Crtica, Fagundes Varela - Cantos e fantasias, 1866

Fagundes Varela: Cantos e fantasias

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro,
06/02/1866.

Aqui temos um livro do Sr. F. Varela,  que 
ao mesmo tempo uma realizao e uma: promessa:  realiza as esperanas das Noturnas
e das Vozes da Amrica, e promete ainda melhores pginas no futuro.

O Sr. F. Varela  um dos talentos mais vitais da
nova gerao; e lendo os seus versos explica-se naturalmente o entusiasmo dos
seus companheiros da academia de So Paulo, onde o nome do autor das Noturnas
goza de uma indisputvel primazia. A academia de So Paulo, como  natural em
uma corporao inteligente, deu sempre um belo exemplo de confraternidade
literria, rodeando de aplausos e animao os seus talentos mais capazes. Nisto
o Sr. Ferreira de Meneses, autor do prefcio que acompanha os Cantos e
Fantasias,  um rgo fiel do pensamento de todos; e saudando esta reunio,
no mesmo livro, de dois nomes prestimosos, de dois moos de talento, saudamos
ao mesmo tempo o progresso da academia e o futuro das letras brasileiras.

O Sr. Ferreira de Meneses, que conviveu com o poeta
dos Cantos e Fantasias indica no prefcio a que aludimos os autores que
servem de modelo ao Sr. Varela, e entre eles, Lord Byron. No nos parece
inteiramente exata esta apreciao.  verdade que, durante algum tempo, a
poesia de Lord Byron influiu poderosamente nas jovens fileiras da academia;
mas se o autor das Vozes da Amrica aprecia, como todos ns, a musa do
cantor de Child-Harold, nem por isso reproduz os caracteres do grande
poeta, e damos-lhe por isso os nossos parabns.

Houve um dia em que a poesia brasileira adoeceu do
mal byrnico; foi a grande seduo das imaginaes juvenis pelo poeta
ingls; tudo concorria nele para essa influncia dominadora: a originalidade da
poesia, a sua doena moral, o prodigioso do seu gnio, o romanesco da sua vida,
as noites de Itlia, as aventuras de Inglaterra, os amores de Guiccioli, e at
a morte na terra de Homero e de Tibulo. Era, por assim dizer, o ltimo poeta;
deitou fora um belo dia as insnias de noble lord, desquitou-se das
normas prosaicas da vida, fez-se romance, fez-se lenda, e foi imprimindo o seu
gnio e a sua individualidade em criaes singulares e imorredouras.

Quis a fatalidade dos poetas, ou antes o privilgio
dos gnios criadores, que este esprito to original, to prprio de si,
aparecesse um dia s imaginaes de alguns como um modelo potico.
Exaltou-se-lhes a imaginao, e adoeceram, no da molstia do cantor de D.
Juan, mas de outra diversa, que no procedia, nem das disposies morais,
nem das circunstncias da vida. A conseqncia era natural esse desespero do
poeta ingls, a que alude o Sr. Ferreira de Meneses, no existia realmente nos
seus imitadores; assim, enquanto ele operava o milagre de fazer do cepticismo
um elemento potico, os seus imitadores apenas vazavam em formas elegantes um
tema invarivel e uniforme. Tomaram-se de uns ares, que nem eram melanclicos,
nem alegres, mas que exprimiam certo estado da imaginao, nocivo aos
interesses da prpria originalidade. A culpa seria dos imitadores ou do
original? Dos imitadores no era; so fceis de impressionar as imaginaes
vivas, e as que se deixaram adoecer tinham nisso a razo da sua desculpa. 
suprfluo dizer que, na exposio deste fato, no temos inteno de acusar a
poesia quando ela exprime os tdios, as tristezas, os desfalecimentos da alma
humana; a vida  um complexo de alegrias e pesares, um contraste de esperana e
de abatimento, e dando ao poeta uma alma delicada e franzina, uma imaginao
viva e ardente, imps-lhe o Criador o duelo perptuo da realidade e da aspirao.
Daqui vem a extrema exaltao do poeta, na pintura do bem, como na pintura do
mal; mas exprimir essas comoes diversas e mltiplas da alma  o mesmo que
transformar em sistema o tdio e o ceticismo?

Um poeta houve, que, apesar da sua extrema originalidade,
no deixou de receber esta influncia a que aludimos; foi lvares de Azevedo;
nele, porm, havia uma certa razo do consanginidade com o poeta ingls, e uma
ntima convivncia com os poetas do norte da Europa. Era provvel que os anos
lhe trouxessem uma tal ou qual transformao, de maneira a afirmar-se mais a
sua individualidade, e a desenvolver-se o seu robustssimo talento; mas verdade
 que ele no sacrificou o carter pessoal da sua musa, e sabia fazer prprios
os elementos que ia buscar aos climas estranhos.

Faremos, a seu tempo, um estudo deste poeta, e
ento diremos o que nos ocorre ainda a respeito dele; por agora limitamo-nos a
atribuir-lhe uma parte da influncia exercida em algumas imaginaes pela
poesia byrnica, e nisso fazemos um ato pstumo de justia literria.

Ora, pois,  o Sr. Varela uma das vocaes que
escaparam a essa influncia; pelo menos, no h vestgio claro nas suas belas
poesias. E como o nosso juzo no  decisivo,  apenas uma opinio, podemos
estar neste ponto em desacordo com o autor do prefcio, sem por isso deixarmos
de respeitar a sua opinio e apreciar o seu talento. No que estamos de pleno
acordo, e no juzo que ele forma do poeta, apesar de defeitos prprios da
mocidade;  o Sr. Varela uma vocao real, um poeta espontneo de verdadeira e
amena inspirao. Diz o autor do prefcio que os descuidos de forma so filhos
da sua prpria vontade e do desprezo das regras. Se assim , o sistema 
antipotico; a boa versificao  uma condio indispensvel  poesia; e no
podemos deixar de chamar a ateno do autor para esse ponto. Com o talento que
tem, corre-lhe o dever de apurar aqueles versos, a minoria deles, onde o estudo
da forma no acompanha a beleza e o vio do pensamento. Desde j lhe notamos
aqui os versos alexandrinos, que realmente no so alexandrinos, pois que lhes
falta a cesura dos hemistquios; outros descuidos aparecem ainda no volume dos Cantos
e Fantasias; vocbulos mal cabidos, s vezes, rimas imperfeitas, descuidos todos
que no avultam muito no meio das belezas, mas que o nosso dever obriga-nos a
indicar conscienciosamente.

Feitos estes reparos, entremos na leitura do livro
do Sr. Varela. Divide-se em trs partes: 'Juvenlia', 'Livro das
Sombras', 'Melodias do Estio'. Destes ttulos s os dois
primeiros definem o grupo de poesias que lhes corresponde; o ltimo, no; e h
a poesias que nos parecem caber melhor no 'Livro das Sombras'; isto,
porm,  crtica de miunas, e veio ao correr da pena. O que importa saber  o
valor dos versos do Sr. Varela. A primeira parte, como o ttulo indica,
compe-se das expanses da juventude, dos devaneios do amor, dos palpites do
corao, tema eterno que nenhum poeta esgotou ainda, e que h de inspirar ainda
o ltimo poeta. Toda essa primeira parte do livro,  exceo de algumas
estrofes, feitas em hora menos propcia,  cheia de sentimento e de suavidade;
a saudade , em geral, a musa de todos esses versos; o poeta quer rver et
non pleurer, como Lamartine; descrio viva, imagens poticas, uma certa
ingenuidade do corao, que interessa e sensibiliza; nada de arrojos mal
cabidos, nem gritos descompassados; a mocidade daqueles versos  a mocidade
crente, amante, resignada, falando uma linguagem sincera, vertendo lgrimas
verdadeiras.

O ttulo de 'Livro das Sombras', que  a
segunda parte do volume, faz crer que um abismo a separa do poema de
'Juvenlia'; mas realmente no  assim. As sombras no livro do
Sr. Varela so como as sombras da tarde, as sombras transparentes, douradas
pelo ltimo olhar do dia, no as da noite e da tempestade. No h mesmo
diferenas notveis entre os dois livros, a no ser que, no segundo, inspira-se
o poeta de assuntos diversos e variados, e no h a a doce monotonia do
primeiro. O 'Cntico do Calvrio', porm, avantaja-se a todos os
cantos do volume: so versos escritos por ocasio da morte de um filho; h a
verdadeiro lirismo, paixo, sensibilidade e belos efeitos de uma dor sincera e
profunda. So esses tambm os versos mais apurados do livro, descontados uns
raros descuidos. A idia com que fecha essa formosa pgina  bela e original,
nasce naturalmente do assunto, e  representada em versos excelentes. Quase o
mesmo podemos dizer dos versos ao 'Mar' que tantos poetas ho
cantado, desde Homero at Gonalves Dias; a parfrase de Ossian,
'Colmar', encerra igualmente os mais belos versos do poeta, e tanto
quanto  possvel parafrasear o velho bardo, f-lo com felicidade o Sr. Varela.
'Colmar' pertence j ao livro das 'Melodias do Estio'; como
se v, a nossa apreciao  rpida, tendo por fim resumir o nosso pensamento,
acerca de um livro que merece a ateno da anlise, e de um poeta que tem jus
ao aplauso dos entendedores.

Se h neste volume mais de uma imperfeio, se por
vezes aparecem os descuidos de forma e de locuo, no faamos desses cochilos
de Homero grande cabedal; aconselhemos, sim, ao autor que no erija em sistema
um defeito que pode diminuir o mrito das suas obras. V-se pelos bons versos
que ele nos d, quanto lhe  fcil produzir certo apuro na forma; emendar no
prova nunca contra o talento, e prova sempre a favor da reflexo; e o tempo,
cremos ter lido isto algures, s respeita aquilo que  feito com tempo; mxima
salutar que os poetas nunca deviam esquecer.

Quanto  ao cabedal da natureza, a inspirao a
espontaneidade, essa tem-na o Sr. Varela em larga escala; sabemos que  um moo
estudioso, e v-se pelas  suas obras, que possui a rara qualidade do gosto
e do discernimento. Os que prezam as boas letras interessam-se pela ascenso
progressiva do nome do Sr. Varela, e predizem-lhe um futuro glorioso. Que
ele no perca de vista esse interesse e essa predio.

Aconselhando-lhe a perseverana e o trabalho, o
culto desvelado e incessante das musas, a nossa inteno  simplesmente
corresponder aos hbitos de atividade que lhe supomos; no entra, porm, no
nosso esprito a idia de exigir dele uma prova de infatigabilidade literria;
h quem faa uni crime da produo lenta, e ache virtude nos hbitos das
vocaes sfregas; pela nossa parte, nunca deixaremos de exigir, mesmo dos
talentos mais fecundos, certas condies de reflexo e de madureza, que no
dispensam uma demora salutar. Ao tempo e  constncia no estudo, deve-se deixar
o cuidado do aperfeioamento das obras. Com estas mximas em vista e um talento
real, como o do Sr. Varela,  fcil ir longe.

Desperta-nos as mesmas
consideraes um volume que acabamos de receber do Rio Grande do Sul.
Intitula-se Um Livro de Rimas, e  escrito pelo Sr. J. de Vasconcelos
Ferreira. Tem o poeta rio-grandense talento natural e vocao fcil; falta-lhe
estudo e talvez gosto; alguns anos mais, e podemos esperar dele um livro
aperfeioado e completo. O que lhe aconselhamos, porm,  que, alm do extremo
cuidado na escolha das imagens, que as h comuns e nem sempre  belas, no
livro das Rimas, procure o Sr. Ferreira tratar da sua forma, que em
geral  pobre e imperfeita. Faa das musas, no uma distrao, mas um culto; 
o meio de atingir  bela,  grande,  verdadeira poesia.
