeiro
      entusiasmo. A festa era o objeto da geral conversa, entremeada,  verdade, de
      reflexes polticas, em que todos estavam de acordo, porque eram do mesmo
      partido, homens e senhoras.

    O Major Brs tinha por costume fazer um ou dois brindes
      longos e eloqentes em cada jantar de certa ordem a que assistisse. A
      facilidade com que ele se exprimia no tinha rival em toda a provncia. Alm
      disso, como era dotado de descomunal estatura, dominava de tal modo o
      auditrio, que o simples levantar-se era j meio triunfo.

    No podia o Major Brs deixar passar inclume o jantar do
      tenente-coronel; ia-se entrar na sobremesa quando o eloqente major pediu
      licena para dizer algumas palavras singelas e toscas. Um murmrio, equivalente
      aos no-apoiados das cmaras, acolheu esta declarao do orador, e o
      auditrio preparou o ouvido para receber as prolas que lhe iam cair da boca.

    -- O ilustre auditrio que me escuta, disse ele, desculpar
      a minha ousadia; no vos fala o talento, senhores; fala-vos o corao.

    "Meu brinde  curto; para celebrar as virtudes e a capacidade
      do ilustre Tenente-coronel Veiga no  preciso fazer um longo discurso. Seu
      nome diz tudo; a minha voz nada adiantaria..."

    O auditrio revelou por sinais que aplaudia sem restries
      o primeiro membro desta ltima frase, e com restries o segundo; isto ,
      cumprimentou o tenente-coronel e o major; e o orador que, para ser coerente com
      o que acabava de dizer, devia limitar-se a esvaziar o copo, prosseguiu da
      seguinte maneira:

    -- O imenso acontecimento que acabamos de presenciar,
      senhores, creio que nunca se apagar da vossa memria. Muitas festas do
      Esprito Santo tm havido nesta cidade e em outras; mas nunca o povo teve o
      jbilo de contemplar um esplendor, uma animao, um triunfo igual ao que nos
      proporcionou o nosso ilustre correligionrio e amigo, o Tenente-coronel Veiga,
      honra da classe a que pertence, e glria do partido a que se filiou...

    -- E no qual pretendo morrer, completou o tenente-coronel.

    -- Nem outra coisa era de esperar de V. Ex., disse o
      orador mudando de voz para dar a estas palavras um tom de parnteses.

    Apesar da declarao feita no princpio, de que era intil
      acrescentar nada aos mritos do tenente-coronel, o intrpido orador falou cerca
      de vinte e cinco minutos com grande mgoa do Padre Maciel, que namorava de
      longe um fofo e trmulo pudim de po, e do juiz municipal que estava ansioso
      por ir fumar. A perorao desse memorvel discurso foi pouco mais ou menos
      assim:

    -- Eu faltaria, portanto, aos meus deveres de amigo, de
      correligionrio, de subordinado e de admirador, se no levantasse a voz nesta
      ocasio, e no vos dissesse em linguagem tosca, sim (sinais de desaprovao),
      mas sincera, os sentimentos que me tumultuam dentro do peito, o entusiasmo de
      que me sinto possudo, quando contemplo o venerando e ilustre tenente-coronel
      Veiga, e se vos no convidasse a beber comigo  sade de S. Ex..

    O auditrio acompanhou com entusiasmo o brinde do major,
      ao qual respondeu o tenente-coronel com estas poucas, mas sentidas palavras:

    -- Os elogios que me acaba de fazer o distinto Major Brs
      so verdadeiros favores de uma alma grande e generosa; no os mereo, senhores;
      devolvo-os intactos ao ilustre orador que me precedeu.

    No meio da festa e da alegria que reinava ningum reparou
      nas atenes que Camilo prestava  bela filha do Dr. Matos. Ningum, digo mal;
      Leandro Soares, que fora convidado ao jantar, e assistira a ele, no tirava os
      olhos do elegante rival e da sua formosa e esquiva dama.

    H de parecer milagre ao leitor a indiferena e at o ar
      alegre com que Soares assistia aos ataques do adversrio. No  milagre; Soares
      tambm interrogava o olhar de Isabel e lia nele a indiferena, talvez o desdm,
      com que tratava o filho do comendador.

    "Nem eu, nem ele," dizia consigo o pretendente.

    Camilo estava apaixonado; no dia seguinte amanheceu pior;
      cada dia que passava aumentava a chama que o consumia. Paris e a princesa, tudo
      havia desaparecido do corao e da memria do rapaz. Um s ente, um lugar nico
      mereciam agora as suas atenes: Isabel e Gois.

    A esquivana e os desdns da moa no contriburam pouco
      para esta transformao. Fazendo de si prprio melhor idia que do rival,
      Camilo dizia consigo:

    "Se ela no me d ateno, muito menos deve importar-se
      com o filho de Soares. Mas por que razo se mostra comigo to esquiva? Que
      motivo h para que eu seja derrotado como qualquer pretendente vulgar?"

    Nessas ocasies lembrava-se do desconhecido que lhe falara
      na igreja e das palavras que lhe dissera.

    -- Algum mistrio haver, dizia ele; mas como descobri-lo?

    Indagou das pessoas da cidade quem era o sujeito baixo, de
      olhos midos e vivos. Ningum lho soube dizer. Parecia incrvel que no
      chegasse a descobrir naquelas paragens um homem que naturalmente algum devia
      conhecer; redobrou de esforos; ningum sabia quem era o misterioso sujeito.

    Entretanto Camilo freqentava a fazenda do Dr. Matos e ali
      ia jantar algumas vezes. Era difcil falar a Isabel com a liberdade que
      permitem mais adiantados costumes; fazia entretanto o que podia para comunicar
       bela moa os seus sentimentos. Isabel parecia cada vez mais estranha s
      comunicaes do rapaz. Suas maneiras no eram positivamente desdenhosas, mas
      frias; dissera-se que ali dentro morava um corao de neve.

    Ao amor desprezado, veio juntar-se o orgulho ofendido, o
      despeito e a vergonha, e tudo isto, junto a uma epidemia que ento reinava na
      comarca, deu com o nosso Camilo na cama, onde por agora o deixaremos, entregue
      aos mdicos seus colegas.

    Captulo VI
    REVELAO

    No h mistrios para um autor que sabe investigar todos
      os recantos do corao. Enquanto o povo de Santa Luzia faz mil conjecturas a
      respeito da causa verdadeira da iseno que at agora tem mostrado a formosa
      Isabel, estou habilitado para dizer ao leitor impaciente que ela ama.

    -- E a quem ama? pergunta vivamente o leitor.

    Ama... uma parasita. Uma parasita?  verdade, uma
      parasita.

    Deve ser ento uma flor muito linda, -- um milagre de
      frescura e de aroma. No, senhor,  uma parasita muito feia, um cadver de
      flor, seco, mirrado, uma flor que devia ter sido lindssima h muito tempo, no
      p, mas que hoje na cestinha em que ela a traz, nenhum sentimento inspira, a
      no ser de curiosidade. Sim, porque  realmente curioso que uma moa de vinte
      anos, em toda a fora das paixes, parea indiferente aos homens que a cercam,
      e concentre todos os seus afetos nos restos descorados e secos de uma flor.

    Ah! mas aquela foi colhida em circunstncias especiais.
      Dera-se o caso alguns anos antes. Um moo da localidade gostava ento muito de
      Isabel, porque era uma criana engraada, e costumava cham-la sua mulher,
      gracejo inocente que o tempo no sancionou. Isabel tambm gostava do rapaz, a
      ponto de fazer nascer no esprito do pai da moa a seguinte idia:

    -- Se daqui a alguns anos as coisas no mudarem por parte
      dela, e se ele vier a gostar seriamente da pequena, creio que os posso casar.

    Isabel ignorava completamente esta idia do pai; mas
      continuava a gostar do moo, o qual continuava a ach-la uma criana interessantssima.

    Um dia viu Isabel uma linda parasita azul, entre os galhos
      de uma rvore.

    -- Que bonita flor! disse ela.

    -- Aposto que voc a quer?

    -- Queria, sim... disse a menina que, sem aprender,
      conhecia j esse falar oblquo e disfarado.

    O moo despiu o palet com a sem-cerimnia de quem trata
      com uma criana e trepou pela rvore acima. Isabel ficou embaixo ofegante e
      ansiosa pelo resultado. No tardou que o complacente moo deitasse a mo  flor
      e delicadamente a colhesse.

    -- Apanhe! disse ele de cima.

    Isabel aproximou-se da rvore e recolheu a flor no regao.
      Contente por ter satisfeito o desejo da menina, tratou o rapaz de descer, mas
      to desastradamente o fez, que no fim de dois minutos jazia no cho aos ps de
      Isabel. A menina deu um grito de angstia e pediu socorro; o rapaz procurou
      tranqiliz-la dizendo que nada era, e tentando levantar-se alegremente.
      Levantou-se com efeito, com a camisa salpicada de sangue; tinha ferido a
      cabea.

    A ferida foi declarada leve; dentro de poucos dias estava
      o valente moo completamente restabelecido.

    A impresso que Isabel recebeu naquela ocasio foi
      profunda. Gostava at ento do rapaz; da em diante passou a ador-lo. A flor
      que ele lhe colhera veio naturalmente a secar; Isabel guardou-a como se fora
      uma relquia; beijava-a todos os dias; e de certo tempo em diante at chorava
      sobre ela. Uma espcie de culto supersticioso prendia o corao da moa quela
      mirrada parasita.

    No era ela porm to mau corao que no ficasse
      vivamente impressionada quando soube da doena de Camilo. Fez indagar com
      assiduidade do estado do moo, e cinco dias depois foi com o pai visit-lo 
      fazenda do comendador.

    A simples visita da moa, se no curou o doente, deu em
      resultado consol-lo e anim-lo; viaram-lhe algumas esperanas, que j estavam
      mais secas e mirradas que a parasita cuja histria acima narrei.

    "Quem sabe se me no amar agora?" pensou ele.

    Apenas ficou restabelecido foi o seu primeiro cuidado ir 
      fazenda do Dr. Matos; o comendador quis acompanh-lo. No o acharam em casa;
      estavam apenas a irm e a filha. A irm era uma pobre velha, que alm desse
      achaque, tinha mais dois: era surda e gostava de poltica. A ocasio era boa;
      enquanto a tia de Isabel confiscava a pessoa e a ateno do comendador, Camilo
      teve tempo de dar um golpe decisivo e rpido, dirigindo  moa estas palavras:

    -- Agradeo-lhe a bondade que mostrou a meu respeito
      durante a minha molstia. Essa mesma bondade anima-me a pedir-lhe uma coisa
      mais...

    Isabel franziu a testa.

    -- Reviveu-me uma esperana h dias, continuou Camilo,
      esperana que j estava morta. Ser iluso minha? Uma palavra sua, um gesto seu
      resolver esta dvida.

    Isabel ergueu os ombros.

    -- No compreendo, disse ela.

    -- Compreende, disse Camilo em tom amargo. Mas eu serei
      mais franco, se o exige. Amo-a; disse-lho mil vezes; no fui atendido. Agora
      porm...

    Camilo concluiria de boa vontade este pequeno discurso, se
      tivesse diante de si a pessoa que ele desejava o ouvisse. Isabel, porm, no
      lhe deu tempo de chegar ao fim. Sem dizer palavra, sem fazer um gesto,
      atravessou a extensa varanda e foi sentar-se na outra extremidade onde a velha
      tia punha  prova os excelentes pulmes do comendador.

    O desapontamento de Camilo estava alm de toda a
      descrio. Pretextando um calor que no existia saiu para tomar ar, e ora
      vagaroso, ora apressado, conforme triunfava nele a irritao ou o desnimo, o
      msero pretendente deixou-se ir sem destino. Construiu mil planos de vingana,
      ideou mil maneiras de ir lanar-se aos ps da moa, rememorou todos os fatos
      que se haviam dado com ela, e ao cabo de uma longa hora chegou  triste
      concluso de que tudo estava perdido. Nesse momento deu acordo de si: estava ao
      p de um riacho que atravessava a fazenda do Dr. Matos. O lugar era agreste e
      singularmente feito para a situao em que ele se achava. A uns duzentos passos
      viu uma cabana, onde pareceu que algum entoava uma cantiga do serto.

    Importuna coisa  a felicidade alheia quando somos vtima
      de algum infortnio. Camilo sentiu-se ainda mais irritado, e ingenuamente
      perguntou a si mesmo se algum podia ser feliz estando ele com o corao a
      sangrar de desespero. Da a nada aparecia  porta da cabana um homem e saa na
      direo do riacho. Camilo estremeceu; pareceu-lhe reconhecer o misterioso que
      lhe falara no dia do Esprito Santo. Era a mesma estatura e o mesmo ar;
      aproximou-se rapidamente e parou a cinco passos de distncia. O homem voltou o
      rosto: era ele!

    Camilo correu ao desconhecido.

    -- Enfim! disse ele.

    O desconhecido sorriu-se complacentemente e apertou a mo
      que Camilo lhe oferecia.

    -- Quer descansar? perguntou-lhe.

    -- No, respondeu o mdico. Aqui mesmo, ou mais longe se
      lhe apraz, mas desde j, por favor, desejo que me explique as palavras que me
      disse outro dia na igreja.

    Novo sorriso do desconhecido.

    -- Ento? disse Camilo vendo que o homem no respondia.

    -- Antes de mais nada, diga-me: gosta deveras da moa?

    -- Oh! muito!

    -- Jura que a faria feliz?

    -- Juro!

    -- Ento oua. O que vou contar a V. S.  verdade, porque
      o soube por minha mulher que foi mucama de D. Isabel.  aquela que ali est.

    Camilo olhou para a porta da cabana e viu uma mulatinha alta
      e elegante, que olhava para ele com curiosidade.

    -- Agora, continuou o desconhecido, afastemo-nos um pouco;
      para que ela nos no oua, porque eu no desejo venha a saber-se de quem V. S.
      ouviu esta histria.

    Afastaram-se com efeito costeando o riacho. O desconhecido
      narrou ento a Camilo toda a histria da parasita, e o culto que at ento a
      moa votava  flor j seca. Um leitor menos sagaz imagina que o namorado ouviu
      essa narrao triste e abatido. Mas o leitor que souber ler adivinha logo que a
      confidncia do desconhecido despertou na alma de Camilo os mais incrveis
      sobressaltos de alegria.

    -- Aqui est o que h, disse o desconhecido ao concluir,
      creio que V. S. com isto pode saber em que terreno pisa.

    -- Oh! sim! sim! disse Camilo. Sou amado! sou amado!

    Sabedor daquela novidade ardia o mdico por voltar a casa,
      donde sara havia tanto tempo. Meteu a mo na algibeira, abriu a carteira e
      tirou uma nota de vinte mil-ris.

    -- O servio que me acaba de prestar  imenso, disse ele;
      no tem preo. Isto porm  apenas uma lembrana...

    Dizendo estas palavras, estendeu-lhe a nota. O
      desconhecido riu-se desdenhosamente sem responder palavra. Depois, estendeu a
      mo  nota que Camilo lhe oferecia, e, com grande pasmo deste, atirou-a ao
      riacho. O fio d'gua, que ia murmurando e saltando por cima das pedras, levou
      consigo o bilhete, de envolta com uma folha que o vento lhe levara tambm.

    -- Deste modo, disse o desconhecido, nem o senhor fica
      devendo um obsquio, nem eu recebo a paga dele. No pense que tive teno de
      servir a V. S.; no. Meu desejo  fazer feliz a filha do meu benfeitor. Sabia
      que ela gostava de um moo, e que esse moo era capaz de a fazer feliz; abri
      caminho para que ele chegue at onde ela est. Isto no se paga; agradece-se
      apenas.

    Acabando de dizer estas palavras, o desconhecido voltou as
      costas ao mdico, e dirigiu-se para a cabana. Camilo acompanhou com os olhos
      aquele homem rstico. Pouco tempo depois estava em casa de Isabel, onde j era esperado
      com alguma ansiedade. Isabel viu-o entrar, alegre e radiante.

    -- Sei tudo, disse-lhe Camilo pouco antes de sair.

    A moa olhou espantada para ele.

    -- Tudo? repetiu ela.

    -- Sei que me ama, sei que esse amor nasceu h longos anos,
      quando era criana, e que ainda hoje...

    Foi interrompido pelo comendador que se aproximava. Isabel
      estava plida e confusa; estimou a interrupo, porque no saberia que
      responder.

    No dia seguinte escreveu-lhe Camilo uma extensa carta
      apaixonada, invocando o amor que ela conservara no corao, e pedindo-lhe que o
      fizesse feliz. Dois dias esperou Camilo a resposta da moa. Veio no terceiro
      dia. Era breve e seca. Confessava que o amara durante aquele longo tempo, e
      jurava no amar nunca a outro.

    Apenas isso, conclua Isabel. Quanto a ser sua esposa,
      nunca. Eu quisera entregar a minha vida a quem tivesse um amor igual ao meu. O
      seu amor  de ontem; o meu  de nove anos; a diferena de idade  grande
      demais; no pode ser bom consrcio. Esquea-me e adeus.

    Dizer que esta carta no fez mais do que aumentar o amor
      de Camilo,  escrever no papel aquilo que o leitor j adivinhou. O corao de
      Camilo s esperava uma confisso escrita da moa para transpor o limite que o
      separava da loucura. A carta transtornou-o completamente.

    Captulo VII
    PRECIPITAM-SE OS ACONTECIMENTOS

    O comendador no perdera a idia de meter o filho na
      poltica. Justamente nesse ano havia eleio; o comendador escreveu s
      principais influncias da provncia para que o rapaz entrasse na respectiva
      assemblia. Camilo teve notcia desta premeditao do pai; limitou-se a erguer
      os ombros, resolvido a no aceitar coisa nenhuma se no fosse a mo de Isabel.
      Em vo o pai, o Padre Maciel, o tenente-coronel lhe mostravam um futuro
      esplndido e todo semeado de altas posies. Uma s posio o contentava: casar
      com a moa.

    No era fcil, decerto: a resoluo de Isabel parecia
      inabalvel.

    "Ama-me, porm", dizia o rapaz consigo; " meio caminho
      andado".

    E como o seu amor era mais recente que o dela, compreendeu
      Camilo que o meio de ganhar a diferena da idade, era mostrar que o tinha mais
      violento e capaz de maiores sacrifcios.

    No poupou manifestaes de toda a sorte. Chuvas e
      temporais arrostou para ir v-la todos os dias; fez-se escravo dos seus menores
      desejos. Se Isabel tivesse a curiosidade infantil de ver na mo a estrela
      d'alva,  muito provvel que ele achasse meio de lha trazer.

    Ao mesmo tempo cessara de a importunar com epstolas ou
      palavras amorosas. A ltima que lhe disse foi:

    -- Esperarei!

    Nesta esperana andou ele muitas semanas, sem que a sua
      situao melhorasse sensivelmente.

    Alguma leitora menos exigente    h de
      achar singular a resoluo de Isabel, ainda depois de saber que era amada.
      Tambm eu penso assim; mas no quero alterar o carter da herona, porque ela
      era tal qual a apresento nestas pginas. Entendia que ser amada casualmente,
      pela nica razo de ter o moo voltado de Paris, enquanto ela gastara largos
      anos a lembrar-se dele e a viver unicamente dessa recordao, entendia, digo
      eu, que isto a humilhava, e porque era imensamente orgulhosa, resolvera no
      casar com ele nem com outro. Ser absurdo; mas era assim.

    Fatigado de assediar inutilmente o corao da moa, e por
      outro lado, convencido de que era necessrio mostrar uma dessas paixes
      invencveis a ver se a convencia e lhe quebrava a resoluo, planeou Camilo um
      grande golpe.

    Um dia de manh desapareceu da fazenda. A princpio
      ningum se abalou com a ausncia do moo, porque ele costumava dar longos
      passeios, quando porventura acordava mais cedo. A coisa porm comeou a
      assustar  proporo que o tempo ia passando. Saram emissrios para todas as
      partes, e voltaram sem dar novas do rapaz.

    O pai estava aterrado; a notcia do acontecimento correu
      por toda a parte em dez lguas ao redor. No fim de cinco dias de infrutferas
      pesquisas soube-se que um moo, com todos os sinais de Camilo, fora visto a
      meia lgua da cidade, a cavalo. Ia s e triste. Um tropeiro asseverou depois
      ter visto um moo junto de uma ribanceira, parecendo sondar com o olhar que
      probabilidade de morte lhe traria uma queda.

    O comendador entrou a oferecer grossas quantias a quem lhe
      desse notcia segura do filho. Todos os seus amigos despacharam gente a
      investigar as matas e os campos, e nesta intil labutao correu uma semana.

    Ser necessrio dizer a dor que sofreu a formosa Isabel
      quando lhe foram dar notcia do desaparecimento de Camilo? A primeira impresso
      foi aparentemente nenhuma; o rosto no revelou a tempestade que imediatamente
      rebentara no corao. Dez minutos depois a tempestade subiu aos olhos e
      transbordou num verdadeiro mar de lgrimas.

    Foi ento que o pai teve conhecimento da paixo to longo
      tempo incubada. Ao ver aquela exploso no duvidou que o amor da filha pudesse
      vir a ser-lhe funesto. Sua primeira idia foi que o rapaz desaparecera para
      fugir a um enlace indispensvel. Isabel tranqilizou-o dizendo que, pelo
      contrrio, era ela quem se negara a aceitar o amor de Camilo.

    -- Fui eu que o matei! exclamava a pobre moa.

    O bom velho no compreendeu muito como  que uma moa
      apaixonada por um mancebo, e um mancebo apaixonado por uma moa, em vez de
      caminharem para o casamento, tratassem de se separar um do outro. Lembrou-se que
      o seu procedimento fora justamente o contrrio, logo que travou o primeiro
      namoro.

    No fim de uma semana foi o Dr. Matos procurado na sua
      fazenda pelo nosso j conhecido morador da cabana, que ali chegou ofegante e
      alegre.

    -- Est salvo disse ele.

    -- Salvo! exclamaram o pai e a filha.

    --  verdade, disse Miguel (era o nome do homem); fui
      encontr-lo no fundo de uma ribanceira, quase sem vida, ontem de tarde.

    -- E por que no vieste dizer-nos?... perguntou o velho.

    -- Porque era preciso cuidar dele em primeiro lugar. Quando
      voltou a si quis ir outra vez tentar contra os seus dias; eu e minha mulher
      impedimo-lo de fazer tal. Est ainda um pouco fraco; por isso no veio comigo.

    O rosto de Isabel estava radiante. Algumas lgrimas,
      poucas e silenciosas, ainda lhe correram dos olhos; mas eram j de alegria e
      no de mgoa.

    Miguel saiu com a promessa de que o velho iria l buscar o
      filho do comendador.

    -- Agora, Isabel, disse o pai apenas ficou s com ela, que
      pretendes fazer?

    -- O que me ordenar, meu pai!

    -- Eu s ordenarei o que te disser o corao. Que te diz
      ele?

    -- Diz...

    -- O qu?

    -- Que sim.

    --  o que devia ter dito h muito tempo, porque...

    O velho estacou.

    "Mas se a causa deste suicdio for outra? pensou ele. Indagarei
      tudo."

    Comunicada a notcia ao comendador, no tardou que este se
      apresentasse em casa do Dr. Matos, onde pouco depois chegou Camilo. O msero
      rapaz trazia escrita no rosto a dor de haver escapado  morte trgica que
      procurara; pelo menos, assim o disse muitas vezes em caminho, ao pai de Isabel.

    -- Mas a causa dessa resoluo? perguntou-lhe o doutor.

    -- A causa... balbuciou Camilo que espreitava a pergunta;
      no ouso confess-la...

    --  vergonhosa? perguntou o velho com um sorriso benvolo.

    -- Oh! no!...

    -- Mas que causa ?

    -- Perdoa-me, se eu lha disser?

    -- Por que no?

    -- No, no ouso... disse resolutamente Camilo.

    --  intil, porque eu j sei.

    -- Ah!

    -- E perdo a causa, mas no lhe perdo a resoluo; o senhor
      fez uma coisa de criana.

    -- Mas ela despreza-me!

    -- No... ama-o!

    Camilo fez aqui um gesto de surpresa perfeitamente
      imitado, e acompanhou o velho at a casa, onde encontrou o pai, que no sabia
      se devia mostrar-se severo ou satisfeito.

    Camilo compreendeu logo ao entrar o efeito que o seu
      desastre causara no corao de Isabel.

    -- Ora pois! disse o pai da moa. Agora que o ressuscitamos
       preciso prend-lo  vida com uma cadeia forte.

    E sem esperar a formalidade do costume nem atender s etiquetas
      normais da sociedade, o pai de Isabel deu ao comendador a novidade de que era
      indispensvel casar os filhos.

    O comendador ainda no voltara a si da surpresa de ter
      encontrado o filho, quando ouviu esta notcia; e se toda a tribo dos Xavantes
      viesse cair em cima dele armada de arco e flecha no sentiria espanto maior.
      Olhou alternadamente para todos os circunstantes como se lhes pedisse a razo
      de um fato alis mui natural. Afinal explicaram-lhe a paixo de Camilo e
      Isabel, causa nica do suicdio meio executado pelo filho. O comendador aprovou
      a escolha do rapaz, e levou a sua galanteria a dizer que no caso dele teria
      feito o mesmo, se no contasse com a vontade da moa.

    -- Serei enfim digno do seu amor? perguntou o mdico a
      Isabel quando se achou s com ela.

    -- Oh! sim!... disse ela. Se morresse, eu morreria tambm!

    Camilo apressou-se a dizer que a Providncia velara por
      ele; e no se soube nunca o que  que ele chamava Providncia.

    No tardou que o desenlace do episdio trgico fosse publicado
      na cidade e seus arredores.

    Apenas Leandro Soares soube do casamento projetado entre
      Isabel e Camilo ficou literalmente fora de si. Mil projetos lhe acudiram 
      mente, cada qual mais sanguinrio: em sua opinio eram dois prfidos que o haviam
      trado; cumpria tirar uma solene desforra de ambos.

    Nenhum dspota sonhou nunca mais terrveis suplcios do
      que os que Leandro Soares engendrou na sua escaldada imaginao. Dois dias e
      duas noites passou o pobre namorado em conjecturas estreis. No terceiro dia
      resolveu ir simplesmente procurar o venturoso rival, lanar-lhe em rosto a sua
      vilania e assassin-lo depois.

    Muniu-se de uma faca e partiu.

    Saa da fazenda o feliz noivo, descuidado da sorte que o
      esperava. Sua imaginao ideava agora uma vida cheia de bem-aventurana e
      deleites celestes; a imagem da moa dava a tudo o que o rodeava uma cor
      potica. Ia todo engolfado nestes devaneios quando viu em frente de si o
      preterido rival. Esquecera-se dele no meio da sua felicidade; compreendeu o perigo
      e preparou-se para ele.

    Leandro Soares, fiel ao programa que se havia imposto
      desfiou um rosrio de improprios que o mdico ouviu calado. Quando Soares
      acabou e ia dar  prtica o ponto final sanguinolento, Camilo respondeu:

    -- Atendi a tudo o que me disse; peo-lhe agora que me
      oua.  verdade que vou casar com essa moa; mas tambm  verdade que ela o no
      ama. Qual  o nosso crime neste caso? Ora, ao passo que o senhor nutre a meu
      respeito sentimentos de dio, eu pensava na sua felicidade.

    -- Ah! disse Soares com ironia.

    --  verdade. Disse comigo que um homem das suas aptides
      no devia estar eternamente dedicado a servir de degrau aos outros; e ento,
      como meu pai quer  fora fazer-me deputado provincial, disse-lhe que aceitava
      o lugar para o dar ao senhor. Meu pai concordou; mas eu tive de vencer
      resistncias polticas e ainda agora trato de quebrar algumas. Um homem que
      assim procede creio que lhe merece alguma estima, -- pelo menos no lhe merece
      tanto dio.

    No creio que a lngua humana possua palavras assaz
      enrgicas para pintar a indignao que se manifestou no rosto de Leandro
      Soares. O sangue subiu-lhe todo s faces, enquanto os olhos pareciam despedir
      chispas de fogo. Os lbios trmulos como que ensaiavam baixinho uma imprecao
      eloqente contra o feliz rival. Enfim, o pretendente infeliz rompeu nestes
      termos:

    -- A ao que o senhor praticou era j bastante infame; no
      precisava juntar-lhe o escrnio...

    -- O escrnio! interrompeu Camilo.

    -- Que outro nome darei eu ao que me acaba de dizer? Grande
      estima, na verdade,  a sua, que depois de me roubar a maior, a nica
      felicidade que eu podia ter, vem oferecer-me uma compensao poltica!

    Camilo conseguiu explicar que no lhe oferecia nenhuma
      compensao; pensara naquilo por conhecer as tendncias polticas de Soares e
      julgar que deste modo lhe seria agradvel.

    -- Ao mesmo tempo, concluiu gravemente o noivo, fui levado
      pela idia de prestar um servio  provncia. Creia que em nenhum caso, ainda que
      me devesse custar a vida, proporia coisa desvantajosa  provncia e ao pas. Eu
      cuidava servir a ambos apresentando a sua candidatura, e pode crer que a minha
      opinio ser a de todos.

    -- Mas o senhor falou de resistncias... disse Soares
      cravando no adversrio um olhar inquisitorial.

    -- Resistncias, no por oposio pessoal, mas por
      convenincias polticas, explicou Camilo. Que vale isso? Tudo se desfaz com a
      razo e os verdadeiros princpios do partido que tem a honra de o possuir entre
      seus membros.

    Leandro Soares no tirava os olhos de Camilo; nos lbios
      pairava-lhe agora um sorriso irnico e cheio de ameaas. Contemplou-o ainda
      alguns instantes sem dizer palavra, at que de novo rompeu o silncio.

    -- Que faria o senhor no meu caso? perguntou ele dando ao
      seu irnico sorriso um ar verdadeiramente lgubre.

    -- Eu recusava, respondeu afoitamente Camilo.

    -- Ah!

    -- Sim, recusava, porque no tenho vocao poltica. No
      acontece o mesmo com o senhor, que a tem, e  por assim dizer o apoio do partido
      em toda esta comarca.

    -- Tenho essa convico, disse Soares com orgulho.

    -- No  o nico: todos lhe fazem justia.

    Soares entrou a passear de um lado para outro.
      Esvoaavam-lhe na mente terrveis inspiraes, ou a humanidade reclamava alguma
      moderao no gnero de morte que daria ao rival? Decorreram cinco minutos. Ao
      cabo deles, Soares parou em frente de Camilo e ex abrupto lhe perguntou:

    -- Jura-me uma coisa?

    -- O qu?

    -- Que a far feliz?

    -- J o jurei a mim mesmo;  o meu mais doce dever.

    -- Seria meu esse dever se a sorte se no houvesse
      pronunciado contra mim; no importa; estou disposto a tudo.

    -- Creia que eu sei avaliar o seu grande corao, disse
      Camilo estendendo-lhe a mo.

    -- Talvez. O que no sabe, o que no conhece,  a
      tempestade que me fica na alma, a dor imensa que me h de acompanhar at a
      morte. Amores destes vo at a sepultura.

    Parou e sacudiu a cabea, como para expelir uma idia
      sinistra.

    -- Que pensamento  o seu? perguntou Camilo vendo o gesto
      de Soares.

    -- Descanse, respondeu este; no tenho projeto nenhum.
      Resignar-me-ei  sorte: e se aceito essa candidatura poltica que me oferece 
      unicamente para afogar nela a dor que me abafa o corao.

    No sei se este remdio eleitoral servir para todos os
      casos de doena amorosa. No corao de Soares produziu uma crise salutar, que
      se resolveu em favor do doente.

    Os leitores adivinham bem que Camilo nada havia dito em
      favor de Soares; mas empenhou-se logo nesse sentido, e o pai com ele, e afinal
      conseguiu-se que Leandro Soares fosse includo numa chapa e apresentado aos
      eleitores na prxima campanha. Os adversrios do rapaz, sabedores das
      circunstncias em que lhe foi oferecida a candidatura, no deixaram de dizer em
      todos os tons que ele vendera o direito de primogenitura por um prato de
      lentilhas.

    Havia j um ano que o filho do comendador estava casado,
      quando apareceu na sua fazenda um viajante francs. Levava cartas de
      recomendao de um dos seus professores de Paris. Camilo recebeu-o alegremente
      e pediu-lhe notcias da Frana, que ele ainda amava, dizia, como a sua ptria
      intelectual. O viajante disse-lhe muitas coisas, e sacou por fim da mala um
      mao de jornais.

    Era o Figaro.

    -- O Figaro! exclamou Camilo, lanando-se aos
      jornais.

    Eram atrasados, mas eram parisienses. Lembravam-lhe a vida
      que ele tivera durante longos anos, e posto nenhum desejo sentisse de trocar
      por ela a vida atual, havia sempre uma natural curiosidade em despertar
      recordaes de outro tempo.

    No quarto ou quinto nmero que abriu deparou-se-lhe uma
      notcia que ele leu com espanto.

    Dizia assim:

    Uma clebre Leontina Caveau, que se dizia viva de um tal
      prncipe Alexis, sdito do tzar, foi ontem recolhida  priso. A bela dama (era
      bela!) no contente de iludir alguns moos incautos, alapardou-se com todas as
      jias de uma sua vizinha, Mlle. B... A roubada queixou-se a tempo de impedir a
      fuga da pretendida princesa.

    Camilo acabava de ler pela quarta vez esta notcia, quando
      Isabel entrou na sala.

    -- Ests com saudades de Paris? perguntou ela vendo-o to
      atento a ler o jornal francs.

    -- No, disse o marido, passando-lhe o brao  roda da
      cintura; estava com saudades de ti.

    AS BODAS DE LUS DUARTE

    Na
      manh de um sbado, 25 de abril, andava tudo em alvoroo em casa de Jos Lemos.
      Preparava-se o aparelho de jantar dos dias de festa, lavavam-se as escadas e os
      corredores, enchiam-se os leites e os perus para serem assados no forno da
      padaria defronte; tudo era movimento; alguma coisa grande ia acontecer nesse
      dia.

    O arranjo da sala ficou a cargo de Jos Lemos. O
      respeitvel dono da casa, trepado num banco, tratava de pregar  parede duas
      gravuras compradas na vspera em casa do Bernasconi; uma representava a Morte
        de Sardanapalo; outra a Execuo de Maria Stuart. Houve alguma luta
      entre ele e a mulher a respeito da colocao da primeira gravura. D. Beatriz
      achou que era indecente um grupo de homem abraado com tantas mulheres. Alm
      disso, no lhe pareciam prprios dois quadros fnebres em dia de festa. Jos
      Lemos que tinha sido membro de uma sociedade literria, quando era rapaz,
      respondeu triunfantemente que os dois quadros eram histricos, e que a histria
      est bem em todas as famlias. Podia acrescentar que nem todas as famlias
      esto bem na histria; mas este trocadilho era mais lgubre que os quadros.

    D. Beatriz, com as chaves na mo, mas sem a melena
      desgrenhada do soneto do Tolentino, andava literalmente da sala para a
      cozinha, dando ordens, apressando as escravas, tirando toalhas e guardanapos
      lavados e mandando fazer compras, em suma, ocupada nas mil coisas que esto a
      cargo de uma dona de casa, mxime num dia de tanta magnitude.

    De quando em quando, chegava Dona Beatriz  escada que ia
      ter ao segundo andar, e gritava:

    -- Meninas, venham almoar!

    Mas parece que as meninas no tinham pressa, porque s
      depois das nove horas acudiram ao oitavo chamado da me, j disposta a subir ao
      quarto das pequenas, o que era verdadeiro sacrifcio da parte de uma senhora
      to gorda.

    Eram duas moreninhas de truz as filhas do casal Lemos. Uma
      representava ter vinte anos, outra dezessete; ambas eram altas e um tanto
      refeitas. A mais velha estava um pouco plida; a outra, coradinha e alegre,
      desceu cantando no sei que romance do Alcazar, ento em moda. Parecia que das
      duas a mais feliz seria a que cantava; no era; a mais feliz era a outra que
      nesse dia devia ligar-se pelos laos matrimoniais ao jovem Lus Duarte, com
      quem nutria longo e porfiado namoro. Estava plida por ter tido uma insnia
      terrvel, doena de que at ento no padecera nunca. H doenas assim.

    Desceram as duas pequenas, tomaram a bno  me, que
      lhes fez um rpido discurso de repreenso e foram  sala para falar ao pai.
      Jos Lemos, que pela stima vez trocava a posio dos quadros, consultou as
      filhas sobre se era melhor que a Stuart ficasse do lado do sof ou do
      lado oposto. As meninas disseram que era melhor deix-la onde estava, e esta
      opinio ps termo s dvidas de Jos Lemos que deu por concluda a tarefa e foi
      almoar.

    Alm de Jos Lemos, sua mulher Dona Beatriz, Carlota (a
      noiva) e Lusa, estavam  mesa Rodrigo Lemos e o menino Antonico, filhos tambm
      do casal Lemos. Rodrigo tinha dezoito anos e Antonico seis: o Antonico era a
      miniatura do Rodrigo; distinguiam-se ambos por uma notvel preguia, e nisso
      eram perfeitamente irmos. Rodrigo desde as oito horas da manh gastou o tempo
      em duas coisas: ler os anncios do Jornal e ir  cozinha saber em que
      altura estava o almoo. Quanto ao Antonico, tinha comido s seis horas um bom
      prato de mingau, na forma do costume, e s se ocupou em dormir tranqilamente
      at que a mucama o foi chamar.

    O almoo correu sem novidade. Jos Lemos era homem que
      comia calado; Rodrigo contou o enredo da comdia que vira na noite antecedente
      no Ginsio; e no se falou em outra coisa durante o almoo. Quando este acabou,
      Rodrigo levantou-se para ir fumar; e Jos Lemos encostando os braos na mesa
      perguntou se o tempo ameaava chuva. Efetivamente o cu estava sombrio, e a
      Tijuca no apresentava bom aspecto.

    Quando o Antonico ia levantar-se, impetrada a licena,
      ouviu da me este aviso:

    -- Olha l, Antonico, no faas logo ao jantar o que fazes
      sempre que h gente de fora.

    -- O que  que ele faz? perguntou Jos Lemos.

    -- Fica envergonhado e mete o dedo no nariz. S os meninos
      tolos  que fazem isto: eu no quero semelhante coisa.

    O Antonico ficou envergonhado com a reprimenda e foi para
      a sala lavado em lgrimas. D. Beatriz correu logo atrs para acalentar o seu
      Benjamim, e todos os mais se levantaram da mesa.

    Jos Lemos indagou da mulher se no faltava nenhum
      convite, e depois de certificar-se que estavam convidados todos os que deviam
      assistir  festa, foi vestir-se para sair. Imediatamente foi incumbido de
      vrias coisas: recomendar ao cabeleireiro que viesse cedo, comprar luvas para a
      mulher e as filhas, avisar de novo os carros, encomendar os sorvetes e os
      vinhos, e outras coisas mais em que poderia ser ajudado pelo jovem Rodrigo, se
      este homnimo do Cid no tivesse ido dormir para descansar o almoo.

    Apenas Jos Lemos ps a sola dos sapatos em contato com as
      pedras da rua, D. Beatriz disse a sua filha Carlota que a acompanhasse  sala,
      e apenas ali chegaram ambas, proferiu a boa senhora o seguinte speech:

    -- Minha filha, hoje termina a tua vida de solteira, e
      amanh comea a tua vida de casada. Eu, que j passei pela mesma transformao,
      sei praticamente que o carter de uma senhora casada traz consigo
      responsabilidades gravssimas. Bom  que cada qual aprenda  sua custa; mas eu
      sigo nisto o exemplo de tua av, que na vspera da minha unio com teu pai,
      exps em linguagem clara e simples a significao do casamento e a alta
      responsabilidade dessa nova posio...

    D. Beatriz estacou; Carlota que atribuiu o silncio da me
      ao desejo de obter uma resposta, no achou melhor palavra do que um beijo
      amorosamente filial.

    Entretanto, se a noiva de Lus Duarte tivesse espiado trs
      dias antes pela fechadura do gabinete de seu pai, adivinharia que D. Beatriz
      recitava um discurso composto por Jos Lemos, e que o silncio era simplesmente
      um eclipse de memria.

    Melhor fora que D. Beatriz, como as outras mes, tirasse
      alguns conselhos do seu corao e da sua experincia. O amor materno  a melhor
      retrica deste mundo. Mas o Sr. Jos Lemos, que conservara desde a juventude um
      sestro literrio, achou que fazia mal expondo a cara-metade a alguns erros
      gramaticais numa ocasio to solene.

    Continuou D. Beatriz o seu discurso, que no foi longo, e
      terminou perguntando se realmente Carlota amava o noivo, e se aquele casamento
      no era, como podia acontecer, um resultado de despeito. A moa respondeu que
      amava o noivo tanto como a seus pais. A me acabou beijando a filha com
      ternura, no estudada na prosa de Jos Lemos. Pelas duas horas da tarde voltou
      este, suando em bica, mas satisfeito de si, porque alm de ter dado conta de
      todas as incumbncias da mulher, relativas aos carros, cabeleireiro etc.,
      conseguiu que o Tenente Porfrio fosse l jantar, coisa que at ento estava duvidosa.

    O Tenente Porfrio era o tipo do orador de sobremesa;
      possua o entono, a facilidade, a graa, todas as condies necessrias a esse
      mister. A posse de to belos talentos proporcionava ao Tenente Porfrio alguns
      lucros de valor; raro domingo ou dia de festa jantava em casa. Convidava-se o
      tenente Porfrio com a condio tcita de fazer um discurso, como se convida um
      msico para tocar alguma coisa. O Tenente Porfrio estava entre o creme e o
      caf; e no se cuide que era acepipe gratuito; o bom homem, se bem falava,
      melhor comia. De maneira que, bem pesadas as coisas, o discurso valia o jantar.

    Foi grande assunto de debate nos trs dias anteriores ao
      dia das bodas, se o jantar devia preceder a cerimnia ou vice-versa. O pai da
      noiva inclinava-se a que o casamento fosse celebrado depois do jantar, e nisto
      era apoiado pelo jovem Rodrigo, que com uma sagacidade digna de estadista,
      percebeu que, no caso contrrio, o jantar seria muito tarde. Prevaleceu
      entretanto a opinio de D. Beatriz que achou esquisito ir para a igreja com a
      barriga cheia. Nenhuma razo teolgica ou disciplinar se opunha a isso, mas a
      esposa de Jos Lemos tinha opinies especiais em assunto de igreja.

    Venceu a sua opinio.

    Pelas quatro horas comearam a chegar convidados.

    Os primeiros foram os Vilelas, famlia composta de
      Justiniano Vilela, chefe de seo aposentado, D. Margarida, sua esposa, e D.
      Augusta, sobrinha de ambos.

    A cabea de Justiniano Vilela, -- se se pode chamar cabea
      a uma jaca metida numa gravata de cinco voltas, -- era um exemplo da
      prodigalidade da natureza quando quer fazer cabeas grandes. Afirmavam, porm,
      algumas pessoas que o talento no correspondia ao tamanho, posto que tivesse
      corrido algum tempo o boato contrrio. No sei de que talento falavam essas pessoas;
      e a palavra pode ter vrias aplicaes. O certo  que um talento teve
      Justiniano Vilela, foi a escolha da mulher, senhora que, apesar dos seus
      quarenta e seis anos bem puxados, ainda merecia, no entender de Jos Lemos, dez
      minutos de ateno.

    Trajava Justiniano Vilela como  de uso em tais reunies;
      e a nica coisa verdadeiramente digna de nota eram os seus sapatos ingleses de
      apertar no peito do p por meio de cordes. Ora, como o marido de D. Margarida,
      tinha horror s calas compridas, aconteceu que apenas se sentou deixou patente
      a alvura de um fino e imaculado par de meias.

    Alm do ordenado com que foi aposentado, tinha Justiniano
      Vilela uma casa e dois molecotes, e com isso ia vivendo menos mal. No gostava
      de poltica; mas tinha opinies assentadas a respeito dos negcios pblicos.
      Jogava o solo e o gamo todos os dias, alternadamente; gabava as coisas do seu
      tempo; e tomava rap com o dedo polegar e o dedo mdio.

    Outros convidados foram chegando, mas em pequena
      quantidade, porque  cerimnia e ao jantar s devia assistir um pequeno nmero
      de pessoas ntimas.

    s quatro horas e meia chegou o padrinho, Dr. Valena, e a
      madrinha, sua irm viva D. Virgnia. Jos Lemos correu a abraar o Dr. Valena;
      mas este que era homem formalista e cerimonioso, repeliu brandamente o amigo,
      dizendo-lhe ao ouvido que naquele dia toda a gravidade era pouca. Depois, com
      uma serenidade que s ele possua, entrou o Dr. Valena e foi cumprimentar a
      dona da casa e as outras senhoras.

    Era ele homem de seus cinqenta anos, nem gordo nem magro,
      mas dotado de um largo peito e um largo abdmen que lhe davam maior gravidade
      ao rosto e s maneiras. O abdome  a expresso mais positiva da gravidade
      humana; um homem magro tem necessariamente os movimentos rpidos; ao passo que
      para ser completamente grave precisa ter os movimentos tardos e medidos. Um
      homem verdadeiramente grave no pode gastar menos de dois minutos em tirar o
      leno e assoar-se. O Dr. Valena gastava trs quando estava com defluxo e
      quatro no estado normal. Era um homem gravssimo.

    Insisto neste ponto porque  a maior prova da inteligncia
      do Dr. Valena. Compreendeu este advogado, logo que saiu da academia, que a
      primeira condio para merecer a considerao dos outros era ser grave; e
      indagando o que era gravidade pareceu-lhe que no era nem o peso da reflexo,
      nem a seriedade do esprito, mas unicamente certo mistrio do corpo, como
      lhe chama La Rochefoucauld; o qual mistrio, acrescentar o leitor,  como a
      bandeira dos neutros em tempo de guerra: salva do exame a carga que cobre.

    Podia-se dar uma boa gratificao a quem descobrisse uma
      ruga na casaca do Dr. Valena. O colete tinha apenas trs botes e abria-se at
      ao pescoo em forma de corao. Um elegante claque completava a toilette do Dr. Valena. No era ele bonito de feies no sentido afeminado que alguns
      do  beleza masculina; mas no deixava de ter certa correo nas linhas do
      rosto, o qual se cobria de um vu de serenidade que lhe ficava a matar.

    Depois da entrada dos padrinhos, Jos Lemos perguntou pelo
      noivo, e o Dr. Valena respondeu que no sabia dele. Eram j cinco horas. Os
      convidados, que cuidavam ter chegado tarde para a cerimnia, ficaram
      desagradavelmente surpreendidos com a demora, e Justiniano Vilela confessou ao
      ouvido da mulher que estava arrependido de no ter comido alguma coisa antes.
      Era justamente o que estava fazendo o jovem Rodrigo Lemos, desde que percebeu
      que o jantar viria l para as sete horas.

    A irm do Dr. Valena de quem no falei detidamente por
      ser uma das figuras insignificantes que jamais produziu a raa de Eva, apenas
      entrou manifestou logo o desejo de ir ver a noiva, e D. Beatriz saiu com ela da
      sala, deixando plena liberdade ao marido que encetava uma conversao com a
      interessante esposa do Sr. Vilela.

    -- Os noivos de hoje no se apressam, disse filosoficamente
      Justiniano; quando eu me casei fui o primeiro que apareceu em casa da noiva.

    A esta observao, toda filha do estmago implacvel do
      ex-chefe de seo, o Dr. Valena respondeu dizendo:

    -- Compreendo a demora e a comoo de aparecer diante da
      noiva.

    Todos sorriram ouvindo esta defesa do noivo ausente e a
      conversa tomou certa animao.

    Justamente, no momento em que Vilela discutia com o Dr.
      Valena as vantagens do tempo antigo sobre o tempo atual, e as moas
      conversavam entre si do ltimo corte dos vestidos, entrou na sala a noiva,
      escoltada pela me e pela madrinha, vindo logo na retaguarda a interessante
      Lusa, acompanhada do jovem Antonico.

    Eu no seria narrador exato nem de bom gosto se no
      dissesse que houve na sala um murmrio de admirao.

    Carlota estava efetivamente deslumbrante com o seu vestido
      branco, e a sua grinalda de flores de laranjeira, e o seu finssimo vu, sem
      outra jia mais que os seus olhos negros, verdadeiros diamantes da melhor gua.

    Jos Lemos interrompeu a conversa em que estava com a esposa
      de Justiniano, e contemplou a filha. Foi a noiva apresentada aos convidados, e
      conduzida para o sof, onde se sentou entre a madrinha e o padrinho. Este,
      pondo o claque em p sobre a perna, e sobre o claque a mo apertada numa luva
      de trs mil e quinhentos, disse  afilhada palavras de louvor que a moa ouviu
      corando e sorrindo, aliana amvel de vaidade e modstia.

    Ouviram-se passos na escada, e j o Sr. Jos Lemos
      esperava ver entrar o futuro genro, quando assomou  porta o grupo dos irmos
      Valadares.

    Destes dois irmos, o mais velho, que se chamava Calisto,
      era um homem amarelo, nariz aquilino, cabelos castanhos e olhos redondos.
      Chamava-se o mais moo Eduardo, e s diferenava do irmo na cor, que era
      vermelha. Eram ambos empregados numa Companhia, e estavam na flor dos quarenta
      para cima. Outra diferena havia: era que Eduardo cultivava a poesia quando as
      cifras lho permitiam, ao passo que o irmo era inimigo de tudo o que cheirava a
      literatura.

    Passava o tempo, e nem o noivo, nem o tenente Porfrio
      davam sinais de si. O noivo era essencial para o casamento, e o tenente para o
      jantar. Eram cinco e meia quando apareceu finalmente Lus Duarte. Houve um Gloria
        in excelsis Deo no interior de todos os convidados.

    Lus Duarte apareceu  porta da sala, e da mesmo fez uma
      cortesia geral, cheia de graa e to cerimoniosa que o padrinho lha invejou.
      Era um rapaz de vinte e cinco anos, tez mui alva, bigode louro e sem barba
      nenhuma. Trazia o cabelo apartado no centro da cabea. Os lbios eram to rubros
      que um dos Valadares disse ao ouvido do outro: parece que os tingiu. Em suma,
      Lus Duarte era uma figura capaz de agradar a uma moa de vinte anos, e eu no
      teria grande repugnncia em chamar-lhe um Adnis, se ele realmente o fosse. Mas
      no era. Dada a hora, saram os noivos, os pais e os padrinhos, e foram 
      igreja, que ficava perto; os outros convidados ficaram em casa, fazendo as
      honras dela a menina Lusa e o jovem Rodrigo, a quem o pai foi chamar, e que
      apareceu logo trajado no rigor da moda.

    --  um par de pombos, disse a Sra. D. Margarida Vilela,
      apenas saiu a comitiva.

    --  verdade! disseram em coro os dois irmos Valadares e
      Justiniano Vilela.

    A menina Lusa, que era alegre por natureza, alegrou a
      situao, conversando com as outras moas, uma das quais, a convite seu, foi
      tocar alguma coisa ao piano. Calisto Valadares suspeitava que houvesse uma
      omisso nas Escrituras, e vinha a ser que entre as pragas do Egito devia ter
      figurado o piano. Imagine o leitor com que cara viu ele sair uma das moas do
      seu lugar e dirigir-se ao fatal instrumento. Soltou um longo suspiro e comeou
      a contemplar as duas gravuras compradas na vspera.

    -- Que magnfico  isto! exclamou ele diante do Sardanapalo,
      quadro que ele achava detestvel.

    -- Foi papai quem escolheu, disse Rodrigo, e foi essa a
      primeira palavra que pronunciou desde que entrou na sala.

    -- Pois, senhor, tem bom gosto, continuou Calisto; no sei
      se conhecem o assunto do quadro...

    -- O assunto  Sardanapalo, disse afoitamente
      Rodrigo.

    -- Bem sei, retrucou Calisto, estimando que a conversa
      pegasse; mas eu pergunto se...

    No pde acabar; soaram os primeiros compassos.

    Eduardo, que na sua qualidade de poeta devia amar a msica,
      aproximou-se do piano e inclinou-se sobre ele na posio melanclica de um
      homem que conversa com as musas. Quanto ao irmo, no tendo podido evitar a
      cascata de notas, foi sentar-se ao p de Vilela, com quem travou conversa,
      comeando por perguntar que horas eram no relgio dele. Era tocar na tecla mais
      preciosa do ex-chefe de seo.

    --  j tarde, disse este com voz fraca; olhe, seis horas.

    -- No podem tardar muito.

    -- Eu sei! A cerimnia  longa, e talvez no achem o
      padre... Os casamentos deviam fazer-se em casa e de noite.

    --  a minha opinio.

    A moa terminou o que estava tocando; Calisto suspirou.
      Eduardo, que estava encostado ao piano, cumprimentou a executante com
      entusiasmo.

    -- Por que no toca mais alguma coisa? disse ele.

    --  verdade, Mariquinhas, toca alguma coisa da Sonmbula,
      disse Lusa obrigando a amiga a sentar-se.

    -- Sim! a Son...

    Eduardo no pde acabar; viu em frente os dois olhos
      repreensivos do irmo e fez uma careta. Interromper uma frase e fazer uma
      careta podia ser indcio de um calo. Todos assim pensaram, exceto Vilela, que,
      julgando os outros por si, ficou convencido de que algum grito agudo do
      estmago tinha interrompido a voz de Eduardo. E, como acontece s vezes, a dor
      alheia despertou a prpria, de maneira que o estmago de Vilela formulou um
      verdadeiro ultimatum ao qual o homem cedeu, aproveitando a intimidade
      que tinha na casa e indo ao interior sob pretexto de dar exerccio s pernas.

    Foi uma felicidade.

    A mesa, que j tinha em cima de si alguns acepipes
      convidativos, apareceu como uma verdadeira fonte de Moiss aos olhos do
      ex-chefe de seo. Dois pastelinhos e uma croquette foram os
      parlamentares que Vilela mandou ao estmago rebelado e com os quais aquela
      vscera se conformou.

    No entanto D. Mariquinhas fazia maravilhas ao piano;
      Eduardo encostado  janela parecia meditar um suicdio, ao passo que o irmo
      brincando com a corrente do relgio ouvia umas confidncias de D. Margarida a
      respeito do mau servio dos escravos. Quanto a Rodrigo, passeava de um lado
      para outro, dizendo de vez em quando em voz alta:

    -- J tardam!

    Eram seis horas e um quarto; nada de carros; algumas
      pessoas j estavam impacientes. s seis e vinte minutos ouviu-se um rumor de rodas;
      Rodrigo correu  janela: era um tlburi. s seis e vinte e cinco minutos todos
      supuseram ouvir o rumor dos carros.

    --  agora, exclamou uma voz.

    No era nada. Pareceu-lhes ouvir por um efeito (desculpem
      a audcia com que eu caso este substantivo a este adjetivo) por um efeito de miragem
        auricular.

    s seis horas e trinta e oito minutos apareceram os
      carros. Grande alvoroo na sala, as senhoras correram s janelas. Os homens
      olharam uns para os outros como conjurados que medem as suas foras para uma
      grande empresa. Toda a comitiva entrou. As escravas da casa, que espreitavam do
      corredor a entrada dos noivos, causaram uma verdadeira surpresa  sinh moa
      deitando-lhe sobre a cabea um dilvio de folhas de rosa. Cumprimentos e
      beijos, houve tudo quanto se faz em tais ocasies.

    O Sr. Jos Lemos estava contentssimo, mas caiu-lhe gua
      na fervura quando soube que o Tenente Porfrio no tinha chegado.

    --  preciso mand-lo chamar.

    -- A esta hora! murmurou Calisto Valadares.

    -- Sem o Porfrio no h festa completa, disse o Sr. Jos
      Lemos confidencialmente ao Dr. Valena.

    -- Papai, disse Rodrigo, eu creio que ele no vem.

    --  impossvel!

    -- So quase sete horas.

    -- E o jantar j nos espera, acrescentou D. Beatriz.

    O voto de D. Beatriz pesava muito no nimo de Jos Lemos;
      por isso no insistiu. No houve remdio seno sacrificar o tenente.

    Mas o tenente era o homem das situaes difceis, o
      salvador dos lances arriscados. Mal acabava D. Beatriz de falar, e Jos Lemos de
      assentir mentalmente  opinio da mulher, ouviu-se na escada a voz do Tenente
      Porfrio. O dono da casa soltou um suspiro de alvio e satisfao. Entrou na
      sala o longamente esperado conviva.

    Pertencia o tenente a essa classe feliz de homens que no
      tm idade; uns lhe davam 30 anos, outros 35 e outros 40; alguns chegavam at os
      45, e tanto esses como os outros podiam ter igualmente razo. A todas as
      hipteses se prestavam a cara e as suas castanhas do tenente. Era ele magro e
      de estatura me; vestia com certa graa, e, comparado com um boneco no havia
      grande diferena. A nica coisa que destoava um pouco era o modo de pisar; o
      Tenente Porfrio pisava para fora a tal ponto, que da ponta do p esquerdo 
      ponta do p direito, quase se podia traar uma linha reta. Mas como tudo tem
      compensao, usava ele sapatos rasos de verniz, mostrando um fino par de meias
      de fio-de-esccia mais lisas que a superfcie de uma bola de bilhar.

    Entrou com a graa que lhe era peculiar. Para cumprimentar
      os noivos arredondou o brao direito, ps a mo atrs das costas segurando o
      chapu, e curvou profundamente o busto, ficando em posio que fazia lembrar
      (de longe!) os antigos lampies das nossas ruas.

    Porfrio tinha sido tenente do exrcito, e dera baixa, com
      o que andou perfeitamente, porque entrou no comrcio de trastes e j possua
      algum peclio. No era bonito, mas algumas senhoras afirmavam que apesar disso
      era mais perigoso que uma lata de nitroglicerina. Naturalmente no devia essa
      qualidade  graa da linguagem, pois falava sibilando muito a letra s;
      dizia sempre: Asss minhasss botasss...

    Quando Porfrio acabou os cumprimentos, disse-lhe o dono
      da casa:

    -- J sei que hoje temos coisa boa!

    -- Qual! respondeu ele com uma modstia exemplar; quem
      ousar levantar a voz diante de ilustraes?

    Porfrio disse estas palavras pondo os quatro dedos da mo
      esquerda no bolso do colete, gesto que ele praticava por no saber onde havia
      de pr aquele fatal brao, obstculo dos atores novis.

    -- Mas por que veio tarde? perguntou D. Beatriz.

    -- Condene-me, minha senhora, mas poupe-me a vergonha de
      explicar uma demora que no tem atenuante no cdigo da amizade e da polidez.

    Jos Lemos sorriu olhando para todos e como se destas
      palavras do tenente lhe resultasse alguma glria para ele. Mas Justiniano
      Vilela que, apesar dos pastelinhos, sentia-se impelido para mesa, exclamou
      velhacamente:

    -- Felizmente chegou  hora de jantar!

    --  verdade; vamos para a mesa, disse Jos Lemos dando o
      brao a D. Margarida e a D. Virgnia. Seguiram-se os mais em procisso.

    No h mais jbilo nos peregrinos da Meca do que houve nos
      convivas ao avistarem uma longa mesa, profusamente servida, alastrada de
      porcelanas e cristais, assados, doces e frutas. Sentaram-se em boa ordem. Durante
      alguns minutos houve aquele silncio que precede a batalha, e s no fim dela,
      comeou a geral conversao.

    -- Quem diria h um ano, quando eu aqui apresentei o nosso
      Duarte, que ele seria hoje noivo desta interessante D. Carlota? disse o Dr.
      Valena limpando os lbios com o guardanapo, e lanando um benvolo olhar para
      a noiva.

    --  verdade! disse Beatriz.

    -- Parece dedo da Providncia, opinou a mulher de Vilela.

    -- Parece, e , disse D. Beatriz.

    -- Se  o dedo da Providncia, acudiu o noivo, agradeo aos
      cus o interesse que toma por mim.

    Sorriu D. Carlota, e Jos Lemos achou o dito de bom gosto
      e digno de um genro.

    -- Providncia ou acaso? perguntou o tenente. Eu sou mais
      pelo acaso.

    -- Vai mal, disse Vilela, que pela primeira vez levantara a
      cabea do prato; isso que o senhor chama acaso no  seno a Providncia. O
      casamento e a mortalha no cu se talha.

    -- Ah! o senhor acredita nos provrbios?

    --  a sabedoria das naes, disse Jos Lemos.

    -- No, insistiu o Tenente Porfrio. Repare que para cada
      provrbio afirmando uma coisa, h outro provrbio afirmando a coisa contrria.
      Os provrbios mentem. Eu creio que foi simplesmente um felicssimo acaso, ou
      antes uma lei de atrao das almas que fez com que o Sr. Lus Duarte se
      aproximasse da interessante filha do nosso anfitrio.

    Jos Lemos ignorava at aquela data se era anfitrio; mas
      considerou que da parte de Porfrio no podia vir coisa m. Agradeceu sorrindo
      o que lhe pareceu cumprimento, enquanto se servia da gelatina, que Justiniano Vilela
      dizia estar excelente.

    As moas conversavam baixinho e sorrindo; os noivos
      estavam embebidos com a troca de palavras amorosas, ao passo que Rodrigo
      palitava os dentes com tal rudo, que a me no pde deixar de lhe lanar um
      desses olhares fulminantes que eram as suas melhores armas.

    -- Quer gelatina, Sr. Calisto? perguntou Jos Lemos com a
      colher no ar.

    -- Um pouco, disse o homem de cara amarela.

    -- A gelatina  excelente! disse pela terceira vez o marido
      de D. Margarida, e to envergonhada ficou a mulher com estas palavras do homem
      que no pde reter um gesto de desgosto.

    -- Meus senhores, disse o padrinho, eu bebo aos noivos.

    -- Bravo! disse uma voz.

    -- S isso? perguntou Rodrigo; deseja-se uma sade historiada.

    -- Mame! eu quero gelatina! disse o menino Antonico.

    -- Eu no sei fazer discursos; bebo simplesmente  sade
      dos noivos.

    Todos beberam  sade dos noivos.

    -- Quero gelatina! insistiu o filho de Jos Lemos.

    D. Beatriz sentiu mpetos de Media; o respeito aos
      convidados impediu que ali houvesse uma cena grave. A boa senhora limitou-se a
      dizer a um dos serventes:

    -- Leva isto a nhonh...

    O Antonico recebeu o prato, e entrou a comer como comem as
      crianas quando no tm vontade: levava um colherada  boca e demorava-se tempo
      infinito rolando o contedo da colher entre a lngua e o paladar, ao passo que
      a colher, empurrada por um lado formava na bochecha direita uma pequena
      elevao. Ao mesmo tempo agitava o pequeno as pernas de maneira que batia
      alternadamente na cadeira e na mesa.

    Enquanto se davam estes incidentes, em que ningum
      realmente reparava, a conversa continuava seu caminho. O Dr. Valena discutia com
      uma senhora a excelncia do vinho Xerez, e Eduardo Valadares recitava uma
      dcima  moa que lhe ficava ao p.

    De repente levantou-se Jos Lemos.

    -- Sio! sio! sio! gritaram todos impondo silncio.

    Jos Lemos pegou num copo e disse aos circunstantes:

    -- No , meus senhores, a vaidade de ser ouvido por to
      notvel assemblia que me obriga a falar.  um alto dever de cortesia, de
      amizade, de gratido; um desses deveres que podem mais que todos os outros,
      dever santo, dever imortal.

    A estas palavras a assemblia seria cruel se no
      aplaudisse. O aplauso no atrapalhou o orador, pela simples razo de que ele
      sabia o discurso de cor.

    -- Sim, senhores. Curvo-me a esse dever, que  para mim a
      lei mais santa e imperiosa. Eu bebo aos meus amigos, a estes sectrios do
      corao, a estas vestais, tanto masculinas como femininas, do puro fogo da
      amizade! Aos meus amigos!  amizade!

    A falar a verdade, o nico homem que percebeu a nulidade
      do discurso de Jos lemos foi o Dr. Valena, que alis no era guia. Por isso
      mesmo levantou-se e fez um brinde aos talentos oratrios do anfitrio.

    Seguiu-se a estes dois brindes o silncio de uso, at que
      Rodrigo dirigindo-se ao Tenente Porfrio perguntou-lhe se havia deixado a musa
      em casa.

    --  verdade! queremos ouvi-lo, disse uma senhora; dizem
      que fala to bem!

    -- Eu, minha senhora? respondeu Porfrio com aquela
      modstia de um homem que se supe um S. Joo Boca de Ouro.

    Distribuiu-se o champagne; e o Tenente Porfrio
      levantou-se. Vilela, que se achava um pouco distante, ps a mo em forma de
      concha atrs da orelha direita, ao passo que Calisto fincando um olhar profundo
      sobre a toalha parecia estar contando os fios do tecido. Jos Lemos chamou a
      ateno da mulher, que nesse momento servia uma castanha gelada ao implacvel
      Antonico; todos os mais estavam com os olhos no orador.

    -- Minhas senhoras! meus senhores! disse Porfrio; no irei
      esquadrinhar no mago da histria, essa mestra da vida, o que era o himeneu nas
      priscas eras da humanidade. Seria lanar a luva do escrnio s faces imaculadas
      desta brilhante reunio. Todos ns sabemos, senhoras e senhores, o que  o
      himeneu. O himeneu  a rosa, rainha dos vergis, abrindo as ptalas rubras,
      para amenizar os cardos, os abrolhos, os espinhos da vida...

    -- Bravo!

    -- Bonito!

    -- Se o himeneu  o que eu acabo de expor aos vossos
      sentidos auriculares, no  mister explicar o gudio, o fervor, os mpetos de
      amor, as exploses de sentimento com que todos ns estamos  roda deste altar,
      celebrando a festa do nosso caro e prezadssimo amigo.

    Jos Lemos curvou a cabea at tocar com a ponta do nariz
      numa pra que tinha diante de si, enquanto D. Beatriz voltando-se para o Dr.
      Valena que lhe ficava ao p, dizia:

    -- Fala muito bem! parece um dicionrio!

    Jos Porfrio continuou:

    -- Sinto, senhores, no ter um talento digno do assunto...

    -- No apoiado! est falando muito bem! disseram muitas
      vozes em volta do orador.

    -- Agradeo a bondade de V. Excias.; mas eu persisto na crena
      de que no tenho o talento capaz de arcar com um objeto de tanta magnitude.

    -- No apoiado!

    -- V. Excias. confundem-me, respondeu Porfrio curvando-se.
      No tenho esse talento; mas sobra-me boa vontade, aquela boa vontade com que os
      apstolos plantaram no mundo a religio do Calvrio, e graas a este sentimento
      poderei resumir em duas palavras o brinde aos noivos. Senhores, duas flores
      nasceram em diverso canteiro, ambas pulcras, ambas recendentes, ambas cheias de
      vitalidade divina. Nasceram uma para outra; era o cravo e a rosa; a rosa vivia
      para o cravo, o cravo vivia para a rosa: veio uma brisa e comunicou os perfumes
      das duas flores, e as flores, conhecendo que se amavam, correram uma para a
      outra. A brisa apadrinhou essa unio. A rosa e o cravo ali esto consorciados
      no amplexo da simpatia: a brisa ali est honrando a nossa reunio.

    Ningum esperava pela brisa; a brisa era o Dr. Valena.

    Estrepitosos aplausos celebraram este discurso em que o
      Calvrio andou unido ao cravo e  rosa. Porfrio sentou-se com a satisfao
      ntima de ter cumprido o seu dever.

    O jantar chegava ao fim: eram oito horas e meia; vinham
      chegando alguns msicos para o baile. Todavia, ainda houve uma poesia de
      Eduardo Valadares e alguns brindes a todos os presentes e a alguns ausentes.
      Ora, como os licores iam ajudando as musas, travou-se especial combate entre o
      Tenente Porfrio e Justiniano Vilela, que, s depois de animado pde entrar na
      arena. Esgotados os assuntos, fez Porfrio um brinde ao exrcito e aos seus
      generais, e Vilela outro  unio das provncias do Imprio. Nesse terreno os
      assuntos no podiam escassear. Quando todos se levantaram da mesa, l ficaram
      os dois brindando calorosamente todas as idias prticas e teis deste mundo, e
      do outro.

    Seguiu-se o baile, que foi animadssimo e durou at as
      trs horas da manh.

    Nenhum incidente perturbou esta festa. Quando muito podia
      citar-se um ato de mau gosto da parte de Jos Lemos que, danando com D.
      Margarida, ousou lamentar a sorte dessa pobre senhora cujo marido se entretinha
      a fazer sades em vez de ter a inaprecivel ventura de estar ao lado dela. D.
      Margarida sorriu; mas o incidente no foi adiante.

    s duas horas retirou-se o Dr. Valena com a famlia, sem
      que durante a noite, e apesar da familiaridade da reunio, perdesse um tomo
      sequer da gravidade habitual. Calisto Valadares esquivou-se na ocasio em que a
      filha mais moa de D. Beatriz ia cantar ao piano. Os mais foram-se retirando a
      pouco e pouco.

    Quando a festa acabou de todo, ainda os dois ltimos
      Abencerragens do copo e da mesa l estavam levantando brindes de todo o
      tamanho. O ltimo brinde de Vilela foi ao progresso do mundo por meio do caf e
      do algodo, e o de Porfrio ao estabelecimento da paz universal.

    Mas o verdadeiro brinde dessa festa memorvel foi um
      pecurrucho que viu a luz em janeiro do ano seguinte, o qual perpetuar a
      dinastia dos Lemos, se no morrer na crise da dentio.

    ERNESTO DE TAL

    NDICE

    Captulo Primeiro

    Captulo II

    Captulo iii

    Captulo iv

    Captulo v

    Captulo vI

    CAPTULO PRIMEIRO

    Aquele moo que ali est parado na Rua Nova do Conde
      esquina do Campo da Aclamao, s dez horas da noite, no  nenhum ladro, no
       sequer um filsofo. Tem um ar misterioso,  verdade; de quando em quando leva
      a mo ao peito, bate uma palmada na coxa, ou atira fora um charuto apenas
      encetado. Filsofo j se v que no era. Ratoneiro tambm no: se algum sujeito
      acerta de passar pelo mesmo lado, o vulto afasta-se cauteloso, como se tivesse
      medo de ser conhecido.

    De dez em dez minutos, sobe a rua at o lugar em que ela
      faz ngulo com a Rua do Areal, torna a descer dez minutos depois, para de novo
      subir e descer, descer e subir, sem outro resultado mais que aumentar cinco por
      cento a clera que lhe murmura no corao.

    Quem o visse fazer estas subidas e descidas, bater na
      perna, acender e apagar charutos, e no tivesse outra explicao, suporia
      plausivelmente que o homem estava doido ou perto disso. No, senhor; Ernesto de
      Tal (no estou autorizado para dizer o nome todo) anda simplesmente apaixonado
      por uma moa que mora naquela rua; est colrico porque ainda no conseguiu
      receber resposta da carta que lhe mandou nessa manh.

    Convm dizer que dois dias antes tinha havido um pequeno
      arrufo. Ernesto quebrara o protesto de namorado que lhe fizera, de nunca mais
      escrever-lhe, mandando nessa manh uma epstola de quatro laudas incendirias,
      com muitos sinais admirativos e vrias liberdades de pontuao. A carta foi,
      mas a resposta no veio.

    De cada vez que o nosso namorado operava a descida ou
      subida da rua, parava defronte de uma casa assobradada, onde se danava ao som
      de um piano. Era ali que morava a dama dos seus pensamentos. Mas parava
      debalde; nem ela aparecia  janela, nem a carta lhe chegava s mos.

    Ernesto mordia ento os beios para no soltar um grito de
      desespero e ia desafogar os seus furores na prxima esquina.

    "Mas que explicao tem isto, dizia ele consigo mesmo; por
      que razo no me atira ela o papel de cima da janela? No tem que ver; est
      toda entregue  dana, talvez ao namoro, no se lembra que eu estou aqui na
      rua, quando podia estar l..."

    Neste ponto calou-se o namorado, e em vez do gesto de
      desespero que devia fazer, soltou apenas um longo e magoado suspiro. A
      explicao deste suspiro, inverossmil num homem que est rebentando de clera,
       um tanto delicada para se dizer em letra redonda. Mas v l; ou no se h de
      contar nada, ou se h de dizer tudo.

    Ernesto dava-se em casa do Sr. Vieira, tio de Rosina, que
       o nome da namorada. L costumava ir com freqncia, e l mesmo  que se
      arrufou com ela dois dias antes deste sbado de outubro de 1850, em que se
      passa o acontecimento que estou narrando. Ora, por que razo no figura Ernesto
      entre os cavalheiros que esto danando ou tomando ch? Na vspera de tarde o
      Sr. Vieira, encontrando-se com Ernesto, participou-lhe que dava no dia seguinte
      uma pequena partida para solenizar no sei que acontecimento da famlia.

    -- Resolvi isto hoje de manh, concluiu ele; convidei pouca
      gente, mas espero que a festa esteja brilhante. Ia mandar-lhe agora um convite;
      mas creio que me dispensa?...

    -- Sem dvida, apressou-se a dizer Ernesto, esfregando as
      mos de contente.

    -- No falte!

    -- No senhor!

    -- Ah! esquecia-me avis-lo de uma coisa, disse Vieira que
      j havia dado alguns passos; como vai o subdelegado, que alm disso 
      comendador, eu desejava que todos os meus convidados aparecessem de casaca.
      Sacrifique-se  casaca, sim?

    --
      Com muito gosto, respondeu o outro ficando plido como um defunto.

    Plido, por qu? Leitor, por mais ridcula e lastimosa que
      te parea esta declarao, no hesito de dizer-te que o nosso Ernesto no
      possua uma s casaca nova nem velha. A exigncia de Vieira era absurda; mas
      no havia fugir-lhe; ou no ir, ou ir de casaca. Cumpria sair a todo custo
      desta gravssima situao. Trs alvitres se apresentaram ao esprito do
      atribulado moo; encomendar, por qualquer preo, uma casaca para a noite
      seguinte; compr-la a crdito; pedi-la a um amigo.

    Os dois primeiros alvitres foram desprezados por
      impraticveis; Ernesto no tinha dinheiro nem crdito to alto. Restava o
      terceiro. Fez Ernesto uma lista dos amigos e casacas provveis, meteu-a na
      algibeira e saiu em busca do velocino.

    A desgraa porm que o perseguia fez com que o primeiro amigo tivesse de
      ir no dia seguinte a um casamento e o segundo a um baile; o terceiro tinha a
      casaca rota, o quarto tinha a casaca emprestada, o quinto no emprestava a
      casaca, o sexto no tinha casaco. Recorreu ainda a mais dois amigos suplementares;
      mas um partira na vspera para Iguau e o outro estava destacado na Fortaleza
      de So Joo, como alferes da Guarda Nacional.

    Imagine-se o desespero de Ernesto; mas admire-se tambm a
      requintada crueldade com que o destino tratava a este moo, que ao voltar para casa encontrou
        trs enterros, dois dos quais com muitos carros, cujos ocupantes iam todos de
        casaca. Era mister curvar a cabea  fatalidade; Ernesto no insistiu. Mas como
        tomara a peito reconciliar-se com Rosina, escreveu-lhe a carta de que falei
        acima e mandou-a levar pelo moleque da casa, dizendo-lhe que  noite lhe desse
        a resposta na esquina do Campo. J sabemos que tal resposta no veio. Ernesto
        no compreendia a causa do silncio; muitos arrufos tivera com a moa, mas
        nenhum deles resistia  primeira carta nem durava mais de quarenta e oito
        horas.

    Desenganado enfim de que a resposta viesse naquela noite,
      Ernesto dirigiu-se para casa com o desespero no corao. Morava na Rua da
      Misericrdia. Quando l chegou estava cansado e abatido. Nem por isso dormiu
      logo. Despiu-se precipitadamente. Esteve a ponto de rasgar o colete, cuja
      fivela teimava em prender-se a um boto da cala. Atirou com as botinas sobre
      um aparador e quase esmigalhou uma das jarras. Deu cerca de sete ou oito murros
      na mesa; fumou dois charutos, descomps o destino, a moa, a si mesmo, at que
      sobre a madrugada pde conciliar o sono.

    Enquanto ele dorme, indaguemos a causa do silncio da
      namorada.

    Captulo II

    Veja o leitor aquela moa que ali est, sentada num sof,
      entre duas damas da mesma idade, conversando baixinho com elas, e requebrando
      de quando em quando os olhos.  Rosina. Os olhos de Rosina no enganam
      ningum... exceto os namorados. Os olhos dela so espertinhos e caadores, e
      com um certo movimento que ela lhes d, ficam ainda mais caadores e
      espertinhos.  galante e graciosa; se o no fora, no se deixaria prender por
      ela o nosso infeliz Ernesto, que era rapaz de apurado gosto. Alta no era, mas baixinha, viva,
        travessa. Tinha bastante afetao nos modos e no falar; mas Ernesto, a quem um
        amigo notara isso mesmo, declarou que no gostava de moscas mortas.

    -- Eu nem de moscas vivas, acudiu o amigo encantado por ter
      apanhado no ar este trocadilho.

    Trocadilho de 1850.

    No veste com luxo porque o tio no  rico; mas
      ainda assim est garrida e elegante. Na cabea tem por enfeite apenas dois
      laos de fita azul.

    -- Ah! se aquelas fitas me quisessem enforcar! dizia um
      gamenho de bigode preto e cabelo partido ao meio.

    -- Se aquelas fitas me quisessem levar ao cu! dizia outro
      de suas castanhas e orelhas pequeninas.

    Desejos ambiciosos os destes dois rapazes, -- ambiciosos e vos, porque ela, se
      algum lhe prende a ateno,  um moo de bigode louro e nariz comprido que
      est agora conversando com o subdelegado. Para ele  que Rosina dirige de
      quando em quando os olhos, com disfarce  verdade, no tanto porm que o no
      percebam as duas moas que esto ao p dela.

    -- Namoro ferrado! dizia uma delas  outra fazendo um sinal
      de cabea para o lado do moo de nariz comprido.

    -- Ora, Justina?

    -- Calnias! acudiu a outra moa.

    -- Cala-te, Amlia!

    -- Voc quer enganar a gente? insistia Justina. Tire o
      cavalo da chuva! L est ele olhando... Parece que nem ouve o comendador. Pobre
      comendador! para pau-de-cabeleira est grosso demais.

    -- Olha, se voc no se cala eu vou-me embora, disse Rosina
      fingindo-se enfadada.

    -- Pois v!

    -- Coitado do Ernesto! suspirou Amlia do outro lado.

    -- Olhe que titia pode ouvir, observou Rosina olhando de
      esguelha para uma velha gorda, que, assentada ao p do sof, referia a uma comadre as diversas peripcias da
        ltima molstia do marido.

    -- Mas por que no veio o Ernesto? perguntou Justina.

    -- Mandou dizer a papai que tinha um trabalho urgente.

    -- Quem sabe se algum namoro tambm? insinuou Justina.

    -- No  capaz! acudiu Rosina.

    -- Bravo! que confiana!

    -- Que amor!

    -- Que certeza!

    -- Que defensora!

    -- No  capaz, repetiu a moa: o Ernesto no  capaz de namorar
      a outra; estou certa disso... O Ernesto  um...

    Engoliu o resto.

    -- Um qu? perguntou Amlia.

    -- Um qu? perguntou Justina.

    Neste momento tocou-se uma valsa, e o rapaz do nariz
      comprido, a quem o subdelegado deixara para ir conversar com Vieira,
      aproximou-se do sof e pediu a Rosina a honra de lhe dar aquela valsa. A moa
      abaixou os olhos com singular modstia, murmurou algumas palavras que ningum
      ouviu, levantou-se e foi valsar. Justina e Amlia chegaram-se ento uma para a
      outra e comentaram o procedimento de Rosina e a sua maneira de valsar sem
      graa. Mas como ambas eram amigas de Rosina, no foram estas censuras feitas em
      tom ofensivo, mas com brandura, como os amigos devem censurar os amigos
      ausentes.

    E no tinham muita razo as duas amigas. Rosina valsava
      com graa e podia pedir meas a quem soubesse aquele gnero de dana. Agora
      quanto ao namoro, pode ser que tivessem razo, e tinham efetivamente; a maneira
      por que ela olhava e falava ao rapaz de nariz comprido despertava suspeitas no esprito
      mais desprevenido a seu respeito.

    Acabada a valsa, passearam um pouco e foram depois para o
      vo de uma janela. Era ento uma hora, e j o desgraado Ernesto palmilhava na
      direo da Rua da Misericrdia.

    -- Eu passarei amanh s seis horas da tarde.

    -- s seis horas, no! disse Rosina.

    Era a hora em que Ernesto costumava ir l.

    -- Ento s cinco...

    -- s cinco?... Sim, s cinco, concordou a moa.

    O rapaz de nariz comprido agradeceu com um sorriso esta
      ratificao do seu tratado amoroso, e proferiu algumas palavras que a moa
      ouviu derretida e envergonhada, entre vaidosa e modesta. O que ele dizia era
      que Rosina no s era a flor do baile, mas tambm a flor da Rua do Conde, e no
      s a flor da Rua do Conde, mas tambm a flor da cidade inteira.

    Isto era o que lhe dissera muitas vezes Ernesto; o rapaz
      de nariz comprido, entretanto, tinha uma maneira particular de elogiar uma
      moa. A graa, por exemplo, com que ele metia o dedo polegar da mo esquerda no
      bolso esquerdo do colete, brincando depois com os outros dedos como se tocasse
      piano, era de todo ponto inimitvel; nem havia ningum, pelo menos, naquelas
      imediaes, que tivesse mais elegncia na maneira de arquear os braos, de
      concertar os cabelos, ou simplesmente de oferecer uma xcara de ch.

    Tais foram os dotes que venceram o corao inconstante da
      graciosa Rosina. S esses? No. A simples circunstncia de no ter Ernesto a
      interessante vestidura que ornava o corpo e realava as graas do seu afortunado
      rival, pode j dar algumas luzes ao leitor de boa f. Rosina ignorava sem
      dvida a situao precria de Ernesto a respeito da casaca; mas sabia que ele
      ocupava um emprego somenos no Arsenal de Guerra, ao passo que o rapaz de nariz
      comprido tinha um bom lugar numa casa comercial.

    Uma moa que professasse idias filosficas a respeito do
      amor e do casamento diria que os impulsos do corao estavam antes de tudo.
      Rosina no era inteiramente avessa aos impulsos do corao e  filosofia do
      amor; mas tinha ambio de figurar alguma coisa, morria por vestidos novos e
      espetculos freqentes, gostava enfim de viver  luz pblica. Tudo isso podia
      dar-lhe, com o tempo, o rapaz de nariz comprido, que ela antevia j na direo
      da casa em que trabalhava; o Ernesto porm era difcil que passasse do lugar
      que tinha no Arsenal, e em todo o caso no subiria muito nem depressa.

    Pesados os merecimentos de um e de outro, quem perdia era
      o msero Ernesto.

    Rosina conhecia o novo candidato desde algumas semanas;
      mas s naquela noite tivera ocasio de o tratar de perto, de consolidar,
      digamos assim, a sua situao. As relaes, at ento puramente telegrficas,
      passaram a ser verbais; e se o leitor gosta de um estilo arrebicado e
      gongrico, dir-lhe-ei que tantos foram os telegramas trocados durante a noite
      entre eles, que os Estados vizinhos, receosos de perder uma aliana provvel,
      chamaram s armas a milcia dos agrados, mandaram sair a armada dos requebros,
      assestaram a artilharia dos olhos ternos, dos lenos na boca, e das expresses
      suavssimas; mas toda essa leva de broquis nenhum resultado deu porque a
      formosa Rosina, ao menos naquela noite, achava-se entregue a um s pensamento.

    Quando acabou o baile, e Rosina entrou na sua alcova, viu
      um papelinho dobrado no toucador.

    -- Que  isto? disse ela.

    Abriu: era a resposta  carta de Ernesto que ela se
      esquecera de mandar. Se algum a tivesse lido? No; no era natural. Dobrou a
      cartinha com muito cuidado, fechou-a com obreia, guardou-a numa gavetinha,
      dizendo consigo:

    --  preciso mand-la amanh de manh.

    Captulo III

    -- Um palerma --  o que Rosina queria dizer quando defendeu
      a fidelidade de Ernesto, maliciosamente atacada pelas duas amigas.

    Havia apenas trs meses que Ernesto namorava a sobrinha de Vieira,
      que se carteava com ela, que protestavam um ao outro eterna fidelidade, e nesse
      curto espao de tempo tinha j descoberto cinco ou seis mouros na costa. Nessas
      ocasies fervia-lhe a clera, e era capaz de deitar tudo abaixo. Mas a boa menina,
        com a sua varinha mgica, trazia o rapaz a bom caminho, escrevendo-lhe duas
        linhas ou dizendo-lhe quatro palavras de fogo. Ernesto confessava que tinha
        visto mal, e que ela era excessivamente misericordiosa para com ele.

    -- Merecia bem que eu o no amasse mais, observava Rosina
      com gracioso enfado.

    -- Oh! no!

    -- Para que h de inventar essas coisas?

    -- Eu no invento... disseram-me.

    -- Pois fez mal em acreditar.

    -- Fiz mal, sim... voc  um anjo do cu!

    Rosina perdoava-lhe a calnia, e as coisas continuavam como
      dantes.

    Um amigo a quem Ernesto confiava todas as suas alegrias e
      mgoas, a quem tomava por conselheiro e que era seu companheiro de casa, muitas
      vezes lhe dizia:

    -- Olha, Ernesto, eu creio que ests perdendo o teu
      trabalho.

    -- Como assim?

    -- Ela no gosta de ti.

    -- Impossvel!

    -- Tu s apenas um passatempo.

    -- Enganas-te; ama-me.

    -- Mas ama tambm a outros muitos.

    -- Jorge!

    -- Em suma...

    -- Nem mais uma palavra!

    --  uma namoradeira, conclua o amigo tranqilamente.

    Ouvindo este peremptrio juzo do amigo, Ernesto despedia
      um olhar longo e profundo, capaz de paralisar todos os movimentos conhecidos da
      mecnica; como porm o rosto do amigo no revelasse a menor impresso de temor
      ou arrependimento, Ernesto recolhia o olhar -- mais cordato neste ponto que o
      senador D. Manuel, a quem o visconde de Jequitinhonha dizia um dia no Senado
      que recolhesse um riso, e continuava a rir -- e tudo acabava em boa e santa paz.

    Tal era a confiana de Ernesto na flor da Rua do Conde. Se
      ela lhe dissesse um dia que tinha na algibeira do vestido uma das torres da
      Candelria, no  certo, mas  muito provvel que Ernesto lhe aceitasse a
      notcia.

    Desta vez porm o arrufo era srio. Ernesto vira
      positivamente a moa receber uma cartinha, s furtadelas, da mo de uma espcie
      de primo que freqentava a casa de Vieira. Seus olhos faiscaram de raiva quando
      viram alvejar a misteriosa epstola nas mos da moa. Fez um gesto de ameaa ao
      rapaz, lanou um olhar de desprezo  moa, e saiu. Depois escreveu a carta de
      que temos notcia, e foi esperar a resposta na esquina da rua. Que resposta, se
      ele vira o gesto de Rosina? Leitor ingnuo, ele queria uma resposta que lhe
      demonstrasse no ter visto coisa alguma, uma resposta que o fizesse olhar para
      si mesmo com desprezo e nojo. No achava possvel semelhante explicao; mas no
      fundo d'alma era isso o que ele queria.

    A resposta veio no dia seguinte. O rapaz que morava com
      ele foi acord-lo s oito horas da manh, para lhe entregar uma cartinha de
      Rosina.

    Ernesto deu um salto na cama, assentou-se, abriu a
      epstola, e leu-a rapidamente. Um ar de celeste bem-aventurana revelou ao
      companheiro de Ernesto o contedo da carta.

    -- Tudo est sanado, disse Ernesto fechando a carta e
      descendo da cama; ela explicou tudo, eu tinha visto mal.

    -- Ah! disse Jorge olhando com lstima para o amigo; ento
      que diz ela?

    Ernesto no respondeu imediatamente; abriu a carta outra
      vez, leu-a para si, tornou a fech-la, olhou para o teto, para as chinelas,
      para o companheiro, e s depois desta srie de gestos indicativos da profunda
      abstrao do seu esprito,  que respondeu a Jorge, dizendo:

    -- Ela explica tudo; a carta que eu pensei ser de amores
      era um bilhete do primo pedindo algum dinheiro ao tio. Diz que eu sou muito mau
      em obrig-la a falar nestas fraquezas de famlia, e conclui jurando que me ama
      como nunca seria capaz de amar ningum. L.

    Jorge recebeu a carta e leu, enquanto Ernesto passeava de
      um para outro lado, gesticulando e monossilabando consigo mesmo, como se
      redigisse mentalmente um ato de contrio.

    -- Ento? que tal? disse ele quando Jorge lhe entregou a
      carta.

    -- Tens razo, tudo se explica, respondeu Jorge.

    Ernesto foi nessa mesma tarde  Rua do Conde. Ela
      recebeu-o com um sorriso logo de longe. Na primeira ocasio que tiveram, tudo
      ficou explicado, declarando-se Ernesto compungido por haver suspeitado de
      Rosina, e levando a moa a sua generosidade ao ponto de lhe ceder um beijo, ao
      lusco-fusco, antes que a criada viesse acender as velas de spermacetti dos aparadores.

    Agora tem a palavra o leitor para interpelar-me a respeito
      das intenes desta moa, que preferindo a posio do rapaz de nariz comprido,
      ainda se carteava com Ernesto, e lhe dava todas as demonstraes de uma
      preferncia que no existia.

    As intenes de Rosina, leitor curioso, eram perfeitamente
      conjugais. Queria casar, e casar o melhor que pudesse. Para este fim aceitava a
      homenagem de todos os seus pretendentes, escolhendo l consigo o que melhor correspondesse
      aos seus desejos, mas ainda assim sem desanimar os outros, porque o melhor
      deles podia falhar, e havia para ela uma coisa pior que casar mal, que era no
      casar absolutamente.

    Este era o programa da moa. Junte a isso que era
      naturalmente loureira, que gostava de trazer ao p de si uma chusma de
      pretendentes, muitos dos quais  preciso saber que no pretendiam casar, e
      namoravam por passatempo, o que revelava da parte desses cavalheiros uma
      incurvel vadiao de esprito.

    Quem no tem co, caa com gato, diz o provrbio. Ernesto
      era pois, moral e conjugalmente falando, o gato possvel de Rosina, uma espcie
      de pis-aller, -- como dizem os franceses, -- que convinha ter  mo.

    Captulo IV

    O moo de nariz comprido no pertencia ao nmero de
      namorados de arribao; seus intentos eram estritamente conjugais. Tinha vinte
      e seis anos, era laborioso, benquisto, econmico, singelo e sincero, um
      verdadeiro filho de Minas. Podia fazer a felicidade de uma moa.

    A moa, pela sua parte, soubera insinuar-se tanto no
      esprito dele, que por pouco lhe fez perder o emprego. Um dia, chegando-se o
      patro  escrivaninha em que ele trabalhava, viu um papelinho debaixo do
      tinteiro, e leu a palavra amor, duas ou trs vezes repetida. Uma que
      fosse bastava para faz-lo subir s nuvens. O Sr. Gomes Arruda contraiu as
      sobrancelhas, concentrou as idias, e improvisou uma alocuo extensa e
      ameaadora, em que o msero guarda-livros s percebeu a expresso olho da
        rua.

    Olho da rua  uma expresso grave. O guarda-livros meditou
      nela, reconheceu a justia do patro, e tratou de emendar-se dos descuidos, no
      do amor. O amor ia-se enraizando nele cada vez mais; era a primeira paixo
      sria que o rapaz sentia, acrescendo que ele acertara logo de dar com uma
      mestra no ofcio.

    "Isto assim no pode continuar", pensava o rapaz de nariz
      comprido, coando o queixo e caminhando uma noite para casa, "o melhor 
      casar-me logo de uma vez. Com o que me do l em casa e o produto de alguma
      escrita por fora, creio que poderei ocorrer s despesas, o resto pertence a
      Deus".

    No tardou que Ernesto desconfiasse das intenes do rapaz
      de nariz comprido. Uma vez chegou a surpreender um olhar da moa e do rival.
      Enfadou-se, e na primeira ocasio que teve interpelou a namorada a respeito
      daquela circunstncia equvoca.

    -- Confesse! dizia ele.

    -- Oh! meu Deus! exclamou a moa; voc de tudo desconfia.
      Olhei para ele, sim,  verdade, mas olhei por sua causa.

    -- Por minha causa? perguntou Ernesto com um tom gelado de
      ironia.

    -- Sim, examinava-lhe a gravata, que  muito bonita, para dar uma a
      voc no dia de ano-bom. Agora que me obrigou a descobrir tudo, veja se me
      lembra outro mimo, porque esse j no serve.

    Ernesto caiu em si; recordou que efetivamente havia no
      olhar da moa uma tal ou qual inteno dadival, se me permitem este adjetivo
      obsoleto; toda a sua clera converteu-se num sorriso amvel e contrito, e o
      arrufo no foi adiante.

    Dias depois, era um domingo, estando ele e ela na sala, e
      um filho de Vieira  janela, foram os dois namorados interrompidos pelo pequeno
      que descera, gritando:

    -- A vem ele! a vem ele!

    -- Ele quem? disse Ernesto sentindo esmigalhar-se-lhe o
      corao.

    Chegou  janela: era o rival.

    Apareceu a tempo a tia de Rosina; uma tempestade iminente
      j pairava na fronte afogueada de Ernesto.

    Pouco depois entrou na sala o rapaz de nariz comprido,
      que, ao ver Ernesto, pareceu sorrir maliciosamente. Ernesto encordoou-o. Seus
      olhares, se fossem punhais, teriam cometido dois assassinatos naquele instante.
      Conteve-se, porm, para melhor observar os dois. Rosina no parecia prestar ao
      outro ateno de carter especial; tratava-o com polidez apenas. Isto aquietou
      um pouco o nimo revolto do Ernesto, que ao cabo de uma hora estava restitudo
       sua usual bem-aventurana.

    No reparou porm nos olhares desconfiados que o rapaz de nariz
      comprido lhe lanava de quando em quando. O sorriso malicioso desaparecera dos
      lbios do guarda-livros. A suspeita entrara-lhe no esprito ao ver a maneira
      indiferente, ou quase, com que o tratava Rosina, posto tratasse de igual modo
      ao outro pretendente.

    "Ser seriamente um rival?" pensava o rapaz de nariz
      comprido.

    Na primeira ocasio em que pde trocar duas palavras com a
      namorada, sem testemunhas, o que foi logo no dia seguinte, manifestou a
      desconfiana que lhe escurecera o esprito at ali to cor-de-rosa. Rosina
      soltou uma risada, -- uma dessas risadas que levam a convico ao fundo d'alma --
      a tal ponto que o rapaz de nariz comprido julgou de sua dignidade no insistir
      na absurda suspeita.

    -- J lhe disse: ele bem vontade tem de que eu o namore,
      mas perde o tempo: eu s tenho uma cara e um corao.

    -- Oh! Rosina, tu s um anjo!

    -- Quem dera!

    -- Um anjo, sim, insistiu o rapaz de nariz comprido; e
      creio que posso chamar-te brevemente minha esposa.

    Os olhos da moa faiscaram de contentamento.

    -- Sim, continuou o namorado; daqui a dois meses estaremos
      casados...

    -- Ah!

    -- Se todavia...

    Rosina empalideceu.

    -- Todavia? repetiu ela.

    -- Se todavia, o Sr. Vieira consentir...

    -- Por que no? disse a moa tranqilizado-se do susto que
      tivera; ele deseja a minha felicidade; e o casamento contigo  a minha
      felicidade maior. Ainda quando porm se oponha aos impulsos do meu corao,
      basta que eu queira para que os nossos desejos se realizem. Mas descansa, meu
      tio no por obstculos.

    O rapaz de nariz comprido ficou ainda a olhar para a moa
      alguns minutos sem dizer palavra; admirava duas coisas: a fora d'alma de
      Rosina e o amor que ela lhe dedicava. Quem rompeu o silncio foi ela.

    -- Mas ento daqui a dois meses?

    -- S se a sorte me for adversa.

    -- E poder s-lo?

    -- Quem sabe? respondeu o rapaz de nariz comprido com um
      suspiro de dvida.

    Logo depois desta perspectiva de felicidade, a concha em que
      pesavam as esperanas de Ernesto comeou a subir um pouco. Ele via que Rosina
      efetivamente parecia ir diminuindo as cartas, e nas poucas que j ento recebia
      dela, a paixo era menos intensa, a frase estudada, acanhada e fria. Quando
      estavam juntos havia menos intimidade expansiva; a presena dele parecia
      constrang-la. Ernesto entrou seriamente a crer que a batalha estava perdida.

    Infelizmente a ttica deste namorado era perguntar 
      prpria moa se eram fundadas as suspeitas dele, ao que ela respondia vivamente
      que no, e isto bastava a restituir-lhe a paz do esprito. No era longa nem
      profunda a quietao; o laconismo epistolar de Rosina, a frieza de seus modos,
      a presena do outro, tudo isso sombreava singularmente o esprito de Ernesto.
      Mas to depressa caa no abismo do desespero, como ascendia s regies da
      celeste bem-aventurana, -- mostrando assim o que a natureza queria que ele
      fosse, -- alma inconsistente e passiva -- levada, como a folha, ao sabor de todos
      os ventos.

    Entretanto, era difcil que a verdade no se lhe metesse
      pelos olhos. Um dia reparou que alm da suspeitosa afetuosidade de Rosina,
      havia da parte do tio certas atenes caractersticas para com o rival. No se
      enganava; conquanto o novo pretendente ainda no houvesse pedido formalmente a
      mo da moa, era quase certo para o Sr. Vieira que nele se preparava novo
      sobrinho, e acertando de ser este um homem do comrcio, no podia haver, na
      opinio do tio, mais feliz escolha.

    Desisto de pintar os desesperos, os terrores, as imprecaes
      de Ernesto no dia em que a certeza da derrota mais funda e de raiz se lhe
      cravou no corao. J ento lhe no bastou a negativa de Rosina, que alis lhe
      pareceu frouxa, e efetivamente o era. O triste moo chegou a desconfiar que a
      amada e o rival estariam de acordo para mofar dele.

    Como por via de regra,  da nossa miservel condio que o
      amor-prprio domine o simples amor, apenas aquela suspeita lhe pareceu
      provvel, apoderou-se dele uma feroz indignao, e duvido que nenhum quinto ato
      de melodrama ostente maior soma de sangue derramado do que ele verteu na
      fantasia. Na fantasia, apenas, compassiva leitora, no s porque ele era
      incapaz de fazer mal a um seu semelhante, mas sobretudo porque repugnava  sua
      natureza achar uma resoluo qualquer. Por esse motivo, depois de muito e longo
      cogitar, confiou todos os seus pesares e suspeitas ao companheiro de casa e
      pediu-lhe um conselho; Jorge deu-lhe dois.

    -- Minha opinio, disse Jorge,  que no te importes com
      ela e vs trabalhar, que  coisa mais sria.

    -- Nunca!

    -- Nunca trabalhar?

    -- No; nunca esquec-la.

    -- Bem, disse Jorge descalando a bota do p esquerdo,
      nesse caso vai ter com esse sujeito de quem desconfias e entende-te com ele.

    -- Aceito! exclamou Ernesto;  o melhor. Mas, continuou ele
      depois de refletir um instante, e se ele no for meu rival, que hei de fazer?
      como descobrir se h outro?

    -- Nesse caso, disse Jorge, estendendo-se filosoficamente
      na marquesa, nesse caso o meu conselho  que tu, ele e ela vo todos para o
      diabo que os carregue.

    Ernesto cerrou os ouvidos  blasfmia, vestiu-se e saiu.

    Captulo V

    Apenas saiu  rua, embicou Ernesto para a casa em que
      trabalhava o rapaz de nariz comprido, resolvido a explicar-se de uma vez com ele.
      Hesitou alguma coisa,  verdade, e esteve a pique de arrepiar carreira; mas a
      crise era to violenta que triunfou da frouxido de nimo, e vinte minutos
      depois chegava ele ao seu destino. No entrou no escritrio do rival: ps-se a
      passear de um lado para outro,  espera que ele sasse, o que se verificou da
      a trs quartos de hora, trs enfadonhos e mortais quartos de hora.

    Ernesto aproximou-se casualmente do rival;
      cumprimentaram-se com um sorriso acanhado e amarelo, e ficaram alguns segundos
      a olhar um para o outro. J o guarda-livros ia tirando o chapu e
      despedindo-se, quando Ernesto lhe perguntou:

    -- Vai hoje  Rua do Conde?

    -- Talvez.

    -- A que horas?

    -- No sei ainda. Por qu?

    -- Iramos juntos. Eu vou s oito.

    O rapaz de nariz comprido no respondeu.

    -- Para que lado vai agora? perguntou Ernesto depois de
      algum silncio.

    -- Vou ao Passeio Pblico, se o senhor l no for,
      respondeu resolutamente o rival.

    Ernesto empalideceu.

    -- Quer assim fugir de mim?

    -- Sim, senhor.

    -- Pois eu no; desejo at que haja uma explicao entre
      ns. Espere... no me volte as costas. Saiba que eu tambm sou atrevido, menos
      de lngua ainda que de mo. Vamos, d-me o brao e caminhemos ao Passeio
      Pblico.

    O rapaz de nariz comprido teve mpetos de atracar-se com o
      rival e experimentar-lhe as foras; mas estavam numa rua comercial; todo o seu
      futuro voaria pelos ares. Preferiu dar-lhe as costas e seguir caminho.
      Executava j este plano, quando Ernesto lhe gritou:

    -- Venha c, namorado sem-ventura!

    O pobre rapaz voltou-se rapidamente.

    -- Que diz o senhor? perguntou ele.

    -- Namorado sem ventura, repetiu Ernesto cravando os olhos
      no rosto do rival a ver se lhe descobria uma confisso qualquer.

    --  singular, replicou o rapaz de nariz comprido, 
      singular que o senhor me chame namorado sem-ventura, quando ningum ignora a
      triste figura que tem feito para obter as boas graas de uma moa que 
      minha...

    -- Sua!

    -- Minha!

    -- Nossa, direi eu...

    -- Senhor!

    O rapaz de nariz comprido engatilhou um soco; a segurana
      e tranqilidade com que Ernesto olhava para ele mudaram-lhe o curso das idias.
      Falaria ele verdade? Essa moa, que tanto amor lhe jurava, com quem meditava
      casar dentro de pouco tempo, mas de quem alguma vez desconfiara, teria dado
      efetivamente quele homem o direito de a chamar sua? Esta simples interrogao
      perturbou o esprito do rapaz, que esteve cerca de dois minutos a olhar
      mudamente para Ernesto, e este a olhar mudamente para ele.

    -- O que o senhor disse agora  muito grave; preciso de uma
      explicao.

    -- Peo-lhe explicao igual, respondeu Ernesto.

    -- Vamos ao Passeio Pblico.

    Seguiram caminho, a princpio silenciosos, no s porque a
      situao os acanhava naturalmente, mas tambm porque cada um deles receava
      ouvir uma cruel revelao. A conversa comeou por monosslabos e frases
      truncadas, mas foi a pouco e pouco fazendo-se natural e correta. Tudo quanto os
      leitores sabem de um e outro foi ali exposto por ambos, e por ambos ouvido
      entre abatimento e clera.

    -- Se tudo quanto o senhor diz  a expresso da verdade,
      observou o rapaz de nariz comprido descendo a Rua das Marrecas, a concluso 
      que fomos enganados...

    -- Vilmente enganados, emendou Ernesto.

    -- Pela minha parte, tornou o primeiro, recebo com isto um
      grande golpe porque eu amava-a muito, e pretendia faz-la minha esposa, o que
      sucederia breve. A minha boa fortuna fez com que o senhor me avisasse a
      tempo...

    -- Talvez me censurem o passo que dei; mas o resultado que
      vamos colher justifica tudo. Nem por isso creio que padeo menos... eu amava
      loucamente aquela moa!

    Ernesto proferiu estas palavras to de dentro, que elas
      repercutiram na corao do rival, e ambos ficaram algum tempo calados, a
      devorar consigo a dor e a humilhao. Ernesto rompeu o silncio soltando um
      magoadssimo suspiro, na ocasio em que entravam no Passeio. S o guarda pde
      ouvi-lo; o rapaz de nariz comprido ia revolvendo no esprito uma dvida.

    "Devo eu condenar to ligeiramente aquela moa? perguntou ele
      a si mesmo; e no ser este sujeito um pretendente vencido que, por semelhante
      meio quer obter a minha neutralidade?"

    O rosto de Ernesto no parecia dar razo  conjetura do
      rival; todavia, como o lance era grave e cumpria no ir por aparncias, o rapaz
      de nariz comprido abriu de novo o captulo das revelaes, no que foi
      acompanhado pelo rival. Todas elas iam concordando entre si; os incidentes e os
      gestos que um relembrava, tinham eco na memria do outro. O que porm decidiu
      tudo foi a apresentao de uma carta que cada um deles tinha casualmente no
      bolso. O texto de ambas mostrava que eram recentes; a expresso de ternura no
      era a mesma nas duas epstolas, porque Rosina, como sabemos, ia afrouxando o
      tom em relao a Ernesto; mas era quanto bastava para dar ao rapaz de nariz
      comprido o golpe de misericrdia.

    -- Desprezemo-la, disse este, quando acabou de ler a carta
      do rival.

    -- S isso? perguntou Ernesto; o simples desprezo ser
      bastante?

    -- Que vingana tiraramos dela? objetou o rapaz de nariz
      comprido. Ainda que alguma fosse possvel, no seria digna de ns...

    Calou-se; mas tocado de uma sbita idia exclamou:

    -- Ah! lembra-me um meio.

    -- Qual?

    -- Mandemos-lhe uma carta de rompimento, mas uma carta de
      igual teor.

    A idia sorriu logo ao esprito de Ernesto, que parecia
      ainda mais humilhado que o outro, e ambos foram dali redigir a carta fatal.

    No dia seguinte, logo depois do almoo, estava Rosina em
      casa muito sossegada, longe de esperar o golpe, e at forjando planos de
      futuro, que assentavam todos no rapaz de nariz comprido, quando o moleque lhe
      apareceu com duas cartas.

    -- Nhanh Rosina, disse ele, esta carta  de sinh Ernesto,
      e esta...

    -- Que  isso? disse a moa; os dois...

    -- No, explicou o moleque; um estava na esquina de cima,
      outro na esquina de baixo.

    E fazendo tinir no bolso alguns cobres que os dois rivais
      lhe haviam dado, o moleque deixou a senhora moa ler  vontade as duas
      missivas. A primeira que abriu foi a de Ernesto. Dizia assim:

    Senhora! Hoje que tenho certeza da sua perfdia, certeza
      que j nada me pode arrancar do esprito, tomo a liberdade de lhe dizer que
      est livre e eu reabilitado. Basta de humilhaes! Pude dar-lhe crdito
      enquanto lhe era possvel enganar-me. Agora... Adeus para sempre!

    Rosina levantou os ombros ao ler esta carta. Abriu
      rapidamente a do rapaz de nariz comprido, e leu:

    Senhora! Hoje que tenho certeza da sua perfdia, certeza
      que j nada me pode...

    Daqui para diante foi crescendo a surpresa. Ambos se
      despediam; ambos por igual teor. Logo, tinham descoberto tudo um ao outro. No
      havia meio de reparar nada; tudo estava perdido!

    Rosina no costumava chorar. Esfregava s vezes os olhos,
      para os fazer vermelhos, quando havia necessidade de mostrar a um namorado que
      se ressentia de alguma coisa. Desta vez porm chorou deveras; no de mgoa, mas
      de raiva. Triunfavam ambos os rivais; ambos lhe fugiam, e lhe davam de comum
      acordo o ltimo golpe. No havia resistir; entrou-lhe na alma o desespero. Por
      desgraa no havia no horizonte a mais ligeira vela. O primo a quem aludimos
      num dos captulos anteriores andava com idias a respeito de outra moa, e
      idias j conjugais. Ela mesma descuidara o seu sistema durante os ltimos
      trinta dias deixando sem resposta alguns olhares interrogadores. Estava pois
      abandonada de Deus e dos homens.

    No; ainda lhe restava um recurso.

    Captulo VI

    Um ms depois daquele fatal desastre, estando Ernesto em
      casa a conversar com o companheiro e mais dois amigos, um dos quais era o rapaz
      de nariz comprido, ouviu bater palmas. Foi  escada; era o moleque da Rua Nova
      do Conde.

    -- Que me queres? disse ele com ar severo, suspeitando que
      o moleque viesse pedir-lhe dinheiro.

    -- Venho trazer isto, disse o moleque baixinho.

    E tirou do bolso uma carta que entregou a Ernesto.

    A primeira idia de Ernesto foi recusar a carta e pr o
      moleque a pontaps pela escada abaixo; mas o corao disse-lhe uma coisa,
      como ele mesmo confessou. Estendeu a mo, recebeu a carta, abriu-a e leu.

    Dizia assim:

    Ainda uma vez curvo-me s tuas injustias. Estou cansada
      de chorar. No posso mais viver debaixo da ao de uma calnia. Vem ou eu
      morro!

    Ernesto esfregou os olhos; no podia crer no que acabava
      de ler. Seria um novo ardil, ou a expresso da verdade? Ardil podia ser; mas
      Ernesto atentou bem e pareceu-lhe ver o sinal de uma lgrima. Evidentemente a
      moa chorara. Mas se chorara  porque padecia; e nesse caso...

    Nestas e noutras reflexes gastou Ernesto cerca de oito a
      dez minutos. No sabia que resolvesse. Acudir ao chamado de Rosina era esquecer
      a perfdia com que ela se houve amando a outro em cujas mos vira at uma carta
      sua. Mas, no ir podia ser contribuir para a morte de uma criatura que, ainda
      quando no tivesse sido amada por ele, merecia os seus sentimentos de
      humanidade.

    -- Diga que irei logo, respondeu enfim Ernesto.

    Quando voltou para a sala trazia o rosto mudado. Os amigos
      repararam na mudana e procuraram descobrir-lhe a causa.

    -- Algum credor, dizia um.

    -- No lhe trouxeram dinheiro, acrescentava outro.

    -- Namoro novo, opinava o companheiro de casa.

    --  tudo isso talvez, respondeu Ernesto com um modo que
      queria ser alegre.

    De tarde preparou-se Ernesto e dirigiu-se para a Rua Nova
      do Conde. Dez ou doze vezes parou resolvido a voltar; mas um minuto de reflexo
      tirava-lhe os escrpulos e o rapaz prosseguia em seu caminho.

    "H mistrio nisto tudo, dizia ele consigo e relendo a
      carta de Rosina.  certo que ele me revelou tudo, e at me leu cartas; nisto
      no h que duvidar. Rosina  culpada; enganou-me; namorava a outro, dizendo-me
      que s me amava a mim. Mas por que esta carta? Se ela amava ao outro por que
      lhe no escreve? Investiguemos tudo isto."

    A ltima hesitao do digno rapaz foi ao entrar na Rua
      Nova do Conde; seu esprito vacilou dessa vez mais que nunca. Dez minutos
      gastou em passinhos, ora para trs, ora para diante, sem assentar numa coisa
      definitiva. Afinal deitou o corao  larga e seguiu afoitamente a senda que o
      destino parecia indicar-lhe.

    Quando chegou  casa de Vieira, estava Rosina na sala com
      a tia. A moa teve um movimento de alegria; mas, tanto quanto Ernesto pde
      examinar-lhe as feies, a alegria no foi tal que pudesse disfarar-lhe os
      sulcos das lgrimas. O que  certo  que um vu de melancolia parecia envolver
      os olhos travessos da bela Rosina. Nem j eram travessos; estavam desmaiados ou
      mortos.

    "Oh! ali est a inocncia!" disse Ernesto consigo.

    Ao mesmo tempo, envergonhado por esta opinio to benevolente,
      e lembrando-se das revelaes do rapaz de nariz comprido, Ernesto assumiu um ar
      severo e grave, menos de namorado do que de juiz, menos de juiz que de algoz.

    Rosina cravou os olhos no cho.

    A tia da moa perguntou a Ernesto as causas da sua
      ausncia to prolongada. Ernesto alegou muito trabalho e alguma doena, as
      primeiras desculpas que ocorrem a todo o homem que no tem desculpa. Trocadas
      mais algumas palavras, saiu a tia da sala para ir dar umas ordens, tendo j
      ordenado disfaradamente ao Juquinha que ficasse na sala. Juquinha porm trepou
      a uma cadeira e ps-se  janela; os dois tiveram tempo para explicaes.

    A situao era esquerda; mas no se podia perder tempo.
      Bem o compreendeu Rosina, que rompeu logo estas palavras:

    -- No tem remorsos?

    -- De qu? perguntou Ernesto espantado.

    -- Do que me fez?

    -- Eu?

    -- Sim, abandonando-me sem uma explicao. A causa adivinho
      eu qual , alguma nova suspeita, ou antes alguma calnia...

    -- Nem calnia, nem suspeita, disse Ernesto depois de um
      momento de silncio; mas s verdade.

    Rosina sufocou um grito; seus lbios plidos e trmulos
      quiseram murmurar alguma coisa, mas no puderam; dos olhos arrebentaram-lhe
      duas grossas lgrimas. Ernesto no podia v-la chorar; por mais cheio de razes
      que estivesse, em vendo lgrimas, curvava-se logo e pedia-lhe perdo. Desta vez
      porm era impossvel que to depressa voltasse ao antigo estado. As revelaes
      do rival estavam ainda frescas na memria.

    Curvou-se, entretanto, para a moa e pediu-lhe que no
      chorasse.

    -- Que no chore! disse ela com voz lacrimosa. Pede-me que
      no chore quando eu vejo fugir-me a felicidade das mos, sem ao menos merecer a
      sua estima, porque o senhor despreza-me; sem ao menos saber o que  essa
      calnia para desmenti-la ou desmascar-la...

    --  capaz disso? perguntou Ernesto com fogo.  capaz de
      confundir a calnia?

    -- Sou, disse ela com um magnfico gesto de dignidade.

    Ernesto exps em resumo a conversa que tivera com o rapaz
      de nariz comprido, e concluiu dizendo que vira uma carta dela. Rosina ouviu
      calada a narrao: tinha o peito ofegante; sentia-se a comoo que a dominava.
      Quando ele acabou, soltou uma torrente de lgrimas.

    -- Meu Deus! disse baixinho Ernesto, podem ouvi-la.

    -- No importa, exclamou a moa; estou disposta a tudo...

    -- Diga-me, pode negar o que lhe acabo de contar?

    -- Tudo, no; alguma coisa  verdade, respondeu ela com voz
      triste.

    -- Ah!

    -- A promessa de casamento  mentira; no houve mais que
      duas cartas, duas apenas, e isto... por sua culpa...

    -- Por minha culpa! exclamou Ernesto to assombrado como se
      acabasse de ver um dos castiais a danar.

    -- Sim, repetiu ela, por sua culpa. No se lembra? Tinha-se
      arrufado uma vez comigo, e eu... foi uma loucura... para met-lo em brios, para
      vingar-me... que loucura!... correspondi ao namoro daquele indivduo sem
      educao... foi demncia minha, bem vejo... Mas que quer? eu estava
      despeitada...

    A alma de Ernesto ficou fortemente abalada com esta
      exposio que a moa lhe fazia dos acontecimentos. Era claro para ele que
      Rosina negaria tudo, se o seu procedimento tivesse alguma inteno m; a carta,
      diria que era imitao da sua letra. Mas no; ela confessava tudo com a mais
      nobre e rude singeleza deste mundo; somente -- e nisto estava a chave da
      situao, -- a moa explicava a que
      impulsos de despeito cedera, mostrando assim, se podemos comparar o corao a um
      pastel, debaixo do invlucro da leviandade a nata do amor.

    Decorreram alguns segundos de silncio, em que a moa
      tinha os olhos pregados no cho, na mais triste e melanclica atitude que
      jamais teve uma donzela arrependida.

    -- Mas no viu que esse ato de loucura podia causar a minha
      morte? disse Ernesto.

    Rosina estremeceu ouvindo estas palavras que Ernesto lhe
      disse com a voz mais doce dos seus antigos dias; levantou os olhos para ele e
      tornou a pous-los no cho.

    -- Se eu tivesse refletido nisso, observou ela, no faria
      nada do que fiz.

    -- Tem razo, ia dizendo Ernesto, mas levado de um mau
      esprito de vingana entendeu que a leviandade da moa devia ser punida com
      alguns minutos mais de dvida e recriminao.

    A moa ouviu ainda muitas coisas que lhe disse Ernesto, e
      a todas respondeu com um ar to contrito e palavras to repassadas de amargura,
      que o nosso namorado sentia quase rebentarem-lhe as lgrimas dos olhos. Os de
      Rosina estavam j mais tranqilos, e a limpidez comeava a tomar o lugar da
      sombra melanclica. A situao era quase a mesma de algumas semanas antes;
      faltava s consolid-la com o tempo. Entretanto, disse Rosina:

    -- No pense que lhe peo mais do que me cumpre. Meu
      procedimento alguma punio h de ter, e eu estou perfeitamente resignada.
      Pedi-lhe que viesse aqui a fim de me explicar o seu silncio; pela minha parte
      expliquei-lhe o meu desvario. No posso ambicionar mais...

    -- No pode?...

    -- No. Meu fim era no desmerecer a sua estima.

    -- E por que no o meu amor? perguntou Ernesto. Parece-lhe
      que o corao possa apagar de repente, e por simples esforo de vontade, a
      chama de que viveu longos dias?

    -- Oh! isso  impossvel! respondeu a moa; e pela minha
      parte sei o que vou padecer...

    -- Demais, disse Ernesto, o culpado de tudo fui eu,
      francamente o confesso. Ambos ns temos que perdoar um a outro; perdo-lhe a
      leviandade; perdoa-me o fatal arrufo?

    Rosina, a menos de ter um corao de bronze, no podia
      deixar de conceder o perdo que o namorado lhe pedia. Foi recproca a
      generosidade. Como na volta do filho prdigo, as duas almas festejaram aquela
      renascena de felicidade, e amaram-se com mais fora que nunca.

    Trs meses depois, dia por dia, foi celebrado na igreja de
      S. Ana, que era ento no Campo d'Aclamao, o consrcio dos dois namorados. A
      noiva estava radiante de ventura; o noivo parecia respirar os ares do paraso
      celeste. O tio de Rosina deu um sarau a que compareceram os amigos de Ernesto,
      exceto o rapaz de nariz comprido.

    No quer isto dizer que a amizade dos dois viesse a
      esfriar. Pelo contrrio, o rival de Ernesto revelou certa magnanimidade,
      apertando ainda mais os laos que o prendiam desde a singular circunstncia que
      os aproximou. Houve mais: dois anos depois do casamento de Ernesto, vemos os
      dois associados num armarinho, reinando entre ambos a mais serena intimidade. O
      rapaz de nariz comprido  padrinho de um filho de Ernesto.

    -- Por que no te casas? pergunta Ernesto s vezes ao seu
      scio, amigo e compadre.

    --
      Nada, meu amigo, responde o outro, eu j agora morro solteiro.

    Aurora
      sem dia

    Naquele tempo contava Lus Tinoco
      vinte e um anos. Era um rapaz de estatura me, olhos vivos, cabelos em
      desordem, lngua inesgotvel e paixes impetuosas. Exercia um modesto emprego
      no foro, donde tirava o parco sustento, e morava com o padrinho cujos meios de
      subsistncia consistiam no ordenado da sua aposentadoria. Tinoco estimava o
      velho Anastcio e este tinha ao afilhado igual afeio.

    Lus Tinoco possua a convico de
      que estava fadado para grandes destinos, e foi esse durante muito tempo o maior
      obstculo da sua existncia. No tempo em que o Dr. Lemos o conheceu comeava a
      arder-lhe a chama potica. No se sabe como comeou aquilo. Naturalmente os
      louros alheios entraram a tirar-lhe o sono. O certo  que um dia de manh
      acordou Lus Tinoco escritor e poeta; a inspirao, flor abotoada ainda na
      vspera, amanheceu pomposa e viosa. O rapaz atirou-se ao papel com ardor e
      perseverana, e entre as seis horas e as nove, quando o foram chamar para
      almoar, tinha produzido um soneto, cujo principal defeito era ter cinco versos
      com slabas de mais e outros cinco com slabas de menos. Tinoco levou a
      produo ao Correio Mercantil, que a publicou entre os a pedidos.

    Mal dormida, entremeada de sonhos
      interruptos, de sobressaltos e nsias, foi a noite que precedeu a publicao. A
      aurora raiou enfim, e Lus Tinoco, apesar de pouco madrugador, levantou-se com
      o sol e foi ler o soneto impresso. Nenhuma me contemplou o filho recm-nascido
      com mais amor do que o rapaz leu e releu a produo potica, alis decorada
      desde a vspera. Afigurou-se-lhe que todos os leitores do Correio Mercantil estavam fazendo o mesmo; e que cada um admirava a recente revelao literria,
      indagando de quem seria esse nome at ento desconhecido.

    No dormiu sobre os louros
      imaginrios. Da a dois dias, nova composio, e desta vez saiu uma longa ode
      sentimental em que o poeta se queixava  lua do desprezo em que o deixara a
      amada, e j entrevia no futuro a morte melanclica de Gilbert. No podendo
      fazer despesas, alcanou, por intermdio de um amigo, que a poesia fosse
      impressa de graa, motivo este que retardou a publicao por alguns dias. Lus
      Tinoco tragou a custo a demora, e no sei se chegou a suspeitar de inveja os
      redatores do Correio Mercantil. A poesia saiu enfim; e tal contentamento
      produziu no poeta que foi logo fazer ao padrinho a grande revelao.

    -- Leu hoje o Correio Mercantil,
      meu padrinho? perguntou ele.

    -- Homem, tu sabes que eu s lia os
      jornais no tempo em que era empregado efetivo. Desde que me aposentei no li
      mais os peridicos...

    -- Pois  pena! disse Tinoco com ar
      frio; queria que me dissesse o que pensa de uns versos que l vm.

    -- E de mais a mais versos! Os jornais
      j no falam de poltica? No meu tempo no falavam de outra coisa.

    -- Falam de poltica e publicam
      versos, porque ambas as coisas tm entrada na imprensa. Quer ler os versos?

    -- D c.

    -- Aqui esto.

    O poeta puxou da algibeira o Correio
      Mercantil, e o velho Anastcio entrou a ler para si a obra do afilhado. Com
      os olhos pregados no padrinho, Lus Tinoco parecia querer adivinhar as
      impresses que produziam nele os seus elevados conceitos, metrificados com
      todas as liberdades possveis e impossveis do consoante. Anastcio acabou de
      ler os versos e fez com a boca um gesto de enfado.

    -- Isto no tem graa, disse ele ao
      afilhado estupefato; que diabo tem a lua com a indiferena dessa moa, e a que
      vem aqui a morte deste estrangeiro?

    Lus Tinoco teve vontade de
      descompor o padrinho, mas limitou-se a atirar os cabelos para trs e a dizer
      com supremo desdm:

    -- So coisas de poesia que nem
      todos entendem; esses versos sem graa so meus.

    -- Teus? perguntou Anastcio no
      cmulo do espanto.

    -- Sim, senhor.

    -- Pois tu fazes versos?

    -- Assim dizem.

    -- Mas quem te ensinou a fazer
      versos?

    -- Isto no se aprende; traz-se do
      bero.

    Anastcio leu outra vez os versos,
      e s ento reparou na assinatura do afilhado. No havia que duvidar: o rapaz dera
      em poeta. Para o velho aposentado era isto uma grande desgraa. Esse, ligava 
      idia de poeta a idia de mendicidade. Tinham-lhe pintado Cames e Bocage, que
      eram os nomes literrios que ele conhecia, como dois improvisadores de esquina,
      expectorando sonetos em troca de algumas moedas, dormindo nos adros das igrejas
      e comendo nas cocheiras das casas-grandes. Quando soube que o seu querido Lus
      estava atacado da terrvel molstia, Anastcio ficou triste, e foi nessa
      ocasio que se encontrou com o Dr. Lemos e lhe deu notcia da gravssima
      situao do afilhado.

    -- Dou-lhe parte de que o Lus est
      poeta.

    -- Sim? perguntou-lhe o Dr. Lemos.
      E que tal lhe saiu o poeta?

    -- No me importa se saiu mau ou
      bom. O que sei  que  a maior desgraa que lhe podia acontecer, porque isto de
      poesia no d nada de si. Tenho medo que deixe o emprego, e fique a pelas
      esquinas a falar  lua, cercado de moleques.

    O Dr. Lemos tranqilizou o homem
      dizendo-lhe que os poetas no eram esses vadios que ele imaginava; mostrou-lhe
      que a poesia no era obstculo para andar como os outros, para ser deputado,
      ministro ou diplomata.

    -- No entanto, disse o Dr. Lemos,
      desejarei falar ao Lus; quero ver o que ele tem feito, porque como eu tambm
      fui outrora um pouco versejador, posso j saber se o rapaz d de si.

    Lus Tinoco foi ter com ele;
      levou-lhe o soneto e a ode impressos, e mais algumas produes no publicadas.
      Estas oravam pela ode ou pelo soneto. Imagens safadas, expresses comuns,
      frouxo alento e nenhuma arte; apesar de tudo isso, havia de quando em quando
      algum lampejo que indicava da parte do nefito propenso para o mister; podia
      ser ao cabo de algum tempo um excelente trovador de salas.

    O Dr. Lemos disse-lhe com
      franqueza que a poesia era uma arte difcil e que pedia longo estudo; mas que,
      a querer cultiv-la a todo o transe, devia ouvir alguns conselhos necessrios.

    -- Sim, respondeu ele, pode lembrar
      alguma coisa; eu no me nego a aceitar-lhe o que me parecer bom, tanto mais que
      eu fiz estes versos muito  pressa e no tive ocasio de os emendar.

    -- No me parecem bons estes
      versos, disse o Dr. Lemos; poderia rasg-los e estudar antes algum tempo.

    No  possvel descrever o gesto
      de soberbo desdm, com que Lus Tinoco arrancou os versos ao doutor e lhe
      disse:

    -- Os seus conselhos valem tanto
      como a opinio de meu padrinho. Poesia no se aprende, traz-se do bero. Eu no
      dou ateno a invejosos. Se os versos no fossem bons, o Mercantil no
      os publicava.

    E saiu.

    Da em diante foi impossvel
      ter-lhe mo.

    Tinoco entrou a escrever como quem
      se despedia da vida. Os jornais andavam cheios de produes suas, umas tristes,
      outras alegres, no daquela tristeza nem daquela alegria que vem diretamente do
      corao, mas de uma tristeza que fazia sorrir, e de uma alegria que fazia
      bocejar. Lus Tinoco confessava singelamente ao mundo que fora invadido do
      ceticismo byroniano, que tragara at s fezes a taa do infortnio, e que para
      ele a vida tinha escrita na porta a inscrio dantesca. A inscrio era citada
      com as prprias palavras do poeta, sem que alis Lus Tinoco o tivesse lido
      nunca. Ele respingava nas alheias produes uma coleo de aluses e nomes
      literrios, com que fazia as despesas de sua erudio, e no lhe era preciso,
      por exemplo, ter lido Shakespeare para falar do to be or not to be, do
      balco de Julieta e das torturas de Otelo. Tinha a respeito de biografias
      ilustres noes extremamente singulares. Uma vez, agastando-se com a sua amada
      -- pessoa que ainda no existia, -- aconteceu-lhe dizer que o clima fluminense
      podia produzir monstros daquela espcie, do mesmo modo que o sol italiano
      dourara os cabelos da menina Aspsia. Lera casualmente alguns dos salmos do
      Padre Caldas, e achou-os soporferos; falava mais benevolamente da "Morte de
      Lindia", nome que ele dava ao poema de J. Baslio da Gama, de que s conhecia
      quatro versos.

    Ao cabo de cinco meses tinha Lus
      Tinoco produzido uma quantia razovel de versos, e podia, mediante muitos
      claros e pginas em branco, dar um volume de cento e oitenta pginas. A idia
      de imprimir um livro sorriu-lhe; e da a pouco era raro passar por uma loja sem
      ver no mostrador um prospecto assim concebido:

    GOIVOS E CAMLIAS
    POR
    LUS TINOCO
    Um volume de 200 pginas... 2$000
      rs.

    O Dr. Lemos encontrou-o algumas
      vezes na rua. Andava com o ar inspirado de todos os poetas novis que se supem
      apstolos e mrtires. Cabea alta, olhos vagos, cabelos grandes e cados;
      algumas vezes abotoava o palet e punha a mo ao peito por ter visto assim um
      retrato de Guizot; outras vezes andava com as mos para trs.

    O Dr. Lemos falou-lhe a terceira
      vez que o viu assim, porque das duas primeiras o rapaz esquivou-se por modo que
      no pde deter-lhe o passo. Fez-lhe alguns elogios s suas produes.
      Expandiu-se-lhe o rosto:

    -- Obrigado, disse ele; esses
      elogios so o melhor prmio das minhas fadigas. O povo no est preparado para
      a poesia: as pessoas inteligentes, como o doutor, podem julgar do merecimento
      dos outros. Leu a minha "Flor plida"?

    -- Uns versos publicados no
      domingo?

    -- Sim.

    -- Li; so galantssimos.

    -- E sentimentais. Fiz aquela
      poesia em meia hora, e no emendei nada. Acontece-me isso muita vez. Que lhe
      parecem aqueles esdrxulos?

    -- Acho-os esdrxulos.

    -- So excelentes. Agora vou levar algumas
      estrofes que compus ontem. Intitulam-se " beira de um tmulo".

    -- Ah!

    -- J assinou o meu livro?

    -- Ainda no.

    -- Nem assine. Quero dar-lhe um
      volume. Sai brevemente. Estou recolhendo as assinaturas. Goivos e camlias;
      que lhe parece o ttulo?

    -- Magnfico.

    -- Achei-o de repente. Lembraram-me
      outros, mas eram comuns. Goivos e Camlias parece que  um ttulo
      distinto e original;  o mesmo que se dissesse: tristezas e alegrias.

    -- Justamente.

    Durante esse tempo, ia o poeta
      tirando do bolso uma aluvio de papis. Procurava as estrofes de que falara. O
      Dr. Lemos quis esquivar-se, mas o homem era implacvel; segurou-lhe no brao.
      Ameaado de ouvir ler os versos na rua, o doutor convidou o poeta a ir jantar
      com ele.

    Foram a um hotel prximo.

    -- Ah! meu amigo, dizia ele em
      caminho, no imagina quantos invejosos andam a denegrir o meu nome. O meu
      talento tem sido o alvo de mil ataques; mas eu j estava disposto a isto. No
      me espanto. A enxerga de Cames  um exemplo e uma consolao. Prometeu, atado
      ao Cucaso,  o emblema do gnio. A posteridade  a vingana dos que sofrem os
      desdns do seu tempo.

    No hotel procurou o Dr. Lemos um
      lugar mais afastado, onde no chamassem muito a ateno das outras pessoas.

    -- Aqui esto as estrofes, disse
      Lus Tinoco conseguindo arrancar de um mao de papis a poesia anunciada.

    -- No lhe parece melhor l-las 
      sobremesa?

    -- Como quiser, respondeu ele; tem
      razo, porque eu tambm estou com fome.

    Lus Tinoco era todo prosa  mesa do
      jantar; comeu desencadernadamente.

    -- No repare, dizia ele de quando
      em quando; isto  o animal que se est alimentando. O esprito aqui no tem
      culpa nenhuma.

     sobremesa, estando na sala
      apenas uns cinco fregueses, desdobrou Lus Tinoco o fatal papel e leu as
      anunciadas estrofes, com uma melopia afetada e perfeitamente ridcula. Os
      versos falavam de tudo, da morte e da vida, das flores e dos vermes, dos amores
      e dos dios; havia mais de oito ciprestes, cerca de vinte lgrimas,
      e mais tmulos do que um verdadeiro cemitrio.

    Os cinco fregueses jantantes
      voltaram a cabea, quando Lus Tinoco comeou a recitar os versos; depois
      comearam a sorrir e a murmurar alguma coisa que os dois no puderam ouvir.
      Quando o poeta acabou, um dos circunstantes, assaz grosseiro, soltou uma
      gargalhada. Lus Tinoco voltou-se enfurecido, mas o Dr. Lemos conteve-o
      dizendo:

    -- No  conosco.

    -- , meu amigo, disse ele
      resignado; mas que lhe havemos de fazer? quem entende a poesia para a respeitar
      em toda a parte?

    -- Deixemos este lugar, disse o Dr.
      Lemos; aqui no compreendem o que  um poeta.

    -- Vamos!

    O Dr. Lemos pagou a conta e saiu
      atrs de Lus Tinoco, que deitou ao rideiro um olhar de desafio.

    Lus Tinoco acompanhou-o at 
      casa. Recitou-lhe em caminho alguns versos que sabia de cor. Quando ele se
      entregava  poesia, no a alheia, que o no preocupava muito, mas a prpria,
      podia-se dizer que tudo mais se lhe apagava da memria; bastava-lhe a
      contemplao de si mesmo. O Dr. Lemos ia ouvindo calado com a resignao de
      quem suporta a chuva, que no pode impedir.

    Pouco tempo depois saram a lume
      os Goivos e Camlias, que todos os jornais prometeram analisar mais de
      espao.

    Dizia o poeta no prlogo da obra,
      que era audcia da sua parte "vir assentar-se na mesa da comunho da poesia,
      mas que todo aquele que sentia dentro de si o j'ai quelque chose l, de
      Andr Chnier, devia dar  ptria aquilo que a natureza lhe deu". Em seguida
      pedia desculpa para os seus verdes anos, e afirmava ao pblico que no tinha
      sido "embalado em beros de seda". Conclua dando a bno ao livro e chamando
      a ateno para a lista dos assinantes que vinha no fim.

    Esta obra monumental passou
      despercebida no meio da indiferena geral. Apenas um folhetinista do tempo escreveu
      a respeito dela algumas linhas que fizeram rir a toda a gente, menos o autor,
      que foi agradecer ao folhetinista.

    O Dr. Lemos perdeu de vista o seu
      poeta durante algum tempo. Digo mal; s perdeu de vista o homem, porque o poeta
      de quando em quando lhe aparecia metido em alguma produo literria que o Dr.
      Lemos invariavelmente lia para se benzer da estril pertincia de Lus Tinoco.
      No havia ocasio, enterro ou espetculo solene que escapasse  inspirao do
      fecundo escritor. Como o nmero de suas idias fosse mui limitado, podia-se
      dizer que ele s havia escrito um necrolgio, uma elegia, uma ode ou uma
      congratulao. Os diferentes exemplares de cada uma destas coisas eram a mesma
      coisa dita por outro modo. O modo porm constitua a originalidade do poeta,
      originalidade que ele no teve a princpio, mas que se desenvolveu muito com o
      tempo.

    Infelizmente enquanto se entregava
      com ardor s lides literrias, esquecia-se o poeta das lides forenses, de onde
      lhe vinha o po. Anastcio queixou-se um dia desta desgraa ao Dr. Lemos, numa
      carta que acabava assim: "No sei, meu amigo Sr. Lemos, aonde ir parar este
      rapaz. No lhe vejo outra concluso: hospcio ou xadrez".

    O Dr. Lemos mandou chamar o poeta.
      Elogiou-lhe as suas obras com o fim de lhe dispor o esprito a ouvir o que ia
      dizer. O rapaz expandiu-se.

    -- Ainda bem que eu ouo de quando
      em quando alguma voz animadora, disse ele; no sabe o que tem sido a inveja a
      meu respeito. Mas que importa? Tenho confiana no futuro; o que me vinga  a
      posteridade.

    -- Tem razo, a posteridade  que
      vinga das maroteiras contemporneas.

    -- Li h dias num papelucho, que eu
      era um alinhavador de ninharias. Percebi a inteno. Acusava-me de no meter
      ombros a obra de mais largo flego. Vou desmentir o papelucho: estou escrevendo
      um poema pico!

    "Ai!" disse o Dr. Lemos consigo,
      adivinhando alguma leitura forada do poema.

    -- Podia mostrar-lhe alguma coisa,
      continuou Lus Tinoco, mas prefiro que leia a obra quando estiver mais
      adiantada.

    -- Muito bem.

    -- Tem dez cantos, cerca de 10.000
      versos. Mas quer saber a minha desgraa?

    -- Qual ?

    -- Estou apaixonado...

    -- Realmente,  uma desgraa na sua
      posio.

    -- Que tem a minha posio?

    -- Creio que no  excelente. Dizem-me
      que se tem descuidado um pouco das suas obrigaes do foro, e que brevemente
      lhe vo tirar o emprego.

    -- Fui despedido ontem.

    -- J?

    --  verdade. Se ouvisse o discurso
      com que eu respondi ao escrivo, diante de toda a gente que enchia o cartrio!
      Vinguei-me.

    -- Mas... de que viver agora? seu
      padrinho no pode, creio eu, com o peso da casa.

    -- Deus me ajudar. No tenho eu
      uma pena na mo? No recebi do bero um tal ou qual engenho, que j tem dado
      alguma coisa de si? At agora nenhum lucro tentei tirar das minhas obras; mas
      era s amador. Daqui em diante o caso muda de figura;  necessrio ganhar o
      po, ganharei o po.

    A convico com que Lus Tinoco
      dizia estas palavras, entristeceu o amigo do padrinho. O Dr. Lemos contemplou
      durante alguns segundos -- com inveja, talvez, -- aquele sonhador incorrigvel,
      to desapegado da realidade da vida, acreditando no s nos seus grandes
      destinos, mas tambm na verossimilhana de fazer da sua pena uma enxada.

    -- Oh! deixe estar! continuou Lus
      Tinoco; eu hei de provar-lhes, ao senhor e a meu padrinho, que no sou to
      intil como lhes pareo. No me falta coragem, doutor; quando me faltasse, h
      uma estrela...

    Lus Tinoco calou-se, retorceu o
      bigode, e olhou melancolicamente para o cu. O Dr. Lemos tambm olhou para o
      cu, mas sem melancolia, e perguntou rindo:

    -- Uma estrela? Ao meio-dia 
      raro...

    -- Oh! no falo dessas, interrompeu
      Lus Tinoco; l  que ela devia estar, ali no espao azul, entre as outras suas
      irms, mais velhas do que ela e menos formosas...

    -- Uma moa?

    -- Uma moca,  pouco; diga a mais
      gentil criatura que o sol ainda alumiou, uma slfide, a minha Beatriz, a minha
      Julieta, a minha Laura...

    -- Escusa diz-lo; deve ser muito
      formosa se fez apaixonar um poeta.

    -- Meu amigo, o senhor  um grande
      homem; Laura  um anjo, e eu adoro-a...

    -- E ela?

    -- Ela ignora talvez que eu me
      consumo.

    -- Isso  mau!

    -- Que quer? disse Lus Tinoco
      enxugando com o leno uma lgrima imaginria;  fado dos poetas arderem por
      coisas que no podem obter.  esse o pensamento de uns versos que escrevi h
      oito dias. Publiquei-os no Caramancho Literrio.

    -- Que diacho  isso?

    --  a minha folha, que eu lhe
      mando de quinze em quinze dias... E diz que l as minhas obras!

    -- As obras leio... Agora os
      ttulos podem escapar. Vamos porm ao que importa. Ningum lhe contesta talento
      nem inspirao fecunda; mas o senhor ilude-se pensando que pode viver dos
      versos e dos artigos literrios... Note que os seus versos e os seus artigos
      so muito superiores ao entendimento popular, e por isso devem ter muito menos
      aceitao.

    Este desenganar com as mos cheias
      de rosas produziu salutar efeito no nimo de Lus Tinoco; o poeta no pde
      sofrear um sorriso de satisfao e bem-aventurana. O amigo do padrinho
      concluiu o seu discurso oferecendo-lhe um lugar de escrevente em casa de um
      advogado. Lus Tinoco olhou para ele algum tempo sem dizer palavra. Depois:

    -- Volto ao foro, no? disse ele
      com a mais melanclica resignao deste mundo. Minha inspirao deve descer
      outra vez a empoeirar-se nos libelos, a aturar os rbulas, a engrolar o
      vocabulrio da chicana! E a troco de qu? A troco de uns magros mil-ris que eu
      no tenho e me so necessrios para viver. Isto  sociedade, doutor?

    -- M sociedade, se lhe parece,
      respondeu o Dr. Lemos com doura, mas no h outra  mo, e a menos de no
      estar disposto a reform-la, no tem outro recurso seno toler-la e viver.

    O poeta deu alguns passos na sala;
      no fim de dois minutos estendeu a mo ao amigo.

    -- Obrigado, disse ele, aceito;
      vejo que trata de meus interesses, sem desconhecer que me oferece um exlio.

    -- Um exlio e um ordenado, emendou
      o Dr. Lemos.

    Da a dias estava o poeta a copiar
      razes de embargos e de apelao, a lastimar-se, a maldizer da fortuna, sem
      adivinhar que daquele emprego devia nascer uma mudana nas suas aspiraes. O
      Dr. Lemos no lhe falou durante cinco meses. Um dia encontraram-se na rua.
      Perguntou-lhe pelo poema.

    -- Est parado, respondeu Lus
      Tinoco.

    -- Deixa-o de mo?

    -- Conclui-lo-ei quando tiver
      tempo.

    -- E a folha?

    -- Deve saber que acabei com ela;
      no lha mando h muito tempo.

    --  verdade, mas podia ser um
      esquecimento. Muito me conta! Ento acabou o Caramancho Literrio?

    -- Deixei-o morrer no melhor
      perodo de vitalidade: tinha oitenta assinantes pagantes...

    -- Mas ento abandona as letras?

    -- No, mas... Adeus.

    -- Adeus.

    Pareceu simples tudo aquilo; mas
      tendo-se ganho alguma coisa, que era empreg-lo, o Dr. Lemos deixou que o
      prprio poeta lhe fosse anunciar a causa do seu sono literrio. Seria o namoro
      de Laura?

    Esta Laura, preciso  que se diga,
      no era Laura, era simplesmente Inocncia; o poeta chamava-lhe Laura nos seus
      versos, nome que lhe parecia mais doce, e efetivamente o era. At que ponto
      existiu esse namoro, e em que propores correspondeu a moa  chama do rapaz?
      A histria no conservou muita informao a este respeito. O que se sabe com
      certeza  que um dia apareceu um rival no horizonte, to poeta como o padrinho
      de Lus Tinoco, elemento muito mais conjugal do que o redator do Caramancho
        Literrio, e que de um s lance lhe derrubou todas as esperanas.

    No  preciso dizer ao leitor que este
      acontecimento enriqueceu a literatura com uma extensa e chorosa elegia, em que
      Lus Tinoco metrificou todas as queixas que pode ter de uma mulher um namorado
      trado. Esta obra tinha por epgrafe o nessun maggior dolore do poeta
      florentino. Quando ele a acabou e emendou, releu-a em voz alta, passeando na
      alcova, deu o ltimo apuro a um ou outro verso, admirou a harmonia de muitos, e
      singelamente confessou de si para si que era a sua melhor produo. O Caramancho
        Literrio ainda existia; Lus Tinoco apressou-se a levar o escrito ao
      prelo, no sem o ler aos seus colaboradores, cuja opinio foi idntica  dele.
      Apesar da dor que o devia consumir, o poeta leu as provas com o maior desvelo e
      escrpulo, assistiu  impresso dos primeiros exemplares da folha, e durante
      muitos dias releu os versos at cansar. Do que ele menos se lembrava era da
      perfdia que os inspirou.

    Esta porm no era a razo do sono
      literrio de Lus Tinoco. A razo era puramente poltica. O advogado, cujo escrevente
      ele era, tinha sido deputado e colaborava numa gazeta poltica. O seu
      escritrio era um centro, onde iam ter muitos homens pblicos e se conversava
      largamente dos partidos e do governo. Lus Tinoco ouviu a princpio essas
      conversas com a indiferena de um deus envolvido no manto da sua imortalidade.
      Mas a pouco e pouco foi adquirindo gosto ao que ouvia. J lia os discursos
      parlamentares e os artigos de polmica. Da ateno passou rapidamente ao
      entusiasmo, porque naquele rapaz tudo era extremo, entusiasmo ou indiferena.
      Um dia levantou-se com a convico de que os seus destinos eram polticos.

    -- A minha carreira literria est
      feita, disse ele ao Dr. Lemos quando falaram nisto; agora outro campo me chama.

    -- A poltica? Parece-lhe que 
      essa a sua vocao?

    -- Parece-me que posso fazer alguma
      coisa.

    -- Vejo que  modesto, e no duvido
      que alguma voz interior o esteja convidando a queimar as suas asas de poeta.
      Mas, cuidado! H de ter lido Macbeth... Cuidado com a voz das
      feiticeiras, meu amigo. H no senhor demasiado sentimento, muita
      suscetibilidade, e no me parece que...

    -- Estou disposto a acudir  voz do
      destino, interrompeu impetuosamente Lus Tinoco. A poltica chama-me ao seu
      campo; no posso, no devo, no quero cerrar-lhe os ouvidos. No! as opresses
      do poder, as baionetas dos governos imorais e corrompidos, no podem desviar
      uma grande convico do caminho que ela mesma escolheu. Sinto que sou chamado
      pela voz da verdade. Quem foge  voz da verdade? Os covardes e os ineptos. No
      sou inepto nem covarde.

    Tal foi a estria oratria com que
      ele brindou o Dr. Lemos numa esquina onde felizmente no passava ningum.

    -- S lhe peo uma coisa, disse o
      ex-poeta.

    -- O que ?

    -- Recomende-me ao doutor. Quero
      acompanh-lo, e ser seu protegido;  o meu desejo.

    O Dr. Lemos cedeu ao desejo de
      Lus Tinoco. Foi ter com o advogado e recomendou-lhe o escrevente, no com
      muita solicitude, mas tambm sem excessiva frieza. Felizmente o advogado era
      uma espcie de So Francisco Xavier do partido, desejoso como ningum de
      aumentar o pessoal militante; recebeu a recomendao com a melhor cara do
      mundo, e logo no dia seguinte, disse algumas palavras benvolas ao escrevente,
      que as ouviu trmulo de comoo.

    -- Escreva alguma coisa, disse o
      advogado, e traga-me para ver se lhe achamos propenso.

    No foi preciso dizer-lho duas
      vezes. Dois dias depois, levou o ex-poeta ao seu protetor um artigo extenso e
      difuso, mas cheio de entusiasmo e f. O advogado achou defeitos no trabalho;
      apontou-lhe demasias e nebulosidades, frouxido de argumentos, mais
      ornamentao que solidez; todavia prometeu public-lo. Ou fosse porque lhe
      fizesse estas observaes com muito jeito e benevolncia, ou porque Lus Tinoco
      houvesse perdido alguma coisa da antiga suscetibilidade, ou porque a promessa
      da publicao lhe adoasse o amargo da censura, ou por todas estas razes
      juntas, o certo  que ele ouviu com exemplar modstia e alegria as palavras do
      protetor.

    -- H de perder os defeitos com o tempo,
      disse este mostrando o artigo aos amigos.

    O artigo foi publicado e Lus
      Tinoco recebeu alguns apertos de mo. Aquela doce e indefinvel alegria que ele
      sentira quando estampou no Correio Mercantil os seus primeiros versos,
      voltou a experiment-la agora, mas alegria complicada de uma virtuosa
      resoluo: Lus Tinoco desde aquele dia sinceramente acreditou que tinha uma
      misso, que a natureza e o destino o haviam mandado  terra para endireitar os
      tortos polticos.

    Poucas pessoas se tero esquecido do
      perodo final da estria poltica do ex-redator do Caramancho Literrio.
      Era assim:

    Releve o poder -- hipcrita e
      sanhudo, -- que eu lhe diga muito humildemente que no temo o desprezo nem o
      martrio. Moiss, conduzindo os hebreus  terra da promisso, no teve a
      fortuna de entrar nela:  o smbolo do escritor que leva os homens 
      regenerao moral e poltica, sem lhe transpor as portas de ouro. Que poderia
      eu temer? Prometeu atado ao Cucaso, Scrates bebendo a cicuta, Cristo
      expirando na cruz, Savonarola indo ao suplcio, John Brown esperneando na
      forca, so os grandes apstolos da luz, o exemplo e o conforto dos que amam a
      verdade, o remorso dos tiranos, e o terremoto do despotismo.

    Lus Tinoco no parou nestas
      primcias. Aquela mesma fecundidade da estao literria veio a reproduzir-se
      na estao poltica; o protetor, entretanto, disse-lhe que era conveniente
      escrever menos e mais assentado. O ex-poeta no repeliu a advertncia, e at
      lucrou com ela, produzindo alguns artigos menos desgrenhados no estilo e no
      pensamento. A erudio poltica de Lus Tinoco era nenhuma; o protetor
      emprestou-lhe alguns livros, que o ex-poeta aceitou com infinito prazer. Os
      leitores compreendem facilmente que o autor dos Goivos e Camlias no
      era homem que meditasse uma pgina de leitura; ele ia atrs das grandes frases,
      -- sobretudo das frases sonoras -- demorava-se nelas, repetia-as, ruminava-as com
      verdadeira delcia. O que era reflexo, observao, anlise parecia-lhe rido,
      e ele corria depressa por elas.

    Algum tempo depois houve uma
      eleio primria. O publicista sentiu que havia em si um eleitor, e foi diz-lo
      afoitamente ao advogado. O desejo no foi mal aceito; trabalharam-se as coisas
      de modo que Lus Tinoco teve o gosto de ser includo numa chapa e a surpresa de
      ficar batido. Bat-lo foi possvel ao governo; abat-lo, no. O ex-poeta, ainda
      quente do combate, traduziu em largos e floreados perodos o desprezo que lhe
      inspirava aquela vitria dos adversrios. A esse artigo responderam os amigos
      do governo com um, que terminava assim: "At onde querer ir, com semelhante
      descomedimento de linguagem, o pimpolho do ex-deputado Z.?"

    Lus Tinoco quase morreu de jbilo
      ao receber em cheio aquela descarga ministerial. A imprensa adversa no o havia
      tratado at ento com a considerao que ele desejava. Uma ou outra vez, haviam
      discutido argumentos seus; mas faltava o melhor, faltava o ataque pessoal, que
      lhe parecia ser o batismo de fogo naquela espcie de campanha. O advogado,
      lendo o ataque, disse ao ex-poeta que a sua posio era idntica  do primeiro
      Pitt quando o ministro Walpole lhe respondeu chamando-lhe moo em plena Cmara
      dos Comuns, e que era necessrio repelir no mesmo tom a ofensa ministerial.
      Lus Tinoco ignorava at aquela data a existncia de Pitt e de Walpole; achou
      todavia muito engenhosa a comparao das duas situaes, e com habilidade e
      cautela perguntou ao advogado se lhe podia emprestar o discurso do orador
      britnico "para refrescar a memria". O advogado no tinha o discurso, mas
      deu-lhe idia dele, quanto bastou para que Lus Tinoco fosse escrever um longo
      artigo acerca do que era e no era pimpolho.

    Entretanto, a luta eleitoral lhe
      descobrira um novo talento. Como fosse necessrio arengar algumas vezes, f-lo o
      pimpolho a grande aprazimento seu e no meio s palmas gerais. Lus Tinoco
      perguntou a si mesmo se lhe era lcito aspirar s honras da tribuna. A resposta
      foi afirmativa. Esta nova ambio era mais difcil de satisfazer; o ex-poeta o
      reconheceu, e armou-se de pacincia para esperar.

    Aqui h uma lacuna na vida de Lus
      Tinoco. Razes que a histria no conservou levaram o jovem publicista 
      provncia natal do seu amigo e protetor, dois anos depois dos acontecimentos
      eleitorais. No percamos tempo em conjecturar as causas desta viagem, nem as
      que ali o demoraram mais do que queria. Vamos j encontr-lo alguns meses
      depois, colaborando num jornal com o mesmo ardor juvenil, de que dera tanta
      prova na capital. Recomendado pelo advogado aos seus amigos polticos e
      parentes, depressa criou Lus Tinoco um crculo de companheiros, e no tardou
      que assentasse em ali ficar algum tempo. O padrinho j estava morto; Lus
      Tinoco achava-se absolutamente sem famlia.

    A ambio do orador no estava
      apagada pela satisfao do publicista; pelo contrrio, uma coisa avivava a
      outra. A idia de possuir duas armas, brandi-las ao mesmo tempo, ameaar e
      bater com ambas os adversrios, tornou-se-lhe idia crnica, presente,
      inextinguvel. No era a vaidade que o levava, quero dizer, uma vaidade pueril.
      Lus Tinoco acreditava piamente que ele era um artigo do programa da
      Providncia, e isso o sustinha e contentava. A sinceridade que nunca teve
      quando versificava os seus infortnios entre suas palestras de rapazes, teve-a
      quando se enterrou a mais e mais na poltica.  claro que, se algum lhe
      pusesse em dvida o mrito poltico, feri-lo-ia do mesmo modo que os que lhe
      contestavam excelncias literrias; mas no era s a vaidade que lhe ofendiam,
      era tambm, e muito mais, a f -- f profunda e intolerante -- que ele tinha de
      que o seu talento fazia parte da harmonia universal.

    Lus Tinoco mandava ao Dr. Lemos
      na corte todos os seus escritos da provncia, e contava-lhe singelamente as
      suas novas esperanas. Um dia noticiou-lhe que a sua eleio para a Assemblia
      Provincial era objeto de negociaes que se lhe afiguravam propcias. O correio
      seguinte trouxe notcia de que a candidatura de Lus Tinoco entrara na ordem
      dos fatos consumados.

    A eleio fez-se e no deu pouco
      trabalho ao candidato fluminense, que  fora de muita luta e muito empenho
      pde ter a honra de ser includo na lista dos vencedores. Quando lhe deram
      notcia da vitria, entoou a alma de Lus Tinoco um verdadeiro e solene Te
        Deum Laudamus. Um suspiro, o mais entranhado e desentranhado de quantos
      suspiros jamais soltaram homens, desafogou o corao do ex-poeta das dvidas e
      incertezas de longas e cruis semanas. Estava enfim eleito! Ia subir o primeiro
      degrau do Capitlio.

    A noite foi mal dormida, como a da
      vspera da publicao do primeiro soneto, e entremeada de sonhos anlogos 
      situao. Lus Tinoco via-se j troando na Assemblia Provincial, entre os
      aplausos de uns, as imprecaes de outros, a inveja de quase todos, e lendo em
      toda a imprensa da provncia os mais calorosos aplausos  sua nova e original
      eloqncia. Vinte exrdios fez o jovem deputado para o primeiro discurso, cujo
      assunto seria naturalmente digno de grandes rasgos e nervosos perodos. Ele j
      estudava mentalmente os gestos, a atitude, todo o exterior da figura que ia
      honrar a sala dos representantes da provncia.

    Muitos grandes nomes da poltica
      haviam comeado no parlamento provincial. Era verossmil, era indispensvel
      at, para que ele cumprisse o mandato imperativo do destino, que sasse dali em
      pouco tempo para vir transpor a porta mais ampla da reapresentao nacional. O
      ex-poeta ocupava j no esprito uma das cadeiras da Cadeia Velha, e remirava-se
      na prpria pessoa e no brilhante papel que teria de desempenhar. Via j diante
      de si a oposio ou o ministrio estatelado no cho, com quatro ou cinco
      daqueles golpes que ele supunha saber dar como ningum, e as gazetas a falarem,
      e o povo a ocupar-se dele, e o seu nome a repercutir em todos os ngulos do
      imprio, e uma pasta a cair-lhe nas mos, ao mesmo tempo que o basto do
      comando ministerial.

    Tudo isto, e muito mais imaginava
      o recente deputado, embrulhado nos lenis, com a cabea no travesseiro e o
      esprito a vagar por esse mundo fora, que  a coisa pior que pode acontecer a um
      corpo mortificado como estava o dele naquela ocasio.

    No se demorou Lus Tinoco em
      escrever ao Dr. Lemos, e contar-lhe as suas esperanas e o programa que
      tencionava observar, desde que a fortuna lhe abria mais ampla estrada na vida
      pblica. A carta tratava longamente do efeito provvel da sua primeira orao,
      e terminava assim:

    Qualquer
      que seja o posto a que eu suba; qualquer, entenda bem, ainda aquele que  o
      primeiro do pas, abaixo do imperador (e creio que irei at l), nunca me h de
      esquecer que ao senhor o devo,  animao que me dispensou,  recomendao que
      fez de mim. Parece-me que at hoje tenho correspondido  confiana dos meus
      amigos; espero continuar a merec-la.

    Inauguraram-se enfim os trabalhos.
      To ansioso estava Lus Tinoco de falar que, logo nas primeiras sesses, a
      propsito de um projeto sobre a colocao de um chafariz, fez um discurso de
      duas horas em que demonstrou por A + B que a gua era necessria ao homem. Mas
      a grande batalha foi dada na discusso do oramento provincial. Lus Tinoco fez
      um longo discurso em que combateu o governo geral, o presidente, os
      adversrios, a polcia e o despotismo. Seus gestos eram at ento desconhecidos
      na escala da gesticulao parlamentar; na provncia, pelo menos, ningum tivera
      nunca a satisfao de contemplar aquele sacudir de cabea, aquele arquear de
      brao, aquele apontar, alar, cair e bater com a mo direita.

    O estilo tambm no era vulgar.
      Nunca se falou de receita e despesa com maior luxo de imagens e figuras. A
      receita foi comparada ao orvalho que as flores recolhem durante a noite, a
      despesa  brisa da manh que as sacode e lhes entorna um pouco do sereno
      vivificante. Um bom governo  apenas brisa; o presidente atual foi declarado
      siroco e pampeiro. Toda a maioria protestou solenemente contra essa
      qualificao injuriosa, ainda que potica. Um dos secretrios confessou que
      nunca do Rio de Janeiro lhes fora uma aura mais refrigerante.

    Infelizmente os adversrios no
      dormiam. Um deles, apenas Lus Tinoco acabou o discurso entre alguns aplausos
      dos seus amigos, pediu a palavra e cravou longo tempo os olhos no orador
      estreante. Depois sacou do bolso um mao de jornais e um folheto, concertou a
      garganta e disse:

    -- Mandaram-nos do Rio de Janeiro o
      nobre deputado que me precedeu nesta tribuna. Diziam que era uma ilustrao
      fluminense, destinada a arrasar os talentos da provncia. Imediatamente, Sr.
      presidente, tratei de obter as obras do nobre deputado.

    Aqui tenho eu, Sr. presidente, o Caramancho
      Literrio, folha redigida pelo meu adversrio, e o volume dos Goivos e
        Camlias. Tenho l em casa mais outras obras. Abramos os Goivos e
          Camlias.

    O SR. LUS TINOCO. -- O nobre
      deputado est fora da ordem! (Apoiados).

    O orador: -- Continuo, Sr. presidente; aqui
      tenho os Goivos e Camlias. Vejamos um goivo.

    A Ela.

    Quem s tu que me atormentas
    Com teus prazenteiros sorrisos?
    Quem s tu que me apontas
    As portas dos parasos?

    Imagem do cu s tu?
    s filha da divindade?
    Ou vens prender em teus cabelos
    A minha liberdade?

    V V. Ex., Sr. presidente, que j
      nesse tempo o nobre deputado era inimigo de todas as leis opressoras. A
      assemblia tem visto como ele trata as leis do metro.

    Todo o resto do discurso foi
      assim. A minoria protestou, Lus Tinoco fez-se de todas as cores, e a sesso
      acabou em risada. No dia seguinte os jornais amigos de Lus Tinoco agradeceram
      ao adversrio deste o triunfo que lhe proporcionou mostrando  provncia "uma
      antiga e brilhante face do talento do ilustre deputado". Os que indecorosamente
      riram dos versos, foram condenados com estas poucas linhas: "H dias um
      deputado governista disse que a situao era uma caravana de homens honestos e
      bons.  caravana, no h dvida; vimos ontem os seus camelos".

    Nem por isso Lus Tinoco ficou
      mais consolado. As cartas do deputado ao Dr. Lemos comearam a escassear, at
      que de todo cessaram de aparecer. Decorreram assim silenciosos uns trs anos,
      ao cabo dos quais o Dr. Lemos foi nomeado no sei para que cargo na provncia
      onde se achava Lus Tinoco. Partiu. Apenas empossado do cargo, tratou de
      procurar o ex-poeta, e pouco tempo gastou, recebendo logo um convite dele para
      ir a um estabelecimento rural onde se achava.

    -- H de me chamar ingrato, no?
      disse Lus Tinoco, apenas viu assomar  porta de casa o Dr. Lemos. Mas no sou;
      contava ir v-lo daqui a um ano; e se lhe no escrevi... Mas que tem, doutor?
      est espantado?

    O Dr. Lemos estava efetivamente
      pasmado a olhar para a figura de Lus Tinoco. Era aquele o poeta dos Goivos
        e camlias, o eloqente deputado, o fogoso publicista? O que ele tinha
      diante de si era um honrado e pacato lavrador, ar e maneiras rsticas, sem o
      menor vestgio das atitudes melanclicas do poeta, do gesto arrebatado do
      tribuno, -- uma transformao, uma criatura muito outra e muito melhor.

    Riram-se ambos, um da mudana,
      outro do espanto, pedindo o Dr. Lemos a Lus Tinoco lhe dissesse se era certo
      haver deixado a poltica, ou se aquilo eram apenas umas frias para renovar a
      alma.

    -- Tudo lhe explicarei, doutor, mas
      h de ser depois de ter examinado a minha casa e a minha roa, depois de lhe
      apresentar minha mulher e meus filhos...

    -- Casado?

    -- H vinte meses.

    -- E no me disse nada!

    -- Ia este ano  corte e esperava
      surpreend-lo... Que duas criancinhas as minhas... lindas como dois anjos. Saem
       me, que  a flor da provncia. Oxal se paream tambm com ela nas
      qualidades de dona de casa; que atividade! que economia!...

    Feita a apresentao, beijadas as crianas,
      examinado tudo, Lus Tinoco declarou ao Dr. Lemos que definitivamente deixara a
      poltica.

    -- De vez?

    -- De vez.

    -- Mas que motivo? desgostos,
      naturalmente.

    -- No; descobri que no era fadado
      para grandes destinos. Um dia leram-me na assemblia alguns versos meus.
      Reconheci ento quanto eram pfios os tais versos; e podendo vir mais tarde a
      olhar com a mesma lstima e igual arrependimento para as minhas obras
      polticas, arrepiei carreira e deixei a vida pblica. Uma noite de reflexo e
      nada mais.

    -- Pois teve nimo?...

    -- Tive, meu amigo, tive nimo de
      pisar terreno slido, em vez de patinhar nas iluses dos primeiros dias. Eu era
      um ridculo poeta e talvez ainda mais ridculo orador. Minha vocao era esta.
      Com poucos anos mais estou rico. Ande agora beber o caf que nos espera e feche
      a boca, que as moscas andam no ar.

    O RELGIO DE OURO

     Agora contarei a histria do relgio de ouro. Era um
      grande cronmetro, inteiramente novo, preso a uma elegante cadeia. Lus Negreiros
      tinha muita razo em ficar boquiaberto quando viu o relgio em casa, um relgio
      que no era dele, nem podia ser de sua mulher. Seria iluso dos seus olhos? No
      era; o relgio ali estava sobre uma mesa da alcova, a olhar para ele, talvez
      to espantado, como ele, do lugar e da situao.

    Clarinha no estava na alcova quando Lus Negreiros ali
      entrou. Deixou-se ficar na sala, a folhear um romance, sem corresponder muito
      nem pouco ao sculo com que o marido a cumprimentou logo  entrada. Era uma
      bonita moa esta Clarinha, ainda que um tanto plida, ou por isso mesmo. Era
      pequena e delgada; de longe parecia uma criana; de perto, quem lhe examinasse
      os olhos, veria bem que era mulher como poucas. Estava molemente reclinada no
      sof, com o livro aberto, e os olhos no livro, os olhos apenas, porque o
      pensamento, no tenho certeza se estava no livro, se em outra parte. Em todo o
      caso parecia alheia ao marido e ao relgio.

    Lus Negreiros lanou mo do relgio com uma expresso que
      eu no me atrevo a descrever. Nem o relgio, nem a corrente eram dele; tambm
      no eram de pessoas suas conhecidas. Tratava-se de uma charada. Lus Negreiros
      gostava de charadas, e passava por ser decifrador intrpido; mas gostava de
      charadas nas folhinhas ou nos jornais. Charadas palpveis ou cronomtricas, e
      sobretudo sem conceito, no as apreciava Lus Negreiros.

    Por esse motivo, e outros que so bvios, compreender o
      leitor que o esposo de Clarinha se atirasse sobre uma cadeira, puxasse
      raivosamente os cabelos, batesse com o p no cho, e lanasse o relgio e a
      corrente para cima da mesa. Terminada esta primeira manifestao de furor, Lus
      Negreiros pegou de novo nos fatais objetos, e de novo os examinou. Ficou na
      mesma. Cruzou os braos durante algum tempo e refletiu sobre o caso, interrogou
      todas as suas recordaes, e concluiu no fim de tudo que, sem uma explicao de
      Clarinha qualquer procedimento fora baldado ou precipitado.

    Foi ter com ela.

    Clarinha acabava justamente de ler uma pgina e voltava a
      folha com o ar indiferente e tranqilo de quem no pensa em decifrar charadas
      de cronmetro. Lus Negreiros encarou-a; seus olhos pareciam dois reluzentes
      punhais.

    -- Que tens? perguntou a moa com a voz doce e meiga que
      toda a gente concordava em lhe achar.

    Lus Negreiros no respondeu  interrogao da mulher;
      olhou algum tempo para ela; depois deu duas voltas na sala, passando a mo
      pelos cabelos, por modo que a moa de novo lhe perguntou:

    -- Que tens?

    Lus Negreiros parou defronte dela.

    -- Que  isto? disse ele tirando do bolso o fatal relgio e
      apresentando-lho diante dos olhos. Que  isto? repetiu ele com voz de trovo.

    Clarinha mordeu os beios e no respondeu. Lus Negreiros
      esteve algum tempo com o relgio na mo e os olhos na mulher, a qual tinha os
      seus olhos no livro. O silncio era profundo. Lus Negreiros foi o primeiro que
      o rompeu, atirando estrepitosamente o relgio ao cho, e dizendo em seguida 
      esposa:

    -- Vamos, de quem  aquele relgio?

    Clarinha ergueu lentamente os olhos para ele, abaixou-os
      depois, e murmurou:

    -- No sei.

    Lus Negreiros fez um gesto como de quem queria esgan-la;
      conteve-se. A mulher levantou-se, apanhou o relgio e p-lo sobre uma mesa pequena.
      No se pde conter Lus Negreiros. Caminhou para ela, e, segurando-lhe nos
      pulsos com fora, lhe disse:

    -- No me responders, demnio? No me explicars esse
      enigma?

    Clarinha fez um gesto de dor, e Lus Negreiros
      imediatamente lhe soltou os pulsos que estavam arrochados. Noutras
      circunstncias  provvel que Lus Negreiros lhe casse aos ps e pedisse
      perdo de a haver machucado. Naquela, nem se lembrou disso; deixou-a no meio da
      sala e entrou a passear de novo, sempre agitado, parando de quando em quando,
      como se meditasse algum desfecho trgico.

    Clarinha saiu da sala.

    Pouco depois veio um escravo dizer que o jantar estava na
      mesa.

    -- Onde est a senhora?

    -- No sei, no, senhor.

    Lus Negreiros foi procurar a mulher, achou-a numa saleta
      de costura, sentada numa cadeira baixa, com a cabea nas mos a soluar. Ao
      rudo que ele fez na ocasio de fechar a porta atrs de si, Clarinha levantou a
      cabea, e Lus Negreiros pde ver-lhe as faces midas de lgrimas. Esta
      situao foi ainda pior para ele que a da sala. Lus Negreiros no podia ver
      chorar uma mulher, sobretudo a dele. Ia enxugar-lhe as lgrimas com um beijo,
      mas reprimiu o gesto, e caminhou frio para ela; puxou uma cadeira e sentou-se
      em frente de Clarinha.

    -- Estou tranqilo, como vs, disse ele, responde-me ao que
      te perguntei com a franqueza que sempre usaste comigo. Eu no te acuso nem
      suspeito nada de ti. Quisera simplesmente saber como foi parar ali aquele
      relgio. Foi teu pai que o esqueceu c?

    -- No.

    -- Mas ento...

    -- Oh! no me perguntes nada! exclamou Clarinha; ignoro
      como esse relgio se acha ali... No sei de quem ... deixa-me.

    --  demais! urrou Lus Negreiros, levantando-se e atirando
      a cadeira ao cho.

    Clarinha estremeceu, e deixou-se ficar aonde estava. A situao
      tornava-se cada vez mais grave; Lus Negreiros passeava cada vez mais agitado,
      revolvendo os olhos nas rbitas, e parecendo prestes a atirar-se sobre a
      infeliz esposa. Esta, com os cotovelos no regao e a cabea nas mos, tinha os
      olhos encravados na parede. Correu assim cerca de um quarto de hora. Lus
      Negreiros ia de novo interrogar a esposa, quando ouviu a voz do sogro, que
      subia as escadas gritando:

    --  seu Lus!  seu malandrim!

    -- A vem teu pai! disse Lus Negreiros; logo me pagars.

    Saiu da sala de costura e foi receber o sogro, que j
      estava no meio da sala, fazendo viravoltas com o chapu de sol, com grande
      risco das jarras e do candelabro.

    -- Vocs estavam dormindo? perguntou o Sr. Meireles tirando
      o chapu e limpando a testa com um grande leno encarnado.

    -- No, senhor, estvamos conversando...

    -- Conversando?... repetiu Meireles.

    E acrescentou consigo:

    "Estavam de arrufos...  o que h de ser".

    -- Vamos justamente jantar, disse Lus Negreiros. Janta
      conosco?

    -- No vim c para outra coisa, acudiu Meireles; janto hoje
      e amanh tambm. No me convidaste, mas  o mesmo.

    -- No o convidei?...

    -- Sim, no fazes anos amanh?

    -- Ah!  verdade...

    No havia razo aparente para que, depois destas palavras ditas
      com um tom lgubre, Lus Negreiros repetisse, mas desta vez com um tom
      descomunalmente alegre:

    -- Ah!  verdade!...

    Meireles, que j ia pr o chapu num cabide do corredor,
      voltou-se espantado para o genro, em cujo rosto leu a mais franca, sbita e
      inexplicvel alegria.

    -- Est maluco! disse baixinho Meireles.

    -- Vamos jantar, bradou o genro, indo logo para dentro,
      enquanto Meireles seguindo pelo corredor ia ter  sala de jantar.

    Lus Negreiros foi ter com a mulher na sala de costura, e achou-a
      de p, compondo os cabelos diante de um espelho:

    -- Obrigado, disse.

    A moa olhou para ele admirada.

    -- Obrigado, repetiu Lus Negreiros; obrigado e perdoa-me.

    Dizendo isto, procurou Lus Negreiros abra-la; mas a
      moa, com um gesto nobre, repeliu o afago do marido e foi para a sala de
      jantar.

    -- Tem razo! murmurou Lus Negreiros.

    Da a pouco achavam-se todos trs  mesa do jantar, e foi
      servida a sopa, que Meireles achou, como era natural, de gelo. Ia j fazer um
      discurso a respeito da incria dos criados, quando Lus Negreiros confessou que
      toda a culpa era dele, porque o jantar estava h muito na mesa. A declarao
      apenas mudou o assunto do discurso, que versou ento sobre a terrvel coisa que
      era um jantar requentado, -- qui ne valut jamais rien.

    Meireles era um homem alegre, pilhrico, talvez frvolo
      demais para a idade, mas em todo o caso interessante pessoa. Lus Negreiros
      gostava muito dele, e via correspondida essa afeio de parente e de amigo, tanto
      mais sincera quanto que Meireles s tarde e de m vontade lhe dera a filha.
      Durou o namoro cerca de quatro anos, gastando o pai de Clarinha mais de dois em
      meditar e resolver o assunto do casamento. Afinal deu a sua deciso, levado
      antes das lgrimas da filha que dos predicados do genro, dizia ele.

    A causa da longa hesitao eram os costumes pouco austeros
      de Lus Negreiros, no os que ele tinha durante o namoro, mas os que tivera
      antes e os que poderia vir a ter depois. Meireles confessava ingenuamente que
      fora marido pouco exemplar, e achava que por isso mesmo devia dar  filha
      melhor esposo do que ele. Lus Negreiros desmentiu as apreenses do sogro; o
      leo impetuoso dos outros dias, tornou-se um pacato cordeiro. A amizade nasceu
      franca entre o sogro e o genro, e Clarinha passou a ser uma das mais invejadas
      moas da cidade.

    E era tanto maior o mrito de Lus Negreiros quanto que
      no lhe faltavam tentaes. O diabo metia-se s vezes na pele de um amigo e ia
      convid-lo a uma recordao dos antigos tempos. Mas Lus Negreiros dizia que se
      recolhera a bom porto e no queria arriscar-se outra vez s tormentas do alto
      mar.

    Clarinha amava ternamente o marido, e era a mais dcil e
      afvel criatura que por aqueles tempos respirava o ar fluminense. Nunca entre
      ambos se dera o menor arrufo; a limpidez do cu conjugal era sempre a mesma e
      parecia vir a ser duradoura. Que mau destino lhe soprou ali a primeira nuvem?

    Durante o jantar Clarinha no disse palavra -- ou poucas
      dissera, ainda assim as mais breves e em tom seco.

    "Esto de arrufo, no h dvida", pensou Meireles ao ver a
      pertinaz mudez da filha. "Ou a arrufada  s ela, porque ele parece-me lpido."

    Lus Negreiros efetivamente desfazia-se todo em agrados,
      mimos e cortesias com a mulher, que nem sequer olhava em cheio para ele. O
      marido j dava o sogro a todos os diabos, desejoso de ficar a ss com a esposa,
      para a explicao ltima, que reconciliaria os nimos. Clarinha no parecia
      desej-lo; comeu pouco e duas ou trs vezes soltou-se-lhe do peito um suspiro.

    J se v que o jantar, por maiores que fossem os esforos,
      no podia ser como nos outros dias. Meireles sobretudo achava-se acanhado. No
      era que receasse algum grande acontecimento em casa; sua idia  que sem
      arrufos no se aprecia a felicidade, como sem tempestade no se aprecia o bom
      tempo. Contudo, a tristeza da filha sempre lhe punha gua na fervura.

    Quando veio o caf, Meireles props que fossem todos trs
      ao teatro; Lus Negreiros aceitou a idia com entusiasmo. Clarinha recusou
      secamente.

    -- No te entendo hoje, Clarinha, disse o pai com um modo
      impaciente. Teu marido est alegre e tu pareces-me abatida e preocupada. Que
      tens?

    Clarinha no respondeu; Lus Negreiros, sem saber o que
      havia de dizer, tomou a resoluo de fazer bolinhas de miolo de po. Meireles
      levantou os ombros.

    -- Vocs l se entendem, disse ele. Se amanh, apesar de
      ser o dia que , vocs estiverem do mesmo modo, prometo-lhes que nem a sombra
      me vero.

    -- Oh! h de vir, ia dizendo Lus Negreiros, mas foi
      interrompido pela mulher que desatou a chorar.

    O jantar acabou assim triste e aborrecido. Meireles pediu
      ao genro que lhe explicasse o que aquilo era, e este prometeu que lhe diria
      tudo em ocasio oportuna.

    Pouco depois saa o pai de Clarinha protestando de novo
      que, se no dia seguinte os achasse do mesmo modo, nunca mais voltaria  casa
      deles, e que se havia coisa pior que um jantar frio ou requentado, era um
      jantar mal digerido. Este axioma valia o de Boileau, mas ningum lhe prestou
      ateno.

    Clarinha fora para o quarto; o marido, apenas se despediu
      do sogro, foi ter com ela. Achou-a sentada na cama, com a cabea sobre uma
      almofada, e soluando. Lus Negreiros ajoelhou-se diante dela e pegou-lhe numa das
      mos.

    -- Clarinha, disse ele, perdoa-me tudo. J tenho a
      explicao do relgio; se teu pai no me fala em vir jantar amanh, eu no era
      capaz de adivinhar que o relgio era um presente de anos que tu me fazias.

    No me atrevo a descrever o soberbo gesto de indignao
      com que a moa se ps de p quando ouviu estas palavras do marido. Lus
      Negreiros olhou para ela sem compreender nada. A moa no disse uma nem duas;
      saiu do quarto e deixou o infeliz consorte mais admirado que nunca.

    "Mas que enigma  este?" perguntava a si mesmo Lus
      Negreiros. "Se no era um mimo de anos, que explicao pode ter o tal relgio?"

    A situao era a mesma que antes
      do jantar. Lus Negreiros assentou de descobrir tudo naquela noite. Achou,
      entretanto, que era conveniente refletir maduramente no caso e assentar numa
      resoluo que fosse decisiva. Com este propsito recolheu-se ao seu gabinete, e
      ali recordou tudo o que se havia passado desde que chegara  casa. Pesou
      friamente todas as razes, todos os incidentes, e buscou reproduzir na memria
      a expresso do rosto da moa, em toda aquela tarde. O gesto de indignao e a
      repulsa quando ele a foi abraar na sala de costura, eram a favor dela; mas o
      movimento com que mordera os lbios no momento em que ele lhe apresentou o relgio,
      as lgrimas que lhe rebentaram  mesa, e mais que tudo o silncio que ela
      conservava a respeito da procedncia do fatal objeto, tudo isso falava contra a
      moa.

    Lus Negreiros, depois de muito cogitar, inclinou-se 
      mais triste e deplorvel das hipteses. Uma idia m comeou a enterrar-se-lhe
      no esprito,  maneira de verruma, e to fundo penetrou, que se apoderou dele
      em poucos instantes. Lus Negreiros era homem assomado quando a ocasio o
      pedia. Proferiu duas ou trs ameaas, saiu do gabinete e foi ter com a mulher.

    Clarinha recolhera-se de novo ao quarto. A porta estava
      apenas cerrada. Eram nove horas da noite. Uma pequena lamparina alumiava
      escassamente o aposento. A moa estava outra vez assentada na cama, mas j no
      chorava; tinha os olhos fitos no cho. Nem os levantou quando sentiu entrar o
      marido.

    Houve um momento de silncio.

    Lus Negreiros foi o primeiro que falou.

    -- Clarinha, disse ele, este momento  solene. Responde-me
      ao que te pergunto desde esta tarde?

    A moa no respondeu.

    -- Reflete bem, Clarinha, continuou o marido. Podes
      arriscar a tua vida.

    A moa levantou os ombros.

    Uma nuvem passou pelos olhos de Lus Negreiros. O infeliz
      marido lanou as mos ao colo da esposa e rugiu:

    -- Responde, demnio, ou morres!

    Clarinha soltou um grito.

    -- Espera! disse ela.

    Lus Negreiros recuou.

    -- Mata-me, disse ela, mas l isto primeiro. Quando esta
      carta foi ao teu escritrio j te no achou l: foi o que o portador me disse.

    Lus Negreiros recebeu a carta, chegou-se  lamparina e
      leu estupefato estas linhas:

    Meu nhonh. Sei que amanh fazes anos; mando-te esta
      lembrana.
    Tua Iai.

    Assim acabou a histria do relgio de ouro.

    PONTO DE VISTA

    NDICE

    CAPTULO PRIMEIRO

    CAPTULO II

    CAPTULO III

    CAPTULO IV

    CAPTULO V

    CAPTULO VI

    CAPTULO VII

    CAPTULO VIII

    CAPTULO IX

    CAPTULO X

    CAPTULO XI

    CAPTULO XII

    CAPTULO XIII

    CAPTULO XIV

    CAPTULO XV

    CAPTULO XVI

    CAPTULO XVII

    CAPTULO XVIII

    CAPTULO XIX

    CAPTULO XX

    CAPTULO XXI

    CAPTULO XXII

    CAPTULO XXIII

    CAPTULO XXIV

    CAPTULO XXV

    CAPTULO XXVI

    CAPTULO XXVII

    CAPTULO XXVIII

    CAPTULO XXIX

    CAPTULO PRIMEIRO
    A D. LUSA P..., EM JUIZ DE FORA

    Corte, 5 de outubro

    No me dir a quem entregou voc
      as encomendas que lhe pedi? Na sua carta vem mal escrito o nome do portador, e
      at hoje nem sombra dele, quem quer que seja. Ser o Lus?

    Ouvi dizer que voc vinha para c
      passar algum tempo; estimaria muito que assim fosse. Havia de gostar disto
      agora, apesar do calor, que tem sido forte. Hoje entretanto temos um dia
      excelente.

    Ou ento, no caso de no vir,
      estimaria muito ir eu para l; mas papai, como voc sabe, ningum h que o tire
      dos seus cmodos; e mame anda meia adoentada. Vontade teria ele de me ser
      agradvel, mas eu  que no sou to egosta. E olhe que perco muito; porque,
      alm de ir ver a minha melhor amiga, iria ao mesmo tempo verificar se  verdade
      que ainda no tem esperanas de um nen. Algum me disse que sim. Por que nega
      voc isso?

    Esta carta ir amanh. Escreva-me
      logo; e d muitas lembranas a seu marido, minhas e de todos ns. Adeus.

    RAQUEL

    CAPTULO II
     MESMA

    Corte, 15 de outubro

    Gastou muitos dias, mas veio uma
      carta longa, e, apesar disso, curta. Obrigada pelo trabalho; peo-lhe que o
      repita; aborreo os seus bilhetinhos, escritos s carreiras, com o
      pensamento... em quem? Nesse marido cruel que s cuida de eleies, segundo li
      outro dia. Eu escrevo cartinhas quando no tenho tempo para mais. Mas quando me
      sobra tempo escrevo cartes. Creio que disse uma tolice; desculpe-me.

    Vieram as encomendas logo no dia
      seguinte ao da minha ltima carta. E que quer voc que eu lhe mande? Tenho aqui
      uns figurinos recebidos ontem, mas no h portador. Se puder arranjar algum por
      estes dias ir tambm um romance que me trouxeram esta semana. Chama-se Ruth.
      Conhece?

    A Mariquinhas Rocha vai casar. Que
      pena! to bonitinha, to boa, to criana, vai casar... com um sujeito velho! E
      no  s isto: casa-se por amor. Eu duvidei de semelhante coisa; mas todos
      dizem que tanto o pai como os mais parentes procuraram dissuadi-la de
      semelhante projeto; ela porm insistiu de maneira que ningum mais se lhe ops.

    A falar verdade, ele no est a
      cair de maduro;  velho, mas elegante, gamenho, robusto, alegre, diz muitas
      pilhrias e parece que tem bom corao. No era eu que caa apesar de tudo
      isto. Que consrcio pode haver entre uma rosa e uma carapua?

    Antes, mil vezes antes, casasse ela
      com o filho do noivo; esse sim,  um rapaz digno de merecer uma moa como ela.
      Dizem que  um bandoleiro dos quatro costados; mas voc sabe que eu no creio
      em bandoleiros. Quando uma pessoa quer, vence o corao mais verstil deste
      mundo.

    O casamento parece que ser daqui
      a dois meses. Irei naturalmente s exquias, quero dizer s bodas. Pobre
      Mariquinhas! Lembra-se das nossas tardes no colgio? Ela era a mais quieta de
      todas, e a mais cheia de melancolia. Parece que adivinhava este destino.

    Papai aprovou muito a escolha
      dela; faz-lhe muitos elogios como pessoa de juzo, e chegou a dizer que eu
      devia fazer o mesmo. Que lhe parece? Eu, se tivesse de seguir algum exemplo,
      seguia o da minha Lusa; essa sim,  que teve dedo para escolher... No mostre
      esta carta a seu marido;  capaz de arrebentar de vaidade.

    E vocs no vm para c?  pena;
      dizem que vamos ter companhia lrica, e mame est melhor. Quer dizer que vou
      passar algum tempo de vida excelente. O futuro enteado da Mariquinhas, o tal que
      ela devia escolher em lugar do pai, afirma que a companhia  magnfica. Seja ou
      no,  mais um divertimento. E voc l na roa!...

    Vou jantar; adeus. Escreva-me
      quando puder, mas nada de cartas microscpicas. Ou muito ou nada.

    RAQUEL

    CAPTULO III
     MESMA

    Corte, 17 de outubro

    Escrevi-lhe anteontem uma carta, e
      acrescento hoje um bilhetinho (sem exemplo) para dizer que o velho noivo da
      Mariquinhas inspirou paixo a outra moa, que adoeceu de desespero.  uma
      histria complicada. Compreende isto? Se fosse o filho v; mas o pai!

    RAQUEL

    CAPTULO IV
     MESMA

    Corte, 30 de outubro

    Muito velhaca  voc. Ento porque
      lhe falei duas ou trs vezes no rapaz, imagina logo que estou apaixonada por
      ele? Papai nestes casos costuma dizer que  falta da lgica. Eu digo que 
      falta de amizade.

    E provo.

    Pois se eu tivesse algum namoro,
      afeio ou coisa assim, a quem diria em primeiro lugar seno a voc? No fomos
      durante tanto tempo confidentes uma da outra? Supor-me to reservada  no me
      ter amizade nenhuma, porque a falta de afeio  que traz a injustia.

    No, Lusa, eu nada sinto por esse
      moo, a quem conheo de poucos dias. Falei nele algumas vezes por comparao com
      o pai; se eu estivesse disposta a casar-me, certamente que preferia o moo ao
      velho. Mas  s isto e nada mais.

    Nem imagine que o Dr. Alberto ( o
      nome dele) vale muito;  bonito e elegante, mas tem ar pretensioso e parece-me
      um esprito curto. Voc sabe como eu sou exigente nesses assuntos. Se eu no
      achar marido como imagino, fico solteira toda a minha vida. Antes isso, que
      ficar presa a um cepo, ainda que esbelto.

    Tambm no basta ter os predicados
      que eu imagino para me seduzir logo. Anda agora aqui em casa um sujeito que nos
      foi apresentado h pouco tempo; qualquer outra moa ficava presa pelas maneiras
      dele; a mim no me faz a menor impresso.

    E por qu?

    A razo  simples; toda a graa
      que ele ostenta, toda a afeio que simula, todos os cortejos que me faz, quer
      saber o que , Lusa?  que eu sou rica. Descanse; quando me aparecer aquele
      que o cu me destina, voc ser a primeira a ter notcia. Por ora estou livre,
      como as andorinhas que esto agora a passear na chcara.

    E para vingar-me da calnia, no
      escrevo mais. Adeus.

    RAQUEL

    CAPTULO V
     MESMA

    Corte, 15 de novembro

    Estive doente estes dois dias; foi
      uma constipao forte que apanhei saindo do Ginsio, onde fui ver uma pea
      nova, muito falada e muito inspida.

    Sabe voc quem estava l? A
      Mariquinhas com o noivo no camarote, e o enteado tambm, o futuro enteado, se
      Deus quiser. No se pode imaginar como ela parecia contente, como ela
      conversava com o noivo! E olhe que de longe,  luz do gs, o tal velho  quase
      to moo como o filho. Quem sabe? Bem pode ser que ela viva feliz!

    Dou-lhe muitos parabns pela
      notcia que me d de que brevemente veremos um nen. A mame tambm lhe manda
      parabns. O Lus leva com esta carta uns figurinos...

    RAQUEL

    CAPTULO VI
     MESMA

    Corte, 27 de novembro

    A sua carta chegou quando
      estvamos almoando, e foi bom t-la lido depois, porque se a leio antes no
      acabava de almoar. Que histria  essa, e quem lhe meteu na cabea semelhante
      coisa? Eu, namorada do Alberto! Isso  caoada de mau gosto, Lusa! Se algum
      lhe mandou dizer tal, teve certamente inteno de me envergonhar. Se voc o
      conhecesse, no era necessrio este meu protesto. J lhe disse as boas
      qualidades dele, mas os seus defeitos so para mim superiores s qualidades.
      Voc bem sabe como eu sou; para mim a menor ndoa destri a maior alvura. Uma
      esttua... esttua  o termo prprio, porque o tal Alberto tem certa rigidez
      escultural.

    Ah! Lusa, o homem que o cu me
      destina ainda no veio. Sei que no veio porque ainda no senti dentro de mim
      aquele estremecimento simptico que indica a harmonia de duas almas. Quando ele
      vier, fique certa de que ser a primeira a quem eu confiarei tudo.

    Dir-me- que, se eu sou assim
      fatalista, devo admitir a possibilidade de um marido sem todas as condies que
      exijo.

    Engano.

    Deus que me fez assim, e me deu
      esta percepo ntima para conhecer e amar a superioridade, Deus me h de
      deparar uma criatura digna de mim.

    E agora que me expliquei deixe-me
      ralhar-lhe um pouco. Por que motivo d to facilmente ouvidos a uma calnia
      contra mim? Voc que me conhece h tanto devia ser a primeira a pr de
      quarentena esses ditos sem senso comum. Por que o no faz?

    Gastou voc duas pginas para
      defender a Mariquinhas. Eu no a acuso; deploro-a. Pode ser que o noivo venha a
      ser um excelente marido, mas no creio que esteja na altura dela. E  neste
      sentido que eu a deploro.

    A nossa divergncia tem natural
      explicao. Eu sou uma moa solteira, cheia de caraminholas, sonhos, ambies e
      poesia; voc  j uma dona de casa, esposa tranqila e feliz, me de famlia
      dentro de pouco tempo; v a coisa por outro prisma.

    Ser isto?

    Parece que a companhia lrica no
      vem. A cidade est hoje muito alegre; andam bandas de msica nas ruas; chegaram
      boas notcias do Paraguai. Naturalmente sairemos hoje; no tem saudades de c?

    Adeus.

    Lembranas de todos a seu marido.

    RAQUEL

    CAPTULO VII
     MESMA

    Corte, 20 de dezembro

    Tem razo; pareo ingrata. H
      quase um ms que lhe no escrevo, apesar de ter recebido j duas cartas. Seria
      longo explicar esta demora, e eu infelizmente no tenho tempo para tanto,
      porque esto aqui, alguns dias, as primas Alvarengas.

    Com que ento, voc confessa que
      apenas me quis experimentar? Eu logo vi que ningum lhe poderia dizer
      semelhante coisa a respeito do Dr. Alberto.

    O casamento da Mariquinhas est
      marcado para vspera de Reis. Iremos assistir ao sacrifcio. Desculpe-me,
      Lusa; bem sabe como sou sarcstica, e s vezes... Desculpe-me, sim?

    E todavia, quer saber uma coisa?
      Mudei de opinio a certo respeito. Hoje penso que antes o pai que o filho. Que
      esprito frvolo! que sujeito superficial e tolo  o tal Alberto! O pai  grave
      e sabe ser amvel; e  amvel sem deixar de ser grave. Tem uma distino
      prpria, uma conversa animada,  engenhoso e sagaz.

    Mil vezes o velho... para ela.

    Pergunta-me o que farei eu no caso
      de nunca encontrar o ideal que procuro? J lhe disse: nesse caso fico solteira.
      O casamento  uma grande coisa,  a flor dos estados, concordo; mas  mister
      que no seja um cativeiro, e cativeiro  tudo o que no realiza as nossas
      aspiraes ntimas.

    Agradeo os seus conselhos, mas
      quer que lhe diga? Voc fala como quem  feliz; parece-lhe que o casamento,
      quaisquer que sejam as condies,  um antegosto do paraso.

    Creio que nem sempre h de ser
      assim.

    Verdade  que, dependendo as
      coisas das impresses de cada um, a Mariquinhas pode ser feliz, visto que o
      marido que escolheu parece falar-lhe ao corao. No o nego; mas, nesse caso,
      continuo a lastim-la, porque (repito) no compreendo a unio de uma flor com
      uma carapua. E no escrevo mais por no dizer mal dela. Perdoe-me voc estas
      tolices, e creia que sou amiga, agora e sempre.

    RAQUEL

    CAPTULO VIII
     MESMA

    Corte, 8 de janeiro

    Casou-se a Mariquinhas. Festa
      ntima, mas brilhante. A noiva estava esplndida, risonha, orgulhosa. O mesmo
      se pode dizer do noivo, que parecia ainda mais moo do que me parecera uma vez
      no teatro, a ponto de me fazer desconfiar da velhice dele. A cada instante
      cuidava que o homem tirava a mscara e confessava ser irmo do filho.

    Perguntar-me- voc se eu no tive
      inveja?

    Confesso que sim.

    No sei bem se era inveja; confesso
      porm que suspirei quando vi a nossa formosa Mariquinhas, com o seu vu e sua
      grinalda de flores de laranja, derramar um olhar to celeste em torno de si,
      feliz por se despedir deste mundo de futilidades como  a vida de uma moa
      solteira.

    Suspirei,  verdade.

    Se naquela mesma noite eu pudesse
      escrever o que senti, acredite voc que teria uma pgina de literatura digna de
      figurar nos jornais.

    Hoje tudo passou.

    O que no passou, entretanto,
      porque existia antes e existir sempre, porque nasceu comigo e comigo morrer,
       este sonho de uns amores que eu nunca vi na terra, uns amores que eu no
      posso exprimir, mas que devem existir visto que eu tenho a imagem deles no
      esprito e no corao.

    Mame, quando me v aborrecida e
      devaneadora, costuma perguntar-me se estou respirando as nuvens. Ela ignora
      talvez que exprime com essa palavra o estado do meu esprito. Pensar nestas
      coisas no  ir respirar as nuvens l to longe da terra?

    Acabo de reler o que escrevi, e
      riscaria tudo se tivesse mais papel para escrever. Infelizmente no tenho, 
      meia-noite, e esta carta h de seguir amanh cedo. Risque pois o que a fica
      escrito; no vale a pena guardar tolices.

    Novidade no h que merea a pena
      de mencionar. Esquecia-me dizer-lhe que achei uma verdadeira qualidade no Dr.
      Alberto. Adivinha? Dana admiravelmente. M lngua! dir voc. E para que no
      diga mais nada, aqui me fico.

    RAQUEL

    CAPTULO IX
     MESMA

    Corte, 10 de janeiro

    Isto  apenas um bilhetinho. Dou-lhe
      notcia de que vamos ter aqui uma reapresentao familiar, como fazamos no
      colgio. O Dr. Alberto foi encarregado de escrever a comdia; afianam-me que
      h de sair boa. Representa comigo a Carlota. Os homens so o primo Abreu, o
      Juca e o Dr. Rodrigues. Ah! se voc c estivesse!

    RAQUEL

    CAPTULO X
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 15 de janeiro

    Meu marido quer ir  corte no fim
      do ms que vem. Ver-nos-emos enfim depois de alguns meses de separao. Escrevo
      apenas para lhe dar esta notcia que voc h de estimar decerto.

    E ao mesmo tempo o meu fim 
      preveni-la, a fim de que procure disfarar na presena aquilo que me disfara
      no papel.

    Adeus.

    LUSA

    CAPTULO XI
    D. RAQUEL A D. LUSA

    Corte, 20 de janeiro

    O que  que eu disfaro no papel?
      Estou a meditar, a esquadrinhar, e nada descubro. Podia imaginar que voc se
      refere ao assunto do Alberto; mas depois do que eu lhe escrevi seria demasiada
      insistncia...

    Explique-se.

    Quanto  notcia que me d de que
      vem c,  para mim a sorte grande. Por mais que eu queira explicar no papel o
      prazer que sinto com isto, no posso. No sei escrever; no me acodem as
      palavras prprias. O Dr. Alberto (o tal!) dizia outro dia que a lngua humana 
      cabal para dizer o que se passa no esprito, mas incapaz de dizer o que vem do
      corao. E acrescentou esta sentena que  engenhosa, mas velha: com os lbios
      fala a cabea, com os olhos o corao.

    Voc porm adivinhar o que eu
      sinto e apressar a sua vinda. E o nen?

    RAQUEL

    CAPTULO XII
     MESMA

    Corte, 28 de janeiro

    Faz um calor insuportvel; mas
      como eu abri a janela que d para o jardim, estou a ver o cu "todo recamado de
      estrelas" como dizem os poetas, e o espetculo compensa o calor. Que noite,
      minha Lusa! Gosto imensamente destes grandes silncios, porque ento ouo-me a
      mim mesma, e vivo mais em cinco minutos de solido do que em vinte horas de
      bulcio.

    A Mariquinhas Rocha esteve esta
      noite c em casa com o marido. Ambos parecem felizes, ela ainda mais do que
      ele, o que se me afigura completa inverso das leis naturais.

    No se admira de me ouvir falar em
      "leis naturais"? A idia no  minha,  do prprio enteado, o Dr. Alberto. Conversamos
      os dois a respeito das boas e santas qualidades de Mariquinhas, e eu dizia o
      que ela foi sempre desde criana.

    -- Criana  ainda ela, observou
      ele sorrindo. No posso chamar madrasta a uma criatura que parece antes minha
      irm mais moa.

    -- Na idade, sim, tornei eu; mas na
      circunspeco e na compostura  positivamente mais velha que o senhor.

    Ele sorriu, mas de um sorriso
      amarelo, e continuou:

    -- Meu pai  feliz; minha madrasta
      parece ainda mais feliz que meu pai. No  isto uma inverso das leis naturais?

    Critique se lhe parece, a opinio
      do filho; mas aproveito a ocasio para dizer que na sua ltima carta h duas
      linhas em que parece ter um resto de suspeita. Mande-me dizer como quer que a
      convena de que ele  para mim uma criatura igual a tantas outras?

    Ande, confesse que  cruel comigo,
      e disponha-se a um sermo na primeira ocasio em que estivermos juntas.

    Sabe quem eu vi hoje? Dou-lhe um
      doce se adivinhar. O Garcia, aquele Garcia que a nam... No, no, paremos aqui.

    RAQUEL

    CAPTULO XIII
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 10 de fevereiro

    No confesso nada; no fui cruel.
      Tive uma suspeita e preferi diz-la a guard-la. A amizade manda isto mesmo. Por
      que razo deixaramos ns aquela franqueza e confiana do tempo do colgio?

    Acredito que realmente nada h,
      mas acredito tambm outra coisa. Estou a ver que  alguma figura grotesca, e
      que voc foi antes ofendida na vaidade que no corao. V, confesse isso.

    Sabe voc uma coisa? Est-me
      parecendo mais poeta do que era, mais romanesca, mais cheia de caraminholas.
      Bem sei que a idade explica muita coisa, mas h um limite, Raquel; no confunda
      o romance com a vida, ou viver desgraada...

    ...Um sermo! a comeava eu a
      fazer-lhe um sermo chocho e insulso, e sobretudo ineficaz. Venhamos a coisas
      mais de prosa. Meu marido quer entrar na poltica. No se arrepia com esta
      palavra? Poltica e lua-de-mel, que duas coisas to inimigas! Mas ser o que
      Deus quiser. Lembranas dele e minhas a sua mame e a voc. At breve.

    LUSA

    CAPTULO XIV
    D. RAQUEL A D. LUSA

    Corte, 15 de fevereiro

    Engana-se quando supe que o Dr.
      Alberto  uma figura grotesca; j lhe disse que  rapaz elegante; e at aquele
      ar compassado e escultural que eu lhe achava, at isso parece ter desaparecido
      desde que tem intimidade conosco.

    No foi pois a minha vaidade que
      se ofendeu; no foi tambm o meu corao. Senti que voc no me acreditasse,
      nada mais.

    Eu podia fazer-lhe agora uma
      dissertao a respeito do amor; mas retraio a pena por me lembrar que iria
      ensinar o padre-nosso ao vigrio.

    Seu marido quer entrar na
      poltica? Vai voc admirar-se da minha opinio a este respeito, que no parece opinio
      de uma devaneadora, como voc me chama. Eu penso que a poltica para voc tem
      uma ona de inconvenientes e uma libra de vantagens.

    A poltica h de ser uma rival,
      mas pesadas as coisas antes essa que outra. Essa ao menos ocupa o esprito e a vida;
      mas deixa o corao livre e puro. Demais, eu nem sempre sou a cismadora que
      tens na cabea; sinto um grozinho de ambio comigo, a ambio de ser... ministra.
      Ri-se? Eu tambm me rio, o que prova que o meu esprito anda despreocupado e
      livre, livre como a pena que me corre agora no papel, produzindo uma letra que
      no sei se entender.

    Adeus.

    RAQUEL

    CAPTULO XV
    O DR. ALBERTO A RAQUEL

    18 de fevereiro

    Perdoe-me a audcia; peo-lhe de
      joelhos uma resposta que os seus olhos teimam em me no dar. No lhe digo no
      papel o que sinto; no o poderia exprimir cabalmente. Mas o seu esprito h de
      ter compreendido o que se passa no meu corao, h de ter lido no meu rosto
      aquilo que eu nunca me atreveria a dizer de viva voz.

    ALBERTO

    CAPTULO XVI
    D. RAQUEL A D. LUSA

    21 de fevereiro

    Mame estava com disposies de ir
      visit-la: mas eu infelizmente no me acho boa,
      e adiamos a viagem. Quando desempenha voc a sua palavra vindo passar alguns
      dias na corte? Conversaramos muito.

    RAQUEL

    CAPTULO XVII
     MESMA

    5 de maro

    No  carta:  apenas um bilhetinho. No me dir o que  o corao humano? Um
      logogrifo. Mistrio! exclamar voc ao ler estas linhas. Pois ser.

    RAQUEL

    CAPTULO XVIII
    ALBERTO A D. RAQUEL

    8 de maro

    Oh! no sabe como lhe agradeo a
      sua carta! Enfim veio! Foi um raio de luz entre as sombras da minha incerteza.
      Sou amado? No me ilude? Tambm sente esta paixo que me devora o peito, capaz
      de levar-me ao cu, capaz de levar-me ao inferno?

    Tem razo quando me pergunta se o
      no percebera j nos seus olhos.  verdade que eu julguei ler neles a minha
      felicidade. Mas podia iludir-me; supus que a suprema felicidade no era to
      pronta, e se me iludisse, no sei se viveria...

    Por que razo duvida de mim? por que
      motivo receia que o meu amor seja um passatempo de sala? Que mortal haveria
      neste mundo que brincasse com a coroa de glria trazida  terra nas mos de um
      anjo?

    No, Raquel... perdo se lhe chamo
      assim! No, o meu amor  imenso, casto, sincero, como os verdadeiros amores.

    Uma s palavra sua e podemos
      converter esta paixo no mais doce e delicioso estado de bem-aventurana. Quer
      ser minha esposa? Diga, responda essa palavra.

    ALBERTO

    CAPTULO XIX
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 10 de maro

    O corao  um mar, sujeito 
      influncia da lua e dos ventos. Serve-lhe esta definio? Pena foi que o
      bilhetinho no tivesse mais quatro linhas: saberia agora tudo. Ainda assim
      adivinho alguma coisa; adivinho que ama.

    LUSA

    CAPTULO XX
     MESMA

    Juiz de Fora, 17 de maro

    A 10 deste ms escrevi-lhe uma
      carta de que ainda no obtive resposta.

    Por qu?

    J me lembrou se estaria doente;
      mas creio que se assim fosse ter-me-iam mandado dizer.

    Esta carta vai por mo prpria; o portador
      no volta c; mas sendo por mo prpria tenho certeza de que lhe ser entregue.
      E quero que me responda imediatamente.

    V; um esforo.

    Adeus.

    LUSA

    CAPTULO XXI
     MESMA

    Juiz de Fora, 24 de maro

    Nada at hoje! Que  isso, Raquel?

    O portador da minha carta anterior
      mandou-me dizer que lhe havia entregue em mo prpria; no estava doente; por
      que razo este esquecimento? Esta  a ltima; se me no escrever, acreditarei
      que outra amiga lhe merece mais, e que voc esqueceu a confidente do colgio.

    LUSA

    CAPTULO XXII
    D. RAQUEL A D. LUSA

    Corte, 30 de maro

    Esquecer-me de voc? Est louca!
      Onde acharia eu melhor amiga nem to boa? No tenho escrito,  verdade, por mil
      razes, a qual mais justa, sendo a principal delas, ou antes a que as resume
      todas, uma razo... No sei como lhe diga isto.

    Amor?

    Ah! Lusa, o mais puro e ardente
      que pode imaginar, e o mais inesperado tambm. Aquela devaneadora que voc
      conhece, a que vive nas nuvens, viu l mesmo das nuvens o esperado do seu
      corao, tal qual o sonhara um dia e desesperara de achar jamais.

    No lhe posso dizer mais nada, no
      sei. Tudo o que eu poderia escrever aqui estaria abaixo da realidade. Mas
      venha, venha, e talvez leia no meu rosto a felicidade que experimento, e no dele o sinal caracterstico daquela superioridade que eu ambicionei sempre e to
      rara  na terra.

    Enfim, sou feliz!

    RAQUEL

    CAPTULO XXIII
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 8 de abril

    Chegou enfim uma carta, e chegou a
      tempo, porque eu j estava disposta a esquecer-me de voc. Ainda assim no lhe
      perdoava, se no fosse a razo... Cus! que razo! Ama enfim? achou o homem...
      quero dizer, o arcanjo que procurava a minha cismadora? Que figura tem? 
      bonito?  alto?  baixo? V, diga-me tudo.

    Agora vejo que estive a pique de
      faz-la perder a sua felicidade. Tanto lhe falei no tal Dr. Alberto, que, era
      bem possvel, como s vezes acontece, vir a namorar-se dele, e ento quando o
      outro chegasse... era tarde.

    E diga-me: ser ele velho como o
      da Mariquinhas Rocha? No se zangue, Raquel, mas o peixe morre pela boca, e era
      possvel que voc fosse castigada por ter falado dela. Pela minha parte, no
      acharia que dizer, uma vez que ele a amasse e fosse homem digno de casar com a
      minha Raquel. Em todo o caso, antes um moo.

    No me atrevo a pedir-lhe o
      retrato, mas meu marido pede-lho. No se
      zangue, eu contei tudo, e ele manda-lhe muitos parabns. Os meus, irei eu mesma
      lev-los.

    LUSA

    CAPTULO XXIV
    D. RAQUEL AO DR. ALBERTO

    10 de abril

    Estou muito zangada por no teres
      vindo ontem; cedo comeas a esquecer-me.

    Vem hoje ou eu fico zangada. Ao
      mesmo tempo quero que me tragas um retrato dos teus;  um segredo.

    Ontem perdeste muito; esteve aqui
      a G... e naturalmente sentiu a tua falta. Sentes isso, no? Pobre da Raquel!
      Adeus.

    RAQUEL

    CAPTULO XXV
    O DR. ALBERTO A D. RAQUEL

    10 de abril

    Perdoa-me se no fui ontem l; em compensao pensei muito em ti. Teu pai pediu-me
      que eu fosse jantar hoje com a famlia; espera-me cedo.

    Levarei nessa ocasio o meu
      retrato, sem saber para que ; mas espero que no ser para coisa m.

    Quanto  G... eu j no sei como
      te hei de dizer que  uma delambida de quem no fao caso; se queres,
      limitar-me-ei a cumpriment-la apenas. Que mais desejas?

    Adeus, minha desconfiada. Cr que
      eu te amo muito, muito e muito, agora e sempre.

    Teu ALBERTO

    CAPTULO XXVI
    D. RAQUEL A D. LUSA

    17 de abril

    Uma grande notcia! Fui ontem
      pedida a papai, e vou casar. Se soubesse como sou feliz!... Quisera que
      estivesse aqui para dar-lhe muitos e muitos beijos. Mas h de vir ao casamento,
      no? Se no vier, declaro que no caso.

    Naturalmente adivinha que o retrato
      que vai dentro desta carta  o do meu noivo. No  bonito? Que distino! que
      inteligncia! que esprito!... A alma, sobretudo, no creio que Deus mandasse a
      este mundo nenhuma outra que se lhe compare. Creio que eu no merecia tanto.

    Venha depressa; o casamento h de
      ser em maio. D a notcia a seu marido.

    RAQUEL

    CAPTULO XXVII
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 22 de abril

    Que cabea! disse tudo menos o
      nome do noivo!

    LUSA

    CAPTULO XXVIII
    D. RAQUEL A D. LUSA

    Corte, 27 de abril

    Tem razo; sou uma cabea no ar.
      Mas a felicidade explica ou desculpa tudo. O meu noivo  o Dr. Alberto.

    RAQUEL

    CAPTULO XXIX
    D. LUSA A D. RAQUEL

    Juiz de Fora, 1 de maio

    LUSA

    FIM
